Sorteio | Gravidade e 2001 em Blu-ray!

O Cineclube dos Cinco completou 1 ano de vida no fim de outubro e a data passou batida. Mas nada tema, já que para reparar o vacilo sortearemos essas duas grandes obras da ficção científica. Afinal, o aniversário é nosso, mas (para não perder o clichê) quem ganha são vocês.

Para concorrer ao medíocre Gravidade e ao ordinário 2001 – Uma odisseia no espaço, curta a página do Cineclube dos Cinco no facebook e curta o post de divulgação da promoção. Depois, vá até a aba Promoções da nossa página e clique em “Quero participar”. Pronto, você já estará concorrendo!

Sorteio 1

Obs: o blu-ray de Gravidade é da versão 2D, e 2001 não possui dublagem em português, apenas legendas no nosso idioma.

Regulamento:

– O participante deve curtir a página do Cineclube dos Cinco, curtir o post de divulgação da promoção e clicar em “Quero participar” na aba de Promoções da página.
– O participante deve residir no Brasil.
– O participante concorda que nós não fornecemos garantia para troca dos filmes em caso de defeito, já que estão lacrados de fábrica.
– O participante não pode perguntar se algum de nós entendeu o final de 2001. Sério, é muito deselegante.

O sorteio será no início de janeiro. Ah, e o vencedor leva os dois filmes. Boa sorte!

Lista do filme 26

No texto de apresentação do blog, contamos como o nosso clube funciona: discutimos um filme escolhido de acordo com uma lista elaborada por um dos participantes. Todos têm a sua vez.

Com o tempo, passamos das listas aleatórias às listas temáticas, uma mais legal do que a outra. Filme escolhido, havia uma certa tristeza em deixar os outros para trás. Por isso, resolvemos compartilhar nossas listas com vocês.

Começaremos pela minha: Filmes com mulheres protagonistas cuja história não seja sobre relacionamentos amorosos.

Chegar ao tema foi um pouco complicado. Num primeiro momento, pensei em escolher filmes de acordo com o Teste de Bechdel, mas todos os escolhidos por mim ao longo da minha participação no clube passaram no teste. A propósito, se vocês não o conhecem, a explicação:

Anita Sarkeesian em “The Bechdel Test for Women in Movies”.

Se as legendas em português não aparecerem, clique no quarto ícone, da direita para a esquerda.

Depois eu pensei em filmes que, além de passarem no teste, deveriam ter uma protagonista mulher. Desses mesmos que escolhi, apenas um não tem. Enfim, cheguei a “Filmes com mulheres protagonistas cuja história não seja sobre relacionamentos amorosos” e selecionei cinco:

4 meses, 3 semanas e 2 dias (4 luni, 3 saptamâni si 2 zile), Cristian Mungiu, 2007
Romênia comunista de 1987, duas amigas, uma delas fará um aborto e será ajudada pela outra. Apenas isso e tudo isso. O diretor conseguiu olhar de fora sobre um assunto que ele, sendo homem, jamais compreenderá em sua totalidade. E as críticas que li, todas escritas por homens, não entenderam algo crucial do filme. É uma porrada com sutileza, difícil de explicar.

Sonata de Outono (Höstsonaten), Ingmar Bergman, 1978
Depois de vários anos, uma filha recebe a visita de sua mãe, uma famosa pianista. Dirigido por Ingmar Bergman e protagonizado por Ingrid Bergman e Liv Ullmann, não é preciso dizer muita coisa. O que move a ação são os diálogos, algo que o cinema tem abandonado e as séries têm resgatado. Além disso, esse embate entre mãe e filha vem de longe.

Thelma e Louise (Thelma & Louise), Ridley Scott, 1991
Duas amigas resolvem viajar juntas sem dar satisfação para ninguém. Parece algo muito simples, mas nem sempre foi assim. Elas realizam o que muitas mulheres ainda não conseguem: não dizer para onde vão, beber juntas no bar, transar com quem quiser. Claro que não é tudo lindo, muita coisa acontece, mas é um filme libertador.

Tomates verdes fritos (Fried Green Tomatoes), Jon Avnet, 1991
Acompanhamos duas mulheres do presente e duas mulheres do passado se tornando amigas, e essa amizade sendo a base da vida de todas elas. Além disso, os relacionamentos aparecem de uma outra maneira, eles podem ser responsáveis por muita tristeza e sofrimento na vida das mulheres. É lindo e de uma imensa delicadeza.

Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre), Pedro Almodóvar, 1999
Depois de muita insistência, no aniversário de 17 anos do filho, uma mulher decide contar quem é o pai dele. Uma tragédia acontece e toda uma rede de amparo, amizade e afeto entre várias mulheres se forma. Não conheço outro filme que fale sobre as mulheres de maneira tão significativa, mas estamos falando de Almodóvar, o único diretor 100% aprovado no Teste de Bechdel (como vocês podem ver aqui). Só podia ter vindo dele um filme tão importante sobre nós.

Escolhido: 4 meses, 3 semanas e 2 dias (4 luni, 3 saptamâni si 2 zile), Cristian Mungiu, 2007.

* * *

A partir da nossa próxima lista, nós abriremos a votação para os leitores. Sim, vocês escolherão qual filme vamos discutir!

Crítica | Interestelar

Interestelar (Interstellar) | 2014
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Jonathan Nolan, Christopher Nolan
Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Mackenzie Foy, Jessica Chastain, Michael Caine, David Gyasi, Matt Damon, John Lithgow, Ellen Burstyn, Timothée Chalamet, Casey Affleck, Topher Grace

Interestelar é um filme instigante que levanta questionamentos complexos acerca do futuro da humanidade e do que cada indivíduo estaria disposto a fazer para assegurar a continuidade da espécie, ainda que escorregue (talvez de forma irrecuperável para muita gente) numa conclusão frágil e carregada de autoimportância.

Num futuro distópico não muito distante, a humanidade se vê obrigada a deixar a ciência de lado para dar prioridade a necessidades mais básicas de sobrevivência, o que incomoda Cooper (Matthew McConaughey), um ex-piloto da NASA incapaz de aceitar sua atual posição como fazendeiro, ainda que sua profissão seja mais essencial do que nunca. Porém, Cooper descobre que há uma esperança de salvar a espécie através da colonização de algum planeta numa galáxia muito, muito distante, e embarca, assim, numa missão perigosa e cheia de incertezas.

Inteligente ao estabelecer o campo como pano de fundo na Terra – economizando no design de produção ao não precisar retratar uma grande cidade futurista e ao mesmo tempo tornando mais difícil apontar para uma data específica no futuro –, Nolan nos apresenta à família de Cooper. Atingindo um equilíbrio excelente entre a vivacidade e a apatia, McConaughey cria um sujeito entusiasmado o suficiente para literalmente sair de seu caminho sem pensar duas vezes para perseguir um drone moribundo e ver o que se pode aproveitar dele, e frio o bastante para sequer hesitar ao aceitar fazer parte da missão, deixando para trás os filhos Tom (Timothée Chalamet) e Murph (Mackenzie Foy).

Afinal, Cooper vê na missão a oportunidade de salvar sua família, mas também, contraditoriamente, de fugir desta, já que ele aparenta julgar a existência pacata que leva com os filhos e o sogro como algo desestimulante e indigno de seu potencial. Além disso, há uma sensação de que talvez a união familiar tenha se quebrado e perdido o sentido para Cooper em algum momento de seu passado, representado pelo anel que insiste em carregar na mão esquerda. E é bonito ver que a pequena e brilhante Murph (a mais próxima do pai justamente por compartilhar da mesma vocação deste), apesar de conviver com a frustração do abandono, jamais chega ao ponto de não acreditar no sucesso de Cooper.

