Cinema on the Rocks | O Segredo dos Animais

Ficha técnica:

O segredo dos animais (Barnyard)
Ano: 2006
Direção: Steve Oedekerk
Roteiro: Steve Oedekerk
Elenco: Kevin James, Courteney Cox, Danny Glover, Sam Elliott e outros.

E eis que aconteceu e o Seu Tartarugo (apelido do meu filho, para quem não me acompanha no Twitter) finalmente chegou a fase de assistir a desenhos, um atrás do outro, e de novo, de novo, de novo, de …. Desde então, minha vida cinematográfica é composta basicamente de produções para a família da Disney, Pixar, Dreamworks, etc. E foi em uma dessas ocasiões que fui surpreendido com um bom exemplo da utilização do nosso rock ‘n’ roll.

Em “O Segredo dos Animais” somos apresentados a dois bois: Ben (Sam Elliott) e seu filho adotivo Otis (Kevin James). Ben é o líder da fazenda e o responsável por manter a ordem entre os animais sempre que o fazendeiro sai, e por fazer todos se comportarem novamente como animais quando o fazendeiro retorna. Já Otis, ao contrário, é o típico filhinho de papai, que vive uma vida fácil, sempre pensando em se divertir com os amigos e fugindo de toda e qualquer responsabilidade, até que …

SPOILERS deste ponto em diante.

… após ser atacado por um grupo de coiotes, tentando defender as galinhas da fazenda, Ben não suporta os ferimentos e morre. Sem ninguém para botar ordem nos animais na fazenda, o caos se instala e o que era antes uma pacata vida no campo se transforma em uma revolução dos bichos. E não demora muito para que os próprios animais, sem a liderança firme de Ben, acabem deixando escapar o seu “segredo” para o fazendeiro, obrigando-os a uma saída nada elegante para fazer com que o fazendeiro “esqueça” o que viu. Com a volta dos coiotes, os animais precisam de alguém que os defenda novamente, e cabe ao Otis decidir se irá se tornar o “homem” que seu pai sempre sonhou que ele se tornasse.

Produzido pela Nickelodeon Movies em parceria com a Paramount, “O Segredo dos Animais” deixa um pouco a desejar quando comparado a outros filmes do gênero, mas assim mesmo consegue surpreender em determinados momentos, como a passagem derradeira de Ben, que você pode assistir abaixo.

Para evitar um ataque dos coiotes à fazenda, Ben está sentado com seu violão em uma pedra e acompanhamos sua vigília noturna enquanto ele canta e toca os dois primeiros versos da belíssima “I won’t back down” do Tom Petty (na voz do próprio Sam Elliott).

“Well, I won’t back down
No I won’t back down
You can stand me up at the gates of hell
But I won’t back down

No I’ll stand my ground
Won’t be turned around
And I’ll keep this world from draggin’ me down
Gonna stand my ground …”

Após o travelling que nos leva em direção aos coiotes e à incursão destes ao galinheiro da fazenda, vemos o terror a que eles estão submetendo as galinhas. Sempre envoltos em sombras para aumentar a ameaça que eles trazem, o que é magnificado pela noite escura e chuvosa, estes podem representar os últimos momentos das galinhas.

E é quando volta à cena o Ben. Após uma breve discussão, os coiotes atacam o líder da fazenda. Nesse momento tornamos a ouvir o mesmo trecho da música de momentos atrás, mas desta vez somente a parte instrumental, pois tudo que precisava ser dito já foi, e isso já ficou gravado em nossa mente. Já ouvimos que o Ben não vai desistir (I won’t back down), que ele pode ser enfrentado na porta do galinheiro (You can stand me up at the gates of hell), que ele vai defender seu lugar (I’ll stand my ground) e que ele não será derrubado pelos coiotes (I’ll keep this world from draggin’ me down). Já ouvimos tudo, agora é só o momento de ver isso em ação. Mas infelizmente, apesar de conseguir afugentar os coiotes, os ferimentos são muito profundos para que Ben sobreviva.

