Cinema on the Rocks | Cães de Aluguel

Ficha Técnica:

Cães de Aluguel (Reservoir Dogs)
Ano: 1992
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino e Roger Avary
Elenco: Harvey Keitel, Michael Madsen, Tim Roth, Steve Buscemi, Chris Penn, Quentin Tarantino e outros.

“Cães de Aluguel” é o filme de estreia do Quentin Tarantino e conta a história de um grupo de assaltantes contratados por dois criminosos de Los Angeles, Joe Cabot (Lawrence Tierney) e seu filho Eddie Cabot (Chris Penn), para um assalto a uma joalheria. Todos os integrantes não se conhecem e ganham nomes pitorescos (como Mr. Blue, Mr. Orange e etc.) para não poderem se identificar caso sejam apanhados pela polícia. Após terem seu assalto totalmente frustrado, Mr. Blonde, Mr. White e os demais criminosos começam a desconfiar que um deles é um informante da polícia.

Atenção, SPOILERS deste ponto em diante.

Dentre todos os personagens, três são os principais da trama: Mr. Orange (Tim Roth), Mr. Blonde (Michael Madsen) e Mr. White (Harvey Keitel). Isso se deve a dois artifícios utilizados pelo Tarantino para destacar a importância deles. Primeiro, estes são os únicos personagens de quem o Tarantino fornece informações a respeito de seu passado ao longo do filme. Através do uso de flashbacks, somos informados que tanto o Mr. Blonde quanto o Mr. Pink são amigos de longa data de Joe Cabot e seu filho Eddie, e que o Mr. Orange é um policial infiltrado para prendê-los. O segundo artifício utilizado pelo Tarantino é mais subjetivo, e está relacionado ao uso da trilha sonora.

O Tarantino ficou conhecido, entre outras coisas, por criar filmes com trilhas sonoras cheias de músicas “antigas”, clássicas e outras menos conhecidas. Dessa forma, chega a surpreender que “Cães de Aluguel” seja marcado pela quase total ausência de trilha sonora, fazendo uso basicamente do som ambiente em suas cenas. Estimo que apenas 20% do filme possua trechos acompanhados por músicas, e (excluindo o início do filme no qual são exibidos os créditos iniciais) as únicas passagens do filme com trilha sonora estão relacionadas ao Mr. Orange e ao Mr. Blonde. No filme, o Mr. Orange é, de certa maneira, o responsável direto ou indireto das mortes de quase todos no grupo, além de ser quem acaba matando o Mr. Blonde. Já este é o responsável pelo tiroteio no assalto à joalheria, que resultaria no próprio Mr. Orange sendo baleado. E é justamente este artifício que acaba culminando na cena mais emblemática do filme.

Nesta cena (que vocês podem acompanhar abaixo), que é conduzida de forma magistral pelo Tarantino, o Mr. Blonde resolve torturar um policial, que ele havia acabado de capturar, para se vingar da emboscada realizada pela polícia. Apesar de aparecer por pouco tempo no filme, o personagem do policial tem grande importância e é diretamente relacionado aos dois personagens.

Nesta cena o Tarantino tem a preocupação de colocar o Mr. Blonde, em quase todos os planos, à direita do nosso campo de visão e quase sempre no ponto de fuga da tela, que é o ponto mais forte da composição. Dessa forma, ele chama constantemente a nossa atenção para a importância de seu personagem. Além disso, o Tarantino revela uma atenção especial a pequenos detalhes e com uma ótima pitada de humor negro. Reparem na hora em que o Mr. Blonde vai cortar a orelha do policial, a câmera, que representa nosso ponto de vista, afasta os “olhos” do acontecimento para simular a aversão que apresentaríamos se estivéssemos naquele lugar. Neste momento, ela focaliza uma passagem na qual aparece escrito na parte superior: “Atenção, Cuidado com a cabeça”. Ótimo não?

Mas o que nos interessa é a trilha sonora, certo? E aí o Tarantino nos dá mais uma amostra de como toda a cena foi bem estruturada e construída. Aqui a trilha sonora faz parte do universo diegético, ou seja, é parte do universo em que os personagens vivem. A cena se inicia quando o Mr. Blonde liga o rádio para ouvir seu programa favorito, o “K-Billy Super Sound of the 70’s”, no qual está tocando a ótima “Stuck in the middle with you” do Stealers Wheel. Reparem como a letra da música complementa a cena e reflete o momento dramático vivido pelo policial.

“…

Yes I’m stuck in the middle with you,
And I’m wondering what it is I should do,
It’s so hard to keep this smile from my face,
Losing control, yeah, I’m all over the place,
Clowns to the left of me, Jokers to the right,
Here I am, stuck in the middle with you.

Trying to make some sense of it all,
But I can see that it makes no sense at all,
Is it cool to go to sleep on the floor,
‘Cause I don’t think that I can take anymore
Clowns to the left of me, Jokers to the right,
Here I am, stuck in the middle with you

…”

Perdido entre estes personagens, sem controle da situação e sem condições de aguentar mais a tortura, seria bom escapar de tudo “indo dormir no chão”, o que, infelizmente, acabou ocorrendo para ele. Assim, o Tarantino consegue construir o filme de forma que a inserção de poucas músicas ao longo do filme serve para ressaltar, ainda mais, a importância desta cena cujas consequências irão resultar no clímax do filme.

P.S. a importância desta cena está refletida no final deste vídeo através de uma “homenagem”! : )

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau

http://www.twitter.com/tuitedoMau

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4 respostas em “Cinema on the Rocks | Cães de Aluguel

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