Um ponto do filme que me agrada bastante é deixar o espectador matutando o tempo todo a respeito da moralidade de determinadas decisões tomadas pelos personagens. A todo momento, me vi dividido, julgando as escolhas feitas por eles. Mas eu faria diferente caso a sobrevivência da espécie dependesse de mim? Eu abriria mão daquilo que é mais importante para mim pelo bem da maioria? Até que ponto eu seria capaz de impedir que meu instinto de sobrevivência interferisse em meu bom senso?

Interestelar também acerta na escolha de uma fotografia dessaturada e amarelada para as sequências que se passam na Terra, salientando a crescente esterilidade do planeta e a atmosfera sufocante de desesperança que se abate sobre a população, que se vê obrigada a conviver com constantes e gigantescas tempestades de areia (tempestades estas que formam verdadeiras ondas de areia no céu e criam uma rima com um primo distante assustadoramente mais perigoso em outra galáxia).

Já a relatividade de Einstein – que dita que o tempo passa mais devagar quanto mais intenso for o campo gravitacional de determinado local – é muito bem utilizada pelo roteiro e gera grande impacto, mesmo que o espectador já tenha sido devidamente informado das consequências sofridas por quem ousa colocá-la à prova. Ainda em aspectos técnicos, vale também mencionar os dois robôs que fazem parte da missão, TARS e CASE. Seu design pode ser facilmente subestimado a princípio, já que não aparenta ser nem um pouco eficiente, mas é curioso testemunhar, ao longo do filme, toda a desenvoltura que ele confere aos robôs. Além, claro, de contarem com uma personalidade e um bom humor cativantes, ainda que isso acabe reforçando uma estranha sensação de que a qualquer momento eles darão uma de HAL (de 2001) para cima dos humanos.

Assim, com tantas qualidades ao longo dos dois primeiros atos, que criam situações e reflexões fascinantes, é uma pena que Interestelar chegue a uma conclusão muito cômoda e anticlimática. E digo isso mesmo reconhecendo que há certa lógica interna na coisa toda, já que a frustração tem origem não na falta de verossimilhança, mas na súbita mudança de tom da narrativa ao abandonar, sem grandes cerimônias, a racionalidade que vinha sustentando o filme desde seu início. Uma frustração que ainda é ressaltada pela montagem do ato final, tipicamente nolaniana, que constrói uma tensão crescente com a ajuda da trilha ritmada e infelizmente acaba não recompensando o espectador quando chega ao fim, falhando ao tentar empurrar uma mistura meio capenga de ciência com amor em meio a diálogos excessivamente expositivos.

Ainda assim, independentemente da canelada final, Interestelar é um filme interessantíssimo, especialmente para aqueles que gostam de se entregar ao exercício de imaginar o que será de nossa espécie a longo prazo e quais mistérios do Universo seremos capazes de não apenas entender, mas também manipular. (4 estrelas em 5)

Interstellar 4

Filme 20 | Dr. Fantástico

Ficha técnica
Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb)
Ano: 1964
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George
Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens, Peter Bull, James Earl Jones, Tracy Reed

Escolhido por: Mauricio
Discussão iniciada em: 02/09/2013

ROTEIRO

Mau:
O filme é uma crítica ao belicismo e ao imperialismo dos EUA, e os americanos são constantemente retratados como paranoicos, fundamentalistas religiosos, loucos. E por ser uma comédia, é calcada em artefatos caricatos, como:
– o Dr. Strangelove e sua mão com vida própria;
– as falas ao longo do filme: “Não podem brigar aqui, essa é a sala de guerra!”;
– alguns detalhes como a frase “A Paz é a nossa profissão” espalhada por toda a base do general Ripper;
– os nomes dos personagens: general Ripper (ceifador, como também é conhecida a Morte em inglês), coronel Bat Guano (ou coronel Cocô de Morcego), presidente Merkin (bom, melhor ver por você mesmo: merkin).

Banzai:
Achei que também tira sarro do $$$ que os EUA gastam enquanto a Rússia opta pelo mais simples. A Máquina do Apocalipse era a alternativa mais barata enquanto os EUA tinham 34 aviões sobrevoando 24×7 os domínios do país. Me fez lembrar da história que a NASA desenvolveu uma caneta milionária para os astronautas escreverem enquanto os russos levaram lápis para o espaço…
Você falou em ceifeiro, mas me veio à mente Jack the Ripper, no sentido de estripador. rs

Mau:
Ops, me corrigindo. Tens razão, Ripper é de estripador, o caso do Jack. O correto para Morte seria Reaper. Me confundi. 🙂

Carlos:
Como começar a falar do roteiro?
Vocês já indicaram a crítica ao belicismo americano, com razão, e seu fanatismo religioso. Vale lembrar que o filme foi lançado apenas três anos após a famosa crise dos misseis em Cuba. Era o auge da Guerra Fria e zombar de qualquer força militar naquela época não devia ser coisa fácil. Ainda mais quando se retratam os militares de uma forma tão ridícula e se expõe suas idiossincrasias de maneira tão clara.
Mas, para mim, a crítica elaborada no roteiro também é dirigida ao excesso de tecnicismo e ao império das máquinas sobre os seres humanos, especialmente os militares. A crise do filme é gerada pelo excesso de burocracia, estabelecido, ironicamente, para que nada nunca desse errado. Já a Máquina do Apocalipse é o próprio símbolo de nossa submissão à ordem mecânica. Totalmente automatizada, controlada por computadores e programada para destruir a humanidade caso ela entenda que a situação assim exige. A primeira representa o ser humano agindo como máquina, enquanto a segunda, a máquina agindo como ser humano. Nos dois casos, o resultado é a falha e a tragédia.
O paralelo entre militares e máquinas também aconteceu, para mim, com a questão dos fluidos vitais. Uma das paranoias de Ripper era não trocar fluidos com outras pessoas. E o filme abre exatamente com um avião abastecendo o outro, trocando fluidos, em uma referência ao ato sexual. Mais à frente, o avião fica sem combustível. Ou seja, acaba seu fluido vital.
A intensa crítica ao mecanicismo do mundo militar é retratada ainda pela quantidade de falhas que sofrem as máquinas. A bomba não cai sozinha e precisa da intervenção humana, o rádio não funciona depois da explosão e a própria Máquina do Apocalipse destrói o mundo, mas não cumpre o objetivo para o qual foi programada, manter a paz. Bom, nem os militares-máquina também conseguem.
E claro que todas essas falhas acabam oferecendo situações comicamente geniais, como os militares americanos atacando suas próprias instalações e os russos derrubando aviões americanos a pedido do presidente dos Estados Unidos. Não bastasse, a única máquina que está quieta em seu canto é a máquina de Coca-Cola, gentilmente assassinada pelo militar, que, antes de destruí-la, adverte sobre a violação da propriedade privada.
Em contrapartida, os civis são retratados como a ilha de consciência e sabedoria em meio ao caos militar. Basta uma ligação do presidente americano ao premier russo para a crise terminar. Aliás, o presidente americano é o único personagem equilibrado que surge durante o filme inteiro.
Há um óbvio recado no filme. Se, como disse o general Ripper, a guerra é um assunto importante demais para ser deixado na mão de civis, a paz é um assunto importante demais para ficar na mão de militares.
Ainda sobre detalhes no roteiro, mas saindo da interpretação global, observa-se que tudo é muito bem amarrado para não gerar uma quebra de expectativa no espectador. O sistema que mostra o código da missão é retratado no início algumas vezes para, no fim, ser destruído e deixar clara a impossibilidade de abortar a missão. O avião é obrigado a voar baixo para evitar radares, o que impossibilita uma segunda interceptação, provável e desejada. O filme começa com o abastecimento do avião e há uma cena em que eles calculam o combustível da missão. Tudo para, depois, mudar os planos exatamente em razão da falta de gasolina.

