Sorteio | Gravidade e 2001 em Blu-ray!

O Cineclube dos Cinco completou 1 ano de vida no fim de outubro e a data passou batida. Mas nada tema, já que para reparar o vacilo sortearemos essas duas grandes obras da ficção científica. Afinal, o aniversário é nosso, mas (para não perder o clichê) quem ganha são vocês.

Para concorrer ao medíocre Gravidade e ao ordinário 2001 – Uma odisseia no espaço, curta a página do Cineclube dos Cinco no facebook e curta o post de divulgação da promoção. Depois, vá até a aba Promoções da nossa página e clique em “Quero participar”. Pronto, você já estará concorrendo!

Sorteio 1

Obs: o blu-ray de Gravidade é da versão 2D, e 2001 não possui dublagem em português, apenas legendas no nosso idioma.

Regulamento:

– O participante deve curtir a página do Cineclube dos Cinco, curtir o post de divulgação da promoção e clicar em “Quero participar” na aba de Promoções da página.
– O participante deve residir no Brasil.
– O participante concorda que nós não fornecemos garantia para troca dos filmes em caso de defeito, já que estão lacrados de fábrica.
– O participante não pode perguntar se algum de nós entendeu o final de 2001. Sério, é muito deselegante.

O sorteio será no início de janeiro. Ah, e o vencedor leva os dois filmes. Boa sorte!

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Crítica | Interestelar

Interestelar (Interstellar) | 2014
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Jonathan Nolan, Christopher Nolan
Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Mackenzie Foy, Jessica Chastain, Michael Caine, David Gyasi, Matt Damon, John Lithgow, Ellen Burstyn, Timothée Chalamet, Casey Affleck, Topher Grace

Interestelar é um filme instigante que levanta questionamentos complexos acerca do futuro da humanidade e do que cada indivíduo estaria disposto a fazer para assegurar a continuidade da espécie, ainda que escorregue (talvez de forma irrecuperável para muita gente) numa conclusão frágil e carregada de autoimportância.

Num futuro distópico não muito distante, a humanidade se vê obrigada a deixar a ciência de lado para dar prioridade a necessidades mais básicas de sobrevivência, o que incomoda Cooper (Matthew McConaughey), um ex-piloto da NASA incapaz de aceitar sua atual posição como fazendeiro, ainda que sua profissão seja mais essencial do que nunca. Porém, Cooper descobre que há uma esperança de salvar a espécie através da colonização de algum planeta numa galáxia muito, muito distante, e embarca, assim, numa missão perigosa e cheia de incertezas.

Inteligente ao estabelecer o campo como pano de fundo na Terra – economizando no design de produção ao não precisar retratar uma grande cidade futurista e ao mesmo tempo tornando mais difícil apontar para uma data específica no futuro –, Nolan nos apresenta à família de Cooper. Atingindo um equilíbrio excelente entre a vivacidade e a apatia, McConaughey cria um sujeito entusiasmado o suficiente para literalmente sair de seu caminho sem pensar duas vezes para perseguir um drone moribundo e ver o que se pode aproveitar dele, e frio o bastante para sequer hesitar ao aceitar fazer parte da missão, deixando para trás os filhos Tom (Timothée Chalamet) e Murph (Mackenzie Foy).

Afinal, Cooper vê na missão a oportunidade de salvar sua família, mas também, contraditoriamente, de fugir desta, já que ele aparenta julgar a existência pacata que leva com os filhos e o sogro como algo desestimulante e indigno de seu potencial. Além disso, há uma sensação de que talvez a união familiar tenha se quebrado e perdido o sentido para Cooper em algum momento de seu passado, representado pelo anel que insiste em carregar na mão esquerda. E é bonito ver que a pequena e brilhante Murph (a mais próxima do pai justamente por compartilhar da mesma vocação deste), apesar de conviver com a frustração do abandono, jamais chega ao ponto de não acreditar no sucesso de Cooper.

Um ponto do filme que me agrada bastante é deixar o espectador matutando o tempo todo a respeito da moralidade de determinadas decisões tomadas pelos personagens. A todo momento, me vi dividido, julgando as escolhas feitas por eles. Mas eu faria diferente caso a sobrevivência da espécie dependesse de mim? Eu abriria mão daquilo que é mais importante para mim pelo bem da maioria? Até que ponto eu seria capaz de impedir que meu instinto de sobrevivência interferisse em meu bom senso?

Interestelar também acerta na escolha de uma fotografia dessaturada e amarelada para as sequências que se passam na Terra, salientando a crescente esterilidade do planeta e a atmosfera sufocante de desesperança que se abate sobre a população, que se vê obrigada a conviver com constantes e gigantescas tempestades de areia (tempestades estas que formam verdadeiras ondas de areia no céu e criam uma rima com um primo distante assustadoramente mais perigoso em outra galáxia).

Já a relatividade de Einstein – que dita que o tempo passa mais devagar quanto mais intenso for o campo gravitacional de determinado local – é muito bem utilizada pelo roteiro e gera grande impacto, mesmo que o espectador já tenha sido devidamente informado das consequências sofridas por quem ousa colocá-la à prova. Ainda em aspectos técnicos, vale também mencionar os dois robôs que fazem parte da missão, TARS e CASE. Seu design pode ser facilmente subestimado a princípio, já que não aparenta ser nem um pouco eficiente, mas é curioso testemunhar, ao longo do filme, toda a desenvoltura que ele confere aos robôs. Além, claro, de contarem com uma personalidade e um bom humor cativantes, ainda que isso acabe reforçando uma estranha sensação de que a qualquer momento eles darão uma de HAL (de 2001) para cima dos humanos.

Assim, com tantas qualidades ao longo dos dois primeiros atos, que criam situações e reflexões fascinantes, é uma pena que Interestelar chegue a uma conclusão muito cômoda e anticlimática. E digo isso mesmo reconhecendo que há certa lógica interna na coisa toda, já que a frustração tem origem não na falta de verossimilhança, mas na súbita mudança de tom da narrativa ao abandonar, sem grandes cerimônias, a racionalidade que vinha sustentando o filme desde seu início. Uma frustração que ainda é ressaltada pela montagem do ato final, tipicamente nolaniana, que constrói uma tensão crescente com a ajuda da trilha ritmada e infelizmente acaba não recompensando o espectador quando chega ao fim, falhando ao tentar empurrar uma mistura meio capenga de ciência com amor em meio a diálogos excessivamente expositivos.

Ainda assim, independentemente da canelada final, Interestelar é um filme interessantíssimo, especialmente para aqueles que gostam de se entregar ao exercício de imaginar o que será de nossa espécie a longo prazo e quais mistérios do Universo seremos capazes de não apenas entender, mas também manipular. (4 estrelas em 5)

Interstellar 4

Filme 20 | Dr. Fantástico

Ficha técnica
Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb)
Ano: 1964
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George
Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens, Peter Bull, James Earl Jones, Tracy Reed

Escolhido por: Mauricio
Discussão iniciada em: 02/09/2013

ROTEIRO

Mau:
O filme é uma crítica ao belicismo e ao imperialismo dos EUA, e os americanos são constantemente retratados como paranoicos, fundamentalistas religiosos, loucos. E por ser uma comédia, é calcada em artefatos caricatos, como:
– o Dr. Strangelove e sua mão com vida própria;
– as falas ao longo do filme: “Não podem brigar aqui, essa é a sala de guerra!”;
– alguns detalhes como a frase “A Paz é a nossa profissão” espalhada por toda a base do general Ripper;
– os nomes dos personagens: general Ripper (ceifador, como também é conhecida a Morte em inglês), coronel Bat Guano (ou coronel Cocô de Morcego), presidente Merkin (bom, melhor ver por você mesmo: merkin).

Banzai:
Achei que também tira sarro do $$$ que os EUA gastam enquanto a Rússia opta pelo mais simples. A Máquina do Apocalipse era a alternativa mais barata enquanto os EUA tinham 34 aviões sobrevoando 24×7 os domínios do país. Me fez lembrar da história que a NASA desenvolveu uma caneta milionária para os astronautas escreverem enquanto os russos levaram lápis para o espaço…
Você falou em ceifeiro, mas me veio à mente Jack the Ripper, no sentido de estripador. rs

Mau:
Ops, me corrigindo. Tens razão, Ripper é de estripador, o caso do Jack. O correto para Morte seria Reaper. Me confundi. 🙂

