Filme 20 | Dr. Fantástico

Ficha técnica
Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb)
Ano: 1964
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George
Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens, Peter Bull, James Earl Jones, Tracy Reed

Escolhido por: Mauricio
Discussão iniciada em: 02/09/2013

ROTEIRO

Mau:
O filme é uma crítica ao belicismo e ao imperialismo dos EUA, e os americanos são constantemente retratados como paranoicos, fundamentalistas religiosos, loucos. E por ser uma comédia, é calcada em artefatos caricatos, como:
– o Dr. Strangelove e sua mão com vida própria;
– as falas ao longo do filme: “Não podem brigar aqui, essa é a sala de guerra!”;
– alguns detalhes como a frase “A Paz é a nossa profissão” espalhada por toda a base do general Ripper;
– os nomes dos personagens: general Ripper (ceifador, como também é conhecida a Morte em inglês), coronel Bat Guano (ou coronel Cocô de Morcego), presidente Merkin (bom, melhor ver por você mesmo: merkin).

Banzai:
Achei que também tira sarro do $$$ que os EUA gastam enquanto a Rússia opta pelo mais simples. A Máquina do Apocalipse era a alternativa mais barata enquanto os EUA tinham 34 aviões sobrevoando 24×7 os domínios do país. Me fez lembrar da história que a NASA desenvolveu uma caneta milionária para os astronautas escreverem enquanto os russos levaram lápis para o espaço…
Você falou em ceifeiro, mas me veio à mente Jack the Ripper, no sentido de estripador. rs

Mau:
Ops, me corrigindo. Tens razão, Ripper é de estripador, o caso do Jack. O correto para Morte seria Reaper. Me confundi. 🙂

Carlos:
Como começar a falar do roteiro?
Vocês já indicaram a crítica ao belicismo americano, com razão, e seu fanatismo religioso. Vale lembrar que o filme foi lançado apenas três anos após a famosa crise dos misseis em Cuba. Era o auge da Guerra Fria e zombar de qualquer força militar naquela época não devia ser coisa fácil. Ainda mais quando se retratam os militares de uma forma tão ridícula e se expõe suas idiossincrasias de maneira tão clara.
Mas, para mim, a crítica elaborada no roteiro também é dirigida ao excesso de tecnicismo e ao império das máquinas sobre os seres humanos, especialmente os militares. A crise do filme é gerada pelo excesso de burocracia, estabelecido, ironicamente, para que nada nunca desse errado. Já a Máquina do Apocalipse é o próprio símbolo de nossa submissão à ordem mecânica. Totalmente automatizada, controlada por computadores e programada para destruir a humanidade caso ela entenda que a situação assim exige. A primeira representa o ser humano agindo como máquina, enquanto a segunda, a máquina agindo como ser humano. Nos dois casos, o resultado é a falha e a tragédia.
O paralelo entre militares e máquinas também aconteceu, para mim, com a questão dos fluidos vitais. Uma das paranoias de Ripper era não trocar fluidos com outras pessoas. E o filme abre exatamente com um avião abastecendo o outro, trocando fluidos, em uma referência ao ato sexual. Mais à frente, o avião fica sem combustível. Ou seja, acaba seu fluido vital.
A intensa crítica ao mecanicismo do mundo militar é retratada ainda pela quantidade de falhas que sofrem as máquinas. A bomba não cai sozinha e precisa da intervenção humana, o rádio não funciona depois da explosão e a própria Máquina do Apocalipse destrói o mundo, mas não cumpre o objetivo para o qual foi programada, manter a paz. Bom, nem os militares-máquina também conseguem.
E claro que todas essas falhas acabam oferecendo situações comicamente geniais, como os militares americanos atacando suas próprias instalações e os russos derrubando aviões americanos a pedido do presidente dos Estados Unidos. Não bastasse, a única máquina que está quieta em seu canto é a máquina de Coca-Cola, gentilmente assassinada pelo militar, que, antes de destruí-la, adverte sobre a violação da propriedade privada.
Em contrapartida, os civis são retratados como a ilha de consciência e sabedoria em meio ao caos militar. Basta uma ligação do presidente americano ao premier russo para a crise terminar. Aliás, o presidente americano é o único personagem equilibrado que surge durante o filme inteiro.
Há um óbvio recado no filme. Se, como disse o general Ripper, a guerra é um assunto importante demais para ser deixado na mão de civis, a paz é um assunto importante demais para ficar na mão de militares.
Ainda sobre detalhes no roteiro, mas saindo da interpretação global, observa-se que tudo é muito bem amarrado para não gerar uma quebra de expectativa no espectador. O sistema que mostra o código da missão é retratado no início algumas vezes para, no fim, ser destruído e deixar clara a impossibilidade de abortar a missão. O avião é obrigado a voar baixo para evitar radares, o que impossibilita uma segunda interceptação, provável e desejada. O filme começa com o abastecimento do avião e há uma cena em que eles calculam o combustível da missão. Tudo para, depois, mudar os planos exatamente em razão da falta de gasolina.