Daniel:
Não vou ficar citando piadas específicas, só falo que a citada pelo Mauricio (não pode brigar na sala de guerra) foi bem marcante, hahahaha.
Boas observações sobre os nomes feitas pelo Mauricio e pelo Banzai e que me passaram despercebidas.
Banzai, excelente comentário sobre os gastos dos EUA. Vez por outra eu também lembro dessa história do lápis dos astronautas russos e penso em como os americanos sempre exageram com essas coisas.
Gostei de toda a análise do Carlos sobre o roteiro, e sabia que alguma coisa estava me escapando com os aviões trocando fluidos. Até anotei enquanto assistia, mas não fiz a conexão com o Jack.
Aliás, acho muito interessante que todo o caos do filme tenha sido gerado por Jack ao tentar atribuir a culpa de seus problemas/frustrações/conflitos internos aos russos. O cara precisando urgentemente de tratamento e em vez de ir atrás de um, prefere se achar perfeito e criar uma situação que pode acabar com a vida na Terra. Não consigo tirar da cabeça a imagem de um bando de homens idiotas (o gênero, não a espécie). Sim, porque são sempre os homens e sua estupidez que dão início às guerras. A única personagem feminina é a peguete do Turgidson, e achei curioso, na cena em que ela atende o telefone, que tudo “passe por ela” antes de chegar ao Turgidson.
É uma interpretação meio forçada, mas pra mim o fato de ela ter sido envolvida na história serviu para mostrar que, além da sede de poder, o que mais importa para a maioria daqueles homens é a possibilidade de se arranjar mulheres. Tanto que Turgidson faz juras de amor a ela mas é um dos primeiros a ficar animado na iminência de um apocalipse só porque, mais tarde, a razão será de dez mulheres para cada homem.

Cássia:
Não há como negar que a história foi bem construída. No começo, a tripulação agindo de maneira tão trivial mostra como, para eles, tudo aquilo era supernormal mesmo. (Pausa: Há um curta-metragem dirigido por Fernando Bonassi, O trabalho dos homens, em que vemos dois atiradores de elite conversando sobre trivialidades enquanto estão em posição, apontando para quem possivelmente será morto. Praticamente essa tripulação.) A coisa só complicou quando o ataque estava prestes a acontecer e a tensão entre “os aviões recuarão” e “tem um avião solto por aí que jogará a bomba” segurou o suspense até o fim. Confesso, achei que a bomba não seria jogada.

Carlos:
Link! Link! Link! 😀
Uma coisa curiosa que vi nos extras é que o filme terminava em uma luta de tortas na Sala de Guerra. Mas Kubrick cortou a cena.

Cássia:
Rodei a internet para achar O trabalho dos homens e nada! Nem no Porta Curtas ele existe mais. O jeito é ficar com apenas dois minutos do curta, aqui.
Dr. Fantástico terminaria com uma luta de tortas? Três vivas para o Kubrick que não transformou o filme em Zorra Total!

Mau:
Sensacional a análise que vocês fizeram sobre o roteiro. Nem me atrevo a complementar. 🙂

INTERPRETAÇÕES

Mau:
O filme conta com grandes interpretações de seus atores, até de um James Earl Jones em início de carreira, apesar do pouco tempo de tela. E apesar de ser fã do Peter Sellers, e ele desempenhar brilhantemente os três papéis (um americano, um inglês e um alemão), o George C. Scott no papel do general Turgidson rouba o filme. Alternando constantemente as emoções do personagem, ora ansioso, ora despretensioso, ora paranoico e por aí vai. Toda vez que ele estava em cena era um show de interpretação. Fiquei imaginando sem querer, ao longo do filme, se fizessem uma refilmagem hoje, quem interpretaria o general Turgidson. E o nome do Woody Harrelson me vinha constantemente à cabeça. Não sei se pelo porte físico parecido, mas fiquei com isso até agora na cabeça.
Ainda sobre esse tema, uma coisa que não dá pra passar despercebida são as atuações em volta da mesa da Sala de Guerra. As cenas eram constantemente dominadas pelo presidente, pelo embaixador russo e pelo general Turgidson, enquanto todos os figurantes ao redor da mesa ficavam com expressões estáticas. Parecia uma daquelas cenas em que todo mundo fica congelado, mas sempre tem alguém que pisca, etc. Ou essa aqui por exemplo: Police squad. Hehehe.

Banzai:
kkkkkkkk ótima referência!!!
O tonto aqui não percebeu que eram três papéis com o mesmo ator. Na verdade, quando algo no filme chama minha atenção, eu acabo me desprendendo de outros detalhes. No caso do Peter Sellers, eu percebi o Mandrake com um fortíssimo british accent e fixei apenas nisso, ignorando o Presidente e até mesmo o Dr. Strangelove. Agora ao ler suas considerações o humor inglês passou a fazer algum sentido (no meio daquele monte de americanos). Turgidson teve uma atuação muito marcante, mas o Bat Guano “Gene Hackman” (achei que parecia ele) me fez rir muito, até pelo nome bizarro… rs
Woody Harrelson seria um ótimo Turgdison, mas o vejo mais no papel de Ripper.

Carlos:
Assim como o Banzai, também não percebi que Mandrake, o presidente americano e Dr. Strangelove eram interpretados pelo mesmo ator. Sou o pior fisionomista do mundo. Sei lá, deveriam fazer um estudo no meu cérebro. Deve ser alguma coisa patológica. Tenho dificuldades de identificar alguns personagens que tenham aparecido poucas vezes no filme e, salvo atores ultra conhecidos, não consigo identificar ninguém no filme. Para piorar, não conhecia o Peter Sellers muito bem.
Então, imaginem. Eu só descobri que o Peter Sellers interpretava os três personagens depois de assistir ao filme INTEIRO, quando fui ao IMDb ver quem, afinal, era Peter Sellers.
Bati meu record anterior. O último tinha sido em Vertigo, do Hitchcock, mas não posso contar nada.
Há atores que são indistinguíveis de suas figuras. Já pensaram se Jack Nicholson ou Johnny Depp tentassem essa façanha? Peter Sellers é absolutamente outra pessoa quando interpreta cada um dos personagens. Nos extras do disco há um especial sobre ele, no qual vários entrevistados falam exatamente isso. Você vê vários personagens, mas nunca o ator Peter Sellers.
Segundo o IMDb, um dos grandes trunfos do Kubrick foi dizer que contratar Sellers era uma pechincha. Ele conseguiu três pelo preço de um!
Uma curiosidade sobre a interpretação é o caso do piloto/capitão do B-52. Kubrick só forneceu para ele as partes do roteiro em que ele estava envolvido. Portanto, ele não sabia que se tratava de uma comédia e sua interpretação, por mais caricata que possa parecer, é um retrato de um comandante de uma aeronave de guerra que lança uma bomba atômica. E, lembrem-se, ele é o cara que faz rodeio na bomba!

Mau:
Carlos, li que o Peter Sellers também foi convidado pelo Kubrick para fazer o comandante do avião, mas ele achava que seria muito trabalho. Quase convencido, ele estava trabalhando para acertar o sotaque texano quando se machucou no set, tornando difícil para ele interpretar as cenas no espaço apertado do avião. Será que teríamos a cena do rodeio? 😉

Carlos:
Maurício, pelo que vi nos extras do filme, a cena do rodeio entrou de última hora. Daquelas coisas que o Kubrick pediu para ontem. Eles não sabiam como iam fazer a cena, porque o cenário não previa a abertura das portas do compartimento de bombas. Então eles usaram uma pequena trucagem e fizeram o efeito da câmera se afastando da bomba, ao mesmo passo em que o fundo se aproximava.

