O grande Gatsby

(Não há spoilers no texto, não acabarei com a graça de ninguém.)

* * *

Livro: O grande Gatsby (The Great Gatsby), F. Scott Fitzgerald, Editora Landmark.
Filme: O grande Gatsby (The Great Gatsby), direção de Baz Luhrmann, 2013.

Se adaptar um livro para o cinema é um desafio por si só, adaptar um clássico da literatura de um país é mexer em um vespeiro.

O nosso grande clássico é Dom Casmurro. Mesmo quem não leu o livro de Machado de Assis conhece a eterna questão: Capitu traiu ou não Bentinho? Em 2008, Luiz Fernando Carvalho dirigiu a minissérie Capitu e foi alvo de diversas críticas, e a obra era belíssima. Duvido que seria diferente com outro diretor.

Nos Estados Unidos, é O grande Gatsby. Escrito por F. Scott Fitzgerald e publicado em 1925, conta a história de um grupo de pessoas ricas e influentes de Nova York. Desde seu lançamento, foram cinco adaptações cinematográficas e eu analisarei apenas a última, dirigida por Baz Luhrmann.

Capa da primeira edição de O grande Gatsby.
Fonte: Bauman Rare Books.

O livro não é considerado um clássico à toa: é um primor da literatura. Bem amarrado do começo ao fim, o autor vai inserindo detalhes, ações e diálogos que ajudam a construir o mito Gatsby e a desconstruir aquelas pessoas consumistas e fúteis. Preconceito de classe, racismo, questões morais e éticas. Está tudo ali, sob o véu de uma vida desregrada e cheia de luxos.

Além disso, as descrições de F. Scott Fitzgerald saltam aos olhos. Pela primeira vez li descrições de personagens com tamanha profundidade. Não falo de características físicas ou psicológicas, mas de uma poesia que poucos escritores conseguem utilizar. “Era o tipo de voz que o ouvido segue para cima e para baixo, como se as palavras fossem um arranjo de notas que jamais seria tocado novamente”, diz ele sobre a voz de Daisy. E assim é por todo o livro.

Cartaz do filme O grande Gatsby.
Fonte: Divulgação.

Em relação ao filme, o estilo do diretor Baz Luhrmann é um velho conhecido para mim, pois já havia assistido a Vem dançar comigo, Romeu + Julieta e Moulin Rouge. Não só, eu sou uma fã do seu trabalho. Aquela opulência visual tão característica, as cores, a dança, a música, a direção de arte impecável. Não é possível imaginar a festa na casa de Gatsby nas mãos de outro diretor. Infelizmente, para por aí.

A adaptação é fiel ao texto original, mas os diálogos e as inferências tão importantes no livro desapareceram no filme. Continuamos vendo um grupo de adultos mimados e irresponsáveis, mas perdemos os diálogos que nos mostram quão preconceituosas e classistas aquelas pessoas são. Mas o pior vem agora: transformaram O grande Gatsby em uma história de amor. Sim, o amor está presente. Sim, há uma história mal resolvida ali como base da narrativa. Mas não é isso que nos conduz.

Por isso, quando chegamos ao fim do filme, essa escolha pela história de amor em detrimento às críticas feitas àquela sociedade enfraquece o seu desfecho. Era para nos compadecermos por uma coisa e nos entristecemos por outra. Seria coerente se a adaptação cinematográfica não tivesse seguido o livro à risca. Além disso, a fidelidade ao livro comprometeu o ritmo do filme. Em alguns momentos, ele se torna arrastado e um dos grandes acontecimentos perde um pouco do seu impacto.

Será que o resultado teria sido outro se o filme não fosse tão fiel ao livro? Eu penso que sim, mas a força desse clássico sempre irá se impor qualquer seja a adaptação.

Não preciso escolher entre um e outro, mas dessa vez eu ficarei com o livro. Desculpa, Baz Luhrmann. Se eu disser que o meu amor por você continua imenso, tudo bem?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s