Daniel:
Não vou ficar citando piadas específicas, só falo que a citada pelo Mauricio (não pode brigar na sala de guerra) foi bem marcante, hahahaha.
Boas observações sobre os nomes feitas pelo Mauricio e pelo Banzai e que me passaram despercebidas.
Banzai, excelente comentário sobre os gastos dos EUA. Vez por outra eu também lembro dessa história do lápis dos astronautas russos e penso em como os americanos sempre exageram com essas coisas.
Gostei de toda a análise do Carlos sobre o roteiro, e sabia que alguma coisa estava me escapando com os aviões trocando fluidos. Até anotei enquanto assistia, mas não fiz a conexão com o Jack.
Aliás, acho muito interessante que todo o caos do filme tenha sido gerado por Jack ao tentar atribuir a culpa de seus problemas/frustrações/conflitos internos aos russos. O cara precisando urgentemente de tratamento e em vez de ir atrás de um, prefere se achar perfeito e criar uma situação que pode acabar com a vida na Terra. Não consigo tirar da cabeça a imagem de um bando de homens idiotas (o gênero, não a espécie). Sim, porque são sempre os homens e sua estupidez que dão início às guerras. A única personagem feminina é a peguete do Turgidson, e achei curioso, na cena em que ela atende o telefone, que tudo “passe por ela” antes de chegar ao Turgidson.
É uma interpretação meio forçada, mas pra mim o fato de ela ter sido envolvida na história serviu para mostrar que, além da sede de poder, o que mais importa para a maioria daqueles homens é a possibilidade de se arranjar mulheres. Tanto que Turgidson faz juras de amor a ela mas é um dos primeiros a ficar animado na iminência de um apocalipse só porque, mais tarde, a razão será de dez mulheres para cada homem.

Cássia:
Não há como negar que a história foi bem construída. No começo, a tripulação agindo de maneira tão trivial mostra como, para eles, tudo aquilo era supernormal mesmo. (Pausa: Há um curta-metragem dirigido por Fernando Bonassi, O trabalho dos homens, em que vemos dois atiradores de elite conversando sobre trivialidades enquanto estão em posição, apontando para quem possivelmente será morto. Praticamente essa tripulação.) A coisa só complicou quando o ataque estava prestes a acontecer e a tensão entre “os aviões recuarão” e “tem um avião solto por aí que jogará a bomba” segurou o suspense até o fim. Confesso, achei que a bomba não seria jogada.

Carlos:
Link! Link! Link! 😀
Uma coisa curiosa que vi nos extras é que o filme terminava em uma luta de tortas na Sala de Guerra. Mas Kubrick cortou a cena.

Cássia:
Rodei a internet para achar O trabalho dos homens e nada! Nem no Porta Curtas ele existe mais. O jeito é ficar com apenas dois minutos do curta, aqui.
Dr. Fantástico terminaria com uma luta de tortas? Três vivas para o Kubrick que não transformou o filme em Zorra Total!

Mau:
Sensacional a análise que vocês fizeram sobre o roteiro. Nem me atrevo a complementar. 🙂