Esse filme é um ótimo exemplo de que de onde menos se espera é possível ser bem surpreendido. E que não é só por ser um filme para a família, ou dito “infantil”, que não se pode ter um ótimo acompanhamento musical.

Ah, e obrigado ao Steve Oedekerk e à Paramount / Nickelodeon Movies por ajudar a desenvolver o gosto musical dos nossos pequenos! : )

A música original do Tom Petty você pode conferir aqui:

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau
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Cinema on the Rocks | Conta Comigo

Ficha Técnica:

Conta Comigo (Stand by Me)
Ano: 1986
Direção: Rob Reiner
Roteiro: Stephen King, Raynold Gideon e Bruce A. Evans.
Elenco: Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Kiefer Sutherland, Richard Dreyfuss e outros.

Esse é um daqueles filmes da Sessão da Tarde (pra quem é da mesma geração que eu, claro), que passou incontáveis vezes depois da reprise da novela. E seja pela qualidade da história, ou por fazer parte do processo de crescimento de muitas pessoas que acompanharam a aventura do grupo de amigos, este filme se tornou um clássico cinematográfico. E como não poderia deixar de ser, ocupa um lugar de destaque na memória deste que vos escreve.

Baseado em um conto do Stephen King, acompanhamos Gordie (Richard Dreyfuss / Wil Wheaton) que após saber da morte de Chris (River Phoenix), seu amigo de infância, começa a se lembrar de um episódio marcante na vida deles e de seus outros amigos Teddy (Corey Feldman) e Vernon (Jerry O’Connel).

SPOILERS deste ponto em diante.

Após descobrirem que um colega de escola, que estava desaparecido há alguns dias, pode estar morto próximo à linha do trem em uma cidade vizinha, o grupo de amigos resolve se aventurar pelos trilhos que levam até o local, para verificar a veracidade da história. Se fossem bem sucedidos, iriam então avisar a todo mundo de que eles haviam encontrado o menino e, assim, ganhar o status de heróis na cidade.

Se em o “Clube dos Cinco” comentamos que cada personagem representava um estereótipo específico (o atleta, a princesa, o gênio, etc.) o mesmo se vê nesse filme, mas sem o tom de comédia. Gordie é o “cabeça” do grupo, o mais inteligente dos amigos, Teddy é o “militar”, influenciado por causa do pai “lunático”, Vernon é o “gordo”, o alívio cômico dos amigos e, finalmente, Chris é o “rebelde”, o personagem mais complexo do grupo.

Gordie é um menino franzino, irmão de um jogador de futebol famoso da escola, e por isso sempre foi “invisível” aos olhos de todos, inclusive de seus pais. Após a morte do irmão, passou a ser detestado pelos pais que desejavam que ele é quem tivesse morrido ao invés do irmão. Por isso, apesar de sempre andar de cabeça baixa, num constante sentimento de derrota, aproveita todo instante para incentivar o Chris, que é seu melhor amigo, a continuar estudando e a alcançar grandes feitos, apesar das chances estarem sempre contra o amigo.

Chris, por sua vez, é o garoto mal visto pelos professores, e que os pais sempre querem longe de seus filhos. Apesar de incompreendido por todos, desperta em Gordie o sentimento de fraternidade que só o irmão lhe fornecia, e por isso ele se dedica tanto a ajudá-lo. O filme tem duas passagens bem interessantes envolvendo o Chris. A primeira é a rima que é feita quando ele é ameaçado com uma faça no pescoço pelo “marginal” interpretado pelo Kiefer Sutherland, quando jovem, e que acaba se mostrando como a forma com que ele morre quando adulto. A segunda é justamente quando o Gordie está contando sobre o futuro do Chris, e vemos ele jovem no centro de um plano geral, se afastando do Gordie até desaparecer lentamente no exato instante em que ele fala da sua morte. Um momento tocante e muito bem executado para representar a perda que o amigo representa para o Gordie e terna lembrança deste.

