Filme 22 | A Viagem

Ficha técnica
A Viagem (Cloud Atlas)
Ano: 2012
Direção: Lana Wachowski, Andy Wachowski e Tom Tykwer.
Roteiro: Lana Wachowski, Andy Wachowski e Tom Tykwer.
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Wishaw, Keith David, James D’Arcy, David Gyasi, Susan Sarandon, Hugh Grant.

Escolhido por: Daniel
Discussão iniciada em: 16/12/2013

Daniel:
Fiquei com uma preguicinha de rever o filme quando ele foi o escolhido, talvez por antecipar que uma análise dele seria difícil, ainda mais uma discussão. Mas enquanto reassistia, fiquei feliz de tê-lo escolhido, já que, para variar, acabei gostando até mais do que quando o vi pela primeira vez, no cinema. Foi de longe o filme que mais gerou anotações no meu bloco (não que eu vá falar sobre todas), até porque eu já tinha visto e já estava preparado para tentar buscar todas as conexões dessa salada cinematográfica.
E vocês, o que acharam? =]

Mau:
Ao contrário, foi o que eu menos consegui tomar notas.
Eu odeio vocês por me fazerem assistir a esse filme. Brincadeira. 🙂
Será que vocês conseguem me fazer mudar de opinião?

Cássia:
Acabei de assistir ao filme e apenas uma frase surgiu para mim: Que filme lindo!
Como eu sabia que o filme é longo, desencanei das anotações. Quis assistir de coração aberto, sem me ater a nada. Para mim, Cloud Atlas é para ser assistido sem qualquer ideia preconcebida, para encontrarmos coerência apenas naquilo que nos é contado. Se entrarmos no mérito religioso e espiritual, deixa de ser cinema e vira outra coisa.

Carlos:
Primeiro, faço parte do time que gostou do filme. […]
Creio que Cloud Atlas depende de várias visitas para ser considerado realmente “assistido”. São muitas histórias acontecendo ao mesmo tempo e milhões de detalhes para serem descobertos.

Banzai:
Primeiro, desculpas ao Mauricio por minha falta de sensibilidade em fazê-lo ver UM ÓTIMO FILME!!! hiuhiuahuiaihuahiua 😀
Já havia visto esse filme no cinema e saí obviamente com um grande “?” na cabeça. Estava doido para chegar em casa e pesquisar na internet a ligação entre os personagens, filosofar sobre, só que obviamente outras tarefas me fizeram esquecer disso. O clube foi uma chance de tentar assistir com mais foco ainda e entender o grande motor do filme. Confesso que falhei miseravelmente […].

ROTEIRO

Daniel:
Não é um filme fácil de acompanhar e os realizadores sabem disso, pois logo no início colocam na boca de Timothy Cavendish as palavras que eles gostariam de falar para o espectador: por mais que não goste de flashforwards ou flashbacks, tenha um pouco de paciência e verá que há uma lógica por trás dessa história maluca. As diferentes linhas do tempo são rapidamente apresentadas e parece que será impossível acompanhar tudo, mas logo o ritmo diminui e conhecemos cada uma delas um pouco mais a fundo, com a ajuda necessária dos letreiros que indicam o tempo e o espaço.
Gosto do fato de não haver uma grande trama principal que mova o filme inteiro, como sempre vemos por aí. Não há aquele um obstáculo que um protagonista precisa superar para melhorar sua situação e viver feliz para sempre com seu interesse amoroso, tendo de obedecer às regras de um roteiro, com seus três atos, pontos de virada e tudo o mais. Está mais para a vida como ela é. Várias histórias pequenas que se entrecruzam, que repercutem umas nas outras e que não necessariamente acabam bem. Há, claro, a recorrência de certos temas que não são exclusivos de determinada época ou espaço: vida, morte, amor, empatia, princípios e luta por um ideal. Além também da recorrência dos mesmos erros cometidos pelo homem, apenas adaptados ao período em que vive: escravidão, violência, opressão e ganância.