INTERPRETAÇÕES

Mau:
O filme conta com grandes interpretações de seus atores, até de um James Earl Jones em início de carreira, apesar do pouco tempo de tela. E apesar de ser fã do Peter Sellers, e ele desempenhar brilhantemente os três papéis (um americano, um inglês e um alemão), o George C. Scott no papel do general Turgidson rouba o filme. Alternando constantemente as emoções do personagem, ora ansioso, ora despretensioso, ora paranoico e por aí vai. Toda vez que ele estava em cena era um show de interpretação. Fiquei imaginando sem querer, ao longo do filme, se fizessem uma refilmagem hoje, quem interpretaria o general Turgidson. E o nome do Woody Harrelson me vinha constantemente à cabeça. Não sei se pelo porte físico parecido, mas fiquei com isso até agora na cabeça.
Ainda sobre esse tema, uma coisa que não dá pra passar despercebida são as atuações em volta da mesa da Sala de Guerra. As cenas eram constantemente dominadas pelo presidente, pelo embaixador russo e pelo general Turgidson, enquanto todos os figurantes ao redor da mesa ficavam com expressões estáticas. Parecia uma daquelas cenas em que todo mundo fica congelado, mas sempre tem alguém que pisca, etc. Ou essa aqui por exemplo: Police squad. Hehehe.

Banzai:
kkkkkkkk ótima referência!!!
O tonto aqui não percebeu que eram três papéis com o mesmo ator. Na verdade, quando algo no filme chama minha atenção, eu acabo me desprendendo de outros detalhes. No caso do Peter Sellers, eu percebi o Mandrake com um fortíssimo british accent e fixei apenas nisso, ignorando o Presidente e até mesmo o Dr. Strangelove. Agora ao ler suas considerações o humor inglês passou a fazer algum sentido (no meio daquele monte de americanos). Turgidson teve uma atuação muito marcante, mas o Bat Guano “Gene Hackman” (achei que parecia ele) me fez rir muito, até pelo nome bizarro… rs
Woody Harrelson seria um ótimo Turgdison, mas o vejo mais no papel de Ripper.

Carlos:
Assim como o Banzai, também não percebi que Mandrake, o presidente americano e Dr. Strangelove eram interpretados pelo mesmo ator. Sou o pior fisionomista do mundo. Sei lá, deveriam fazer um estudo no meu cérebro. Deve ser alguma coisa patológica. Tenho dificuldades de identificar alguns personagens que tenham aparecido poucas vezes no filme e, salvo atores ultra conhecidos, não consigo identificar ninguém no filme. Para piorar, não conhecia o Peter Sellers muito bem.
Então, imaginem. Eu só descobri que o Peter Sellers interpretava os três personagens depois de assistir ao filme INTEIRO, quando fui ao IMDb ver quem, afinal, era Peter Sellers.
Bati meu record anterior. O último tinha sido em Vertigo, do Hitchcock, mas não posso contar nada.
Há atores que são indistinguíveis de suas figuras. Já pensaram se Jack Nicholson ou Johnny Depp tentassem essa façanha? Peter Sellers é absolutamente outra pessoa quando interpreta cada um dos personagens. Nos extras do disco há um especial sobre ele, no qual vários entrevistados falam exatamente isso. Você vê vários personagens, mas nunca o ator Peter Sellers.
Segundo o IMDb, um dos grandes trunfos do Kubrick foi dizer que contratar Sellers era uma pechincha. Ele conseguiu três pelo preço de um!
Uma curiosidade sobre a interpretação é o caso do piloto/capitão do B-52. Kubrick só forneceu para ele as partes do roteiro em que ele estava envolvido. Portanto, ele não sabia que se tratava de uma comédia e sua interpretação, por mais caricata que possa parecer, é um retrato de um comandante de uma aeronave de guerra que lança uma bomba atômica. E, lembrem-se, ele é o cara que faz rodeio na bomba!

Mau:
Carlos, li que o Peter Sellers também foi convidado pelo Kubrick para fazer o comandante do avião, mas ele achava que seria muito trabalho. Quase convencido, ele estava trabalhando para acertar o sotaque texano quando se machucou no set, tornando difícil para ele interpretar as cenas no espaço apertado do avião. Será que teríamos a cena do rodeio? 😉

Carlos:
Maurício, pelo que vi nos extras do filme, a cena do rodeio entrou de última hora. Daquelas coisas que o Kubrick pediu para ontem. Eles não sabiam como iam fazer a cena, porque o cenário não previa a abertura das portas do compartimento de bombas. Então eles usaram uma pequena trucagem e fizeram o efeito da câmera se afastando da bomba, ao mesmo passo em que o fundo se aproximava.