Carlos:
Como começar a falar do roteiro?
Vocês já indicaram a crítica ao belicismo americano, com razão, e seu fanatismo religioso. Vale lembrar que o filme foi lançado apenas três anos após a famosa crise dos misseis em Cuba. Era o auge da Guerra Fria e zombar de qualquer força militar naquela época não devia ser coisa fácil. Ainda mais quando se retratam os militares de uma forma tão ridícula e se expõe suas idiossincrasias de maneira tão clara.
Mas, para mim, a crítica elaborada no roteiro também é dirigida ao excesso de tecnicismo e ao império das máquinas sobre os seres humanos, especialmente os militares. A crise do filme é gerada pelo excesso de burocracia, estabelecido, ironicamente, para que nada nunca desse errado. Já a Máquina do Apocalipse é o próprio símbolo de nossa submissão à ordem mecânica. Totalmente automatizada, controlada por computadores e programada para destruir a humanidade caso ela entenda que a situação assim exige. A primeira representa o ser humano agindo como máquina, enquanto a segunda, a máquina agindo como ser humano. Nos dois casos, o resultado é a falha e a tragédia.
O paralelo entre militares e máquinas também aconteceu, para mim, com a questão dos fluidos vitais. Uma das paranoias de Ripper era não trocar fluidos com outras pessoas. E o filme abre exatamente com um avião abastecendo o outro, trocando fluidos, em uma referência ao ato sexual. Mais à frente, o avião fica sem combustível. Ou seja, acaba seu fluido vital.
A intensa crítica ao mecanicismo do mundo militar é retratada ainda pela quantidade de falhas que sofrem as máquinas. A bomba não cai sozinha e precisa da intervenção humana, o rádio não funciona depois da explosão e a própria Máquina do Apocalipse destrói o mundo, mas não cumpre o objetivo para o qual foi programada, manter a paz. Bom, nem os militares-máquina também conseguem.
E claro que todas essas falhas acabam oferecendo situações comicamente geniais, como os militares americanos atacando suas próprias instalações e os russos derrubando aviões americanos a pedido do presidente dos Estados Unidos. Não bastasse, a única máquina que está quieta em seu canto é a máquina de Coca-Cola, gentilmente assassinada pelo militar, que, antes de destruí-la, adverte sobre a violação da propriedade privada.
Em contrapartida, os civis são retratados como a ilha de consciência e sabedoria em meio ao caos militar. Basta uma ligação do presidente americano ao premier russo para a crise terminar. Aliás, o presidente americano é o único personagem equilibrado que surge durante o filme inteiro.
Há um óbvio recado no filme. Se, como disse o general Ripper, a guerra é um assunto importante demais para ser deixado na mão de civis, a paz é um assunto importante demais para ficar na mão de militares.
Ainda sobre detalhes no roteiro, mas saindo da interpretação global, observa-se que tudo é muito bem amarrado para não gerar uma quebra de expectativa no espectador. O sistema que mostra o código da missão é retratado no início algumas vezes para, no fim, ser destruído e deixar clara a impossibilidade de abortar a missão. O avião é obrigado a voar baixo para evitar radares, o que impossibilita uma segunda interceptação, provável e desejada. O filme começa com o abastecimento do avião e há uma cena em que eles calculam o combustível da missão. Tudo para, depois, mudar os planos exatamente em razão da falta de gasolina.

Daniel:
Não vou ficar citando piadas específicas, só falo que a citada pelo Mauricio (não pode brigar na sala de guerra) foi bem marcante, hahahaha.
Boas observações sobre os nomes feitas pelo Mauricio e pelo Banzai e que me passaram despercebidas.
Banzai, excelente comentário sobre os gastos dos EUA. Vez por outra eu também lembro dessa história do lápis dos astronautas russos e penso em como os americanos sempre exageram com essas coisas.
Gostei de toda a análise do Carlos sobre o roteiro, e sabia que alguma coisa estava me escapando com os aviões trocando fluidos. Até anotei enquanto assistia, mas não fiz a conexão com o Jack.
Aliás, acho muito interessante que todo o caos do filme tenha sido gerado por Jack ao tentar atribuir a culpa de seus problemas/frustrações/conflitos internos aos russos. O cara precisando urgentemente de tratamento e em vez de ir atrás de um, prefere se achar perfeito e criar uma situação que pode acabar com a vida na Terra. Não consigo tirar da cabeça a imagem de um bando de homens idiotas (o gênero, não a espécie). Sim, porque são sempre os homens e sua estupidez que dão início às guerras. A única personagem feminina é a peguete do Turgidson, e achei curioso, na cena em que ela atende o telefone, que tudo “passe por ela” antes de chegar ao Turgidson.
É uma interpretação meio forçada, mas pra mim o fato de ela ter sido envolvida na história serviu para mostrar que, além da sede de poder, o que mais importa para a maioria daqueles homens é a possibilidade de se arranjar mulheres. Tanto que Turgidson faz juras de amor a ela mas é um dos primeiros a ficar animado na iminência de um apocalipse só porque, mais tarde, a razão será de dez mulheres para cada homem.

Cássia:
Não há como negar que a história foi bem construída. No começo, a tripulação agindo de maneira tão trivial mostra como, para eles, tudo aquilo era supernormal mesmo. (Pausa: Há um curta-metragem dirigido por Fernando Bonassi, O trabalho dos homens, em que vemos dois atiradores de elite conversando sobre trivialidades enquanto estão em posição, apontando para quem possivelmente será morto. Praticamente essa tripulação.) A coisa só complicou quando o ataque estava prestes a acontecer e a tensão entre “os aviões recuarão” e “tem um avião solto por aí que jogará a bomba” segurou o suspense até o fim. Confesso, achei que a bomba não seria jogada.

Carlos:
Link! Link! Link! 😀
Uma coisa curiosa que vi nos extras é que o filme terminava em uma luta de tortas na Sala de Guerra. Mas Kubrick cortou a cena.

Cássia:
Rodei a internet para achar O trabalho dos homens e nada! Nem no Porta Curtas ele existe mais. O jeito é ficar com apenas dois minutos do curta, aqui.
Dr. Fantástico terminaria com uma luta de tortas? Três vivas para o Kubrick que não transformou o filme em Zorra Total!

Mau:
Sensacional a análise que vocês fizeram sobre o roteiro. Nem me atrevo a complementar. 🙂

INTERPRETAÇÕES

Mau:
O filme conta com grandes interpretações de seus atores, até de um James Earl Jones em início de carreira, apesar do pouco tempo de tela. E apesar de ser fã do Peter Sellers, e ele desempenhar brilhantemente os três papéis (um americano, um inglês e um alemão), o George C. Scott no papel do general Turgidson rouba o filme. Alternando constantemente as emoções do personagem, ora ansioso, ora despretensioso, ora paranoico e por aí vai. Toda vez que ele estava em cena era um show de interpretação. Fiquei imaginando sem querer, ao longo do filme, se fizessem uma refilmagem hoje, quem interpretaria o general Turgidson. E o nome do Woody Harrelson me vinha constantemente à cabeça. Não sei se pelo porte físico parecido, mas fiquei com isso até agora na cabeça.
Ainda sobre esse tema, uma coisa que não dá pra passar despercebida são as atuações em volta da mesa da Sala de Guerra. As cenas eram constantemente dominadas pelo presidente, pelo embaixador russo e pelo general Turgidson, enquanto todos os figurantes ao redor da mesa ficavam com expressões estáticas. Parecia uma daquelas cenas em que todo mundo fica congelado, mas sempre tem alguém que pisca, etc. Ou essa aqui por exemplo: Police squad. Hehehe.

Banzai:
kkkkkkkk ótima referência!!!
O tonto aqui não percebeu que eram três papéis com o mesmo ator. Na verdade, quando algo no filme chama minha atenção, eu acabo me desprendendo de outros detalhes. No caso do Peter Sellers, eu percebi o Mandrake com um fortíssimo british accent e fixei apenas nisso, ignorando o Presidente e até mesmo o Dr. Strangelove. Agora ao ler suas considerações o humor inglês passou a fazer algum sentido (no meio daquele monte de americanos). Turgidson teve uma atuação muito marcante, mas o Bat Guano “Gene Hackman” (achei que parecia ele) me fez rir muito, até pelo nome bizarro… rs
Woody Harrelson seria um ótimo Turgdison, mas o vejo mais no papel de Ripper.

Carlos:
Assim como o Banzai, também não percebi que Mandrake, o presidente americano e Dr. Strangelove eram interpretados pelo mesmo ator. Sou o pior fisionomista do mundo. Sei lá, deveriam fazer um estudo no meu cérebro. Deve ser alguma coisa patológica. Tenho dificuldades de identificar alguns personagens que tenham aparecido poucas vezes no filme e, salvo atores ultra conhecidos, não consigo identificar ninguém no filme. Para piorar, não conhecia o Peter Sellers muito bem.
Então, imaginem. Eu só descobri que o Peter Sellers interpretava os três personagens depois de assistir ao filme INTEIRO, quando fui ao IMDb ver quem, afinal, era Peter Sellers.
Bati meu record anterior. O último tinha sido em Vertigo, do Hitchcock, mas não posso contar nada.
Há atores que são indistinguíveis de suas figuras. Já pensaram se Jack Nicholson ou Johnny Depp tentassem essa façanha? Peter Sellers é absolutamente outra pessoa quando interpreta cada um dos personagens. Nos extras do disco há um especial sobre ele, no qual vários entrevistados falam exatamente isso. Você vê vários personagens, mas nunca o ator Peter Sellers.
Segundo o IMDb, um dos grandes trunfos do Kubrick foi dizer que contratar Sellers era uma pechincha. Ele conseguiu três pelo preço de um!
Uma curiosidade sobre a interpretação é o caso do piloto/capitão do B-52. Kubrick só forneceu para ele as partes do roteiro em que ele estava envolvido. Portanto, ele não sabia que se tratava de uma comédia e sua interpretação, por mais caricata que possa parecer, é um retrato de um comandante de uma aeronave de guerra que lança uma bomba atômica. E, lembrem-se, ele é o cara que faz rodeio na bomba!

Mau:
Carlos, li que o Peter Sellers também foi convidado pelo Kubrick para fazer o comandante do avião, mas ele achava que seria muito trabalho. Quase convencido, ele estava trabalhando para acertar o sotaque texano quando se machucou no set, tornando difícil para ele interpretar as cenas no espaço apertado do avião. Será que teríamos a cena do rodeio? 😉

Carlos:
Maurício, pelo que vi nos extras do filme, a cena do rodeio entrou de última hora. Daquelas coisas que o Kubrick pediu para ontem. Eles não sabiam como iam fazer a cena, porque o cenário não previa a abertura das portas do compartimento de bombas. Então eles usaram uma pequena trucagem e fizeram o efeito da câmera se afastando da bomba, ao mesmo passo em que o fundo se aproximava.