Mau:
Acompanhamos a história de um personagem de pele clara e cabelos escuros, frágil e dominado pelo sistema, até que outro personagem aparece, este também de pele clara e cabelos escuros, mas diferindo do primeiro por ser de outro sexo e por possuir total controle da situação. Este personagem sabe tudo o que acontece no mundo. Este personagem possui como missão mostrar a realidade do mundo para o personagem mais frágil, que é escravizado pelo sistema e só está lá para servir de fonte de energia para este mesmo sistema. Uma vez acordado para a realidade, ambos são comandados por um terceiro personagem de pele escura que os lidera na luta armada contra o sistema. Dirigido pelos irmãos Wachowski, este é o grande sucesso…, não, não é o Matrix, agora esta é a trama do A Viagem. E já que é assim, vamos adicionar umas histórias de reencarnação, vidas que se entrelaçam através dos tempos, naves espaciais, cavalos, armas, arco e flecha, …
Acho que isso resume bem o que eu achei da história, um apanhado mequetrefe de histórias paralelas, simplórias, mas que influenciam umas às outras, ficção científica, religião, etc. Apesar de juntas formarem um corpo coeso e a ideia por trás da história ser interessante, na minha opinião ela foi mal realizada, pois é um filme que tenta ser tudo e, no final das contas, só consegue ser um filme mediano.

Cássia:
O filme começa com um contador de histórias. O filme é isso: histórias. As nossas histórias, as histórias dos outros, as nossas com as dos outros. E como elas são construídas através do tempo e dos tempos. Mesmo que não houvesse a reencarnação como mote da passagem entre as épocas, bastaria mudar para “ascendência” e “descendência”. Hoje nós vivemos o que construíram antes de nós e o que estamos construindo ficará para quem está chegando. Quem constrói a História não são os grandes nomes. Foram os nossos bisavós e serão os nossos netos. Os nossos amigos, os nossos vizinhos, os nossos amores. Todos nós ligados por uma tênue linha. Há uma frase linda da Simone de Beauvoir que ilustra bem isso: “Não há uma pegada do meu caminho que não passe pelo caminho do outro”.

Daniel:
A citação da Simone de Beauvoir é bem apropriada. Me identifico bastante com isso por ser fissurado em viagens no tempo. Invocando um pouco meu lado nerd na discussão, comecei a assistir a Doctor Who nos últimos meses, e alternar episódios da série com esse filme mexeram ainda mais com a minha percepção das coisas. Parece besta, mas causa uma sensação realmente intensa de perceber algo novo numa coisa que sempre esteve na nossa cara, quase uma epifania.

Cássia:
Em relação ao roteiro, Daniel, essa regra dos três atos é a clássica, por assim dizer. Mas a estrutura aristotélica tem dado lugar à estrutura criada por Robert McKee, que, falando de maneira simplificada, trocou os atos por hook, hold e payoff. Conte uma história em quantos atos você quiser, desde que siga esse método.
[PAUSA: Há uma explicação sobre essas diferenças na aula 5 da primeira unidade do curso The Future of Storytelling. Bacana é fazer o curso todo, eu terminei hoje e é excelente. Mas, voltemos.]
É o que acontece em Cloud Atlas. Não há o grande problema a ser resolvido, mas existem as mudanças: são os encontros. No barco, o encontro entre o branco aristocrata e o negro escravo. Na Escócia, entre o músico novato e o músico famoso. Em San Francisco, entre a jornalista e Tom Hanks de peruca loira. Na Inglaterra, os velhinhos no asilo. Em Seul, a moça inexpressiva e o seu salvador. E no local sem nome, o Tom Hanks e a Halle Berry. Nenhum encontro foi em vão: todos trouxeram pequenas mudanças, mas que deram um outro rumo a vida dessas pessoas. O aristocrata que virou abolicionista, a realização de uma grande obra musical, a revelação da história do petróleo, os velhinhos seguindo a própria vida, as coreanas quase sendo salvas e o final, Tom e Halle construindo finalmente uma “casa” e uma grande família. Mas como estamos acostumados aos grandes feitos, parece quase nada. Mas são esses quase nada que mudam a vida da gente.

Daniel:
Cássia, se essa estrutura de roteiro [do Robert McKee] é o futuro do Cinema, mal posso esperar.
[PRECISO separar um tempo para fazer esses cursos bacanas que você sempre indica pra gente. rs]
Cloud Atlas consegue ser drama, comédia, romance, ficção e policial, tudo ao mesmo tempo e de forma bem-sucedida, adaptando a fotografia e o tom da narrativa de acordo com cada gênero. Comparem, por exemplo, o tom e a atmosfera mais cômica de 2012 (o editor Cavendish e sua fuga do asilo), e o tom de urgência de 1973 ou 2144 (Luisa Rey descobrindo uma conspiração para explodir uma usina e Sonmi fugindo com Hae-Joo, respectivamente).