Daniel:
O Mauricio falou do James Earl Jones, que reconheci mais pela voz. Não sou familiarizado com o trabalho dele além de Star Wars, então foi uma surpresa agradável. Concordo inteiramente que George C. Scott rouba a cena, e acho que isso se deve ao fato de ele representar a maior caricatura do filme. O cara mais cheio de preconceitos, que menos se importa com as vidas de civis, que parece achar que tudo não passa de um jogo de tabuleiro (o quadro grande). Sobre o Woody Harrelson, em alguns momentos ele me aparecia na cabeça também, mas por algum motivo, talvez justamente a caricatura e os exageros, quem me apareceu mais na cabeça foi o David Koechner.
Quanto ao Peter Sellers, devo ser o oposto do Carlos, hahaha. Sou conhecido entre amigos e familiares por [re]conhecer atores e atrizes, e frequentemente me usam como um IMDb ambulante (curiosamente, só funciona com atores e atrizes, e não no dia a dia). A única imagem relacionada ao filme que eu conhecia era a figura do Dr. Strangelove, mas identifiquei os três papéis de Sellers no ato (me gabando =P).
O Mauricio comentou sobre os personagens em volta da mesa na Sala de Guerra, e achei bacana que o Kubrick tenha colocado alguns planos em que o Strangelove aparece ao fundo muito antes da cena em que ele fala alguma coisa pela primeira vez.

Cássia:
Eu não conhecia o Peter Sellers, achei que ele fosse o Turgidson. Também não percebi que três personagens foram feitos pelo mesmo ator, mas não perceberia mesmo se conhecesse o Peter Sellers. Não por ser uma fisionomista ruim, eu reconheço bem as pessoas, mas porque ele é bom mesmo. Essa qualidade de deixar o personagem à frente do ator é para poucos.

Carlos:
Uma coisa que só pensei agora é como a montagem do filme é genial. Nós somos cinco e quatro não perceberam que havia o mesmo ator fazendo três personagens. Além da interpretação inquestionável de Peter Sellers, isso também foi um ótimo trabalho de montagem. Como o Daniel disse, o detalhe de incluir Dr. Strangelove no cenário antes de sua primeira fala ajuda muito.

Cássia:
Carlos, lendo o seu comentário sobre a excelente montagem do filme, lembrei de uma entrevista com o roteirista Bráulio Mantovani, em que ele conta sobre a montagem de Tropa de Elite. Talvez vocês já saibam, mas eu não sabia, o filme foi praticamente refeito apenas na montagem! O capitão Nascimento era um nadinha na história, o protagonista era o Matias e mudaram isso na sala de montagem graças a uma observação da roteirista Carolina Kotscho, mulher do Bráulio. Não deixarei vocês curiosos, a entrevista é esta.

Carlos:
Não sabia sobre a história do Tropa de Elite. Vou ler a matéria com calma. Tudo que sabia era que o voice-over do Capitão Nascimento não estava previsto no roteiro.

FOTOGRAFIA

Mau:
Uma coisa que eu fiquei pensando foi na dificuldade de se filmar um filme em preto e branco, tendo a disponibilidade do colorido. Como passar emoções, por exemplo. E isso foi muito bem resolvido com a opção da utilização de luzes e sombras, como podemos ver na forma escolhida para mostrar o causador do fim do mundo, o general Ripper, que sempre é mostrado na penumbra.

Banzai:
Já eu acho mais simples quando é P&B justamente por ressaltar as formas, ou seja, se tem atores expressivos, vai ficar mais fácil ainda de passar a imagem deles. Acho difícil pensar nos contrastes e outras coisas mais que são necessárias para fazer os tons de cinza se encaixarem.

Carlos:
Uma das coisas que me chamou atenção foi a capacidade do Kubrick de usar o enquadramento (ou a composição) para gerar piadas. Há uma cena que Mandrake está conversando com Ripper ao telefone. Enquanto o primeiro aparece, ao fundo há uma série de gravadores com fita. O único deles que está girando aparece exatamente sobre a cabeça de Mandrake, como se ele estivesse processando e gravando tudo que é dito ao telefone.

Dr. Strangelove 1

Em outra passagem, Mandrake conversa com Ripper sobre a paranoia dos fluidos. Mesmo o papo sendo amistoso, você percebe que Mandrake não está em uma situação confortável. No fundo, um quadro cheio de pistolas está apontado para a cabeça de Mandrake.

