‘A Felicidade Não Se Compra’ ou como ser legal

O cineleitor mais cínico e rancoroso vai ficar surpreso, mas houve um tempo em que um filme poderia ter como protagonista um personagem de bom coração.

Em algum lugar da história do cinema, provavelmente durante os anos 60, os personagens cuja principal virtude fosse a boa vontade desapareceram dos filmes. Não sei bem qual a razão para isso, mas possivelmente a preocupação constante dos roteiristas em criar personagens profundos, de caráter multifacetado, não colabora mais para o sucesso de qualquer história de simples boa-fé. No entanto, creio que o grande culpado seja o espectador, que não se encanta mais com narrativas baseadas em gente boa.

Enfim, um espécime de outros tempos, George Bailey, protagonista de “A Felicidade não se compra” é isso tudo que ninguém quer ser. Um cara legal, bonzinho, generoso e altruísta.

“A Felicidade não se compra” (“It’s a wonderful life”, título original bem mais pertinente) é um clássico de Natal. Talvez seja O clássico de Natal. Embora aqui no Brasil a moda não tenha se espalhado, certamente por culpa do especial do Roberto Carlos, nos Estados Unidos, segundo conta Roger Ebert, é comum os canais exibirem o filme na época de Natal, muito em razão de o título permanecido em domínio público por algum tempo.

George Baley

Nos anos 50, o Tom Hanks tinha essa cara.

A história gira em torno do abnegado George Bailey, vivido por James Stewart, ator que representava o bom moço dos anos 40 e 50. Sujeito de espírito aventureiro, George tem sempre suas pretensões de lançar-se no mundo frustradas pela vida e pela sua boa vontade infinita. Na ânsia de ajudar o próximo, acaba preso a sua pequena cidade natal, onde se torna a única personalidade capaz de enfrentar o poderoso Potter, um inescrupuloso magnata local. O personagem vê toda a frustração de sua vida desembocar em um momento crucial, quando, na véspera de Natal, seu tio perde o dinheiro da empresa da família, o que levaria todos à falência. Pressionado, George chega à conclusão que vale mais morto do que vivo e, caso encerrasse sua existência no planeta Terra imediatamente, poderia salvar não só a empresa, como também sua preciosa família.

Essa trama, extremamente maniqueísta, toma ares de um romance de Charles Dickens. O próprio vilão, aliás, poderia ser uma versão do famoso Uncle Scrooge, o tio avarento assombrado pelos fantasmas de Natal em “A Christmas Carol”. Não deixa de ser um exercício curioso imaginar que, logo após expulsar George de seu escritório, o velhaco sovina tenha sido assombrado por algum dos espíritos do natal.

Dessa maneira, a mensagem do filme é bem clara. Seja bom e valorize sua família e seus amigos. São eles que fazem a vida valer à pena e estarão lá por você nos momentos difíceis. Parece inocente demais para o público atual. Mas, descontado todo o cinismo que nos envolve, continua um bom recado, dado de maneira emocionante.

George Baley desesperado

Essa é a cara de George Baley quando descobriu que o Nicolas Cage fez um filme plagiando sua história.

Assim, fica o convite para que o cineleitor aproveite a época de natal e assista ao filme, especialmente se for pela primeira vez. E caso, lá no final, pintar alguma lágrima discreta, não se importe. É o tal do espírito de Natal que te atingiu.

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