Mau:
Isso é verdade, não havia reparado. Como digo mais adiante, tirando a maquiagem, a parte técnica consegue quase uma nota perfeita.

Daniel:
E é por isso que, gostando ou não, é preciso reconhecer que o filme é ambicioso e corajoso. Ainda mais por colocar o queridinho de Hollywood (e um dos meus atores favoritos), Tom Hanks, em nada menos do que quatro personagens de moral duvidosa, além de matar um quinto personagem dele precocemente. Novamente, é de se admirar.

Carlos:
Destrinchando um pouco mais a narrativa, percebi que apesar de serem seis histórias, todas estão vinculadas à libertação. Há o escravo, obviamente preso. Em seguida o compositor novo, preso na casa do compositor velho. Depois Halle Barry, como jornalista, presa dentro do seu fusquinha afundando no oceano. Nos tempos atuais, o editor fica preso naquele asilo-prisão. No futuro, Sonmi, presa na usina de fazer carne humana. E, por fim, Tom Hanks, preso na ilha estranha.
O segundo tema universal, que permeia todas as tramas, é o amor. E como disse a Cássia, foi belíssima a maneira que eles resolveram abordar o amor, porque escapa das amarras de amor monogâmico heterossexual. Creio que uma das lições do filme é que o amor pode surgir de várias maneiras. E ele é a força libertadora do filme. O amor entre o escravo e o advogado abolicionista, o amor gay entre Frosbisher (o compositor novo) e Sixsmith, e o amor quase paternal deste, anos depois, para com a jornalista. E por aí vai.
Em oposição ao amor, há sempre o censor, encarnado, literalmente, no Hugo Weaving. É interessante como essa questão da obediência à norma é, na maior parte das situações, um elemento de prisão. O capeta que atentava o Tom Hanks-das-selvas não passava nenhum conselho ruim. Ele apenas era uma espécie de superego atuando como uma voz conservadora. E, por isso, destrutiva.
Esses são os grandes temas do filme para mim. Prisão e amor. Mas ainda há mais uma coisa, para a qual a Cássia chamou a atenção. Esse é um filme que mostra como os pequenos acontecimentos têm repercussões incalculáveis. Não é uma história de grandes homens e grandes conquistas. É uma história de pessoas comuns, em atos comuns que ganham ares de épicos. O maior símbolo disso é Sonmi, que passa de garçonete robótica a deusa.
É curioso, aliás, que esse tema seja abordado pelo Tom Tykwer, o mesmo roteirista e diretor de Corra, Lola, Corra. Lá ele acompanhava, quase que em tempo real, como pequenos detalhes influenciavam decisivamente uma situação específica. Aqui, pequenas atitudes modificam a estrutura da sociedade inteira.

Mau:
Provavelmente todos vão falar sobre a marca do cometa, que deve representar a mesma alma que reencarna indefinidamente, mas algo que o filme realiza de maneira muito interessante é a forma com que essas almas passam por provações para atingir a “iluminação”. Não sei se isso está no livro que deu origem ao filme, ou se foi acerto dos roteiristas, mas alguns personagens portadores da marca do cometa sempre atravessam uma ponte, na qual eles precisam passar por uma provação. A ponte é um simbolismo para um rito de passagem, seja esta da terra ao céu, de um estado de ser para outro, etc., etc., etc.
– No caso da jornalista temos a primeira ponte, quando ela sofre o atentado que a faz se conectar mais com o falecido pai de forma a não se entregar e expor a conspiração que ela acabara de descobrir;
– No caso da versão feminina do Mr. Anderson, temos as diversas pontes que eles usam para fugir dos perseguidores;
– E por fim, no caso do pastor futurista, temos a ponte na qual ele e a visitante têm de se esconder para fugir da outra tribo.
Mas posso ter viajado um pouco mais e “enxergado” algumas pontes metafóricas também:
– No caso do advogado, sua ponte é o navio que liga o lugar em que se explora os escravos até sua terra natal. Nesse caminho ele vai sofrer nas mãos do médico da tripulação e caminhar para se tornar uma pessoa melhor lutando pelos direitos dos escravos;
– No caso do compositor, sua ponte são as cartas que o unem ao seu amante, enquanto sofre nas mãos do compositor mais famoso;
– No caso do editor de livros temos o trem que o separou de sua namorada e que o levou até o asilo no qual ele precisaria lutar para escapar e reencontrar o amor da sua vida;
– E outra com o pastor futurista, quando eles estão separados pela corda durante a escalada e o pastor tem que lutar contra seus demônios internos para salvar a vida da visitante.