Dr. Strangelove 2

E há muitas piadas ali na sala de guerra com aquelas linhas representando os aviões no “quadro grande” saindo dos personagens.
Uma das coisas sobre as quais ainda não cheguei a uma conclusão é por que Kubrick optou por usar o preto e branco. Por enquanto, não percebi nenhum ganho estético que seria inalcançável na película colorida. Bem verdade que as imagens do Dr. Strangelove surgindo das sombras na Sala de Guerra perderiam algum impacto.

Daniel:
Já não costumo ser um grande observador desse aspecto, menos ainda quando está em preto e branco, e também não conheço as dificuldades técnicas de se fotografar assim. Pra terem uma ideia, eu nem me toquei que foi uma opção do Kubrick, e não uma necessidade da época (quando vieram os primeiros coloridos mesmo?).
Carlos, a única explicação que me ocorre para o uso do preto e branco é justamente representar a mentalidade atrasada da maioria dos personagens, indicando que o belicismo é coisa de gente primitiva, muito “preto no branco”. É uma interpretação superficial, eu sei, mas acho que funciona. Bacanas os prints que você tirou, não tinha reparado nessas composições.

Cássia:
Dessa vez, eu prestei atenção nisso. Sobre o preto e branco, talvez tenha sido um contraponto à comédia, para dar ao filme a seriedade que o tema necessita. Para não debandar para o escracho, a fotografia dava uma segurada nisso. E também, como um de vocês falou, para dar ênfase às formas, às cenas; para mim, a cenografia me disse muito mais do que se tudo estivesse colorido.
Por exemplo, um momento marcante foi quando, na sala de guerra, o Turgidson é filmado de baixo e, atrás dele, vemos uma parte do mapa-múndi. Justamente, a correspondente aos EUA. Enquanto isso, ele defende o ataque e a sensação que me passou foi dessa pressão americana em ter de bombardear a Rússia de qualquer maneira (agora troque por Síria e o filme continua tendo o mesmo sentido).
Outro momento foi um comentado pelo Mauricio, sobre o cartaz “A paz é nossa profissão”. Enquanto vemos essa frase “gritando” na tela, o tiroteio corre solto… Bela contradição.

Carlos:
Concordo com a Cássia. Creio que a fotografia em P&B deixou o filme mais sério e evitou o escracho.

TRILHA SONORA

Carlos:
O minimalismo e a precisão da trilha sonora também foram muito especiais.
O filme só tem três músicas, que eu lembre. A primeira é uma música romântica que embala o sexo das aeronaves, nos créditos inicias.
A segunda é When Johnny Go Marching Home. É uma música tradicional americana, da época da Guerra de Secessão. Era cantada por militares e tem todo um aspecto marcial. Gostei de seu uso, porque ela surgiu, a primeira vez, no momento em que os tripulantes do avião se dão conta de que a missão é para valer. A partir de então, ela serve para ironizar os militares da aeronave, que lutavam uma guerra que só existia dentro avião.
A última música foi ao final, com as explosões. Também romântica, em desarmonia com as cenas, ela canta, ironicamente, que nós veremos novamente o sol.

DETALHES

Mau:
Vou colocar essa como detalhes porque vou falar de mais de um aspecto. A cena na qual o capitão Mandrake confronta o general Ripper para que este cancele o ataque é de uma beleza sem igual. Um show de enquadramento, iluminação, posicionamento e movimentação dos atores, alternância de poder entre os dois ao longo da cena, os objetos de cena, etc. Essa daria um ótimo exemplo para o Cenas em Detalhe do Pablo. Fiquei muito bem impressionado e é algo que eu nunca teria percebido antes de começar a analisar os filmes com vocês.

Banzai:
Justamente essa cena me chamou a atenção, o Ripper sendo filmado por baixo, dando a noção do poder que ele tinha enquanto o subordinado estava com cara de pastel. rs

Daniel:
– A cena em que o piloto do avião cai junto com a bomba com certeza vai ser uma daquelas que levarei para sempre. A situação surreal, tudo o que ela representa e a empolgação dele culminaram num sentimento sensacional para mim.
– Gostei de uma inversão de expectativa. Logo no início, a impressão é de que o Jack é um cara sério e importante, enquanto Mandrake é um trapalhão (só o fato de ser interpretado por Peter Sellers já reforça isso). Assim, fiquei surpreso ao ver sua força e humanidade ao confrontar Jack, ainda que de forma agitada e engraçada.
– Sei que foi para economizar tempo de tela, mas senti falta de acompanhar a conversa de Mandrake com o presidente, afinal ele foi um herói subestimado (pelo menos até a bomba explodir…) e creio ser natural que o espectador queira ver um personagem triunfando quando merece. Aquela sensação de “Viu só?! Ele tava certo e salvou geral!” faz falta.
– Senti que a cena final (antes da sequência de explosões, quando o Dr. Strangelove levanta e diz “Mein Führer… I can walk!”) tenta passar alguma coisa grande, uma última punchline ou algo assim… mas não consegui captar. Alguém?

