Cinéfilo, eu?!

Sempre amei cinema. Nunca gostei de ser chamado de cinéfilo.

Qualquer amigo, colega, conhecido ou passante sabe, em poucos minutos de conversa comigo, que eu falo bastante sobre filmes. Muito mesmo. Assim, é inevitável que volta e meia eu tenha que responder a pergunta:

“Você é cinéfilo?”

Até bem pouco tempo minha resposta seria:

“Cinéfilo, eu? Não…” e já gastava um monte de argumentos para explicar porque eu não era cinéfilo, mas só um cara que gostava de filmes e coisa e tal.

A negação tão enfática ocorria porque, a bem da verdade, o título de “cinéfilo” nunca me agradou. Parecia-me uma daquelas coisas complicadas, de pessoas muito eruditas, que gostam de atribuir características psicológicas às coisas. Como enólogos e suas frases “esse pinot noir é extremamente ousado, com toques contidos de ostentação”.

Eu não queria parecer um sommelier de filmes em busca da pipoca gourmet.  Eu só gostava de assistir a filmes e conversar sobre eles. Isso não era nada tão complicado assim. Nenhum filme possuía uma nota frutada ou um sabor amadeirado. Eu não era a pessoa que deixava de assistir a um filme popular, ou, como dizem, um filme pipoca, porque só dava valor às obras da nouvelle vague.

O problema é que discutir sobre cinema é, surpreendentemente, um assunto de pouco sucesso nas rodinhas de temas aleatórios. Qualquer pessoa consegue travar aquele bate papo interessante sobre os últimos filmes, quais ela gostou ou não. Mas evoluir daí é difícil. Depois de um tempo a conversa sobre cinema costuma se transformar numa reiteração de gostos pessoais, uma procissão de filmes que a pessoa achou “legal”.

Sinceramente, vou dar uma dica. O pior xingamento que se pode dar para um filme é chamá-lo de “legal”. “Legal” é nada. É vazio. Não é nem opinião pessoal. É aquela coisa que você diz quando não quer dizer o que acha. Dá para chamar até “Transformers” de legal.

(Brincadeira, Transformers não consegue ser nem legal. Ele é chato, o oposto semântico, igualmente vazio de sentido)

Assim, para evoluir minha opinião sobre filmes e conseguir dizer que eles são mais do que “legais”, tentei aprender mais um pouco sobre cinema.  Entender o que fazia um filme mais interessante do que outro.

Cinema é uma linguagem. Acreditamos que, por termos uma dieta a base de produtos audiovisuais desde criança, somos plenamente proficientes nessa linguagem. Mas aprender a assistir a um filme é uma tarefa que exige um pouco mais de esforço do que pode parecer, exigindo alguma leitura e estudo.  E, depois das leituras, vieram as muitas horas conversando sobre filmes com “meus amigos da Internet”. Aquela gente maluca que vive dentro do meu notebook coração.  Eles mesmos, os outros integrantes do Cineclube dos Cinco.

Já no prefácio do primeiro livro que li sobre cinema, “A linguagem cinematográfica”, Marcel Martin convidava à leitura todos os amadores do cinema. Não amadores como pessoas incompetentes para serem profissionais, mas amadores no sentido literal do termo. Pessoas que amam o cinema. O convite foi extremamente gentil, pois fez uma distinção fundamental para mim e afastou do termo “cinéfilo” (aquele que ama cinema), qualquer esnobismo que poderia existir.

Portanto, hoje respondo a pergunta de maneira mais tranquila. Sou cinéfilo? Sim. E isso não significa que eu seja um chato que dispensa qualquer filme porque ele não se enquadra em um ideal abstrato de arte distante que só uma meia dúzia de iniciados alcança. Na verdade, exatamente ao contrário. Ser cinéfilo significa, na maior parte das vezes, apreciar mais um filme e, por consequência, gostar ainda mais dele. Não é um exercício de exclusão, mas de acréscimo.

E, claro, nunca falar que um filme é legal.