Daniel:
O Mauricio falou do James Earl Jones, que reconheci mais pela voz. Não sou familiarizado com o trabalho dele além de Star Wars, então foi uma surpresa agradável. Concordo inteiramente que George C. Scott rouba a cena, e acho que isso se deve ao fato de ele representar a maior caricatura do filme. O cara mais cheio de preconceitos, que menos se importa com as vidas de civis, que parece achar que tudo não passa de um jogo de tabuleiro (o quadro grande). Sobre o Woody Harrelson, em alguns momentos ele me aparecia na cabeça também, mas por algum motivo, talvez justamente a caricatura e os exageros, quem me apareceu mais na cabeça foi o David Koechner.
Quanto ao Peter Sellers, devo ser o oposto do Carlos, hahaha. Sou conhecido entre amigos e familiares por [re]conhecer atores e atrizes, e frequentemente me usam como um IMDb ambulante (curiosamente, só funciona com atores e atrizes, e não no dia a dia). A única imagem relacionada ao filme que eu conhecia era a figura do Dr. Strangelove, mas identifiquei os três papéis de Sellers no ato (me gabando =P).
O Mauricio comentou sobre os personagens em volta da mesa na Sala de Guerra, e achei bacana que o Kubrick tenha colocado alguns planos em que o Strangelove aparece ao fundo muito antes da cena em que ele fala alguma coisa pela primeira vez.

Cássia:
Eu não conhecia o Peter Sellers, achei que ele fosse o Turgidson. Também não percebi que três personagens foram feitos pelo mesmo ator, mas não perceberia mesmo se conhecesse o Peter Sellers. Não por ser uma fisionomista ruim, eu reconheço bem as pessoas, mas porque ele é bom mesmo. Essa qualidade de deixar o personagem à frente do ator é para poucos.

Carlos:
Uma coisa que só pensei agora é como a montagem do filme é genial. Nós somos cinco e quatro não perceberam que havia o mesmo ator fazendo três personagens. Além da interpretação inquestionável de Peter Sellers, isso também foi um ótimo trabalho de montagem. Como o Daniel disse, o detalhe de incluir Dr. Strangelove no cenário antes de sua primeira fala ajuda muito.

Cássia:
Carlos, lendo o seu comentário sobre a excelente montagem do filme, lembrei de uma entrevista com o roteirista Bráulio Mantovani, em que ele conta sobre a montagem de Tropa de Elite. Talvez vocês já saibam, mas eu não sabia, o filme foi praticamente refeito apenas na montagem! O capitão Nascimento era um nadinha na história, o protagonista era o Matias e mudaram isso na sala de montagem graças a uma observação da roteirista Carolina Kotscho, mulher do Bráulio. Não deixarei vocês curiosos, a entrevista é esta.

Carlos:
Não sabia sobre a história do Tropa de Elite. Vou ler a matéria com calma. Tudo que sabia era que o voice-over do Capitão Nascimento não estava previsto no roteiro.

FOTOGRAFIA

Mau:
Uma coisa que eu fiquei pensando foi na dificuldade de se filmar um filme em preto e branco, tendo a disponibilidade do colorido. Como passar emoções, por exemplo. E isso foi muito bem resolvido com a opção da utilização de luzes e sombras, como podemos ver na forma escolhida para mostrar o causador do fim do mundo, o general Ripper, que sempre é mostrado na penumbra.

Banzai:
Já eu acho mais simples quando é P&B justamente por ressaltar as formas, ou seja, se tem atores expressivos, vai ficar mais fácil ainda de passar a imagem deles. Acho difícil pensar nos contrastes e outras coisas mais que são necessárias para fazer os tons de cinza se encaixarem.

Carlos:
Uma das coisas que me chamou atenção foi a capacidade do Kubrick de usar o enquadramento (ou a composição) para gerar piadas. Há uma cena que Mandrake está conversando com Ripper ao telefone. Enquanto o primeiro aparece, ao fundo há uma série de gravadores com fita. O único deles que está girando aparece exatamente sobre a cabeça de Mandrake, como se ele estivesse processando e gravando tudo que é dito ao telefone.

Dr. Strangelove 1

Em outra passagem, Mandrake conversa com Ripper sobre a paranoia dos fluidos. Mesmo o papo sendo amistoso, você percebe que Mandrake não está em uma situação confortável. No fundo, um quadro cheio de pistolas está apontado para a cabeça de Mandrake.

Dr. Strangelove 2

E há muitas piadas ali na sala de guerra com aquelas linhas representando os aviões no “quadro grande” saindo dos personagens.
Uma das coisas sobre as quais ainda não cheguei a uma conclusão é por que Kubrick optou por usar o preto e branco. Por enquanto, não percebi nenhum ganho estético que seria inalcançável na película colorida. Bem verdade que as imagens do Dr. Strangelove surgindo das sombras na Sala de Guerra perderiam algum impacto.

Daniel:
Já não costumo ser um grande observador desse aspecto, menos ainda quando está em preto e branco, e também não conheço as dificuldades técnicas de se fotografar assim. Pra terem uma ideia, eu nem me toquei que foi uma opção do Kubrick, e não uma necessidade da época (quando vieram os primeiros coloridos mesmo?).
Carlos, a única explicação que me ocorre para o uso do preto e branco é justamente representar a mentalidade atrasada da maioria dos personagens, indicando que o belicismo é coisa de gente primitiva, muito “preto no branco”. É uma interpretação superficial, eu sei, mas acho que funciona. Bacanas os prints que você tirou, não tinha reparado nessas composições.

Cássia:
Dessa vez, eu prestei atenção nisso. Sobre o preto e branco, talvez tenha sido um contraponto à comédia, para dar ao filme a seriedade que o tema necessita. Para não debandar para o escracho, a fotografia dava uma segurada nisso. E também, como um de vocês falou, para dar ênfase às formas, às cenas; para mim, a cenografia me disse muito mais do que se tudo estivesse colorido.
Por exemplo, um momento marcante foi quando, na sala de guerra, o Turgidson é filmado de baixo e, atrás dele, vemos uma parte do mapa-múndi. Justamente, a correspondente aos EUA. Enquanto isso, ele defende o ataque e a sensação que me passou foi dessa pressão americana em ter de bombardear a Rússia de qualquer maneira (agora troque por Síria e o filme continua tendo o mesmo sentido).
Outro momento foi um comentado pelo Mauricio, sobre o cartaz “A paz é nossa profissão”. Enquanto vemos essa frase “gritando” na tela, o tiroteio corre solto… Bela contradição.

Carlos:
Concordo com a Cássia. Creio que a fotografia em P&B deixou o filme mais sério e evitou o escracho.

TRILHA SONORA

Carlos:
O minimalismo e a precisão da trilha sonora também foram muito especiais.
O filme só tem três músicas, que eu lembre. A primeira é uma música romântica que embala o sexo das aeronaves, nos créditos inicias.
A segunda é When Johnny Go Marching Home. É uma música tradicional americana, da época da Guerra de Secessão. Era cantada por militares e tem todo um aspecto marcial. Gostei de seu uso, porque ela surgiu, a primeira vez, no momento em que os tripulantes do avião se dão conta de que a missão é para valer. A partir de então, ela serve para ironizar os militares da aeronave, que lutavam uma guerra que só existia dentro avião.
A última música foi ao final, com as explosões. Também romântica, em desarmonia com as cenas, ela canta, ironicamente, que nós veremos novamente o sol.

DETALHES

Mau:
Vou colocar essa como detalhes porque vou falar de mais de um aspecto. A cena na qual o capitão Mandrake confronta o general Ripper para que este cancele o ataque é de uma beleza sem igual. Um show de enquadramento, iluminação, posicionamento e movimentação dos atores, alternância de poder entre os dois ao longo da cena, os objetos de cena, etc. Essa daria um ótimo exemplo para o Cenas em Detalhe do Pablo. Fiquei muito bem impressionado e é algo que eu nunca teria percebido antes de começar a analisar os filmes com vocês.

