Crítica | Gravidade

Gravidade (Gravity) | 2013

Direção: Alfonso Cuarón

Roteiro: Alfonso Cuarón, Jonás Cuarón

Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris

Entre todos os grandes feitos da humanidade, é seguro dizer que colocar pessoas e estruturas na órbita da Terra seja um deles. Isso porque o espaço, apesar de fascinante, é extremamente hostil, mesmo a apenas algumas centenas de quilômetros acima da superfície terrestre, e o letreiro com informações básicas que abre o filme deixa claro até para o mais leigo dos espectadores: se aventurar no espaço é perigoso.

Ryan Stone (Sandra Bullock) faz parte da tripulação de uma missão que tem como objetivo aprimorar o telescópio espacial Hubble, procedimento que exige que os astronautas façam caminhadas espaciais, ou seja, fiquem do lado de fora da nave, flutuando no espaço sem nada abaixo deles exceto a própria Terra. Durante a missão, eles são informados de que os restos de um satélite que havia sido abatido pelos russos se chocaram com outros satélites e criaram uma reação em cadeia que coloca milhares de destroços em alta velocidade em rota de colisão com o Hubble, destruindo o telescópio e a nave e deixando os astronautas à deriva.

A sequência inicial de Gravidade é espetacular, e sua eficácia do ponto de vista cinematográfico é resultado do que deve ter sido um desafio técnico gigantesco. Num único plano que dura mais de dez minutos sem sofrer cortes, Cuarón nos coloca na órbita da Terra enquanto observamos o ônibus espacial Explorer se aproximar com o Hubble acoplado, e quando o espectador se dá conta, já está sendo levado pela câmera, passeando pelo espaço e entre os astronautas como se fosse mais um tripulante da missão.

Aliás, o filme todo parece determinado a jogar o espectador para dentro da tela. Além do ótimo uso de planos longos (que provavelmente fariam Michael Bay bocejar), Cuarón também faz bom uso de câmeras subjetivas que captam o ponto de vista dos personagens, em sequências que parecem saídas de um jogo de tiro em primeira pessoa. A decisão de acompanharmos apenas os astronautas e o que acontece na órbita terrestre também é acertada (em vez de alternar entre a missão e o controle na Terra, como é tão comum em filmes que se passam no espaço), pois só sabemos o que os astronautas sabem e nos aproximamos deles. Até mesmo os movimentos de câmera, suaves e fluidos, contribuem para a sensação de gravidade zero e para a imersão do espectador. Além, claro, do 3D, que adiciona profundidade e escolhe os momentos certos para atirar coisas no espectador, sem exageros.

Mas de nada adiantaria ter tantos méritos técnicos sem um roteiro e atuações que os sustentassem. A história da missão que dá errado e se transforma em tentativa de sobrevivência já foi vista antes (alô, Apollo 13!), mas além de todas as particularidades já citadas, temos dois personagens centrais fascinantes. George Clooney cria um Matt Kowalski claramente apaixonado pelo que faz e deslumbrado pelas belezas do universo. Sujeito otimista, calmo e bom de conversa, não parece se deixar abalar facilmente, e até mesmo a sugestão de um improvável acontecimento envolvendo o personagem no final do filme surge verossímil graças à sua personalidade. Mas o destaque fica mesmo para Sandra Bullock, que cria uma personagem triste e sem rumo, tentando superar um acontecimento insuperável de seu passado, numa atuação contida e sensível. Presa no espaço e correndo contra o tempo, até mesmo sua maneira de respirar ajuda a aumentar a sensação de claustrofobia. Assim, um dos melhores momentos do filme fica por conta da cena simbólica e tocante na qual Ryan, ao se permitir um raro momento de liberdade e extravasamento, apenas flutua, girando lentamente e se curvando até atingir a posição fetal. Outro mérito de Bullock é conseguir que o espectador torça pela personagem, o que é fundamental para que o filme funcione. Já Ed Harris praticamente reprisa seu papel em Apollo 13 como o controle da missão na Terra, e suas conversas descontraídas com Matt prestam um bom serviço à imagem dos pobres profissionais da área ao mostrar que nem tudo é tão sério e sem-graça como as pessoas costumam imaginar.

“Sandra, acho que tá me dando vontade de ir ao banheiro.”

O roteiro acerta também na forma como retrata a Física, aspecto em que muitas ficções falham miseravelmente. De maneira geral, tudo o que acontece é perfeitamente plausível, e particularmente não é todo dia que vejo um filme corajoso e seguro de si o suficiente para não adicionar efeitos sonoros em colisões e destruições no espaço, preferindo o realismo ao exagero. O próprio som diegético (o som originado dentro do universo do filme) só é audível – e de forma abafada – quando originado de um objeto em contato com o corpo dos astronautas, resultado da propagação das vibrações através do corpo e do ar dentro da roupa, o que dá ao espectador a sensação de estar escutando tudo através de seu próprio corpo e de seu próprio traje de astronauta. Já os sons que se originam em objetos afastados dos personagens não são audíveis, uma escolha que acaba tornando as colisões e destruições ainda mais assustadoras, auxiliadas por uma trilha instrumental que foge do óbvio e cria momentos de muita tensão.

Gravidade ainda acha espaço para celebrar a diversidade. Seja através dos planos-detalhe de uma imagem de Jesus na Estação Espacial Internacional e de uma imagem de Buda na estação chinesa, seja através das diferentes nacionalidades dos astronautas e das várias bandeiras penduradas na EEI (que é uma estação real, diga-se), inclusive a do Brasil. Oras, a própria estação, como seu nome já diz, é resultado de um esforço conjunto de vários países e um símbolo da união entre povos que a ciência proporciona em busca de conhecimento.

Alfonso Cuarón, que tem em sua filmografia Filhos da esperança, Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban e E sua mãe também, se tornou um de meus diretores favoritos depois deste Gravidade, fazendo-me sentir o mais próximo possível de um astronauta, sonho que tenho desde que me entendo por gente, ao mesmo tempo em que estimula a reflexão sobre a vida, a morte, o universo e que papel tem nisso tudo o nosso pálido ponto azul.

(5 estrelas em 5)

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3 respostas em “Crítica | Gravidade

  1. Daniel, finalmente, pude ler a sua crítica. Que texto, hein?! Não falo isso por sermos companheiros de clube (e cineclube), mas porque é verdade. Quero rever o filme, e com outro olhar, depois do seu texto.

    Grande beijo.

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