Banzai:
[Sobre as pontes] Juro que foi tudo novidade para mim! Ótima observação! 😀 mas será que em vez de ponte, não seria “porta”? Assim como a Sonmi fala de portas, poderíamos converter tudo em porta! huauha

Cássia:
Mauricio, eu prestei atenção no cometa, mas não havia associado com a mesma alma. Mas por uma razão: antes de assistir ao filme, eu peguei um esquema com todos os personagens e os períodos em que eles se situam. Sendo assim, eu sabia que a Halle Berry em San Francisco não era a mesma Sonmi em Seul, são almas diferentes. Pelo menos foi o que entendi. Por isso eu fiquei perdida com essa ideia do cometa, mas gostei muito dessa metáfora, da associação da ponte e o rito de passagem. Eu teria de assistir de novo para perceber isso.

Carlos:
O cometa e as almas. Não creio que o cometa simbolize reencarnação, mas sim que aquele personagem é o que altera a cadeia de eventos do movimento seguinte. O advogado escreve o diário e salva o escravo. O compositor compõe e inspira o físico. A jornalista salva a pátria, o editor faz o filme. A Sonmi vira deusa e o Hanks-do-mato salva a pátria.
Já as pontes citadas pelo Mauricio foi uma imagem que eu não tinha reparado. Coisa linda. Só tenho algumas colocações. Na história do Hanks-do-mato, eles cruzam uma ponte e se salvam do Hugh-Grant-Canibal quando se escondem debaixo dela.
Na história do escravo não creio que exista uma ponte metafórica, mas um trocadilho. O barco tem uma “ponte de comando”, não? Nos barcos antigos era onde ficava o leme, no convés. É lá que o escravo resolve fazer o show-off na vela.
A história do compositor começa com um romance entre universitários de (tchanam!) Cambridge.

Mau:
Essa foi interessante, e nessa história eu realmente não havia identificado muito bem a ponte e esse detalhe me fez ver que eu, talvez, não esteja viajando tanto assim. 🙂

Carlos:
E no caso da história do editor eu não achei a ponte. Talvez aquele trem passe por uma ponte. Talvez ele vá para Cambrige. Ou talvez o pessoal do asilo-prisão tivesse jogando bridge em algum momento que eu mosquei.

Mau:
Pois então, nestes dois casos eu associei a “ponte” ao barco e ao trem, pois assim como uma ponte, os dois meios de transporte ligam duas localidades distintas.

Daniel:
Muito boa a análise dos cometas que vocês fizeram. Era uma das dúvidas que eu tinha pra colocar. Desde as pontes do Mauricio até o Carlos falando que o portador da marca é quem muda a história do seu tempo. Só discordo que as marcas representem reencarnações, pois estas ficam bem estabelecidas com a reutilização de atores.

PERSONAGENS

Banzai:
O filme tem N histórias que se interligam, N personagens que se encontram e reencontram. Há três tipos de personagem: bonzinhos, Hugo Weaving e Tom Hanks. Os bonzinhos se encarregam de demonstrar coisas boas, amizade, amor, já a galera da maldade está ali só pra demonstrar as dificuldades e o Tom Hanks para demonstrar que apesar de tudo estar ligado e blá-blá-blá, ainda podemos nos desprender de nossa ganância para fazer algo bom. E acho que por isso ele é o narrador, deveríamos nos identificar com ele, já que somos gente comum sem a bendita marca de cometa em alguma parte do corpo (tô ligado que vocês estão com espelhinhos procurando em tudo quanto é parte). Ao assistir pela segunda vez, pude notar muitas coisas novas, pude notar inclusive que já caminhei por um dos locais filmados, o monumento (The Scott Monument) onde o Frobisher se esconde do Sixsmith em Edimburgo. 😀
A história de amor dos dois é bem cativante, por sinal, justamente por ser à distância e tão poética, creio que foi opção do roteiro colocar a maior história de amor sendo entre duas pessoas do mesmo sexo, talvez por estarem cansados do “de sempre” ou para chamar mais atenção ainda.