Apesar da busca pelo menino desaparecido, o foco principal do filme reside claramente na relação de amizade entre Gordie e Chris. Isso fica evidente quando notamos a opção de alterar o título do conto do Stephen King no qual o filme foi baseado, “The Body” (O Corpo, aludindo ao menino morto), para o “Stand by Me” (Conta Comigo na versão em português).

Já nas últimas cenas (que você pode ver abaixo) ouvimos um trecho da música de mesmo nome do filme, escrita e gravada por Ben E. King.

“…
When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we’ll see
No I won’t be afraid, no I won’t be afraid
Just as long as you stand, stand by me
…”

A música toca justamente quando a versão adulta de Gordie, está lembrando dos momentos vividos ao lado do amigo. Neste momento, temos mais um exemplo de como uma música pode ser utilizada para fortalecer a história que está sendo contada. Se em outros filmes vimos a música servir como um complemento às cenas, aqui a música serve como um ponto de apoio para a reflexão do personagem e, por que não, como um resumo da amizade entre os amigos que acabamos de testemunhar ao longo do filme.

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau
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P.S. Uma curiosidade, o filme é dirigido pelo Rob Reiner, que apareceu pela primeira vez no cinema em uma ponta de um filme do Jerry Lewis: O fofoqueiro (1967).

P.S.2  Nosso Clube do Filme está analisando o “Conta Comigo”. Assim que a discussão estiver finalizada, você pode visualizá-la aqui.

Filme 23 | Conta Comigo

Espaço reservado para a discussão do filme “Conta Comigo”.

 

Ficha técnica
Conta Comigo (Stand by Me)
Ano: 1986
Direção: Rob Reiner.
Roteiro: Stephen King, Raynold Gideon e Bruce A. Evans.
Elenco: Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Kiefer Sutherland, Richard Dreyfuss e outros.

 

 

Cinema on the Rocks | Ela

Ficha técnica:

Ela (Her)
Ano: 2013
Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze
Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johansson e outros.

Spike Jonze tem se mostrado um dos melhores diretores desta geração. Com filmes como “Quero ser John Malkovitch” e “Adaptação” em seu currículo, ele nos traz agora o “Ela”, que também concorre ao Oscar de Melhor Filme em 2014. Uma tocante história de amor entre um homem e o sistema operacional de seu novo computador, um sistema de inteligência artificial desenhado para aprender e evoluir com suas interações.

SPOILERS deste ponto em diante.

Joaquin Phoenix interpreta Theodore, um escritor com um trabalho diferente, escrever cartas para os outros, numa versão futurista da personagem de Fernanda Montenegro em “Central do Brasil”. Tendo acabado recentemente um relacionamento, suas maiores interações sociais se dão com os vizinhos em eventuais encontros no elevador. Por isso, toda vez que escreve uma carta por alguém ele esboça uma expressão de felicidade em seu rosto como, se de certa forma, ele é quem tivesse vivido determinada experiência.

Até que Samantha entra em cena. Interpretada pela “voz” da Scarlett Johansson (e se você assistir à versão dublada vai perder todas as nuances que a voz rouca da atriz consegue transmitir à personagem) ela vai se relacionando cada vez mais profundamente com Theodore, e com ela mesma, conforme ela vai adquirindo cada vez mais consciência a respeito dela, a respeito dele e do mundo em que vivem.

Spike Jonze consegue construir um universo totalmente crível, de tal forma, que acompanhamos nada menos que uma história de amor. Em nenhum momento nos questionamos sobre o alvo do relacionamento, ao contrário, nós o aceitamos de forma normal (será isso um reflexo do nosso relacionamento cada vez maior com nossos smartphones?). Somente quando um elemento desse universo questiona o relacionamento é que nos damos conta do que estamos presenciando. E assim como Theodore, já estamos tão envolvidos nesta relação que isso não é suficiente para nos trazer de volta à “realidade”.