Anúncios

‘A Felicidade Não Se Compra’ ou como ser legal

O cineleitor mais cínico e rancoroso vai ficar surpreso, mas houve um tempo em que um filme poderia ter como protagonista um personagem de bom coração.

Em algum lugar da história do cinema, provavelmente durante os anos 60, os personagens cuja principal virtude fosse a boa vontade desapareceram dos filmes. Não sei bem qual a razão para isso, mas possivelmente a preocupação constante dos roteiristas em criar personagens profundos, de caráter multifacetado, não colabora mais para o sucesso de qualquer história de simples boa-fé. No entanto, creio que o grande culpado seja o espectador, que não se encanta mais com narrativas baseadas em gente boa.

Enfim, um espécime de outros tempos, George Bailey, protagonista de “A Felicidade não se compra” é isso tudo que ninguém quer ser. Um cara legal, bonzinho, generoso e altruísta.

“A Felicidade não se compra” (“It’s a wonderful life”, título original bem mais pertinente) é um clássico de Natal. Talvez seja O clássico de Natal. Embora aqui no Brasil a moda não tenha se espalhado, certamente por culpa do especial do Roberto Carlos, nos Estados Unidos, segundo conta Roger Ebert, é comum os canais exibirem o filme na época de Natal, muito em razão de o título permanecido em domínio público por algum tempo.

George Baley

Nos anos 50, o Tom Hanks tinha essa cara.

A história gira em torno do abnegado George Bailey, vivido por James Stewart, ator que representava o bom moço dos anos 40 e 50. Sujeito de espírito aventureiro, George tem sempre suas pretensões de lançar-se no mundo frustradas pela vida e pela sua boa vontade infinita. Na ânsia de ajudar o próximo, acaba preso a sua pequena cidade natal, onde se torna a única personalidade capaz de enfrentar o poderoso Potter, um inescrupuloso magnata local. O personagem vê toda a frustração de sua vida desembocar em um momento crucial, quando, na véspera de Natal, seu tio perde o dinheiro da empresa da família, o que levaria todos à falência. Pressionado, George chega à conclusão que vale mais morto do que vivo e, caso encerrasse sua existência no planeta Terra imediatamente, poderia salvar não só a empresa, como também sua preciosa família.

Essa trama, extremamente maniqueísta, toma ares de um romance de Charles Dickens. O próprio vilão, aliás, poderia ser uma versão do famoso Uncle Scrooge, o tio avarento assombrado pelos fantasmas de Natal em “A Christmas Carol”. Não deixa de ser um exercício curioso imaginar que, logo após expulsar George de seu escritório, o velhaco sovina tenha sido assombrado por algum dos espíritos do natal.

Dessa maneira, a mensagem do filme é bem clara. Seja bom e valorize sua família e seus amigos. São eles que fazem a vida valer à pena e estarão lá por você nos momentos difíceis. Parece inocente demais para o público atual. Mas, descontado todo o cinismo que nos envolve, continua um bom recado, dado de maneira emocionante.

George Baley desesperado

Essa é a cara de George Baley quando descobriu que o Nicolas Cage fez um filme plagiando sua história.

Assim, fica o convite para que o cineleitor aproveite a época de natal e assista ao filme, especialmente se for pela primeira vez. E caso, lá no final, pintar alguma lágrima discreta, não se importe. É o tal do espírito de Natal que te atingiu.

O tempo de Frances Ha

(Não contém spoilers)

Frances não sabe o que vai ser quando crescer.

Só tem um problema. Ela já cresceu.

Frances gosta de andar pela rua dançando, fazer piruetas na frente dos carros e correr pelas calçadas. Gosta de brincar de luta falsa e bater papo na cama de sua melhor amiga, até a madrugada, enquanto planejam juntas o futuro brilhante que lhes espera. Nada de fazer coisas de “gente grande”, coisas chatas.

Frances Ha. Um hobby? Dançar pela rua como se não houvesse amanhã

Frances Ha. Um hobby? Dançar pela rua como se não houvesse amanhã.