Daniel:
O Tom Hanks parece ser o que mais se diverte com seus personagens, e Zachry é um de meus favoritos justamente por escapar da óbvia polarização bonzinho-malvado. Logo no início, quando ele abandona o cunhado e o sobrinho para a morte, tendemos a vê-lo com desprezo, como um covarde, mas com o tempo fica claro que ele é apenas um ser humano, com qualidades e defeitos, que errou ao seguir aquela voz no fundo da nossa cabeça (Georgie), aquela voz instintiva, de auto-preservação, que combate novas ideias e novas visões de mundo com todas as forças em nome do conservadorismo.
A ideia de utilizar os mesmos atores para formar casais ao longo da história, mesmo que infantil, me emociona e agrada bastante. E fiquei surpreso ao descobrir, só com a ajuda dos créditos, que Doona Bae e Jim Sturgess (ator subestimado de quem gosto muito) formam um casal até mesmo como os pais de Megan, sobrinha de Sixsmith (Sturgess é o irmão de Sixsmith). Doona Bae que, para mim, é o elo mais fraco do filme. Inexpressiva demais para o papel importante de uma deusa. Não sei se foi proposital pela natureza de Sonmi, mas ela não cativa. E, apesar de gostar da ideia de reutilizar os atores, a qualidade da execução da ideia é muito inconstante por causa da maquiagem.

Cássia:
Eu gosto especialmente como o amor é tratado e dos casais formados, e não vejo nada de infantil nisso. Foi coerente com a proposta do filme. Aliás, acho inteligente utilizar os mesmo atores, porque imaginemos esse filme com atores diferentes para cada personagem, mas com essa ideia de reencarnação, ou até de mesmos personagens. David Lynch faz essas coisas e, bem… Quem o entende?

Daniel:
Sobre a reencarnação dos mesmos casais ser infantil, me expressei mal. Quis dizer que acho que muita gente deve achar infantil, mas eu mesmo gostei muito e acho que funciona, como coloquei em seguida.
Falei antes que a escravidão permeia o filme, e que coisa linda é a química entre o escravo Autua e Adam Ewing, uma das minhas relações favoritas. Ewing sabe que “deve” ser um escravista (it’s only logical), mas inconscientemente ele sabe que é um abolicionista, e Autua dizer que vê a amizade nos olhos dele me pegou. Autua não é o pobre escravo incapaz que é salvo pelo branco bonzinho. Ele tem personalidade, caráter e é um personagem forte. Já viu muito do mundo para ser escravo, como ele próprio diz, o que faz um contraponto interessante à submissão da escrava Sonmi.

Carlos:
Mas eu entendo [que o filme tenha sido injustiçado pelo público]. Não creio que seja pelas várias idas e vindas do roteiro, uns milhões de flashbacks e flashfowards. Isso é o que pretenderia o público. A maior dificuldade, creio eu, seja em encontrar, entre tantas tramas, personagens de identificação. O filme é costurado por várias histórias e a narrativa não chama atenção para nenhuma em especial. Por isso, ficou difícil o espectador encontrar aquele personagem-para-chamar-de-seu.

Mau:
Concordo, e esse pode ser um dos problemas.

Carlos:
Isso me leva a um último questionamento. Sei que são seis histórias e cada uma delas tem sua importância. Mesmo a menor delas, que se passa no asilo. Mas há uma história principal? Um protagonista da narrativa? Eu creio que sim e acho que é o Tom-Hanks-das-selvas. Ele é o personagem que mais muda no filme. Ele se livra do capeta, literalmente.
Mas deixo a resposta para vocês.

Banzai:
Acredito que a história principal seja dele também, por narrar. Mas como ele sabe de todas as outras?! Fiquei pensando nisso agora…

Daniel:
Discordo do Banzai e do Carlos. Não creio que o Zachry seja o principal. Vários personagens narram suas histórias em algum momento, ele não é o único narrador. Acho que essa impressão acontece porque é ele quem abre e fecha o filme, por ser a linha do tempo que vem depois de todas as outras. Não acho que ele estava narrando a história de todos para as crianças. Ele narrou apenas a dele e, justamente para reforçar que certos acontecimentos, comportamentos e sentimentos estão presentes em qualquer época, apenas o espectador acompanha as histórias intercaladas.