Mas, assim como nem todos os relacionamentos possuem um final feliz, o de Theodore e Samantha infelizmente também passa pelo ciclo: se conheceram, se apaixonaram, se amaram, se separaram…

E é em uma cena logo no início do filme que o Spike Jonze nos mostra todos estes elementos ao som de “Off you”, uma música do The Breeders. Não ouvimos um trecho específico da música, e sim uma edição para reforçar, e destacar, quatro elementos que o diretor vai nos transmitir ao longo do filme.

“…
I’ve laid this island sun a 1000 times

Fortune me
Fortune me

I am the autumn in the scarlet
I am the make-up on your eyes

I land to sail
Island sail
Yeah, we’re movin
…“

O primeiro é o de que Theodore é uma ilha. Após o término de seu relacionamento, ele se torna uma pessoa introspectiva e solitária. Sua única amiga mais próxima, ainda da época de seu relacionamento, pede para ter o antigo Theodore, o alegre, de volta. Por vezes tão deprimido, ele até pede para seu celular tocar uma música melancólica (justamente a “Off you”) enquanto volta para casa. Quando não está trabalhando, ele está isolado em seu apartamento com seu videogame. Até que, por sorte, ele esbarra na propaganda do novo sistema operacional que desencadeia toda a história do filme.

O segundo é relativo ao escarlate, ou vermelho, que é a cor que compõe as roupas do Theodore (isso é bem acentuado no cartaz de cinema do filme). O vermelho é associado ao amor, à paixão. Vemos que Theodore era muito apaixonado pela sua ex-esposa e o rompimento com ela deixa um espaço nele que precisa ser preenchido, mesmo que ele se mantenha isolado do mundo na maioria do tempo. Além disso, o vermelho representa também a motivação para o recomeço.

Que nos leva ao terceiro elemento, o outono. A estação do ano é o que nos lembra que, às vezes, precisamos cair para nos levantar. O ciclo de um relacionamento pode culminar em uma separação, mas o que importa é que isso nos fortaleça e nos deixe prontos para encontrar a próxima pessoa, mesmo que, no caso do Theodore, essa pessoa seja um sistema operacional.

E por último, ainda que o ciclo infinito das estações do ano represente o ciclo do relacionamento, o último verso da música está lá para lembrar ao Theodore, e a nós também, que não devemos nos acomodar, devemos continuar nos movendo, pois uma hora encontramos a pessoa certa e encerramos esse ciclo.

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

P.S. Na indisponibilidade da cena em questão, deixo vocês com uma apresentação ao vivo da música que a acompanha.

Mau
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Filme 19 | Os Imperdoáveis

Ficha Técnica:
Os Imperdoáveis (Unforgiven)
Ano: 1992
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: David Webb Peoples
Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman e outros.

Escolhido por: Banzai.
Discussão com início em: 11/07/13

Banzai:
Eu já havia assistido Unforgiven antes, assim como todos os filmes que eu havia indicado. O motivo de querer discuti-lo é o fato de eu não ser o maior fã do mundo do gênero Western e mesmo assim esse filme ter me fascinado. Eu estava preocupado, pois muitos filmes que me fascinaram, ao rever após o curso do Pablo, deixaram de ser tão fascinantes (Coração Valente foi um deles), mas com Unforgiven felizmente isso não aconteceu e tentarei explicar o porquê.

FILME

Banzai:
O filme claramente trás todos os aspectos de western que conheço, mas com um equilíbrio bem aceito em nossa época, ou seja, com bom senso 😉 o mistério sobre os personagens consegue prender a atenção com eficiência, pouco sabemos sobre eles. O conhecimento é apresentado linearmente, sem enrolar ou ir rápido demais, tive a vontade de desenhar um gráfico sobre rs…