Daniel:
O Mauricio falou do James Earl Jones, que reconheci mais pela voz. Não sou familiarizado com o trabalho dele além de Star Wars, então foi uma surpresa agradável. Concordo inteiramente que George C. Scott rouba a cena, e acho que isso se deve ao fato de ele representar a maior caricatura do filme. O cara mais cheio de preconceitos, que menos se importa com as vidas de civis, que parece achar que tudo não passa de um jogo de tabuleiro (o quadro grande). Sobre o Woody Harrelson, em alguns momentos ele me aparecia na cabeça também, mas por algum motivo, talvez justamente a caricatura e os exageros, quem me apareceu mais na cabeça foi o David Koechner.
Quanto ao Peter Sellers, devo ser o oposto do Carlos, hahaha. Sou conhecido entre amigos e familiares por [re]conhecer atores e atrizes, e frequentemente me usam como um IMDb ambulante (curiosamente, só funciona com atores e atrizes, e não no dia a dia). A única imagem relacionada ao filme que eu conhecia era a figura do Dr. Strangelove, mas identifiquei os três papéis de Sellers no ato (me gabando =P).
O Mauricio comentou sobre os personagens em volta da mesa na Sala de Guerra, e achei bacana que o Kubrick tenha colocado alguns planos em que o Strangelove aparece ao fundo muito antes da cena em que ele fala alguma coisa pela primeira vez.

Cássia:
Eu não conhecia o Peter Sellers, achei que ele fosse o Turgidson. Também não percebi que três personagens foram feitos pelo mesmo ator, mas não perceberia mesmo se conhecesse o Peter Sellers. Não por ser uma fisionomista ruim, eu reconheço bem as pessoas, mas porque ele é bom mesmo. Essa qualidade de deixar o personagem à frente do ator é para poucos.

Carlos:
Uma coisa que só pensei agora é como a montagem do filme é genial. Nós somos cinco e quatro não perceberam que havia o mesmo ator fazendo três personagens. Além da interpretação inquestionável de Peter Sellers, isso também foi um ótimo trabalho de montagem. Como o Daniel disse, o detalhe de incluir Dr. Strangelove no cenário antes de sua primeira fala ajuda muito.

Cássia:
Carlos, lendo o seu comentário sobre a excelente montagem do filme, lembrei de uma entrevista com o roteirista Bráulio Mantovani, em que ele conta sobre a montagem de Tropa de Elite. Talvez vocês já saibam, mas eu não sabia, o filme foi praticamente refeito apenas na montagem! O capitão Nascimento era um nadinha na história, o protagonista era o Matias e mudaram isso na sala de montagem graças a uma observação da roteirista Carolina Kotscho, mulher do Bráulio. Não deixarei vocês curiosos, a entrevista é esta.

Carlos:
Não sabia sobre a história do Tropa de Elite. Vou ler a matéria com calma. Tudo que sabia era que o voice-over do Capitão Nascimento não estava previsto no roteiro.

FOTOGRAFIA

Mau:
Uma coisa que eu fiquei pensando foi na dificuldade de se filmar um filme em preto e branco, tendo a disponibilidade do colorido. Como passar emoções, por exemplo. E isso foi muito bem resolvido com a opção da utilização de luzes e sombras, como podemos ver na forma escolhida para mostrar o causador do fim do mundo, o general Ripper, que sempre é mostrado na penumbra.

Banzai:
Já eu acho mais simples quando é P&B justamente por ressaltar as formas, ou seja, se tem atores expressivos, vai ficar mais fácil ainda de passar a imagem deles. Acho difícil pensar nos contrastes e outras coisas mais que são necessárias para fazer os tons de cinza se encaixarem.

Carlos:
Uma das coisas que me chamou atenção foi a capacidade do Kubrick de usar o enquadramento (ou a composição) para gerar piadas. Há uma cena que Mandrake está conversando com Ripper ao telefone. Enquanto o primeiro aparece, ao fundo há uma série de gravadores com fita. O único deles que está girando aparece exatamente sobre a cabeça de Mandrake, como se ele estivesse processando e gravando tudo que é dito ao telefone.

Dr. Strangelove 1

Em outra passagem, Mandrake conversa com Ripper sobre a paranoia dos fluidos. Mesmo o papo sendo amistoso, você percebe que Mandrake não está em uma situação confortável. No fundo, um quadro cheio de pistolas está apontado para a cabeça de Mandrake.

Dr. Strangelove 2

E há muitas piadas ali na sala de guerra com aquelas linhas representando os aviões no “quadro grande” saindo dos personagens.
Uma das coisas sobre as quais ainda não cheguei a uma conclusão é por que Kubrick optou por usar o preto e branco. Por enquanto, não percebi nenhum ganho estético que seria inalcançável na película colorida. Bem verdade que as imagens do Dr. Strangelove surgindo das sombras na Sala de Guerra perderiam algum impacto.

Daniel:
Já não costumo ser um grande observador desse aspecto, menos ainda quando está em preto e branco, e também não conheço as dificuldades técnicas de se fotografar assim. Pra terem uma ideia, eu nem me toquei que foi uma opção do Kubrick, e não uma necessidade da época (quando vieram os primeiros coloridos mesmo?).
Carlos, a única explicação que me ocorre para o uso do preto e branco é justamente representar a mentalidade atrasada da maioria dos personagens, indicando que o belicismo é coisa de gente primitiva, muito “preto no branco”. É uma interpretação superficial, eu sei, mas acho que funciona. Bacanas os prints que você tirou, não tinha reparado nessas composições.

Cássia:
Dessa vez, eu prestei atenção nisso. Sobre o preto e branco, talvez tenha sido um contraponto à comédia, para dar ao filme a seriedade que o tema necessita. Para não debandar para o escracho, a fotografia dava uma segurada nisso. E também, como um de vocês falou, para dar ênfase às formas, às cenas; para mim, a cenografia me disse muito mais do que se tudo estivesse colorido.
Por exemplo, um momento marcante foi quando, na sala de guerra, o Turgidson é filmado de baixo e, atrás dele, vemos uma parte do mapa-múndi. Justamente, a correspondente aos EUA. Enquanto isso, ele defende o ataque e a sensação que me passou foi dessa pressão americana em ter de bombardear a Rússia de qualquer maneira (agora troque por Síria e o filme continua tendo o mesmo sentido).
Outro momento foi um comentado pelo Mauricio, sobre o cartaz “A paz é nossa profissão”. Enquanto vemos essa frase “gritando” na tela, o tiroteio corre solto… Bela contradição.

Carlos:
Concordo com a Cássia. Creio que a fotografia em P&B deixou o filme mais sério e evitou o escracho.

TRILHA SONORA

Carlos:
O minimalismo e a precisão da trilha sonora também foram muito especiais.
O filme só tem três músicas, que eu lembre. A primeira é uma música romântica que embala o sexo das aeronaves, nos créditos inicias.
A segunda é When Johnny Go Marching Home. É uma música tradicional americana, da época da Guerra de Secessão. Era cantada por militares e tem todo um aspecto marcial. Gostei de seu uso, porque ela surgiu, a primeira vez, no momento em que os tripulantes do avião se dão conta de que a missão é para valer. A partir de então, ela serve para ironizar os militares da aeronave, que lutavam uma guerra que só existia dentro avião.
A última música foi ao final, com as explosões. Também romântica, em desarmonia com as cenas, ela canta, ironicamente, que nós veremos novamente o sol.

DETALHES

Mau:
Vou colocar essa como detalhes porque vou falar de mais de um aspecto. A cena na qual o capitão Mandrake confronta o general Ripper para que este cancele o ataque é de uma beleza sem igual. Um show de enquadramento, iluminação, posicionamento e movimentação dos atores, alternância de poder entre os dois ao longo da cena, os objetos de cena, etc. Essa daria um ótimo exemplo para o Cenas em Detalhe do Pablo. Fiquei muito bem impressionado e é algo que eu nunca teria percebido antes de começar a analisar os filmes com vocês.

Banzai:
Justamente essa cena me chamou a atenção, o Ripper sendo filmado por baixo, dando a noção do poder que ele tinha enquanto o subordinado estava com cara de pastel. rs

Daniel:
– A cena em que o piloto do avião cai junto com a bomba com certeza vai ser uma daquelas que levarei para sempre. A situação surreal, tudo o que ela representa e a empolgação dele culminaram num sentimento sensacional para mim.
– Gostei de uma inversão de expectativa. Logo no início, a impressão é de que o Jack é um cara sério e importante, enquanto Mandrake é um trapalhão (só o fato de ser interpretado por Peter Sellers já reforça isso). Assim, fiquei surpreso ao ver sua força e humanidade ao confrontar Jack, ainda que de forma agitada e engraçada.
– Sei que foi para economizar tempo de tela, mas senti falta de acompanhar a conversa de Mandrake com o presidente, afinal ele foi um herói subestimado (pelo menos até a bomba explodir…) e creio ser natural que o espectador queira ver um personagem triunfando quando merece. Aquela sensação de “Viu só?! Ele tava certo e salvou geral!” faz falta.
– Senti que a cena final (antes da sequência de explosões, quando o Dr. Strangelove levanta e diz “Mein Führer… I can walk!”) tenta passar alguma coisa grande, uma última punchline ou algo assim… mas não consegui captar. Alguém?

Cássia:
A mão nervosa: eu só pensava em uma coisa o tempo todo, no Hitler. Uma das primeiras ações foi a saudação nazista. Depois, o Dr. Fantástico fala do bunker lá com pessoas selecionadas, uma clara alusão à seleção das pessoas mais “aptas” para repovoarem o mundo (e nós mulheres, claro, só servimos se formos sexualmente atraentes porque teremos apenas duas funções, sexo e reprodução. Além disso, teremos de dividir o cara com outras nove. Obrigada, roteiristas.) No final, ele solta um “mein Führer”, uma das saudações ao nazista-mor. Só não entendi a relação disso com o voltar a andar.