Mas o tempo, ah, sempre ele, não espera por Frances. Nem o tempo, nem o aluguel do apartamento e nem mesmo a melhor amiga, que vai se casar e mudar para um lugar mais bacana e uma vida mais careta.

A chegada da maturidade é um assunto comum no cinema. Aquele momento quando o jovem é obrigado a abandonar seus divertimentos pueris, largar o Hakuna Matata para receber uma carga enorme de responsabilidades, na qual se concentram várias espécies de angústias.  Filmes como Clube dos cinco, que dá nome a esse blog, e Conta comigo abordam essa questão de alguma maneira. Mas a lista pode incluir desde Os incompreendidos  (Les quatre cents coups), de Truffaut, até O rei leão.

Frances Ha é um desses filmes sobre amadurecimento ou, como gostam os americanos, the comming of age. Mas, se o tema é antigo, sua abordagem pelo filme é diferente.

Conforme o tempo passou, as angústias do amadurecimento também mudaram. Em Clube dos cinco, e tantos outros de sua safra, as questões sexuais estavam extremamente relacionadas à maturidade. O relacionamento amoroso, com as suas consequências sexuais, eram o grande muro contra o qual todos os jovens, mais cedo ou mais tarde, se chocariam. Definir-se nesse novo ramo era uma das etapas mais críticas do crescimento. Os filmes refletiam essa difícil situação constantemente. Até o Simba se casa no final do filme, não é verdade?

E esse leãozinho? Vocês acham que foi aquele macaco maluco que trouxe?

E esse leãozinho? Vocês acham que foi aquele macaco maluco que trouxe?

Mas os tempos mudaram e a postura da juventude com relação ao sexo também é, creio eu, muito diferente hoje. Não há mais muro. Há um meio-fio ou, quem sabe, uma mureta. Kids está aí para não me desmentir e Frances, por exemplo, não tem nenhum problema com esse assunto.

Por outro lado, outras angústias surgiram. Dizem que o mundo ficou mais complicado e se encontrar no meio dessa confusão é mais difícil. Mas dizem isso sempre. Deve ser porque o passado é fácil de entender, enquanto o presente é efêmero demais para ser explicado. E Frances, como qualquer personagem de filmes de amadurecimento, precisa descobrir como vai viver o resto de sua vida. Mas, por ora, ela precisa continuar sobrevivendo, o que já tem sido uma tarefa suficientemente complicada.

Por outro lado, outras angústias surgiram. Hoje, crescer demora muito mais. Quem nunca escutou do pai/tio/avô a frase “na sua idade eu já (preencha a lacuna com atividade de gente-grande)”? Provavelmente, o pai/tio/avô também ouviu isso do pai/tio/avô deles. E enquanto não crescem, as crianças adultas precisam sobreviver. Cada uma a sua maneira. Frances precisa encontrar a sua. Não tá fácil pra ninguém.

Há bem pouco tempo, o trabalho era sinônimo de sobrevivência e estabilidade. A pessoa se profissionalizava, entrava em uma instituição e já sabia o dia de sua aposentadoria. De preferência, no meio do caminho encontraria o amor romântico de toda sua vida e poderia viver feliz para sempre.

Sucesso era uma medida de quanto dinheiro você ganhava e quanto estável era sua vida.

Mas o tempo no tempo das crianças adultas, isso já não é suficiente. Sustento já existe na casa dos pais. Os Titãs já profetizavam “que a gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade”. Assim, trabalhar deixou de ser sinônimo de mero sustento, mas tornou-se significado também de realização. Não basta ir ao escritório para colocar comida na mesa. Aquelas horas enclausurado no mundo de ar-condicionado e conversas de cafezinho precisam de um sentido que ultrapasse o mero ganha-pão e preencha a própria existência.

Chaplin descobrindo o verdadeiro sentido do trabalho.

Chaplin descobrindo o verdadeiro sentido do trabalho.