Carlos:
Primeiro, vou confessar que tive um pouco de dificuldade para pegar a sacada do filme.
Creio que a principal dificuldade venha do fato de não estar familiarizado com o gênero. Vou confessar que eu NUNCA vi um Western. Esse foi o primeiro e, convenhamos, creio que ele seja um pouco diferente.
Mas, pelo que entendi, “Os Imperdoáveis” é um epílogo do gênero Western. Lá pelo meio do filme entendi isso, quando vi que todos os “cowboys” eram velhos. O Xerife, o pistoleiro inglês (mentiroso pacas), o Ned e o Will. O único mais novinho é o Schofield Kid. E, vejam só, ele é quase cego. Uma ótima dica sobre o que o Clint pensa das novas gerações, não?
Assim, passei a entender o filme como um revival de banda antiga.

Daniel:
Gostei muito do filme, de verdade. Assisti a poucos filmes do gênero, mas diria que este foi o que mais gostei. Tanto no roteiro quanto na direção.
O Banzai falou sobre a linearidade e velocidade de desenvolvimento da história, e isso também me chamou bastante atenção, em dois sentidos. Durante boa parte do filme, acompanhamos dois “núcleos” de personagens (Will e sua turminha que “apronta de montão” [segundo o Banzai hahahaha] e o pessoal da cidade Big Whisky, e ambos nos são apresentados separadamente e com calma, mas conectados pelo mesmo acontecimento. Pelo menos em mim, saber que inevitavelmente os caminhos de todos se cruzariam gerou uma ótima expectativa com um pouco de tensão, que culminou na ótima cena que Will toma aquela surra enquanto somos obrigados a encarar todos no bar a partir de um ângulo baixo, nos aproximando de Will e tornando os agressores mais ameaçadores. Ainda sobre o ritmo do filme, imagino que não tenha me aborrecido por este ser um western relativamente recente, pois os outros que vi eram antigos e um pouco arrastados (sempre me lembro do curso, quando o Pablo falou sobre a evolução dos filmes e exibiu várias cenas de um mesmo filme que só mostravam o personagem se deslocando, o que alongava desnecessariamente a coisa).
Carlos, gostei da sua leitura de “epílogo”, e o fato de o filme ser mais recente do que os antigos e consagrados filmes corrobora isso. Só não acho que o Kid ser “cego” realmente tenha algum subtexto de crítica às novas gerações, como vc colocou.

Cássia:
Li as análises de vocês e resolvi ir por um outro viés. Enxerguei o filme sob outros aspectos e, para variar, lá vou eu fugir das questões técnicas ou das características que definem o gênero de um filme. Aliás, não lembro dos westerns que assisti, provavelmente eu vi com meu pai, quando criança.
O filme me pegou logo no começo. Ver uma mulher sendo retalhada e depois ouvir que “tragam uns potros e tudo certo” fez o meu sangue ferver. Mulheres foram comparadas com potros. Uma moça foi retalhada e não houve um pingo de revolta da parte de ninguém. Afinal, ela é prostituta, “uma mercadoria” como disse o dono do bar. Eu não sou vingativa, mas não por ter um grande senso de compaixão. O cinema e a literatura me salvam. Ou seja, o que eu mais quis foi que os dois fazendeiros tomassem uma bala no meio da testa.

FOTOGRAFIA

Banzai:
A fotografia é super coerente, tem aquelas regras que todos sabemos sem inovar, mas não falha em momento algum, as composições com N cowboys apontando armas situam com facilidade o quão “fudido” está o cara, as cenas mais escuras com close nas expressões ou falta de expressões do Clint Eastwood, tudo muito bem executado. Toda a fotografia do filme é bem harmonizada com o roteiro, ex: quando ainda não sabemos quem é o Ned, só temos a certeza quando seu rifle Spencer aparece sobre a sua cabeça, e lá temos o recado a lá Sessão da Tarde sobre “esse cara apronta de montão e causa muita confusão no velho-oeste”.