Carlos:
Estou pensando nisso desde que assisti ao filme. Segundo os extras, o personagem do Dr. Strangelove foi inspirado nos filmes de Fritz Lang, alemãs, com um cientista maluco, super-poderoso, mas, de alguma forma, fragilizado. O Dr. Strangelove com sua cadeira de rodas e a mão maluca é frágil e poderoso ao mesmo tempo.
Creio que Strangelove era um cara dividido, com um lado psicótico nazista, mas que atuava nos EUA controlando esse lado, contribuindo para os ideais americanos. Mas, quando finalmente consegue a aceitação de seu plano apocalíptico, os dois lados entram em harmonia. Os EUA abraçam a filosofia dos nazistas, destruindo o mundo e deixando a seleção sobre quem deve sobreviver e quem deve morrer a um computador. Este é o momento em que Strangelove consegue se levantar da cadeira. “Mein Führer, I can walk!”

Cássia:
Sensacional essa sua análise sobre o doutor voltar a andar. Se entendi bem, no momento em que os EUA abraçam a filosofia nazista, a fragilidade vai embora e o poder toma conta. Daí, para conseguir se erguer e saudar o Führer foi um pulo.
Outro detalhe, os aviões americanos: quando o presidente americano liga para o presidente russo e diz que, se os aviões não voltarem, os EUA abateriam os seus próprios aviões deixa tão claro como ninguém tá nem aí com soldados e civis. Não interessa se são do meu país, do seu, dos outros: se tiverem de morrer para ficarmos de bem ou de mal uns com os outros, que morram! Aí sim parece piada, os presidentes do mundo acham que estão jogando War. As mortes são meros efeitos colaterais. O dia em que for obrigatório presidentes e afins irem para a luta armada e colocarem a própria cabeça a prêmio, as guerras acabam.

Carlos:
Uma curiosidade, que corrobora o que você disse, é que Kubrick quis a mesa da Sala de Guerra com o tampo verde, como se os personagens estivessem jogando pôquer, mesmo que o filme fosse em preto e branco. A inspiração da Sala de Guerra é como se existisse um ambiente em que os governantes jogassem com a vida dos outros, como se fossem meros números.

Cássia:
E não é que eu “li” a intenção do Kubrick? Acho bacana quando o diretor coloca elementos no filme para que os atores entrem na história, mesmo que nós espectadores não vejamos isso de maneira clara. Praticamente uma mensagem subliminar.

CONCLUSÃO

Mau:
Como eu havia falado, eu já havia assistido a todos os filmes que eu listei para votação, com exceção de O rato que ruge, então eu já sabia o que esperar deste filme. Apesar disso, fiz uma busca rápida no IMDb e vi que ele concorreu a quatro Oscars em 1965: melhor filme, diretor, roteiro adaptado e ator principal, justamente o foco da minha lista, o Peter Sellers.
Dr. Fantástico ou Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba. Se o nome por si só não desperta a curiosidade de assistir ao filme, os nomes de peso envolvidos na produção certamente preenchem essa lacuna: Peter Sellers, George C. Scott, Stanley Kubrick, para citar só os principais.

Banzai:
Não havia assistido, mas com esse nome e dirigido pelo Kubrick desperta uma grande curiosidade e era essa a oportunidade para saná-la.
Gostei muito! Humor com sarcasmo numa ótima medida, descontrole emocional, tudo que gosto de ver em filmes desse gênero. A simplicidade com que trata o assunto que era um tabu, as pequenas tiradas (como a do Turgidson demonstrando sua empolgação sobre como seria possível passar as defesas russas) beiram o ridículo, ou seja, rendem boas risadas!

Carlos:
Imediatamente o que me chamou a atenção foram as palavras “Kubrick” e “comédia” na mesma frase. Estamos falando do cara que dirigiu Laranja Mecânica, uma das obras mais violentas que já assisti, e O Iluminado, filme que redefiniu o termo “assustador”. Mas independentemente disso tudo, Kubrick levava seus filmes muito a sério. Assim, a curiosidade era grande.
Com certeza, não fiquei decepcionado. Como vocês, achei Dr. Fantástico engraçado e com ótimas piadas. A tripulação do B-52, por exemplo, em uma missão seríssima, estava distraída jogando cartas e vendo revista pornográfica, em total contraste com a gravidade do cenário de guerra. E o capitão da aeronave, que ao saber da gravidade da situação, abre um cofre para pegar um chapéu de cowboy e guardar o capacete? Mesmo assim, o máximo que consegui ao longo do filme foi um riso nervoso. Não por falta de graça, mas pela tensão contínua que a situação toda provocava. Portanto, creio que as piadas de Dr. Fantástico não servem como alívio cômico para um filme sério. Ao contrário, o humor é utilizado o tempo todo para ridicularizar a situação e aprofundar a narrativa. Mesmo quando os personagens são abordados de maneira caricata, como o próprio Dr. Strangelove com seus maneirismos e os militares patéticos, a piada não está neles, mas nas figuras que representam fora da tela.
Pareceu, para mim, que Kubrick é sério demais até quando é muito engraçado.

Daniel:
Gostei MUITO! Não sabia que era uma comédia (evito até sinopses de filmes), mesmo sendo com Peter Sellers, e o humor satírico me agradou bastante. Fiquei feliz por ter “perdido” na votação, já que pulei a cerca uns dias atrás e assisti a Um convidado bem trapalhão (que era outro filme da lista) por conta própria, que me decepcionou bastante na revisita. Este é muito mais interessante.
Entendo o lado do Carlos por ter ficado muito tenso para dar risada, mas pra mim o equilíbrio do filme é perfeito e me diverti bastante mesmo estando tenso.

Cássia:
Contrariando todos vocês, eu não sou uma pessoa que gosta de comédias. Só rio copiosamente em The Big Bang Theory e assisti a quase três temporadas de Community por causa das referências. Eu sinto sono com Monty Phyton. Também não gosto de filmes de guerra e só um me conquistou até hoje, Guerra ao terror. Sendo assim, não é difícil imaginar que, para mim, foi uma hora e meia de filme com a sensação de três horas e quinze.
Mas estamos no clube para isso.

Carlos:
Cássia, eu não sei se escrevi alguma coisa diferente ou não. Mas também não sou super fã de comédias. De verdade, eu não ri durante o filme. Mas adorei.

Cássia:
Carlos, desculpa!, eu entendi errado. Para mim, você só não riu nesse filme porque ficou tenso e não por não ser fã de comédias. =)

Carlos:
Cássia, acho que gerei uma certa confusão. Eu não sou grande fã de comédias. Mesmo assim gostei do filme.
Mas eu realmente não ri no filme porque fiquei tenso com a situação envolvendo a bomba e não porque não gosto de comédias. Você entendeu corretamente e eu expressei-me mal. 🙂

Mau:
Já eu adoro comédias, adoro os momentos em que dou tantas risadas que fico até com soluço depois. Maaaas, acho que dei uma risada no filme todo (não lembro em que parte específica), mas parando para ler o que a gente já escreveu, eu ri do nome do Coronel, da Sala de Guerra, do Dr., mas na hora não. Não sei por que, talvez seja a tensão mesmo.
P.S.: eu também adoro The Big Bang Theory, Cássia, mesmo com tanta gente criticando por aí. 🙂

Filme 22 | A Viagem

Ficha técnica
A Viagem (Cloud Atlas)
Ano: 2012
Direção: Lana Wachowski, Andy Wachowski e Tom Tykwer.
Roteiro: Lana Wachowski, Andy Wachowski e Tom Tykwer.
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Wishaw, Keith David, James D’Arcy, David Gyasi, Susan Sarandon, Hugh Grant.

Escolhido por: Daniel
Discussão iniciada em: 16/12/2013

Daniel:
Fiquei com uma preguicinha de rever o filme quando ele foi o escolhido, talvez por antecipar que uma análise dele seria difícil, ainda mais uma discussão. Mas enquanto reassistia, fiquei feliz de tê-lo escolhido, já que, para variar, acabei gostando até mais do que quando o vi pela primeira vez, no cinema. Foi de longe o filme que mais gerou anotações no meu bloco (não que eu vá falar sobre todas), até porque eu já tinha visto e já estava preparado para tentar buscar todas as conexões dessa salada cinematográfica.
E vocês, o que acharam? =]

Mau:
Ao contrário, foi o que eu menos consegui tomar notas.
Eu odeio vocês por me fazerem assistir a esse filme. Brincadeira. 🙂
Será que vocês conseguem me fazer mudar de opinião?

Cássia:
Acabei de assistir ao filme e apenas uma frase surgiu para mim: Que filme lindo!
Como eu sabia que o filme é longo, desencanei das anotações. Quis assistir de coração aberto, sem me ater a nada. Para mim, Cloud Atlas é para ser assistido sem qualquer ideia preconcebida, para encontrarmos coerência apenas naquilo que nos é contado. Se entrarmos no mérito religioso e espiritual, deixa de ser cinema e vira outra coisa.

Carlos:
Primeiro, faço parte do time que gostou do filme. […]
Creio que Cloud Atlas depende de várias visitas para ser considerado realmente “assistido”. São muitas histórias acontecendo ao mesmo tempo e milhões de detalhes para serem descobertos.

