Romeu e Julieta

“Romeu e Julieta não é nem a melhor nem a mais consagrada das obras de Shakespeare, porém poucos contestarão que seja − e merecidamente − a mais amada.” (Barbara Heliodora)

Livro: Romeu e Julieta (Romeo and Juliet), William Shakespeare, trad. Barbara Heliodora, Editora Saraiva.
Filme: Romeu e Julieta (Romeo and Juliet), direção de Franco Zeffirelli, 1968.

William Shakespeare nasceu em 26 de abril de 1564, há exatos 450 anos, e eu quis aproveitar a data para celebrá-lo de alguma maneira. Escolhi o meu texto mais querido, aquele relido tantas vezes que perdi a conta.

Todos conhecem a história sem final feliz: de duas famílias inimigas, Montecchio e Capuleto, nascem dois amantes, Romeu e Julieta. Contada e recontada de mil maneiras, escolhi a minha adaptação preferida, a de Franco Zeffirelli.

Quem guarda um imenso amor pela palavra dificilmente se decepciona ao ler Shakespeare. As histórias são muito bem-construídas, mesmo as medianas, e os diálogos são pérolas da literatura. Há passagens inteiras que valem isoladamente e que podem ser lidas e relidas sem enjoar.

Em “Romeu e Julieta”, as melhores passagens saem dos lábios de Julieta, Romeu, Mercúccio e Frei Lourenço. Suas palavras lidas em silêncio − ou em voz alta, afinal, elas foram escritas para isso − nos tocam de alguma maneira. Seja pelo amor de Julieta e Romeu, pela sagacidade de Mercúccio ou pela sabedoria de Frei Lourenço.

Além disso, a história não tem pontas soltas: Romeu suspira por Rosalina, prima de Julieta, e isso o leva à festa dos Capuleto em que ele conhece a sua nova amada; quando Frei Lourenço aparece pela primeira vez, fala sobre uma determinada flor e é dela que ele extrai o que simulará a morte de Julieta; e esses são apenas dois exemplos.

No final, há uma série de desencontros e fatalidades que leva os dois amantes ao suicídio. Sabemos que ambos morrem, mas como isso acontece é o que nos angustia. O tempo todo nós pensamos: “Poderia ter sido diferente”. Mas não foi.

Passemos ao filme. Rodado nas ruas de Verona, fiel à época, nos sentimos como habitantes daquela cidade, mas sem precisarmos escolher um lado para torcer.

Mesmo com alguns cortes e várias diminuições, as falas foram mantidas do original. As cenas de disputa foram ampliadas e há momentos em que parecem não terminar nunca. Mas compreendo as escolhas do diretor: longos monólogos nem sempre funcionam no cinema e as brigas são o pano de fundo do ódio entre as duas famílias.

Os atores principais, Leonard Whiting e Olivia Hussey, estão perfeitos. Eles poderiam facilmente cair na pieguice, mas não o fazem. Acreditamos no amor que sentem e na angústia que os afligem, e é exatamente isso que os papéis pediam.

iOlivia Hussey e Leonard Whiting em cena de “Romeu e Julieta”.

Se por um lado as adaptações cinematográficas de peças teatrais se beneficiam da estrutura já existente − as cenas e as falas −, por outro, muitas caem no erro de filmar teatro. E é justamente aqui que o filme se perde em alguns momentos.

O teatro é o espaço da amplidão, o cinema é o lugar do detalhe. No primeiro, mesmo um pequeno gesto tem um sentido maior, pois é preciso que todos da plateia entendam o que está acontecendo. No segundo, mesmo o deserto está diante de nós, praticamente no nosso colo. Não é preciso muito para ficarmos cara a cara com os acontecimentos.

No filme, há aspectos exclusivos do teatro. Chorar fazendo muito barulho, por exemplo. Sem falar nos gritos, como se estivéssemos sentados na galeria de um teatro municipal. Ou algumas falas que passam despercebidas, como Julieta dizer “Oh, barulho!” quando acabamos de ouvir uma cavalaria. Bastava ela demonstrar sua apreensão no seu semblante, não precisava nos dizer.

Por outro lado, há cenas lindas, de assistir e pensar: “Isso sim é cinema!”. Quando Romeu e Julieta se conhecem, durante a festa na casa dos Capuleto, eles se interessam um pelo outro em plena dança. Depois, eles se buscam com o olhar em meio aos convidados até que Romeu a puxa de canto e ambos conversam quase sussurrando. Enquanto isso, um rapaz canta em plena festa a clássica música composta por Nino Rota: “Uma rosa desabrochará e depois murchará. Também um jovem e também a mais bela das donzelas.” É lindo assistir ao nascimento do amor dos dois enquanto alguém nos diz: “Não se encha de esperanças, em breve, esses dois vão morrer”.

Embora essa história pareça exagerada aos nossos olhos, é preciso reconhecer o seu caráter transgressor. Há quem esqueça que, um dia, relacionamento e amor não caminhavam de mãos dadas. Amar e viver um amor era revolucionário. Era seguir o próprio destino, tomar as rédeas da própria vida, escolher o que se quer. Julieta pediu Romeu em casamento, não aceitou o matrimônio imposto pelo seu pai, aceitou forjar a própria morte para viver feliz ao lado de quem amava. Romeu não questionou o que seria de sua vida depois de se casar com a única filha do grande inimigo de seu pai. Pensando bem, ainda hoje, amar é para os corajosos.

Mesmo depois de quatro séculos, ainda falamos de Romeu e Julieta. Porque esses dois amantes de Verona também somos nós.

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2 respostas em “Romeu e Julieta

  1. Acho que foi o Paulo Autran quem falou que o cinema é a arte do diretor, o teatro a do autor e a TV a arte do anunciante.
    Bom, a TV de hoje mudou um pouco, mas é assunto para outro lugar.
    A questão é como a linguagem do cinema e a linguagem do teatro são diferentes. Não tenho grande experiência com o teatro. Mas sempre que assisto a alguma peça, acho que os atores estão super valorizando tudo. Acostumado que estou com a sutileza da interpretação do cinema, feita no plano detalhe da câmera, esqueço que a atriz de teatro precisa deixar clara sua emoção para a espectadora míope da última fila.
    Maravilha de texto, Cássia! Deixou clara a percepção entre linguagens e ainda me avivou a vontade de assistir a Romeu e Julieta.

    • Carlos, eu fiz teatro por cinco anos e um dos meus professores, que também dirigiu uma peça que participei, dizia: “Sabe aquela senhorinha sentada lá na última fileira da plateia? Ela tem dificuldade de audição. É para ela que você falará”. Tão acostumado com o cinema, imagino como o teatro é meio histriônico para você, mas quem sabe daqui em diante tudo não pareça tão exagerado assim. =]
      Assista sim ao filme, é uma linda adaptação. E se você um dia se empolgar com adaptações cinematográficas de Shakespeare, assista ao “Hamlet” de Kenneth Branagh. São quatro horas de filme, mas que valem a pena.

      Grande beijo.

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