Pipoca com ideologia

Toda obra de arte humana carrega em si uma manifestação ideológica. Mas, como esse é um blog sobre cinema, vou limitar minha afirmação a um campo mais restrito.

Todo filme traz uma ideologia.

Além de ser uma música bacana do Cazuza, ideologia é uma palavra normalmente associada a algo bem complicado e mentiroso. Vez ou outra dá até para ouvir como acusação. “Ora, fulano é só ideologia”. Na melhor das hipóteses, ideologia é coisa para quem pensa muito e queima a cabeça com teorias sobre o mundo, o tempo e cosmos.

Já o “cinema é a maior diversão”. Para a maioria, o oposto do que se pode pensar de uma aborrecida reflexão ideológica. Há quem diga que vai ao cinema para espairecer, desligar a cabeça, ver umas bobagens e não ter que pensar.  Entra na fila da próxima sessão, compra a pipoca e assiste ao filme com “o cérebro desligado”. Nada mais simples do que isso.

“Quem nunca?”, já diria o meme.

Acho que senti o cheiro de pipoca com manteiga

Acho que senti o cheiro de pipoca com manteiga

O problema é que, como disse acima, todo filme traz uma ideologia. Muitas vezes, nem é de propósito.  É inescapável que uma obra de arte criada por pessoas carregue em si valores intrinsecamente vinculados ao tempo e à sociedade na qual o trabalho se gestou. Até o maior blockbuster do momento é um panfleto ideológico tão claro quanto a propaganda de um partido político. Mesmo aquele para assistir com “o cérebro desligado”.

Pior, principalmente esse do cérebro desligado.

Sergei Eisenstein, este sabia tudo de montagem e ideologia.

Sergei Eisenstein, este sabia tudo de montagem e ideologia.

Porque, meu caro cineleitor, por mais que se insista, goste você ou não, seu cérebro nunca desliga. Você pode até comer a pipoca, mas enquanto isso, sua cabeça está mastigando um monte de ideias, salpicadas com explosões 3D.

Quer um exemplo? O último blockbuster do momento, Pacific Rim. Bem recebido pela crítica, algo surpreendente para um filme cujo argumento principal é a luta de robôs gigantes contra monstros alienígenas, o filme é um sucesso estético. Bonito e, por que não admitir, emocionante?

Mas não é só. Ele também tem uma mensagem clara. Se algum problema é complicado demais, deixe-o na mão dos militares.

Para quem não assistiu, resume-se facilmente a história. Lagartos alienígenas gigantes invadem a Terra por uma fenda no oceano e destroem tudo que veem pela frente. Unida, a raça humana conseguiu os melhores esforços para criar robôs gigantes, capazes de fazer frente aos monstros (Êêêêêê!). Tudo comandado por uma espécie de organização militar planetária. Até que os governos civis acham aquela presepada toda muito dispendiosa e decidem extinguir o programa de robôs gigantes (Aaaaah!). Em alternativa, constroem uma muralha para proteger a região costeira dos eventuais ataques. Óbvio que o plano-muralha não dá certo, porque lagarto que é lagarto sabe escalar parede, quem já viu lagartixa sabe disso (Ôôôôôô!).

Quem pode salvar a humanidade dos monstros psicopatas assassinos gigantes? Claro, o bom soldado, ex-combatente, esquecido pela sociedade como um operário nas fundações da muralha. Só tem um problema. Ele é um tanto traumatizado, por ter perdido seu irmão gêmeo em uma batalha anterior (Iiiiih…).

Não é preciso ir muito adiante para deduzir a história toda e as outras vogais que acompanhariam o texto. O recado, todavia, já está dado com menos de 15 minutos de filme. Os políticos civis não sabem lidar com os problemas sérios e fazem bobagem onde colocam a mão.

O que nos leva a outro filme, que poderia ser encarado, no seu tempo, como mais um filme pipoca. Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick. Uma comédia (existe gênero mais “cérebro desligado”?), que fez piada, em plena guerra-fria, da destrutiva e paranoica corrida atômica. Nele, um general louco decide, por conta própria, iniciar a guerra nuclear. Seu mote. “A guerra é um assunto sério demais para ser deixado nas mãos dos civis”. Em Dr. Fantástico, ao contrário do que ocorre em Pacific Rim, onde os militares colocam a mão, as coisas dão errado. A situação chega ao absurdo de as forças armadas americanas serem obrigadas a atacarem a si mesmas, dentro do próprio território.

De baixo, até parece o Bush.

De baixo, até parece o Bush.

Por outro lado, basta um telefonema do presidente americano a sua contraparte russa, bêbada, para se contornar a crise. Os políticos civis se entendem e resolvem a questão, mesmo falando línguas distintas. Mesmo bêbados.

Assim, como em Pacific Rim, também há uma mensagem muito evidente em Dr. Strangelove.  Os militares sabem lutar e farão guerra, embora sua existência tenha por objetivo a própria manutenção da paz.

Ou seja, a paz é um assunto importante demais para ser deixado nas mãos dos militares.

Ideologicamente, Pacific Rim Dr. Strangelove são antíteses.

Por menos que possa parecer, os dois filmes transmitiram valores ideológicos, ainda que, para tanto, a plateia não tenha sido forçada a nenhuma brilhante conclusão. Feliz, saindo do cinema ainda com a casca de pipoca agarrada entre os dentes, com aquela sensação de ter assistido a um bom filme e a cabeça descansada, a mente do espectador está em rebuliço, cheia de ideias semeadas.

Tomar noção dessa colonização ideológica é importante para a apreciação de qualquer filme. O exercício que faço, a cada vez que saio da sala de cinema, é me perguntar “o que esse filme contou para mim?” Nem sempre a resposta vem fácil e muitas vezes ela é dúbia. É um exercício que exige atenção ao filme e disposição para encarar suas próprias convicções. Muitas vezes, a ideologia propagada em um filme está tão impregnada em nós mesmos que não somos capazes de ver a panfletagem correndo solta. Ideologia é igual a sotaque, você dificilmente percebe o próprio, mas sempre critica o alheio. Entretanto, ela está lá e, se você não viu, é porque a semente não só foi plantada, como já deu frutos.

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Uma resposta em “Pipoca com ideologia

  1. Acho que o que acontece é que sua mente sempre está evoluindo. Quando se é bem novo qualquer produção é mais madura intelectualmente que você. As comédias idiotas te deixam rindo, as pancadarias sem sentido te eletrizam e o filmes de terror te mandam pra cama dos seus pais a noite. Porem, com o passar dos anos sua mente começa a ganhar a batalha. Há mais dentro dela (se você colocou alguma coisa lá), do que há no filme. E isso causa uma insatisfação muito grande. Ficamos mais complexos! Queremos filmes mais complexos! Queremos nos sentir crianças! A triste realidade é que os filmes não vão nos acompanhar. É como um brigão repetente da escola que quer seu dinheiro da merenda, assim que você fica maior que ele, é como se você não existisse mais…

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