Banzai:
Primeiro, desculpas ao Mauricio por minha falta de sensibilidade em fazê-lo ver UM ÓTIMO FILME!!! hiuhiuahuiaihuahiua 😀
Já havia visto esse filme no cinema e saí obviamente com um grande “?” na cabeça. Estava doido para chegar em casa e pesquisar na internet a ligação entre os personagens, filosofar sobre, só que obviamente outras tarefas me fizeram esquecer disso. O clube foi uma chance de tentar assistir com mais foco ainda e entender o grande motor do filme. Confesso que falhei miseravelmente […].

ROTEIRO

Daniel:
Não é um filme fácil de acompanhar e os realizadores sabem disso, pois logo no início colocam na boca de Timothy Cavendish as palavras que eles gostariam de falar para o espectador: por mais que não goste de flashforwards ou flashbacks, tenha um pouco de paciência e verá que há uma lógica por trás dessa história maluca. As diferentes linhas do tempo são rapidamente apresentadas e parece que será impossível acompanhar tudo, mas logo o ritmo diminui e conhecemos cada uma delas um pouco mais a fundo, com a ajuda necessária dos letreiros que indicam o tempo e o espaço.
Gosto do fato de não haver uma grande trama principal que mova o filme inteiro, como sempre vemos por aí. Não há aquele um obstáculo que um protagonista precisa superar para melhorar sua situação e viver feliz para sempre com seu interesse amoroso, tendo de obedecer às regras de um roteiro, com seus três atos, pontos de virada e tudo o mais. Está mais para a vida como ela é. Várias histórias pequenas que se entrecruzam, que repercutem umas nas outras e que não necessariamente acabam bem. Há, claro, a recorrência de certos temas que não são exclusivos de determinada época ou espaço: vida, morte, amor, empatia, princípios e luta por um ideal. Além também da recorrência dos mesmos erros cometidos pelo homem, apenas adaptados ao período em que vive: escravidão, violência, opressão e ganância.

Mau:
Acompanhamos a história de um personagem de pele clara e cabelos escuros, frágil e dominado pelo sistema, até que outro personagem aparece, este também de pele clara e cabelos escuros, mas diferindo do primeiro por ser de outro sexo e por possuir total controle da situação. Este personagem sabe tudo o que acontece no mundo. Este personagem possui como missão mostrar a realidade do mundo para o personagem mais frágil, que é escravizado pelo sistema e só está lá para servir de fonte de energia para este mesmo sistema. Uma vez acordado para a realidade, ambos são comandados por um terceiro personagem de pele escura que os lidera na luta armada contra o sistema. Dirigido pelos irmãos Wachowski, este é o grande sucesso…, não, não é o Matrix, agora esta é a trama do A Viagem. E já que é assim, vamos adicionar umas histórias de reencarnação, vidas que se entrelaçam através dos tempos, naves espaciais, cavalos, armas, arco e flecha, …
Acho que isso resume bem o que eu achei da história, um apanhado mequetrefe de histórias paralelas, simplórias, mas que influenciam umas às outras, ficção científica, religião, etc. Apesar de juntas formarem um corpo coeso e a ideia por trás da história ser interessante, na minha opinião ela foi mal realizada, pois é um filme que tenta ser tudo e, no final das contas, só consegue ser um filme mediano.

Cássia:
O filme começa com um contador de histórias. O filme é isso: histórias. As nossas histórias, as histórias dos outros, as nossas com as dos outros. E como elas são construídas através do tempo e dos tempos. Mesmo que não houvesse a reencarnação como mote da passagem entre as épocas, bastaria mudar para “ascendência” e “descendência”. Hoje nós vivemos o que construíram antes de nós e o que estamos construindo ficará para quem está chegando. Quem constrói a História não são os grandes nomes. Foram os nossos bisavós e serão os nossos netos. Os nossos amigos, os nossos vizinhos, os nossos amores. Todos nós ligados por uma tênue linha. Há uma frase linda da Simone de Beauvoir que ilustra bem isso: “Não há uma pegada do meu caminho que não passe pelo caminho do outro”.

Daniel:
A citação da Simone de Beauvoir é bem apropriada. Me identifico bastante com isso por ser fissurado em viagens no tempo. Invocando um pouco meu lado nerd na discussão, comecei a assistir a Doctor Who nos últimos meses, e alternar episódios da série com esse filme mexeram ainda mais com a minha percepção das coisas. Parece besta, mas causa uma sensação realmente intensa de perceber algo novo numa coisa que sempre esteve na nossa cara, quase uma epifania.

Cássia:
Em relação ao roteiro, Daniel, essa regra dos três atos é a clássica, por assim dizer. Mas a estrutura aristotélica tem dado lugar à estrutura criada por Robert McKee, que, falando de maneira simplificada, trocou os atos por hook, hold e payoff. Conte uma história em quantos atos você quiser, desde que siga esse método.
[PAUSA: Há uma explicação sobre essas diferenças na aula 5 da primeira unidade do curso The Future of Storytelling. Bacana é fazer o curso todo, eu terminei hoje e é excelente. Mas, voltemos.]
É o que acontece em Cloud Atlas. Não há o grande problema a ser resolvido, mas existem as mudanças: são os encontros. No barco, o encontro entre o branco aristocrata e o negro escravo. Na Escócia, entre o músico novato e o músico famoso. Em San Francisco, entre a jornalista e Tom Hanks de peruca loira. Na Inglaterra, os velhinhos no asilo. Em Seul, a moça inexpressiva e o seu salvador. E no local sem nome, o Tom Hanks e a Halle Berry. Nenhum encontro foi em vão: todos trouxeram pequenas mudanças, mas que deram um outro rumo a vida dessas pessoas. O aristocrata que virou abolicionista, a realização de uma grande obra musical, a revelação da história do petróleo, os velhinhos seguindo a própria vida, as coreanas quase sendo salvas e o final, Tom e Halle construindo finalmente uma “casa” e uma grande família. Mas como estamos acostumados aos grandes feitos, parece quase nada. Mas são esses quase nada que mudam a vida da gente.

Daniel:
Cássia, se essa estrutura de roteiro [do Robert McKee] é o futuro do Cinema, mal posso esperar.
[PRECISO separar um tempo para fazer esses cursos bacanas que você sempre indica pra gente. rs]
Cloud Atlas consegue ser drama, comédia, romance, ficção e policial, tudo ao mesmo tempo e de forma bem-sucedida, adaptando a fotografia e o tom da narrativa de acordo com cada gênero. Comparem, por exemplo, o tom e a atmosfera mais cômica de 2012 (o editor Cavendish e sua fuga do asilo), e o tom de urgência de 1973 ou 2144 (Luisa Rey descobrindo uma conspiração para explodir uma usina e Sonmi fugindo com Hae-Joo, respectivamente).

Mau:
Isso é verdade, não havia reparado. Como digo mais adiante, tirando a maquiagem, a parte técnica consegue quase uma nota perfeita.

Daniel:
E é por isso que, gostando ou não, é preciso reconhecer que o filme é ambicioso e corajoso. Ainda mais por colocar o queridinho de Hollywood (e um dos meus atores favoritos), Tom Hanks, em nada menos do que quatro personagens de moral duvidosa, além de matar um quinto personagem dele precocemente. Novamente, é de se admirar.

Carlos:
Destrinchando um pouco mais a narrativa, percebi que apesar de serem seis histórias, todas estão vinculadas à libertação. Há o escravo, obviamente preso. Em seguida o compositor novo, preso na casa do compositor velho. Depois Halle Barry, como jornalista, presa dentro do seu fusquinha afundando no oceano. Nos tempos atuais, o editor fica preso naquele asilo-prisão. No futuro, Sonmi, presa na usina de fazer carne humana. E, por fim, Tom Hanks, preso na ilha estranha.
O segundo tema universal, que permeia todas as tramas, é o amor. E como disse a Cássia, foi belíssima a maneira que eles resolveram abordar o amor, porque escapa das amarras de amor monogâmico heterossexual. Creio que uma das lições do filme é que o amor pode surgir de várias maneiras. E ele é a força libertadora do filme. O amor entre o escravo e o advogado abolicionista, o amor gay entre Frosbisher (o compositor novo) e Sixsmith, e o amor quase paternal deste, anos depois, para com a jornalista. E por aí vai.
Em oposição ao amor, há sempre o censor, encarnado, literalmente, no Hugo Weaving. É interessante como essa questão da obediência à norma é, na maior parte das situações, um elemento de prisão. O capeta que atentava o Tom Hanks-das-selvas não passava nenhum conselho ruim. Ele apenas era uma espécie de superego atuando como uma voz conservadora. E, por isso, destrutiva.
Esses são os grandes temas do filme para mim. Prisão e amor. Mas ainda há mais uma coisa, para a qual a Cássia chamou a atenção. Esse é um filme que mostra como os pequenos acontecimentos têm repercussões incalculáveis. Não é uma história de grandes homens e grandes conquistas. É uma história de pessoas comuns, em atos comuns que ganham ares de épicos. O maior símbolo disso é Sonmi, que passa de garçonete robótica a deusa.
É curioso, aliás, que esse tema seja abordado pelo Tom Tykwer, o mesmo roteirista e diretor de Corra, Lola, Corra. Lá ele acompanhava, quase que em tempo real, como pequenos detalhes influenciavam decisivamente uma situação específica. Aqui, pequenas atitudes modificam a estrutura da sociedade inteira.