Banzai:
Justamente essa cena me chamou a atenção, o Ripper sendo filmado por baixo, dando a noção do poder que ele tinha enquanto o subordinado estava com cara de pastel. rs

Daniel:
– A cena em que o piloto do avião cai junto com a bomba com certeza vai ser uma daquelas que levarei para sempre. A situação surreal, tudo o que ela representa e a empolgação dele culminaram num sentimento sensacional para mim.
– Gostei de uma inversão de expectativa. Logo no início, a impressão é de que o Jack é um cara sério e importante, enquanto Mandrake é um trapalhão (só o fato de ser interpretado por Peter Sellers já reforça isso). Assim, fiquei surpreso ao ver sua força e humanidade ao confrontar Jack, ainda que de forma agitada e engraçada.
– Sei que foi para economizar tempo de tela, mas senti falta de acompanhar a conversa de Mandrake com o presidente, afinal ele foi um herói subestimado (pelo menos até a bomba explodir…) e creio ser natural que o espectador queira ver um personagem triunfando quando merece. Aquela sensação de “Viu só?! Ele tava certo e salvou geral!” faz falta.
– Senti que a cena final (antes da sequência de explosões, quando o Dr. Strangelove levanta e diz “Mein Führer… I can walk!”) tenta passar alguma coisa grande, uma última punchline ou algo assim… mas não consegui captar. Alguém?

Cássia:
A mão nervosa: eu só pensava em uma coisa o tempo todo, no Hitler. Uma das primeiras ações foi a saudação nazista. Depois, o Dr. Fantástico fala do bunker lá com pessoas selecionadas, uma clara alusão à seleção das pessoas mais “aptas” para repovoarem o mundo (e nós mulheres, claro, só servimos se formos sexualmente atraentes porque teremos apenas duas funções, sexo e reprodução. Além disso, teremos de dividir o cara com outras nove. Obrigada, roteiristas.) No final, ele solta um “mein Führer”, uma das saudações ao nazista-mor. Só não entendi a relação disso com o voltar a andar.

Carlos:
Estou pensando nisso desde que assisti ao filme. Segundo os extras, o personagem do Dr. Strangelove foi inspirado nos filmes de Fritz Lang, alemãs, com um cientista maluco, super-poderoso, mas, de alguma forma, fragilizado. O Dr. Strangelove com sua cadeira de rodas e a mão maluca é frágil e poderoso ao mesmo tempo.
Creio que Strangelove era um cara dividido, com um lado psicótico nazista, mas que atuava nos EUA controlando esse lado, contribuindo para os ideais americanos. Mas, quando finalmente consegue a aceitação de seu plano apocalíptico, os dois lados entram em harmonia. Os EUA abraçam a filosofia dos nazistas, destruindo o mundo e deixando a seleção sobre quem deve sobreviver e quem deve morrer a um computador. Este é o momento em que Strangelove consegue se levantar da cadeira. “Mein Führer, I can walk!”

Cássia:
Sensacional essa sua análise sobre o doutor voltar a andar. Se entendi bem, no momento em que os EUA abraçam a filosofia nazista, a fragilidade vai embora e o poder toma conta. Daí, para conseguir se erguer e saudar o Führer foi um pulo.
Outro detalhe, os aviões americanos: quando o presidente americano liga para o presidente russo e diz que, se os aviões não voltarem, os EUA abateriam os seus próprios aviões deixa tão claro como ninguém tá nem aí com soldados e civis. Não interessa se são do meu país, do seu, dos outros: se tiverem de morrer para ficarmos de bem ou de mal uns com os outros, que morram! Aí sim parece piada, os presidentes do mundo acham que estão jogando War. As mortes são meros efeitos colaterais. O dia em que for obrigatório presidentes e afins irem para a luta armada e colocarem a própria cabeça a prêmio, as guerras acabam.

Carlos:
Uma curiosidade, que corrobora o que você disse, é que Kubrick quis a mesa da Sala de Guerra com o tampo verde, como se os personagens estivessem jogando pôquer, mesmo que o filme fosse em preto e branco. A inspiração da Sala de Guerra é como se existisse um ambiente em que os governantes jogassem com a vida dos outros, como se fossem meros números.

Cássia:
E não é que eu “li” a intenção do Kubrick? Acho bacana quando o diretor coloca elementos no filme para que os atores entrem na história, mesmo que nós espectadores não vejamos isso de maneira clara. Praticamente uma mensagem subliminar.

CONCLUSÃO

Mau:
Como eu havia falado, eu já havia assistido a todos os filmes que eu listei para votação, com exceção de O rato que ruge, então eu já sabia o que esperar deste filme. Apesar disso, fiz uma busca rápida no IMDb e vi que ele concorreu a quatro Oscars em 1965: melhor filme, diretor, roteiro adaptado e ator principal, justamente o foco da minha lista, o Peter Sellers.
Dr. Fantástico ou Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba. Se o nome por si só não desperta a curiosidade de assistir ao filme, os nomes de peso envolvidos na produção certamente preenchem essa lacuna: Peter Sellers, George C. Scott, Stanley Kubrick, para citar só os principais.

Banzai:
Não havia assistido, mas com esse nome e dirigido pelo Kubrick desperta uma grande curiosidade e era essa a oportunidade para saná-la.
Gostei muito! Humor com sarcasmo numa ótima medida, descontrole emocional, tudo que gosto de ver em filmes desse gênero. A simplicidade com que trata o assunto que era um tabu, as pequenas tiradas (como a do Turgidson demonstrando sua empolgação sobre como seria possível passar as defesas russas) beiram o ridículo, ou seja, rendem boas risadas!

Carlos:
Imediatamente o que me chamou a atenção foram as palavras “Kubrick” e “comédia” na mesma frase. Estamos falando do cara que dirigiu Laranja Mecânica, uma das obras mais violentas que já assisti, e O Iluminado, filme que redefiniu o termo “assustador”. Mas independentemente disso tudo, Kubrick levava seus filmes muito a sério. Assim, a curiosidade era grande.
Com certeza, não fiquei decepcionado. Como vocês, achei Dr. Fantástico engraçado e com ótimas piadas. A tripulação do B-52, por exemplo, em uma missão seríssima, estava distraída jogando cartas e vendo revista pornográfica, em total contraste com a gravidade do cenário de guerra. E o capitão da aeronave, que ao saber da gravidade da situação, abre um cofre para pegar um chapéu de cowboy e guardar o capacete? Mesmo assim, o máximo que consegui ao longo do filme foi um riso nervoso. Não por falta de graça, mas pela tensão contínua que a situação toda provocava. Portanto, creio que as piadas de Dr. Fantástico não servem como alívio cômico para um filme sério. Ao contrário, o humor é utilizado o tempo todo para ridicularizar a situação e aprofundar a narrativa. Mesmo quando os personagens são abordados de maneira caricata, como o próprio Dr. Strangelove com seus maneirismos e os militares patéticos, a piada não está neles, mas nas figuras que representam fora da tela.
Pareceu, para mim, que Kubrick é sério demais até quando é muito engraçado.

Daniel:
Gostei MUITO! Não sabia que era uma comédia (evito até sinopses de filmes), mesmo sendo com Peter Sellers, e o humor satírico me agradou bastante. Fiquei feliz por ter “perdido” na votação, já que pulei a cerca uns dias atrás e assisti a Um convidado bem trapalhão (que era outro filme da lista) por conta própria, que me decepcionou bastante na revisita. Este é muito mais interessante.
Entendo o lado do Carlos por ter ficado muito tenso para dar risada, mas pra mim o equilíbrio do filme é perfeito e me diverti bastante mesmo estando tenso.

Cássia:
Contrariando todos vocês, eu não sou uma pessoa que gosta de comédias. Só rio copiosamente em The Big Bang Theory e assisti a quase três temporadas de Community por causa das referências. Eu sinto sono com Monty Phyton. Também não gosto de filmes de guerra e só um me conquistou até hoje, Guerra ao terror. Sendo assim, não é difícil imaginar que, para mim, foi uma hora e meia de filme com a sensação de três horas e quinze.
Mas estamos no clube para isso.

Carlos:
Cássia, eu não sei se escrevi alguma coisa diferente ou não. Mas também não sou super fã de comédias. De verdade, eu não ri durante o filme. Mas adorei.