MONTAGEM

Mau:
Mas meus problemas foram só quanto a história. Eu consegui encontrar virtudes ao longo do filme também. A interpretação dos atores ao longo das vidas foi muito bem estruturada e realizada, mas uma coisa que chama a atenção no filme é a montagem. O filme imprime um ritmo alucinante desde os primeiros minutos e, alternando constantemente entre as histórias, em nenhum momento deixa o espectador perdido sobre o que (e quando) está acontecendo determinada ação.

Cássia:
Gosto da maneira como a montagem, a fotografia e a direção de arte nos situam no tempo. Eu não fiquei perdida em momento algum. Conseguia me achar, acompanhar as histórias, entender as conexões que os personagens tinham no passado e no futuro.

Banzai:
Realmente, não havia notado isso, mas não há dificuldade nenhuma de se situar quando havia uma transição de história, e tudo isso graças ao que você citou: montagem, fotografia e direção de arte, impecáveis!!!

Daniel:
A montagem do filme deve ter sido um pesadelo, e acho que o resultado final ficou digno, com diversos clímax acontecendo lindamente em paralelo. Além de já ser algo complicado de se fazer, costuraram várias transições com raccords inspiradíssimos, tanto sonoros quanto visuais e até temáticos, por assim dizer. Não deve ter filme melhor para se utilizar raccords do que aquele cujo slogan diz “Tudo está conectado”.
E tudo realmente está conectado: Adam Ewing escreveu um diário em 1849, que foi lido por Robert Frobisher em 1936 enquanto ele compunha uma sinfonia e escrevia para Rufus Sixsmith. Luisa Rey conhece Sixsmith velho em 1973 e tem acesso às cartas quando ele morre de forma semelhante ao seu amante, e através das cartas ela conhece a sinfonia Cloud Atlas, tudo isso enquanto tenta resolver o caso da usina. O amigo dela, Javier Gomez, escreve um livro lançado em 2012 baseado na história de Rey. O livro é lido por Timothy Cavendish, que escreve o próprio depois de escapar do asilo e se reunir com Ursula. Seu livro ganha um filme (o sexto e último personagem de Tom Hanks interpreta Cavendish) que é visto por Sonmi em 2144. Pra terminar, Sonmi vira uma deusa para o povo de Zachry depois d’A Queda.

Banzai:
Ótimo resumo!!! Me ajudou com a cronologia dos pensamentos rsrsrs. Desses eu não havia captado o livro do Javier.

Cássia:
Concordo sobre os raccords. Lindo de ver, nossa! Aliás, que aula de montagem! Ainda não assimilei a qualidade da montagem, sério mesmo.
Não vou me aprofundar nos detalhes, e nas ligações entre as histórias, porque vocês já fizeram isso muito bem. Esse filme daria uma bela dissertação de mestrado: tem material para analisar por muito tempo!

Carlos:
Os motivos de eu ter gostado são os já colocados por vocês. A montagem do filme é algo tão impressionante que chega a ser irritante. Como colocaram o Daniel e Cássia, são tantas rimas, tantos raccords que para analisar eu precisaria assistir ao filme mais umas quinze vezes.

TRILHA SONORA

Lucas Lago:
Não consegui evitar de comentar…
A parte que mais me impressionou foi como a trilha acompanha essa ideia central do filme, sempre retrabalhando os mesmos temas. Da mesma forma que o filme sempre retoma a mesma temática em sua narrativa, a trilha faz o mesmo em todas (ou praticamente todas) as músicas.
Sempre com alguma nota diferente – mais divertida, mais densa, mais romântica –, mas sempre ao redor de dois temas centrais.
Desculpa não participar sempre, e quando participar colaborar com tão pouco… mas como ninguém tinha falado isso, resolvi destacar.

Carlos:
Bem observado. Acho que você deveria participar sempre.

MAQUIAGEM

Mau:
Agora uma coisa digna de nota no filme (negativa, diga-se de passagem) é a maquiagem.

Daniel:
Algumas ficam extremamente boas, como o Sixsmith velho, o Dr. Henry Goose e Old Georgie, mas não dá pra engolir a versão asiática do Hugo Weaving ou o resultado final da Tilda, por exemplo.

Mau:
No geral as maquiagens são extremamente caricatas, e em alguns casos ela consegue ser ainda ridícula, como quando somos apresentados a um Hugo Weaving coreano : / (como o Daniel também comentou).

Cássia:
Também concordo sobre a (má) qualidade da maquiagem. Não só, a caracterização também, algumas perucas ali eram de doer.