Mau:
Provavelmente todos vão falar sobre a marca do cometa, que deve representar a mesma alma que reencarna indefinidamente, mas algo que o filme realiza de maneira muito interessante é a forma com que essas almas passam por provações para atingir a “iluminação”. Não sei se isso está no livro que deu origem ao filme, ou se foi acerto dos roteiristas, mas alguns personagens portadores da marca do cometa sempre atravessam uma ponte, na qual eles precisam passar por uma provação. A ponte é um simbolismo para um rito de passagem, seja esta da terra ao céu, de um estado de ser para outro, etc., etc., etc.
– No caso da jornalista temos a primeira ponte, quando ela sofre o atentado que a faz se conectar mais com o falecido pai de forma a não se entregar e expor a conspiração que ela acabara de descobrir;
– No caso da versão feminina do Mr. Anderson, temos as diversas pontes que eles usam para fugir dos perseguidores;
– E por fim, no caso do pastor futurista, temos a ponte na qual ele e a visitante têm de se esconder para fugir da outra tribo.
Mas posso ter viajado um pouco mais e “enxergado” algumas pontes metafóricas também:
– No caso do advogado, sua ponte é o navio que liga o lugar em que se explora os escravos até sua terra natal. Nesse caminho ele vai sofrer nas mãos do médico da tripulação e caminhar para se tornar uma pessoa melhor lutando pelos direitos dos escravos;
– No caso do compositor, sua ponte são as cartas que o unem ao seu amante, enquanto sofre nas mãos do compositor mais famoso;
– No caso do editor de livros temos o trem que o separou de sua namorada e que o levou até o asilo no qual ele precisaria lutar para escapar e reencontrar o amor da sua vida;
– E outra com o pastor futurista, quando eles estão separados pela corda durante a escalada e o pastor tem que lutar contra seus demônios internos para salvar a vida da visitante.

Banzai:
[Sobre as pontes] Juro que foi tudo novidade para mim! Ótima observação! 😀 mas será que em vez de ponte, não seria “porta”? Assim como a Sonmi fala de portas, poderíamos converter tudo em porta! huauha

Cássia:
Mauricio, eu prestei atenção no cometa, mas não havia associado com a mesma alma. Mas por uma razão: antes de assistir ao filme, eu peguei um esquema com todos os personagens e os períodos em que eles se situam. Sendo assim, eu sabia que a Halle Berry em San Francisco não era a mesma Sonmi em Seul, são almas diferentes. Pelo menos foi o que entendi. Por isso eu fiquei perdida com essa ideia do cometa, mas gostei muito dessa metáfora, da associação da ponte e o rito de passagem. Eu teria de assistir de novo para perceber isso.

Carlos:
O cometa e as almas. Não creio que o cometa simbolize reencarnação, mas sim que aquele personagem é o que altera a cadeia de eventos do movimento seguinte. O advogado escreve o diário e salva o escravo. O compositor compõe e inspira o físico. A jornalista salva a pátria, o editor faz o filme. A Sonmi vira deusa e o Hanks-do-mato salva a pátria.
Já as pontes citadas pelo Mauricio foi uma imagem que eu não tinha reparado. Coisa linda. Só tenho algumas colocações. Na história do Hanks-do-mato, eles cruzam uma ponte e se salvam do Hugh-Grant-Canibal quando se escondem debaixo dela.
Na história do escravo não creio que exista uma ponte metafórica, mas um trocadilho. O barco tem uma “ponte de comando”, não? Nos barcos antigos era onde ficava o leme, no convés. É lá que o escravo resolve fazer o show-off na vela.
A história do compositor começa com um romance entre universitários de (tchanam!) Cambridge.

Mau:
Essa foi interessante, e nessa história eu realmente não havia identificado muito bem a ponte e esse detalhe me fez ver que eu, talvez, não esteja viajando tanto assim. 🙂

Carlos:
E no caso da história do editor eu não achei a ponte. Talvez aquele trem passe por uma ponte. Talvez ele vá para Cambrige. Ou talvez o pessoal do asilo-prisão tivesse jogando bridge em algum momento que eu mosquei.

Mau:
Pois então, nestes dois casos eu associei a “ponte” ao barco e ao trem, pois assim como uma ponte, os dois meios de transporte ligam duas localidades distintas.

Daniel:
Muito boa a análise dos cometas que vocês fizeram. Era uma das dúvidas que eu tinha pra colocar. Desde as pontes do Mauricio até o Carlos falando que o portador da marca é quem muda a história do seu tempo. Só discordo que as marcas representem reencarnações, pois estas ficam bem estabelecidas com a reutilização de atores.

PERSONAGENS

Banzai:
O filme tem N histórias que se interligam, N personagens que se encontram e reencontram. Há três tipos de personagem: bonzinhos, Hugo Weaving e Tom Hanks. Os bonzinhos se encarregam de demonstrar coisas boas, amizade, amor, já a galera da maldade está ali só pra demonstrar as dificuldades e o Tom Hanks para demonstrar que apesar de tudo estar ligado e blá-blá-blá, ainda podemos nos desprender de nossa ganância para fazer algo bom. E acho que por isso ele é o narrador, deveríamos nos identificar com ele, já que somos gente comum sem a bendita marca de cometa em alguma parte do corpo (tô ligado que vocês estão com espelhinhos procurando em tudo quanto é parte). Ao assistir pela segunda vez, pude notar muitas coisas novas, pude notar inclusive que já caminhei por um dos locais filmados, o monumento (The Scott Monument) onde o Frobisher se esconde do Sixsmith em Edimburgo. 😀
A história de amor dos dois é bem cativante, por sinal, justamente por ser à distância e tão poética, creio que foi opção do roteiro colocar a maior história de amor sendo entre duas pessoas do mesmo sexo, talvez por estarem cansados do “de sempre” ou para chamar mais atenção ainda.

Daniel:
O Tom Hanks parece ser o que mais se diverte com seus personagens, e Zachry é um de meus favoritos justamente por escapar da óbvia polarização bonzinho-malvado. Logo no início, quando ele abandona o cunhado e o sobrinho para a morte, tendemos a vê-lo com desprezo, como um covarde, mas com o tempo fica claro que ele é apenas um ser humano, com qualidades e defeitos, que errou ao seguir aquela voz no fundo da nossa cabeça (Georgie), aquela voz instintiva, de auto-preservação, que combate novas ideias e novas visões de mundo com todas as forças em nome do conservadorismo.
A ideia de utilizar os mesmos atores para formar casais ao longo da história, mesmo que infantil, me emociona e agrada bastante. E fiquei surpreso ao descobrir, só com a ajuda dos créditos, que Doona Bae e Jim Sturgess (ator subestimado de quem gosto muito) formam um casal até mesmo como os pais de Megan, sobrinha de Sixsmith (Sturgess é o irmão de Sixsmith). Doona Bae que, para mim, é o elo mais fraco do filme. Inexpressiva demais para o papel importante de uma deusa. Não sei se foi proposital pela natureza de Sonmi, mas ela não cativa. E, apesar de gostar da ideia de reutilizar os atores, a qualidade da execução da ideia é muito inconstante por causa da maquiagem.

Cássia:
Eu gosto especialmente como o amor é tratado e dos casais formados, e não vejo nada de infantil nisso. Foi coerente com a proposta do filme. Aliás, acho inteligente utilizar os mesmo atores, porque imaginemos esse filme com atores diferentes para cada personagem, mas com essa ideia de reencarnação, ou até de mesmos personagens. David Lynch faz essas coisas e, bem… Quem o entende?

Daniel:
Sobre a reencarnação dos mesmos casais ser infantil, me expressei mal. Quis dizer que acho que muita gente deve achar infantil, mas eu mesmo gostei muito e acho que funciona, como coloquei em seguida.
Falei antes que a escravidão permeia o filme, e que coisa linda é a química entre o escravo Autua e Adam Ewing, uma das minhas relações favoritas. Ewing sabe que “deve” ser um escravista (it’s only logical), mas inconscientemente ele sabe que é um abolicionista, e Autua dizer que vê a amizade nos olhos dele me pegou. Autua não é o pobre escravo incapaz que é salvo pelo branco bonzinho. Ele tem personalidade, caráter e é um personagem forte. Já viu muito do mundo para ser escravo, como ele próprio diz, o que faz um contraponto interessante à submissão da escrava Sonmi.

Carlos:
Mas eu entendo [que o filme tenha sido injustiçado pelo público]. Não creio que seja pelas várias idas e vindas do roteiro, uns milhões de flashbacks e flashfowards. Isso é o que pretenderia o público. A maior dificuldade, creio eu, seja em encontrar, entre tantas tramas, personagens de identificação. O filme é costurado por várias histórias e a narrativa não chama atenção para nenhuma em especial. Por isso, ficou difícil o espectador encontrar aquele personagem-para-chamar-de-seu.

Mau:
Concordo, e esse pode ser um dos problemas.

Carlos:
Isso me leva a um último questionamento. Sei que são seis histórias e cada uma delas tem sua importância. Mesmo a menor delas, que se passa no asilo. Mas há uma história principal? Um protagonista da narrativa? Eu creio que sim e acho que é o Tom-Hanks-das-selvas. Ele é o personagem que mais muda no filme. Ele se livra do capeta, literalmente.
Mas deixo a resposta para vocês.

Banzai:
Acredito que a história principal seja dele também, por narrar. Mas como ele sabe de todas as outras?! Fiquei pensando nisso agora…

Daniel:
Discordo do Banzai e do Carlos. Não creio que o Zachry seja o principal. Vários personagens narram suas histórias em algum momento, ele não é o único narrador. Acho que essa impressão acontece porque é ele quem abre e fecha o filme, por ser a linha do tempo que vem depois de todas as outras. Não acho que ele estava narrando a história de todos para as crianças. Ele narrou apenas a dele e, justamente para reforçar que certos acontecimentos, comportamentos e sentimentos estão presentes em qualquer época, apenas o espectador acompanha as histórias intercaladas.