Carlos:
Também percebi a fotografia do filme. Prestei muita atenção para entender as mensagens da luz usada em cada cena. Mas não peguei nenhuma (:DD). Seja lá o que a fotografia queria me dizer, não entendi. Claro, peguei a mensagem do rifle na cabeça do Ned, citada pelo Banzai, mas não evolui muito além disso.

Daniel:
A cena que o Banzai citou com a arma aparecendo acima da cabeça do Ned é realmente eficiente, e além disso, a sequência na casa dele serviu para nos mostrar as diferenças entre os personagens. Ned já não parece estar na melhor das situações, e ainda assim vejam como as cenas na casa dele são muito mais iluminadas e claras que as cenas na casa de Will. Essa comparação já mostra a situação péssima de Will, tanto financeiramente quanto emocionalmente, e nos ajuda a entender o porquê de ele estar querendo fazer o que vai fazer.

MONTAGEM

Carlos:
Tenho pouco a acrescentar sobre o que o Banzai já falou, sob o aspecto cinematográfico. A única coisa que achei especialmente estranha foram alguns takes super rápidos, sem qualquer explicação. Lembro de dois em especial. Um quando Will está conversando com Delilah e outro quando o pistoleiro inglês preso e olha para o xerife, naquela conversa sobre o escritor segurar a arma. No último caso, a cena tem um take extramente rápido para mostrar a câmera na perspectiva do prisioneiro. Mas isso é incompatível com a movimentação do próprio sujeito, que está se arrumando devagar na cama. Será que foi para mostrar que, apesar de se mover devagar ele estava pensando rápido? Seja como for, não funcionou para mim. Provavelmente fruto da minha incompetência, pois o filme ganhou o Oscar de melhor montagem.

Daniel:
Não reparei nos takes rápidos mencionados, mas aproveito o gancho sobre a cena na prisão para falar da combinação da mise-en-scène e da fotografia. Achei absurdamente sensacional o domínio que o Little Bill tem sobre a situação mesmo entregando uma arma carregada para o Beauchamp. Fica claro que em momento algum ele corre perigo, pois está de pé dominando o lado direito do quadro e vemos apenas a cabeça de Beauchamp lá embaixo no cantinho esquerdo. Além disso, quando surge a ideia de dar a arma para Bob, eu pensei “agora ferrou, por essa ele não esperava”, mas Bill nem mesmo hesita e parece querer apenas uma desculpa para matar Bob.
A rima visual entre a cena que abre o filme e a cena final.

Mau:
Bonita, não? Em ambas a árvore ocupa o lado direito da tela dando aquela impressão de solidão deixada pela mulher do Will.

Daniel:
Mauricio, verdade. Notei a rima visual mas não que a árvore está no lado “mais forte” do quadro.
Duas coisas que não gostei e achei que mereciam mais cuidado:
– Depois de matar o cara na privada, na hora em que Will e Kid estão fugindo dos amigos do morto, tem um plano no qual cada um está atirando pra um lado. Pode parecer besteira, mas é muito óbvio e constrangedor.
– A outra cena é justamente o clímax, no tiroteio final. Acho a montagem ali muito ruim. É difícil perceber o que está acontecendo, e do jeito que ficou, é absurdo pensar que ninguém teve tempo de acertar um tiro no Will. Em vez de passar a impressão de que o Will que é fodão e rápido, o que seria o certo, fica parecendo que os outros é que são péssimos e ficaram esperando levar tiro. Podia ter ficado MUITO melhor.