Cássia:
A mão nervosa: eu só pensava em uma coisa o tempo todo, no Hitler. Uma das primeiras ações foi a saudação nazista. Depois, o Dr. Fantástico fala do bunker lá com pessoas selecionadas, uma clara alusão à seleção das pessoas mais “aptas” para repovoarem o mundo (e nós mulheres, claro, só servimos se formos sexualmente atraentes porque teremos apenas duas funções, sexo e reprodução. Além disso, teremos de dividir o cara com outras nove. Obrigada, roteiristas.) No final, ele solta um “mein Führer”, uma das saudações ao nazista-mor. Só não entendi a relação disso com o voltar a andar.

Carlos:
Estou pensando nisso desde que assisti ao filme. Segundo os extras, o personagem do Dr. Strangelove foi inspirado nos filmes de Fritz Lang, alemãs, com um cientista maluco, super-poderoso, mas, de alguma forma, fragilizado. O Dr. Strangelove com sua cadeira de rodas e a mão maluca é frágil e poderoso ao mesmo tempo.
Creio que Strangelove era um cara dividido, com um lado psicótico nazista, mas que atuava nos EUA controlando esse lado, contribuindo para os ideais americanos. Mas, quando finalmente consegue a aceitação de seu plano apocalíptico, os dois lados entram em harmonia. Os EUA abraçam a filosofia dos nazistas, destruindo o mundo e deixando a seleção sobre quem deve sobreviver e quem deve morrer a um computador. Este é o momento em que Strangelove consegue se levantar da cadeira. “Mein Führer, I can walk!”

Cássia:
Sensacional essa sua análise sobre o doutor voltar a andar. Se entendi bem, no momento em que os EUA abraçam a filosofia nazista, a fragilidade vai embora e o poder toma conta. Daí, para conseguir se erguer e saudar o Führer foi um pulo.
Outro detalhe, os aviões americanos: quando o presidente americano liga para o presidente russo e diz que, se os aviões não voltarem, os EUA abateriam os seus próprios aviões deixa tão claro como ninguém tá nem aí com soldados e civis. Não interessa se são do meu país, do seu, dos outros: se tiverem de morrer para ficarmos de bem ou de mal uns com os outros, que morram! Aí sim parece piada, os presidentes do mundo acham que estão jogando War. As mortes são meros efeitos colaterais. O dia em que for obrigatório presidentes e afins irem para a luta armada e colocarem a própria cabeça a prêmio, as guerras acabam.

Carlos:
Uma curiosidade, que corrobora o que você disse, é que Kubrick quis a mesa da Sala de Guerra com o tampo verde, como se os personagens estivessem jogando pôquer, mesmo que o filme fosse em preto e branco. A inspiração da Sala de Guerra é como se existisse um ambiente em que os governantes jogassem com a vida dos outros, como se fossem meros números.

Cássia:
E não é que eu “li” a intenção do Kubrick? Acho bacana quando o diretor coloca elementos no filme para que os atores entrem na história, mesmo que nós espectadores não vejamos isso de maneira clara. Praticamente uma mensagem subliminar.

CONCLUSÃO

Mau:
Como eu havia falado, eu já havia assistido a todos os filmes que eu listei para votação, com exceção de O rato que ruge, então eu já sabia o que esperar deste filme. Apesar disso, fiz uma busca rápida no IMDb e vi que ele concorreu a quatro Oscars em 1965: melhor filme, diretor, roteiro adaptado e ator principal, justamente o foco da minha lista, o Peter Sellers.
Dr. Fantástico ou Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba. Se o nome por si só não desperta a curiosidade de assistir ao filme, os nomes de peso envolvidos na produção certamente preenchem essa lacuna: Peter Sellers, George C. Scott, Stanley Kubrick, para citar só os principais.