Cássia:
Carlos, desculpa!, eu entendi errado. Para mim, você só não riu nesse filme porque ficou tenso e não por não ser fã de comédias. =)

Carlos:
Cássia, acho que gerei uma certa confusão. Eu não sou grande fã de comédias. Mesmo assim gostei do filme.
Mas eu realmente não ri no filme porque fiquei tenso com a situação envolvendo a bomba e não porque não gosto de comédias. Você entendeu corretamente e eu expressei-me mal. 🙂

Mau:
Já eu adoro comédias, adoro os momentos em que dou tantas risadas que fico até com soluço depois. Maaaas, acho que dei uma risada no filme todo (não lembro em que parte específica), mas parando para ler o que a gente já escreveu, eu ri do nome do Coronel, da Sala de Guerra, do Dr., mas na hora não. Não sei por que, talvez seja a tensão mesmo.
P.S.: eu também adoro The Big Bang Theory, Cássia, mesmo com tanta gente criticando por aí. 🙂

Cinema on the Rocks | O Segredo dos Animais

Ficha técnica:

O segredo dos animais (Barnyard)
Ano: 2006
Direção: Steve Oedekerk
Roteiro: Steve Oedekerk
Elenco: Kevin James, Courteney Cox, Danny Glover, Sam Elliott e outros.

E eis que aconteceu e o Seu Tartarugo (apelido do meu filho, para quem não me acompanha no Twitter) finalmente chegou a fase de assistir a desenhos, um atrás do outro, e de novo, de novo, de novo, de …. Desde então, minha vida cinematográfica é composta basicamente de produções para a família da Disney, Pixar, Dreamworks, etc. E foi em uma dessas ocasiões que fui surpreendido com um bom exemplo da utilização do nosso rock ‘n’ roll.

Em “O Segredo dos Animais” somos apresentados a dois bois: Ben (Sam Elliott) e seu filho adotivo Otis (Kevin James). Ben é o líder da fazenda e o responsável por manter a ordem entre os animais sempre que o fazendeiro sai, e por fazer todos se comportarem novamente como animais quando o fazendeiro retorna. Já Otis, ao contrário, é o típico filhinho de papai, que vive uma vida fácil, sempre pensando em se divertir com os amigos e fugindo de toda e qualquer responsabilidade, até que …

SPOILERS deste ponto em diante.

… após ser atacado por um grupo de coiotes, tentando defender as galinhas da fazenda, Ben não suporta os ferimentos e morre. Sem ninguém para botar ordem nos animais na fazenda, o caos se instala e o que era antes uma pacata vida no campo se transforma em uma revolução dos bichos. E não demora muito para que os próprios animais, sem a liderança firme de Ben, acabem deixando escapar o seu “segredo” para o fazendeiro, obrigando-os a uma saída nada elegante para fazer com que o fazendeiro “esqueça” o que viu. Com a volta dos coiotes, os animais precisam de alguém que os defenda novamente, e cabe ao Otis decidir se irá se tornar o “homem” que seu pai sempre sonhou que ele se tornasse.

Produzido pela Nickelodeon Movies em parceria com a Paramount, “O Segredo dos Animais” deixa um pouco a desejar quando comparado a outros filmes do gênero, mas assim mesmo consegue surpreender em determinados momentos, como a passagem derradeira de Ben, que você pode assistir abaixo.

Para evitar um ataque dos coiotes à fazenda, Ben está sentado com seu violão em uma pedra e acompanhamos sua vigília noturna enquanto ele canta e toca os dois primeiros versos da belíssima “I won’t back down” do Tom Petty (na voz do próprio Sam Elliott).

“Well, I won’t back down
No I won’t back down
You can stand me up at the gates of hell
But I won’t back down

No I’ll stand my ground
Won’t be turned around
And I’ll keep this world from draggin’ me down
Gonna stand my ground …”

Após o travelling que nos leva em direção aos coiotes e à incursão destes ao galinheiro da fazenda, vemos o terror a que eles estão submetendo as galinhas. Sempre envoltos em sombras para aumentar a ameaça que eles trazem, o que é magnificado pela noite escura e chuvosa, estes podem representar os últimos momentos das galinhas.

E é quando volta à cena o Ben. Após uma breve discussão, os coiotes atacam o líder da fazenda. Nesse momento tornamos a ouvir o mesmo trecho da música de momentos atrás, mas desta vez somente a parte instrumental, pois tudo que precisava ser dito já foi, e isso já ficou gravado em nossa mente. Já ouvimos que o Ben não vai desistir (I won’t back down), que ele pode ser enfrentado na porta do galinheiro (You can stand me up at the gates of hell), que ele vai defender seu lugar (I’ll stand my ground) e que ele não será derrubado pelos coiotes (I’ll keep this world from draggin’ me down). Já ouvimos tudo, agora é só o momento de ver isso em ação. Mas infelizmente, apesar de conseguir afugentar os coiotes, os ferimentos são muito profundos para que Ben sobreviva.

Esse filme é um ótimo exemplo de que de onde menos se espera é possível ser bem surpreendido. E que não é só por ser um filme para a família, ou dito “infantil”, que não se pode ter um ótimo acompanhamento musical.

Ah, e obrigado ao Steve Oedekerk e à Paramount / Nickelodeon Movies por ajudar a desenvolver o gosto musical dos nossos pequenos! : )

A música original do Tom Petty você pode conferir aqui:

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau
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O grande Gatsby

(Não há spoilers no texto, não acabarei com a graça de ninguém.)

* * *

Livro: O grande Gatsby (The Great Gatsby), F. Scott Fitzgerald, Editora Landmark.
Filme: O grande Gatsby (The Great Gatsby), direção de Baz Luhrmann, 2013.

Se adaptar um livro para o cinema é um desafio por si só, adaptar um clássico da literatura de um país é mexer em um vespeiro.

O nosso grande clássico é Dom Casmurro. Mesmo quem não leu o livro de Machado de Assis conhece a eterna questão: Capitu traiu ou não Bentinho? Em 2008, Luiz Fernando Carvalho dirigiu a minissérie Capitu e foi alvo de diversas críticas, e a obra era belíssima. Duvido que seria diferente com outro diretor.

Nos Estados Unidos, é O grande Gatsby. Escrito por F. Scott Fitzgerald e publicado em 1925, conta a história de um grupo de pessoas ricas e influentes de Nova York. Desde seu lançamento, foram cinco adaptações cinematográficas e eu analisarei apenas a última, dirigida por Baz Luhrmann.

Capa da primeira edição de O grande Gatsby.
Fonte: Bauman Rare Books.

O livro não é considerado um clássico à toa: é um primor da literatura. Bem amarrado do começo ao fim, o autor vai inserindo detalhes, ações e diálogos que ajudam a construir o mito Gatsby e a desconstruir aquelas pessoas consumistas e fúteis. Preconceito de classe, racismo, questões morais e éticas. Está tudo ali, sob o véu de uma vida desregrada e cheia de luxos.

Além disso, as descrições de F. Scott Fitzgerald saltam aos olhos. Pela primeira vez li descrições de personagens com tamanha profundidade. Não falo de características físicas ou psicológicas, mas de uma poesia que poucos escritores conseguem utilizar. “Era o tipo de voz que o ouvido segue para cima e para baixo, como se as palavras fossem um arranjo de notas que jamais seria tocado novamente”, diz ele sobre a voz de Daisy. E assim é por todo o livro.

Cartaz do filme O grande Gatsby.
Fonte: Divulgação.

Em relação ao filme, o estilo do diretor Baz Luhrmann é um velho conhecido para mim, pois já havia assistido a Vem dançar comigo, Romeu + Julieta e Moulin Rouge. Não só, eu sou uma fã do seu trabalho. Aquela opulência visual tão característica, as cores, a dança, a música, a direção de arte impecável. Não é possível imaginar a festa na casa de Gatsby nas mãos de outro diretor. Infelizmente, para por aí.