MONTAGEM

Mau:
Mas meus problemas foram só quanto a história. Eu consegui encontrar virtudes ao longo do filme também. A interpretação dos atores ao longo das vidas foi muito bem estruturada e realizada, mas uma coisa que chama a atenção no filme é a montagem. O filme imprime um ritmo alucinante desde os primeiros minutos e, alternando constantemente entre as histórias, em nenhum momento deixa o espectador perdido sobre o que (e quando) está acontecendo determinada ação.

Cássia:
Gosto da maneira como a montagem, a fotografia e a direção de arte nos situam no tempo. Eu não fiquei perdida em momento algum. Conseguia me achar, acompanhar as histórias, entender as conexões que os personagens tinham no passado e no futuro.

Banzai:
Realmente, não havia notado isso, mas não há dificuldade nenhuma de se situar quando havia uma transição de história, e tudo isso graças ao que você citou: montagem, fotografia e direção de arte, impecáveis!!!

Daniel:
A montagem do filme deve ter sido um pesadelo, e acho que o resultado final ficou digno, com diversos clímax acontecendo lindamente em paralelo. Além de já ser algo complicado de se fazer, costuraram várias transições com raccords inspiradíssimos, tanto sonoros quanto visuais e até temáticos, por assim dizer. Não deve ter filme melhor para se utilizar raccords do que aquele cujo slogan diz “Tudo está conectado”.
E tudo realmente está conectado: Adam Ewing escreveu um diário em 1849, que foi lido por Robert Frobisher em 1936 enquanto ele compunha uma sinfonia e escrevia para Rufus Sixsmith. Luisa Rey conhece Sixsmith velho em 1973 e tem acesso às cartas quando ele morre de forma semelhante ao seu amante, e através das cartas ela conhece a sinfonia Cloud Atlas, tudo isso enquanto tenta resolver o caso da usina. O amigo dela, Javier Gomez, escreve um livro lançado em 2012 baseado na história de Rey. O livro é lido por Timothy Cavendish, que escreve o próprio depois de escapar do asilo e se reunir com Ursula. Seu livro ganha um filme (o sexto e último personagem de Tom Hanks interpreta Cavendish) que é visto por Sonmi em 2144. Pra terminar, Sonmi vira uma deusa para o povo de Zachry depois d’A Queda.

Banzai:
Ótimo resumo!!! Me ajudou com a cronologia dos pensamentos rsrsrs. Desses eu não havia captado o livro do Javier.

Cássia:
Concordo sobre os raccords. Lindo de ver, nossa! Aliás, que aula de montagem! Ainda não assimilei a qualidade da montagem, sério mesmo.
Não vou me aprofundar nos detalhes, e nas ligações entre as histórias, porque vocês já fizeram isso muito bem. Esse filme daria uma bela dissertação de mestrado: tem material para analisar por muito tempo!

Carlos:
Os motivos de eu ter gostado são os já colocados por vocês. A montagem do filme é algo tão impressionante que chega a ser irritante. Como colocaram o Daniel e Cássia, são tantas rimas, tantos raccords que para analisar eu precisaria assistir ao filme mais umas quinze vezes.

TRILHA SONORA

Lucas Lago:
Não consegui evitar de comentar…
A parte que mais me impressionou foi como a trilha acompanha essa ideia central do filme, sempre retrabalhando os mesmos temas. Da mesma forma que o filme sempre retoma a mesma temática em sua narrativa, a trilha faz o mesmo em todas (ou praticamente todas) as músicas.
Sempre com alguma nota diferente – mais divertida, mais densa, mais romântica –, mas sempre ao redor de dois temas centrais.
Desculpa não participar sempre, e quando participar colaborar com tão pouco… mas como ninguém tinha falado isso, resolvi destacar.

Carlos:
Bem observado. Acho que você deveria participar sempre.

MAQUIAGEM

Mau:
Agora uma coisa digna de nota no filme (negativa, diga-se de passagem) é a maquiagem.

Daniel:
Algumas ficam extremamente boas, como o Sixsmith velho, o Dr. Henry Goose e Old Georgie, mas não dá pra engolir a versão asiática do Hugo Weaving ou o resultado final da Tilda, por exemplo.

Mau:
No geral as maquiagens são extremamente caricatas, e em alguns casos ela consegue ser ainda ridícula, como quando somos apresentados a um Hugo Weaving coreano : / (como o Daniel também comentou).

Cássia:
Também concordo sobre a (má) qualidade da maquiagem. Não só, a caracterização também, algumas perucas ali eram de doer.

Banzai:
Confesso que também achei feias, mas achei elas propositais. Para que pudéssemos conectar as “almas” dos personagens viajando pelo tempo, teríamos que reconhecê-los e uma forma fácil foi essa maquiagem tosca. Hugo Weaving coreano me lembra um outro filme, o novo Anjos da Lei, que tinha uma imagem de Jesus Coreano rsrsrs.

CONCLUSÃO

Carlos:
É, enfim, um filme de dimensões épicas, que para mim foi extremamente injustiçado pelo público (e pelo Mauricio 😉 ).

Mau:
Gentes, eu falei antes e repito, a parte técnica do filme (raccords, rimas, montagem) é impecável. Até a ideia por trás do filme é excelente, como vocês mesmo colocaram bem. Meu problema é com o jeito como ele foi executado e com as histórias escolhidas para isso.
Para mim, esse filme e Nosso Lar disputam cabeça a cabeça. E vou mais além com relação às histórias dizendo que os irmãos Wachowski foram tão preguiçosos que não se deram nem o trabalho de inventar uma história original na parte futurista, puxa, eles reciclaram a trama do Matrix!!!

Daniel:
Mauricio, eles reciclaram uma história do Matrix mas criaram outras cinco no mesmo filme. 😉
E, de qualquer maneira, não vejo essa reciclagem como falta de originalidade. As propostas dos filmes são diferentes, então eu não me incomodo com isso (até porque não tinha notado as semelhanças). Sem querer ser chato, mas talvez o fato de você já ter ido esperando algo-ruim-dos-criadores-de-Matrix tenha atrapalhado a experiência. Não que seja inadmissível não gostar do filme, pelo contrário, eu entendo quem não goste, é só uma hipótese. Mas o lado bom depois da tortura é poder falar mal do que não gostou hehe.
As histórias são mequetrefes mesmo, mas acho que essa é a questão que todos comentamos: são histórias pequenas porque as nossas histórias também são, e no fundo são elas que importam e convergem em histórias maiores que mudam o rumo das coisas.

Carlos:
Creio que esse será um daqueles filmes reconhecidos tardiamente. Daqui a uns vinte anos vão fazer uma lista e dizer que esse foi o GRANDE filme do início do século, que ninguém prestou atenção.

Daniel:
Carlos, também acho que o filme será reconhecido mais pra frente, porque hoje dá até dó. O que tinha de gente reclamando no cinema não é brincadeira. Quando o filme acabou, uma turma de meia dúzia de jovens chegou a virar para um outro e comentar: “Nunca mais deixamos você escolher o filme!” haha. Curiosamente, o Pablo comentou sobre o reconhecimento tardio de outro filme dos Wachowski, Speed Racer, e concordo com ele nesse caso também.

Mau:
Se a Cássia achou uma tortura o Dr. Fantástico, veja pelo lado bom, pelo menos ele era curto, Cássia. Eu passei batido por esse filme no cinema depois de ver o trailer, e vejo que não sairia feliz do cinema se tivesse ido na época. Esse sim teria sido uma tortura, e longa. 🙂

Cássia:
Mauricio, eu havia imaginado que assistir às três horas desse filme seria uma tortura para você. Especialmente porque você não queria assisti-lo. Pense no lado bom: já passou! Hehehehe.

DETALHES

Carlos:
Espero que no futuro eles lancem alguma edição recheada de extras sobre o filme, porque o Blu-ray atual não trouxe muita coisa. Creio que em razão do insucesso do filme.

Daniel:
Puxa, peguei o Blu-ray de A Viagem umas semanas atrás justamente pra ver os extras e descubro agora que tem pouca coisa. Uma pena. =/
Dois detalhes sobre os quais fiquei em dúvida e não encontrei resposta:
– Não entendi se o fato de a parte que faltava do diário de Ewing estar calçando uma mesa é importante ou não.
– O que teria sido A Queda? Talvez eu tenha deixado escapar alguma explicação oculta, mas fiquei curioso pra saber como a humanidade chegou no estado em que vemos o povo de Zachry, com dialetos diferentes, monumentos antigos cobertos de vegetação e tudo mais. Até cogitei que tivesse algo a ver com a inundação de Seul comentada por Hae-Joo, mas não acho que tudo sumiria assim tão fácil.
Por último, um detalhe que gostei muito: a cena do sonho em que Sixsmith e Frobisher quebram a fronteira entre barulho e som e fazem música estraçalhando porcelana. Muito lindo de ver.

A monstruosa busca pela identidade própria

Mike Wazowski é um monstro. Fofo, miudinho, de bom coração, mas um monstro. Criado em computador para um filme infantil, mas, insisto, um monstro.

Talvez isso tenha sido o suficiente para convencer o leitor quanto à natureza do personagem, mas certamente não é o suficiente para convencer seus companheiros de espécie, que por alguma razão não levam a monstruosidade de Mike muito a sério.

Bú!

De todas as profissões possíveis que um monstro poderia escolher – e, acredite, o universo do filme é crível o bastante para sugerir mais do que um punhado de possibilidades –, Mike foi logo se apaixonar pela profissão de assustador. Para quem não lembra ou não viu Monstros S.A., os monstros fabricam portas que acessam o mundo dos humanos para assustar crianças, cujos gritos são a fonte de energia do mundo dos monstros. Quanto mais assustado for, mais energia o pimpolho molha-cama fornece.