Banzai:
Não havia assistido, mas com esse nome e dirigido pelo Kubrick desperta uma grande curiosidade e era essa a oportunidade para saná-la.
Gostei muito! Humor com sarcasmo numa ótima medida, descontrole emocional, tudo que gosto de ver em filmes desse gênero. A simplicidade com que trata o assunto que era um tabu, as pequenas tiradas (como a do Turgidson demonstrando sua empolgação sobre como seria possível passar as defesas russas) beiram o ridículo, ou seja, rendem boas risadas!

Carlos:
Imediatamente o que me chamou a atenção foram as palavras “Kubrick” e “comédia” na mesma frase. Estamos falando do cara que dirigiu Laranja Mecânica, uma das obras mais violentas que já assisti, e O Iluminado, filme que redefiniu o termo “assustador”. Mas independentemente disso tudo, Kubrick levava seus filmes muito a sério. Assim, a curiosidade era grande.
Com certeza, não fiquei decepcionado. Como vocês, achei Dr. Fantástico engraçado e com ótimas piadas. A tripulação do B-52, por exemplo, em uma missão seríssima, estava distraída jogando cartas e vendo revista pornográfica, em total contraste com a gravidade do cenário de guerra. E o capitão da aeronave, que ao saber da gravidade da situação, abre um cofre para pegar um chapéu de cowboy e guardar o capacete? Mesmo assim, o máximo que consegui ao longo do filme foi um riso nervoso. Não por falta de graça, mas pela tensão contínua que a situação toda provocava. Portanto, creio que as piadas de Dr. Fantástico não servem como alívio cômico para um filme sério. Ao contrário, o humor é utilizado o tempo todo para ridicularizar a situação e aprofundar a narrativa. Mesmo quando os personagens são abordados de maneira caricata, como o próprio Dr. Strangelove com seus maneirismos e os militares patéticos, a piada não está neles, mas nas figuras que representam fora da tela.
Pareceu, para mim, que Kubrick é sério demais até quando é muito engraçado.

Daniel:
Gostei MUITO! Não sabia que era uma comédia (evito até sinopses de filmes), mesmo sendo com Peter Sellers, e o humor satírico me agradou bastante. Fiquei feliz por ter “perdido” na votação, já que pulei a cerca uns dias atrás e assisti a Um convidado bem trapalhão (que era outro filme da lista) por conta própria, que me decepcionou bastante na revisita. Este é muito mais interessante.
Entendo o lado do Carlos por ter ficado muito tenso para dar risada, mas pra mim o equilíbrio do filme é perfeito e me diverti bastante mesmo estando tenso.

Cássia:
Contrariando todos vocês, eu não sou uma pessoa que gosta de comédias. Só rio copiosamente em The Big Bang Theory e assisti a quase três temporadas de Community por causa das referências. Eu sinto sono com Monty Phyton. Também não gosto de filmes de guerra e só um me conquistou até hoje, Guerra ao terror. Sendo assim, não é difícil imaginar que, para mim, foi uma hora e meia de filme com a sensação de três horas e quinze.
Mas estamos no clube para isso.

Carlos:
Cássia, eu não sei se escrevi alguma coisa diferente ou não. Mas também não sou super fã de comédias. De verdade, eu não ri durante o filme. Mas adorei.

Cássia:
Carlos, desculpa!, eu entendi errado. Para mim, você só não riu nesse filme porque ficou tenso e não por não ser fã de comédias. =)

Carlos:
Cássia, acho que gerei uma certa confusão. Eu não sou grande fã de comédias. Mesmo assim gostei do filme.
Mas eu realmente não ri no filme porque fiquei tenso com a situação envolvendo a bomba e não porque não gosto de comédias. Você entendeu corretamente e eu expressei-me mal. 🙂

Mau:
Já eu adoro comédias, adoro os momentos em que dou tantas risadas que fico até com soluço depois. Maaaas, acho que dei uma risada no filme todo (não lembro em que parte específica), mas parando para ler o que a gente já escreveu, eu ri do nome do Coronel, da Sala de Guerra, do Dr., mas na hora não. Não sei por que, talvez seja a tensão mesmo.
P.S.: eu também adoro The Big Bang Theory, Cássia, mesmo com tanta gente criticando por aí. 🙂

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