No entanto, achar seu espaço nesse novo mundo, saturado de gente talentosa, não é fácil. E Frances descobre isso aos poucos. Crescemos (uso o plural por ser contemporâneo da protagonista) acreditando que somos especiais e que há um universo pronto para reconhecer nossos talentos. Mas não é bem assim. Nem todo mundo vai virar bailarina de dança contemporânea ou cronista d’O Globo. Além disso, o mundo continua precisando de gente para cuidar de sua burocracia. Até a escola de dança onde Frances estuda precisa de alguém para arrumar aquela-papelada-toda.

No caso de Frances, a situação é ainda mais difícil, pois sua felicidade está associada a gozar de liberdade. Ela gosta de dançar na rua e fazer piruetas, sem ligar para ninguém, lembram-se? Mas, não ligar para ninguém depende de não depender de ninguém. Liberdade assim só se alcança com independência financeira. Ela não é pobre e poderia optar por retornar ao suporte familiar quando as oportunidades não se abrissem. Mas, se muitos hoje se apoiam indefinidamente nos pais para alcançar seu lugar ao sol, criando uma nova geração-canguru, Frances não se permite submeter aos vínculos que decorrem dessa situação. Assim, o mundo encantado dos amigos de Frances, sustentados pelos pais ricos, não é receptivo a quem busca por conta própria fazer seu caminho.

A conciliação entre a busca pela realização pessoal e a liberdade é um processo complicado.  É um mundo “demais”. Rápido demais, novo demais, instável demais e, especialmente, com expectativas demais. Todos acreditam que nasceram para brilhar, mas no céu não tem espaço para tanta estrela. Virar matéria escura é difícil, Sandra Bullock que o diga. E a solução do dilema só pode ser encontrada de maneira individual.

Mas bem que Frances poderia dar umas dicas.

Pipoca com ideologia

Toda obra de arte humana carrega em si uma manifestação ideológica. Mas, como esse é um blog sobre cinema, vou limitar minha afirmação a um campo mais restrito.

Todo filme traz uma ideologia.

Além de ser uma música bacana do Cazuza, ideologia é uma palavra normalmente associada a algo bem complicado e mentiroso. Vez ou outra dá até para ouvir como acusação. “Ora, fulano é só ideologia”. Na melhor das hipóteses, ideologia é coisa para quem pensa muito e queima a cabeça com teorias sobre o mundo, o tempo e cosmos.

Já o “cinema é a maior diversão”. Para a maioria, o oposto do que se pode pensar de uma aborrecida reflexão ideológica. Há quem diga que vai ao cinema para espairecer, desligar a cabeça, ver umas bobagens e não ter que pensar.  Entra na fila da próxima sessão, compra a pipoca e assiste ao filme com “o cérebro desligado”. Nada mais simples do que isso.

“Quem nunca?”, já diria o meme.

Acho que senti o cheiro de pipoca com manteiga

Acho que senti o cheiro de pipoca com manteiga

O problema é que, como disse acima, todo filme traz uma ideologia. Muitas vezes, nem é de propósito.  É inescapável que uma obra de arte criada por pessoas carregue em si valores intrinsecamente vinculados ao tempo e à sociedade na qual o trabalho se gestou. Até o maior blockbuster do momento é um panfleto ideológico tão claro quanto a propaganda de um partido político. Mesmo aquele para assistir com “o cérebro desligado”.

Pior, principalmente esse do cérebro desligado.

Sergei Eisenstein, este sabia tudo de montagem e ideologia.

Sergei Eisenstein, este sabia tudo de montagem e ideologia.

Porque, meu caro cineleitor, por mais que se insista, goste você ou não, seu cérebro nunca desliga. Você pode até comer a pipoca, mas enquanto isso, sua cabeça está mastigando um monte de ideias, salpicadas com explosões 3D.

Quer um exemplo? O último blockbuster do momento, Pacific Rim. Bem recebido pela crítica, algo surpreendente para um filme cujo argumento principal é a luta de robôs gigantes contra monstros alienígenas, o filme é um sucesso estético. Bonito e, por que não admitir, emocionante?