A adaptação é fiel ao texto original, mas os diálogos e as inferências tão importantes no livro desapareceram no filme. Continuamos vendo um grupo de adultos mimados e irresponsáveis, mas perdemos os diálogos que nos mostram quão preconceituosas e classistas aquelas pessoas são. Mas o pior vem agora: transformaram O grande Gatsby em uma história de amor. Sim, o amor está presente. Sim, há uma história mal resolvida ali como base da narrativa. Mas não é isso que nos conduz.

Por isso, quando chegamos ao fim do filme, essa escolha pela história de amor em detrimento às críticas feitas àquela sociedade enfraquece o seu desfecho. Era para nos compadecermos por uma coisa e nos entristecemos por outra. Seria coerente se a adaptação cinematográfica não tivesse seguido o livro à risca. Além disso, a fidelidade ao livro comprometeu o ritmo do filme. Em alguns momentos, ele se torna arrastado e um dos grandes acontecimentos perde um pouco do seu impacto.

Será que o resultado teria sido outro se o filme não fosse tão fiel ao livro? Eu penso que sim, mas a força desse clássico sempre irá se impor qualquer seja a adaptação.

Não preciso escolher entre um e outro, mas dessa vez eu ficarei com o livro. Desculpa, Baz Luhrmann. Se eu disser que o meu amor por você continua imenso, tudo bem?

Cinema on the Rocks | Conta Comigo

Ficha Técnica:

Conta Comigo (Stand by Me)
Ano: 1986
Direção: Rob Reiner
Roteiro: Stephen King, Raynold Gideon e Bruce A. Evans.
Elenco: Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Kiefer Sutherland, Richard Dreyfuss e outros.

Esse é um daqueles filmes da Sessão da Tarde (pra quem é da mesma geração que eu, claro), que passou incontáveis vezes depois da reprise da novela. E seja pela qualidade da história, ou por fazer parte do processo de crescimento de muitas pessoas que acompanharam a aventura do grupo de amigos, este filme se tornou um clássico cinematográfico. E como não poderia deixar de ser, ocupa um lugar de destaque na memória deste que vos escreve.

Baseado em um conto do Stephen King, acompanhamos Gordie (Richard Dreyfuss / Wil Wheaton) que após saber da morte de Chris (River Phoenix), seu amigo de infância, começa a se lembrar de um episódio marcante na vida deles e de seus outros amigos Teddy (Corey Feldman) e Vernon (Jerry O’Connel).

SPOILERS deste ponto em diante.

Após descobrirem que um colega de escola, que estava desaparecido há alguns dias, pode estar morto próximo à linha do trem em uma cidade vizinha, o grupo de amigos resolve se aventurar pelos trilhos que levam até o local, para verificar a veracidade da história. Se fossem bem sucedidos, iriam então avisar a todo mundo de que eles haviam encontrado o menino e, assim, ganhar o status de heróis na cidade.

Se em o “Clube dos Cinco” comentamos que cada personagem representava um estereótipo específico (o atleta, a princesa, o gênio, etc.) o mesmo se vê nesse filme, mas sem o tom de comédia. Gordie é o “cabeça” do grupo, o mais inteligente dos amigos, Teddy é o “militar”, influenciado por causa do pai “lunático”, Vernon é o “gordo”, o alívio cômico dos amigos e, finalmente, Chris é o “rebelde”, o personagem mais complexo do grupo.

Gordie é um menino franzino, irmão de um jogador de futebol famoso da escola, e por isso sempre foi “invisível” aos olhos de todos, inclusive de seus pais. Após a morte do irmão, passou a ser detestado pelos pais que desejavam que ele é quem tivesse morrido ao invés do irmão. Por isso, apesar de sempre andar de cabeça baixa, num constante sentimento de derrota, aproveita todo instante para incentivar o Chris, que é seu melhor amigo, a continuar estudando e a alcançar grandes feitos, apesar das chances estarem sempre contra o amigo.

Chris, por sua vez, é o garoto mal visto pelos professores, e que os pais sempre querem longe de seus filhos. Apesar de incompreendido por todos, desperta em Gordie o sentimento de fraternidade que só o irmão lhe fornecia, e por isso ele se dedica tanto a ajudá-lo. O filme tem duas passagens bem interessantes envolvendo o Chris. A primeira é a rima que é feita quando ele é ameaçado com uma faça no pescoço pelo “marginal” interpretado pelo Kiefer Sutherland, quando jovem, e que acaba se mostrando como a forma com que ele morre quando adulto. A segunda é justamente quando o Gordie está contando sobre o futuro do Chris, e vemos ele jovem no centro de um plano geral, se afastando do Gordie até desaparecer lentamente no exato instante em que ele fala da sua morte. Um momento tocante e muito bem executado para representar a perda que o amigo representa para o Gordie e terna lembrança deste.

Apesar da busca pelo menino desaparecido, o foco principal do filme reside claramente na relação de amizade entre Gordie e Chris. Isso fica evidente quando notamos a opção de alterar o título do conto do Stephen King no qual o filme foi baseado, “The Body” (O Corpo, aludindo ao menino morto), para o “Stand by Me” (Conta Comigo na versão em português).

Já nas últimas cenas (que você pode ver abaixo) ouvimos um trecho da música de mesmo nome do filme, escrita e gravada por Ben E. King.

“…
When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we’ll see
No I won’t be afraid, no I won’t be afraid
Just as long as you stand, stand by me
…”

A música toca justamente quando a versão adulta de Gordie, está lembrando dos momentos vividos ao lado do amigo. Neste momento, temos mais um exemplo de como uma música pode ser utilizada para fortalecer a história que está sendo contada. Se em outros filmes vimos a música servir como um complemento às cenas, aqui a música serve como um ponto de apoio para a reflexão do personagem e, por que não, como um resumo da amizade entre os amigos que acabamos de testemunhar ao longo do filme.

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau
http://www.twitter.com/tuitedoMau

P.S. Uma curiosidade, o filme é dirigido pelo Rob Reiner, que apareceu pela primeira vez no cinema em uma ponta de um filme do Jerry Lewis: O fofoqueiro (1967).

P.S.2  Nosso Clube do Filme está analisando o “Conta Comigo”. Assim que a discussão estiver finalizada, você pode visualizá-la aqui.

Filme 23 | Conta Comigo

Espaço reservado para a discussão do filme “Conta Comigo”.

 

Ficha técnica
Conta Comigo (Stand by Me)
Ano: 1986
Direção: Rob Reiner.
Roteiro: Stephen King, Raynold Gideon e Bruce A. Evans.
Elenco: Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Kiefer Sutherland, Richard Dreyfuss e outros.

 

 

Cinéfilo, eu?!

Sempre amei cinema. Nunca gostei de ser chamado de cinéfilo.

Qualquer amigo, colega, conhecido ou passante sabe, em poucos minutos de conversa comigo, que eu falo bastante sobre filmes. Muito mesmo. Assim, é inevitável que volta e meia eu tenha que responder a pergunta:

“Você é cinéfilo?”

Até bem pouco tempo minha resposta seria:

“Cinéfilo, eu? Não…” e já gastava um monte de argumentos para explicar porque eu não era cinéfilo, mas só um cara que gostava de filmes e coisa e tal.

A negação tão enfática ocorria porque, a bem da verdade, o título de “cinéfilo” nunca me agradou. Parecia-me uma daquelas coisas complicadas, de pessoas muito eruditas, que gostam de atribuir características psicológicas às coisas. Como enólogos e suas frases “esse pinot noir é extremamente ousado, com toques contidos de ostentação”.

Eu não queria parecer um sommelier de filmes em busca da pipoca gourmet.  Eu só gostava de assistir a filmes e conversar sobre eles. Isso não era nada tão complicado assim. Nenhum filme possuía uma nota frutada ou um sabor amadeirado. Eu não era a pessoa que deixava de assistir a um filme popular, ou, como dizem, um filme pipoca, porque só dava valor às obras da nouvelle vague.

