O tempo de Frances Ha

(Não contém spoilers)

Frances não sabe o que vai ser quando crescer.

Só tem um problema. Ela já cresceu.

Frances gosta de andar pela rua dançando, fazer piruetas na frente dos carros e correr pelas calçadas. Gosta de brincar de luta falsa e bater papo na cama de sua melhor amiga, até a madrugada, enquanto planejam juntas o futuro brilhante que lhes espera. Nada de fazer coisas de “gente grande”, coisas chatas.

Frances Ha. Um hobby? Dançar pela rua como se não houvesse amanhã

Frances Ha. Um hobby? Dançar pela rua como se não houvesse amanhã.

Mas o tempo, ah, sempre ele, não espera por Frances. Nem o tempo, nem o aluguel do apartamento e nem mesmo a melhor amiga, que vai se casar e mudar para um lugar mais bacana e uma vida mais careta.

A chegada da maturidade é um assunto comum no cinema. Aquele momento quando o jovem é obrigado a abandonar seus divertimentos pueris, largar o Hakuna Matata para receber uma carga enorme de responsabilidades, na qual se concentram várias espécies de angústias.  Filmes como Clube dos cinco, que dá nome a esse blog, e Conta comigo abordam essa questão de alguma maneira. Mas a lista pode incluir desde Os incompreendidos  (Les quatre cents coups), de Truffaut, até O rei leão.

Frances Ha é um desses filmes sobre amadurecimento ou, como gostam os americanos, the comming of age. Mas, se o tema é antigo, sua abordagem pelo filme é diferente.

Conforme o tempo passou, as angústias do amadurecimento também mudaram. Em Clube dos cinco, e tantos outros de sua safra, as questões sexuais estavam extremamente relacionadas à maturidade. O relacionamento amoroso, com as suas consequências sexuais, eram o grande muro contra o qual todos os jovens, mais cedo ou mais tarde, se chocariam. Definir-se nesse novo ramo era uma das etapas mais críticas do crescimento. Os filmes refletiam essa difícil situação constantemente. Até o Simba se casa no final do filme, não é verdade?

E esse leãozinho? Vocês acham que foi aquele macaco maluco que trouxe?

E esse leãozinho? Vocês acham que foi aquele macaco maluco que trouxe?

Mas os tempos mudaram e a postura da juventude com relação ao sexo também é, creio eu, muito diferente hoje. Não há mais muro. Há um meio-fio ou, quem sabe, uma mureta. Kids está aí para não me desmentir e Frances, por exemplo, não tem nenhum problema com esse assunto.

Por outro lado, outras angústias surgiram. Dizem que o mundo ficou mais complicado e se encontrar no meio dessa confusão é mais difícil. Mas dizem isso sempre. Deve ser porque o passado é fácil de entender, enquanto o presente é efêmero demais para ser explicado. E Frances, como qualquer personagem de filmes de amadurecimento, precisa descobrir como vai viver o resto de sua vida. Mas, por ora, ela precisa continuar sobrevivendo, o que já tem sido uma tarefa suficientemente complicada.

Por outro lado, outras angústias surgiram. Hoje, crescer demora muito mais. Quem nunca escutou do pai/tio/avô a frase “na sua idade eu já (preencha a lacuna com atividade de gente-grande)”? Provavelmente, o pai/tio/avô também ouviu isso do pai/tio/avô deles. E enquanto não crescem, as crianças adultas precisam sobreviver. Cada uma a sua maneira. Frances precisa encontrar a sua. Não tá fácil pra ninguém.

Há bem pouco tempo, o trabalho era sinônimo de sobrevivência e estabilidade. A pessoa se profissionalizava, entrava em uma instituição e já sabia o dia de sua aposentadoria. De preferência, no meio do caminho encontraria o amor romântico de toda sua vida e poderia viver feliz para sempre.

Sucesso era uma medida de quanto dinheiro você ganhava e quanto estável era sua vida.

Mas o tempo no tempo das crianças adultas, isso já não é suficiente. Sustento já existe na casa dos pais. Os Titãs já profetizavam “que a gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade”. Assim, trabalhar deixou de ser sinônimo de mero sustento, mas tornou-se significado também de realização. Não basta ir ao escritório para colocar comida na mesa. Aquelas horas enclausurado no mundo de ar-condicionado e conversas de cafezinho precisam de um sentido que ultrapasse o mero ganha-pão e preencha a própria existência.

Chaplin descobrindo o verdadeiro sentido do trabalho.

Chaplin descobrindo o verdadeiro sentido do trabalho.

No entanto, achar seu espaço nesse novo mundo, saturado de gente talentosa, não é fácil. E Frances descobre isso aos poucos. Crescemos (uso o plural por ser contemporâneo da protagonista) acreditando que somos especiais e que há um universo pronto para reconhecer nossos talentos. Mas não é bem assim. Nem todo mundo vai virar bailarina de dança contemporânea ou cronista d’O Globo. Além disso, o mundo continua precisando de gente para cuidar de sua burocracia. Até a escola de dança onde Frances estuda precisa de alguém para arrumar aquela-papelada-toda.

No caso de Frances, a situação é ainda mais difícil, pois sua felicidade está associada a gozar de liberdade. Ela gosta de dançar na rua e fazer piruetas, sem ligar para ninguém, lembram-se? Mas, não ligar para ninguém depende de não depender de ninguém. Liberdade assim só se alcança com independência financeira. Ela não é pobre e poderia optar por retornar ao suporte familiar quando as oportunidades não se abrissem. Mas, se muitos hoje se apoiam indefinidamente nos pais para alcançar seu lugar ao sol, criando uma nova geração-canguru, Frances não se permite submeter aos vínculos que decorrem dessa situação. Assim, o mundo encantado dos amigos de Frances, sustentados pelos pais ricos, não é receptivo a quem busca por conta própria fazer seu caminho.

A conciliação entre a busca pela realização pessoal e a liberdade é um processo complicado.  É um mundo “demais”. Rápido demais, novo demais, instável demais e, especialmente, com expectativas demais. Todos acreditam que nasceram para brilhar, mas no céu não tem espaço para tanta estrela. Virar matéria escura é difícil, Sandra Bullock que o diga. E a solução do dilema só pode ser encontrada de maneira individual.

Mas bem que Frances poderia dar umas dicas.

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