Entre Véronika e Véronique

Texto escrito antes da categoria mudar para “O livro é melhor que o filme?”.

* * *

(Este texto é uma breve análise do filme A dupla vida de Véronique. Por essa razão, há alguns spoilers, porque era importante que eles estivessem presentes.)

A dupla vida de Véronique (La double vie de Véronique), direção de Krzysztof Kieslowski, 1991.

Uma infinidade de detalhes, uma série de pontas a serem unidas, duas histórias e nenhuma conclusão. Quem disse que um filme precisa nos dar respostas prontas? Percorrer um caminho sem saber onde chegaremos é a melhor definição para A dupla vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski.

Duas meninas: uma na Polônia, outra na França. Véronika e Véronique. Ambas ouvindo detalhes que aguçam a curiosidade e o encantamento de uma criança. Elas não se conhecem, mas são iguais. Afinal, quem são elas?

Salto no tempo, letreiros de abertura, as vemos como jovens adultas. Kieslowski antecipa a história e vemos o começo da cena do único encontro que acontecerá entre as duas. Elas conversam uma com a outra? Elas se entreolham? Elas se reconhecem? Eis um ponto crucial da história, que será revisto mais para frente e só então ele fará sentido.

Nos primeiros trinta minutos, entendemos a personalidade de Véronika: aquela que continua cantando quando a chuva começa a cair enquanto todos saem correndo, aquela que transa com um rapaz por simples desejo do momento, aquela que canta espontaneamente em um canto da sala enquanto um coral ensaia. Para Véronika, a vida é larga, extensa, ampla. Ela se encanta pelas coisas, ela encanta por ser quem é, ela brilha entre as outras pessoas mesmo sem querer.

Depois, a personalidade de Véronique. Ela também canta, mas para quando Véronika morre. Parece que a partir desse momento, a sua vida toca em um outro compasso. Ela é professora de música, mas dá aulas sem paixão. Transa com um rapaz, mas parece não estar envolvida com ele ou com a situação. Temos a impressão de que a luz que existe em Véronika não existe em Véronique.

A despeito dessas diferenças, há várias semelhanças entre elas. Uma ergue a cabeça para sentir a chuva, a outra ergue a cabeça para sentir o sol. Ambas têm relacionamentos bem próximos com os pais, de afeto, de cumplicidade, de compartilhar sentimentos e acontecimentos da própria vida. Elas passam um anel de ouro no olho quando estão com um terçol. As duas têm uma bolinha de plástico repleta de estrelas.

Nesse momento, pensei nas duas como uma pessoa só. Não uma pessoa com duas facetas de personalidade, mas uma única pessoa e dois caminhos distintos, dois rumos diferentes. Como se pensássemos: “E se eu tivesse nascido em outro lugar?” “E se tivesse estudado outra coisa?” “E se eu trabalhasse em outra atividade?” “E se eu tivesse me apaixonado por outra pessoa?” São possibilidades. É como eu as vejo, duas possibilidades. Véronika é o caminho daquilo que realmente somos. Véronique é o caminho daquilo que nos tornamos, porque deixamos o mundo matar aquilo que somos. E essa mudança é representada justamente pela morte de Véronika.

Isso fica evidente em dois momentos. Véronika diz não se sentir sozinha no mundo. Depois de sua morte, Véronique diz que se sente sozinha. A partir de então, ela teria um único caminho na vida. Quando isso acontece, e não é bem o que queremos, existe solidão maior? Talvez Véronique estivesse reconhecendo a sua própria sentença, de não viver como gostaria.

Quem já assistiu à trilogia das cores − A liberdade é azul, A igualdade é branca, A fraternidade é vermelha − reconheceu a velhinha que aparece duas vezes neste filme. A primeira, para Véronika; a segunda, para Véronique. Ela “liga” as histórias, tanto lá quanto aqui. É o ponto comum, a intersecção para nos mostrar que essas histórias coexistem.

Por fim, o moço das marionetes. Eu o vejo como a metáfora da vida. Queremos tanto ter o domínio dos acontecimentos, mas não o temos. Muitas vezes, a vida caminha à nossa revelia. Controlamos certas coisas, mas outras simplesmente acontecem. Quando ele mostra as marionetes à Véronique e conta a história das duas, isso fica evidente. Além disso, ele mostra como a nossa vida se transforma. A bailarina de pernas quebradas virou uma borboleta. Em algum momento, tudo irá mudar. Ou, quem sabe, vamos nos libertar.

Kieslowski não nos responde quem são Véronika e Véronique. E, quando terminamos de assistir ao filme, tampouco conseguimos responder qual delas somos nós.

Cena de A dupla vida de Véronique. Fonte: Cinemasquid.

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