Mas não é só. Ele também tem uma mensagem clara. Se algum problema é complicado demais, deixe-o na mão dos militares.

Para quem não assistiu, resume-se facilmente a história. Lagartos alienígenas gigantes invadem a Terra por uma fenda no oceano e destroem tudo que veem pela frente. Unida, a raça humana conseguiu os melhores esforços para criar robôs gigantes, capazes de fazer frente aos monstros (Êêêêêê!). Tudo comandado por uma espécie de organização militar planetária. Até que os governos civis acham aquela presepada toda muito dispendiosa e decidem extinguir o programa de robôs gigantes (Aaaaah!). Em alternativa, constroem uma muralha para proteger a região costeira dos eventuais ataques. Óbvio que o plano-muralha não dá certo, porque lagarto que é lagarto sabe escalar parede, quem já viu lagartixa sabe disso (Ôôôôôô!).

Quem pode salvar a humanidade dos monstros psicopatas assassinos gigantes? Claro, o bom soldado, ex-combatente, esquecido pela sociedade como um operário nas fundações da muralha. Só tem um problema. Ele é um tanto traumatizado, por ter perdido seu irmão gêmeo em uma batalha anterior (Iiiiih…).

Não é preciso ir muito adiante para deduzir a história toda e as outras vogais que acompanhariam o texto. O recado, todavia, já está dado com menos de 15 minutos de filme. Os políticos civis não sabem lidar com os problemas sérios e fazem bobagem onde colocam a mão.

O que nos leva a outro filme, que poderia ser encarado, no seu tempo, como mais um filme pipoca. Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick. Uma comédia (existe gênero mais “cérebro desligado”?), que fez piada, em plena guerra-fria, da destrutiva e paranoica corrida atômica. Nele, um general louco decide, por conta própria, iniciar a guerra nuclear. Seu mote. “A guerra é um assunto sério demais para ser deixado nas mãos dos civis”. Em Dr. Fantástico, ao contrário do que ocorre em Pacific Rim, onde os militares colocam a mão, as coisas dão errado. A situação chega ao absurdo de as forças armadas americanas serem obrigadas a atacarem a si mesmas, dentro do próprio território.

De baixo, até parece o Bush.

De baixo, até parece o Bush.

Por outro lado, basta um telefonema do presidente americano a sua contraparte russa, bêbada, para se contornar a crise. Os políticos civis se entendem e resolvem a questão, mesmo falando línguas distintas. Mesmo bêbados.

Assim, como em Pacific Rim, também há uma mensagem muito evidente em Dr. Strangelove.  Os militares sabem lutar e farão guerra, embora sua existência tenha por objetivo a própria manutenção da paz.

Ou seja, a paz é um assunto importante demais para ser deixado nas mãos dos militares.

Ideologicamente, Pacific Rim Dr. Strangelove são antíteses.

Por menos que possa parecer, os dois filmes transmitiram valores ideológicos, ainda que, para tanto, a plateia não tenha sido forçada a nenhuma brilhante conclusão. Feliz, saindo do cinema ainda com a casca de pipoca agarrada entre os dentes, com aquela sensação de ter assistido a um bom filme e a cabeça descansada, a mente do espectador está em rebuliço, cheia de ideias semeadas.

Tomar noção dessa colonização ideológica é importante para a apreciação de qualquer filme. O exercício que faço, a cada vez que saio da sala de cinema, é me perguntar “o que esse filme contou para mim?” Nem sempre a resposta vem fácil e muitas vezes ela é dúbia. É um exercício que exige atenção ao filme e disposição para encarar suas próprias convicções. Muitas vezes, a ideologia propagada em um filme está tão impregnada em nós mesmos que não somos capazes de ver a panfletagem correndo solta. Ideologia é igual a sotaque, você dificilmente percebe o próprio, mas sempre critica o alheio. Entretanto, ela está lá e, se você não viu, é porque a semente não só foi plantada, como já deu frutos.