O problema é que discutir sobre cinema é, surpreendentemente, um assunto de pouco sucesso nas rodinhas de temas aleatórios. Qualquer pessoa consegue travar aquele bate papo interessante sobre os últimos filmes, quais ela gostou ou não. Mas evoluir daí é difícil. Depois de um tempo a conversa sobre cinema costuma se transformar numa reiteração de gostos pessoais, uma procissão de filmes que a pessoa achou “legal”.

Sinceramente, vou dar uma dica. O pior xingamento que se pode dar para um filme é chamá-lo de “legal”. “Legal” é nada. É vazio. Não é nem opinião pessoal. É aquela coisa que você diz quando não quer dizer o que acha. Dá para chamar até “Transformers” de legal.

(Brincadeira, Transformers não consegue ser nem legal. Ele é chato, o oposto semântico, igualmente vazio de sentido)

Assim, para evoluir minha opinião sobre filmes e conseguir dizer que eles são mais do que “legais”, tentei aprender mais um pouco sobre cinema.  Entender o que fazia um filme mais interessante do que outro.

Cinema é uma linguagem. Acreditamos que, por termos uma dieta a base de produtos audiovisuais desde criança, somos plenamente proficientes nessa linguagem. Mas aprender a assistir a um filme é uma tarefa que exige um pouco mais de esforço do que pode parecer, exigindo alguma leitura e estudo.  E, depois das leituras, vieram as muitas horas conversando sobre filmes com “meus amigos da Internet”. Aquela gente maluca que vive dentro do meu notebook coração.  Eles mesmos, os outros integrantes do Cineclube dos Cinco.

Já no prefácio do primeiro livro que li sobre cinema, “A linguagem cinematográfica”, Marcel Martin convidava à leitura todos os amadores do cinema. Não amadores como pessoas incompetentes para serem profissionais, mas amadores no sentido literal do termo. Pessoas que amam o cinema. O convite foi extremamente gentil, pois fez uma distinção fundamental para mim e afastou do termo “cinéfilo” (aquele que ama cinema), qualquer esnobismo que poderia existir.

Portanto, hoje respondo a pergunta de maneira mais tranquila. Sou cinéfilo? Sim. E isso não significa que eu seja um chato que dispensa qualquer filme porque ele não se enquadra em um ideal abstrato de arte distante que só uma meia dúzia de iniciados alcança. Na verdade, exatamente ao contrário. Ser cinéfilo significa, na maior parte das vezes, apreciar mais um filme e, por consequência, gostar ainda mais dele. Não é um exercício de exclusão, mas de acréscimo.

E, claro, nunca falar que um filme é legal.

Romeu e Julieta

“Romeu e Julieta não é nem a melhor nem a mais consagrada das obras de Shakespeare, porém poucos contestarão que seja − e merecidamente − a mais amada.” (Barbara Heliodora)

Livro: Romeu e Julieta (Romeo and Juliet), William Shakespeare, trad. Barbara Heliodora, Editora Saraiva.
Filme: Romeu e Julieta (Romeo and Juliet), direção de Franco Zeffirelli, 1968.

William Shakespeare nasceu em 26 de abril de 1564, há exatos 450 anos, e eu quis aproveitar a data para celebrá-lo de alguma maneira. Escolhi o meu texto mais querido, aquele relido tantas vezes que perdi a conta.

Todos conhecem a história sem final feliz: de duas famílias inimigas, Montecchio e Capuleto, nascem dois amantes, Romeu e Julieta. Contada e recontada de mil maneiras, escolhi a minha adaptação preferida, a de Franco Zeffirelli.

Quem guarda um imenso amor pela palavra dificilmente se decepciona ao ler Shakespeare. As histórias são muito bem-construídas, mesmo as medianas, e os diálogos são pérolas da literatura. Há passagens inteiras que valem isoladamente e que podem ser lidas e relidas sem enjoar.

Em “Romeu e Julieta”, as melhores passagens saem dos lábios de Julieta, Romeu, Mercúccio e Frei Lourenço. Suas palavras lidas em silêncio − ou em voz alta, afinal, elas foram escritas para isso − nos tocam de alguma maneira. Seja pelo amor de Julieta e Romeu, pela sagacidade de Mercúccio ou pela sabedoria de Frei Lourenço.

Além disso, a história não tem pontas soltas: Romeu suspira por Rosalina, prima de Julieta, e isso o leva à festa dos Capuleto em que ele conhece a sua nova amada; quando Frei Lourenço aparece pela primeira vez, fala sobre uma determinada flor e é dela que ele extrai o que simulará a morte de Julieta; e esses são apenas dois exemplos.

No final, há uma série de desencontros e fatalidades que leva os dois amantes ao suicídio. Sabemos que ambos morrem, mas como isso acontece é o que nos angustia. O tempo todo nós pensamos: “Poderia ter sido diferente”. Mas não foi.

Passemos ao filme. Rodado nas ruas de Verona, fiel à época, nos sentimos como habitantes daquela cidade, mas sem precisarmos escolher um lado para torcer.

Mesmo com alguns cortes e várias diminuições, as falas foram mantidas do original. As cenas de disputa foram ampliadas e há momentos em que parecem não terminar nunca. Mas compreendo as escolhas do diretor: longos monólogos nem sempre funcionam no cinema e as brigas são o pano de fundo do ódio entre as duas famílias.

Os atores principais, Leonard Whiting e Olivia Hussey, estão perfeitos. Eles poderiam facilmente cair na pieguice, mas não o fazem. Acreditamos no amor que sentem e na angústia que os afligem, e é exatamente isso que os papéis pediam.

iOlivia Hussey e Leonard Whiting em cena de “Romeu e Julieta”.

Se por um lado as adaptações cinematográficas de peças teatrais se beneficiam da estrutura já existente − as cenas e as falas −, por outro, muitas caem no erro de filmar teatro. E é justamente aqui que o filme se perde em alguns momentos.

O teatro é o espaço da amplidão, o cinema é o lugar do detalhe. No primeiro, mesmo um pequeno gesto tem um sentido maior, pois é preciso que todos da plateia entendam o que está acontecendo. No segundo, mesmo o deserto está diante de nós, praticamente no nosso colo. Não é preciso muito para ficarmos cara a cara com os acontecimentos.

No filme, há aspectos exclusivos do teatro. Chorar fazendo muito barulho, por exemplo. Sem falar nos gritos, como se estivéssemos sentados na galeria de um teatro municipal. Ou algumas falas que passam despercebidas, como Julieta dizer “Oh, barulho!” quando acabamos de ouvir uma cavalaria. Bastava ela demonstrar sua apreensão no seu semblante, não precisava nos dizer.

Por outro lado, há cenas lindas, de assistir e pensar: “Isso sim é cinema!”. Quando Romeu e Julieta se conhecem, durante a festa na casa dos Capuleto, eles se interessam um pelo outro em plena dança. Depois, eles se buscam com o olhar em meio aos convidados até que Romeu a puxa de canto e ambos conversam quase sussurrando. Enquanto isso, um rapaz canta em plena festa a clássica música composta por Nino Rota: “Uma rosa desabrochará e depois murchará. Também um jovem e também a mais bela das donzelas.” É lindo assistir ao nascimento do amor dos dois enquanto alguém nos diz: “Não se encha de esperanças, em breve, esses dois vão morrer”.

Embora essa história pareça exagerada aos nossos olhos, é preciso reconhecer o seu caráter transgressor. Há quem esqueça que, um dia, relacionamento e amor não caminhavam de mãos dadas. Amar e viver um amor era revolucionário. Era seguir o próprio destino, tomar as rédeas da própria vida, escolher o que se quer. Julieta pediu Romeu em casamento, não aceitou o matrimônio imposto pelo seu pai, aceitou forjar a própria morte para viver feliz ao lado de quem amava. Romeu não questionou o que seria de sua vida depois de se casar com a única filha do grande inimigo de seu pai. Pensando bem, ainda hoje, amar é para os corajosos.

Mesmo depois de quatro séculos, ainda falamos de Romeu e Julieta. Porque esses dois amantes de Verona também somos nós.