Universidade Monstros marca a primeira vez que a Pixar realiza uma prequel (palavra curta que substitui o termo técnico filme-produzido-depois-que-conta-a-história-que-veio-antes), e assim acompanhamos o desenrolar da relação de Mike e Sullivan quando eles se conhecem na universidade. Longe do amor à primeira vista, os dois se encontram em lados opostos do espectro da popularidade universitária. Sullivan é filho de um famoso assustador e sua aparência o favorece a seguir a profissão do pai, ainda que a sombra de seu sobrenome gere certa prepotência e acabe servindo de esconderijo para uma insegurança inconsciente. Já Mike, que chega a ser chamado de bola de vôlei, não conta com aquele empurrãozinho da genética e tem que estudar e treinar muito para chegar onde chegou (porque, aparentemente, até mesmo a posição dos lábios na hora de um rugido pode influenciar na intensidade do susto de uma criança).

Uma universidade é supostamente um lugar acolhedor, um lugar para experimentar, para falhar e tentar de novo, se descobrir. Um lugar que deveria oferecer um leque enorme de possibilidades e ser aberto para novas ideias e diferentes personalidades. Os universitários, porém, não parecem tão confortáveis com a diversidade e não agem de acordo, e entra em cena o bullying, que é um problema maior nos Estados Unidos (e, consequentemente, num mundo de monstros criado por norte-americanos) do que aqui, ou assim Hollywood faz parecer. Adeque-se ao sistema ou seja esmagado por ele. Dê um só passo para fora da linha e torne-se um alvo visível por todos que nela permanecem.

“Não tão rápido, mocinho. Aonde pensa que vai?”

E é o que acontece com Mike quando entra para uma competição de assustadores para provar seu valor. Tornando-se um alvo ainda maior do que quando era um simples nerd, o destemido monstrinho verde parece possuir uma confiança inabalável. Juntamente com Sullivan e com os também inadequados membros da fraternidade Oozma Kappa, cuja sigla brinca com o status de aceitação do grupo (“eles são OK”), Mike tem que passar por uma série de provas de habilidades físicas e estratégicas, em sequências criativas e divertidas.

Durante a competição, o grande desafio de Sullivan é aprender a respeitar a inaptidão alheia e trabalhar em equipe, enquanto Mike precisa reconhecer suas fraquezas, trabalhar seus pontos fortes e, como líder do grupo, instigar cada um a fazer o mesmo. A sequência que trás a dupla trabalhando junta para superar um obstáculo em particular merece destaque por surgir como uma excelente forma de consolidar uma relação muito bem construída, e ainda estou surpreso com a proeza com que o filme consegue fazer um quarto cheio de crianças se transformar em algo assustador.

O aterrorizante mundo dos homens.

Em tempos que um papel emoldurado na parede com seu nome assinado diz muito mais sobre você do que seu caráter, suas ações e até mesmo sua boca jamais serão capazes de dizer, Universidade Monstros surge como uma fonte inesperada de inspiração. Todos temos algum talento, um ponto forte. Basta encontrá-lo e abraçá-lo; celebrar a particularidade de cada indivíduo. Um brasileiro pode ser um exímio jogador de peteca ou de bocha, mas como descobrir isso se continua se forçando a jogar apenas futebol? Uma mulher pode ser uma cineasta excepcional que não teve coragem de enfrentar o machismo predominante na área. Um homem pode ser um dançarino espetacular que nunca exerceu sua paixão por medo da homofobia.

Quebrar convenções e ultrapassar limites é essencial para o desenvolvimento, o que não significa que a tarefa não exija uma boa dose de coragem e visão. Mesmo que de um olho só.

Crítica | Gravidade

Gravidade (Gravity) | 2013

Direção: Alfonso Cuarón

Roteiro: Alfonso Cuarón, Jonás Cuarón

Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris

Entre todos os grandes feitos da humanidade, é seguro dizer que colocar pessoas e estruturas na órbita da Terra seja um deles. Isso porque o espaço, apesar de fascinante, é extremamente hostil, mesmo a apenas algumas centenas de quilômetros acima da superfície terrestre, e o letreiro com informações básicas que abre o filme deixa claro até para o mais leigo dos espectadores: se aventurar no espaço é perigoso.

Ryan Stone (Sandra Bullock) faz parte da tripulação de uma missão que tem como objetivo aprimorar o telescópio espacial Hubble, procedimento que exige que os astronautas façam caminhadas espaciais, ou seja, fiquem do lado de fora da nave, flutuando no espaço sem nada abaixo deles exceto a própria Terra. Durante a missão, eles são informados de que os restos de um satélite que havia sido abatido pelos russos se chocaram com outros satélites e criaram uma reação em cadeia que coloca milhares de destroços em alta velocidade em rota de colisão com o Hubble, destruindo o telescópio e a nave e deixando os astronautas à deriva.

A sequência inicial de Gravidade é espetacular, e sua eficácia do ponto de vista cinematográfico é resultado do que deve ter sido um desafio técnico gigantesco. Num único plano que dura mais de dez minutos sem sofrer cortes, Cuarón nos coloca na órbita da Terra enquanto observamos o ônibus espacial Explorer se aproximar com o Hubble acoplado, e quando o espectador se dá conta, já está sendo levado pela câmera, passeando pelo espaço e entre os astronautas como se fosse mais um tripulante da missão.

Aliás, o filme todo parece determinado a jogar o espectador para dentro da tela. Além do ótimo uso de planos longos (que provavelmente fariam Michael Bay bocejar), Cuarón também faz bom uso de câmeras subjetivas que captam o ponto de vista dos personagens, em sequências que parecem saídas de um jogo de tiro em primeira pessoa. A decisão de acompanharmos apenas os astronautas e o que acontece na órbita terrestre também é acertada (em vez de alternar entre a missão e o controle na Terra, como é tão comum em filmes que se passam no espaço), pois só sabemos o que os astronautas sabem e nos aproximamos deles. Até mesmo os movimentos de câmera, suaves e fluidos, contribuem para a sensação de gravidade zero e para a imersão do espectador. Além, claro, do 3D, que adiciona profundidade e escolhe os momentos certos para atirar coisas no espectador, sem exageros.

Mas de nada adiantaria ter tantos méritos técnicos sem um roteiro e atuações que os sustentassem. A história da missão que dá errado e se transforma em tentativa de sobrevivência já foi vista antes (alô, Apollo 13!), mas além de todas as particularidades já citadas, temos dois personagens centrais fascinantes. George Clooney cria um Matt Kowalski claramente apaixonado pelo que faz e deslumbrado pelas belezas do universo. Sujeito otimista, calmo e bom de conversa, não parece se deixar abalar facilmente, e até mesmo a sugestão de um improvável acontecimento envolvendo o personagem no final do filme surge verossímil graças à sua personalidade. Mas o destaque fica mesmo para Sandra Bullock, que cria uma personagem triste e sem rumo, tentando superar um acontecimento insuperável de seu passado, numa atuação contida e sensível. Presa no espaço e correndo contra o tempo, até mesmo sua maneira de respirar ajuda a aumentar a sensação de claustrofobia. Assim, um dos melhores momentos do filme fica por conta da cena simbólica e tocante na qual Ryan, ao se permitir um raro momento de liberdade e extravasamento, apenas flutua, girando lentamente e se curvando até atingir a posição fetal. Outro mérito de Bullock é conseguir que o espectador torça pela personagem, o que é fundamental para que o filme funcione. Já Ed Harris praticamente reprisa seu papel em Apollo 13 como o controle da missão na Terra, e suas conversas descontraídas com Matt prestam um bom serviço à imagem dos pobres profissionais da área ao mostrar que nem tudo é tão sério e sem-graça como as pessoas costumam imaginar.

“Sandra, acho que tá me dando vontade de ir ao banheiro.”

O roteiro acerta também na forma como retrata a Física, aspecto em que muitas ficções falham miseravelmente. De maneira geral, tudo o que acontece é perfeitamente plausível, e particularmente não é todo dia que vejo um filme corajoso e seguro de si o suficiente para não adicionar efeitos sonoros em colisões e destruições no espaço, preferindo o realismo ao exagero. O próprio som diegético (o som originado dentro do universo do filme) só é audível – e de forma abafada – quando originado de um objeto em contato com o corpo dos astronautas, resultado da propagação das vibrações através do corpo e do ar dentro da roupa, o que dá ao espectador a sensação de estar escutando tudo através de seu próprio corpo e de seu próprio traje de astronauta. Já os sons que se originam em objetos afastados dos personagens não são audíveis, uma escolha que acaba tornando as colisões e destruições ainda mais assustadoras, auxiliadas por uma trilha instrumental que foge do óbvio e cria momentos de muita tensão.

Gravidade ainda acha espaço para celebrar a diversidade. Seja através dos planos-detalhe de uma imagem de Jesus na Estação Espacial Internacional e de uma imagem de Buda na estação chinesa, seja através das diferentes nacionalidades dos astronautas e das várias bandeiras penduradas na EEI (que é uma estação real, diga-se), inclusive a do Brasil. Oras, a própria estação, como seu nome já diz, é resultado de um esforço conjunto de vários países e um símbolo da união entre povos que a ciência proporciona em busca de conhecimento.

Alfonso Cuarón, que tem em sua filmografia Filhos da esperança, Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban e E sua mãe também, se tornou um de meus diretores favoritos depois deste Gravidade, fazendo-me sentir o mais próximo possível de um astronauta, sonho que tenho desde que me entendo por gente, ao mesmo tempo em que estimula a reflexão sobre a vida, a morte, o universo e que papel tem nisso tudo o nosso pálido ponto azul.

(5 estrelas em 5)