Banzai:
Confesso que também achei feias, mas achei elas propositais. Para que pudéssemos conectar as “almas” dos personagens viajando pelo tempo, teríamos que reconhecê-los e uma forma fácil foi essa maquiagem tosca. Hugo Weaving coreano me lembra um outro filme, o novo Anjos da Lei, que tinha uma imagem de Jesus Coreano rsrsrs.

CONCLUSÃO

Carlos:
É, enfim, um filme de dimensões épicas, que para mim foi extremamente injustiçado pelo público (e pelo Mauricio 😉 ).

Mau:
Gentes, eu falei antes e repito, a parte técnica do filme (raccords, rimas, montagem) é impecável. Até a ideia por trás do filme é excelente, como vocês mesmo colocaram bem. Meu problema é com o jeito como ele foi executado e com as histórias escolhidas para isso.
Para mim, esse filme e Nosso Lar disputam cabeça a cabeça. E vou mais além com relação às histórias dizendo que os irmãos Wachowski foram tão preguiçosos que não se deram nem o trabalho de inventar uma história original na parte futurista, puxa, eles reciclaram a trama do Matrix!!!

Daniel:
Mauricio, eles reciclaram uma história do Matrix mas criaram outras cinco no mesmo filme. 😉
E, de qualquer maneira, não vejo essa reciclagem como falta de originalidade. As propostas dos filmes são diferentes, então eu não me incomodo com isso (até porque não tinha notado as semelhanças). Sem querer ser chato, mas talvez o fato de você já ter ido esperando algo-ruim-dos-criadores-de-Matrix tenha atrapalhado a experiência. Não que seja inadmissível não gostar do filme, pelo contrário, eu entendo quem não goste, é só uma hipótese. Mas o lado bom depois da tortura é poder falar mal do que não gostou hehe.
As histórias são mequetrefes mesmo, mas acho que essa é a questão que todos comentamos: são histórias pequenas porque as nossas histórias também são, e no fundo são elas que importam e convergem em histórias maiores que mudam o rumo das coisas.

Carlos:
Creio que esse será um daqueles filmes reconhecidos tardiamente. Daqui a uns vinte anos vão fazer uma lista e dizer que esse foi o GRANDE filme do início do século, que ninguém prestou atenção.

Daniel:
Carlos, também acho que o filme será reconhecido mais pra frente, porque hoje dá até dó. O que tinha de gente reclamando no cinema não é brincadeira. Quando o filme acabou, uma turma de meia dúzia de jovens chegou a virar para um outro e comentar: “Nunca mais deixamos você escolher o filme!” haha. Curiosamente, o Pablo comentou sobre o reconhecimento tardio de outro filme dos Wachowski, Speed Racer, e concordo com ele nesse caso também.

Mau:
Se a Cássia achou uma tortura o Dr. Fantástico, veja pelo lado bom, pelo menos ele era curto, Cássia. Eu passei batido por esse filme no cinema depois de ver o trailer, e vejo que não sairia feliz do cinema se tivesse ido na época. Esse sim teria sido uma tortura, e longa. 🙂

Cássia:
Mauricio, eu havia imaginado que assistir às três horas desse filme seria uma tortura para você. Especialmente porque você não queria assisti-lo. Pense no lado bom: já passou! Hehehehe.

DETALHES

Carlos:
Espero que no futuro eles lancem alguma edição recheada de extras sobre o filme, porque o Blu-ray atual não trouxe muita coisa. Creio que em razão do insucesso do filme.

Daniel:
Puxa, peguei o Blu-ray de A Viagem umas semanas atrás justamente pra ver os extras e descubro agora que tem pouca coisa. Uma pena. =/
Dois detalhes sobre os quais fiquei em dúvida e não encontrei resposta:
– Não entendi se o fato de a parte que faltava do diário de Ewing estar calçando uma mesa é importante ou não.
– O que teria sido A Queda? Talvez eu tenha deixado escapar alguma explicação oculta, mas fiquei curioso pra saber como a humanidade chegou no estado em que vemos o povo de Zachry, com dialetos diferentes, monumentos antigos cobertos de vegetação e tudo mais. Até cogitei que tivesse algo a ver com a inundação de Seul comentada por Hae-Joo, mas não acho que tudo sumiria assim tão fácil.
Por último, um detalhe que gostei muito: a cena do sonho em que Sixsmith e Frobisher quebram a fronteira entre barulho e som e fazem música estraçalhando porcelana. Muito lindo de ver.

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