ROTEIRO

Banzai:
Já o roteiro, é superficialmente bobo, simples. Um homem bonzinho e pobre, junta o útil ao agradável para ajudar as prostitutas que defendem a honra de uma colega. Mas há várias nuances que fazem com que isso não fique tão óbvio, no começo sabemos que Will Munny era um criminoso, o tempo todo é dito que ele é algo que ele não demonstra ser. Ao mesmo tempo, a inclusão de um personagem que é iniciante faz com que você passe a aprender o que um cowboy deve fazer, quais requisitos, quais tarefas mais comuns, etc etc. O filme parece uma aula de como ser cowboy e por incrível que pareça é didático até poucos minutos antes do final…
Mas por que os últimos minutos não têm mais didática?
A atuação do Mr. Eastwood é como se fosse tudo explicado até aquele momento se concentrasse numa pessoa. Quando ele entra para vingar a morte do Ned (Stark??! lol) parece o robô dos Power Rangers, O Captão Planeta dos cowboys! rsrsrsrs Para mim a cena é tão bem feita que eu me senti uma das pessoas tomando a cerveja ou salsa parrilla junto de todos que estavam se borrando. A fala: “Quem não quiser morrer, saia pelos fundos…” serve só pra fechar a boca depois dele matar 5 pessoas sem ao menos se arranhar…rsrsrs…continuo impressionado com o clima, a tensão reproduzida ali…enfim, nota 10 para essa cena final.

Carlos:
… sobre o roteiro, não concordo com o Banzai sobre a simplicidade. O Will é uma personagem muito complicada.

Mau:
Já eu não concordo com o bobo. Acho sim que o roteiro é simples, e por isso a história pode ser bem contada. Sem firulas ou complicações, simplesmente isso.

Banzai:
Me expressei mal, não foi pensando em bobo de bobagens e etc., apenas que é uma história simples (superficialmente) mas com um objetivo claro, acho que isso me fez achar bobo. Normalmente ninguém sabe exatamente o que quer, mas no caso desse filme é simples: querem os 1000 dólares.

Daniel:
Já sobre o roteiro, vou concordar com o Carlos e o Mauricio. Também acho que é complexo disfarçado de simples (…) um comentário rápido sobre a morte dele: gostei muito da forma como descobrimos que ele está morto. Foi um choque inesperado e o fato de não termos o acesso à informação na hora em que acontece diminui a “onipresença” do espectador e torna a coisa mais real.

PERSONAGENS

Carlos:
Portanto, para mim ele é o cara mau que está em uma fase boa, mas tem saudades dos bons tempos. Lembram-se do Henry de “Os Bons Companheiros” e como ele sentia saudade dos “good old times”. Creio que, no fundo, Will não era muito diferente e, assim, na primeira oportunidade, ele voltou para “ativa”.
O arco dramático de Will começa com a saída de casa e intensifica-se na hora que ele toma a surra e precisa se recuperar. Viram como a cena fica fria “como a neve”, quando ele está doente? A mesma expressão que Kid usa para defini-lo no inicio do filme. Depois a mudança avança quando ele precisa matar uma pessoa pela primeira vez depois de mais de dez anos e, por filme, inverte-se de vez quando ele toma a bebida ao saber da morte de Ned.
E quando a transformação está completa, o filme finalmente vira um velho oeste típico, inclusive com a cena impossível citada pelo Banzai, na qual Will mata 5 pessoas ao mesmo tempo, com um revólver. O mesmo cara que, alguns dias antes, não acertou uma latinha com os mesmos cinco tiros.

Mau:
Essa foi uma opção audaciosa que me agrada e desagrada ao mesmo tempo. Audaciosa e que me agrada, porque o gênero do western sempre é lembrado pelos desertos, ambientes quentes e calorentos e por isso essa opção por vermos os cowboys cheios de roupa de frio, e também refletindo a condição do Will me agradou bastante (o mesmo vale para as várias sequências que ocorrem à noite). Mas ao mesmo tempo me desagrada por parecer que foi forçado justamente para se mostrar, pois fica fora do contexto temporal do filme. Num dia está sol, no outro tudo coberto por neve e no seguinte tudo vira um deserto calorento de novo. ; p

Banzai:
Notei a neve e fiquei meio incomodado com o fato de ter nevado em 3 dias e tudo ter se resolvido, inclusive a neve derretido. Mas deixei passar, furo de continuidade ou brincadeira do roteirista?
Maurício, eu acho natural a neve (mesmo ela não aparecendo em outros filmes), Django tem neve, talvez seja características dos novos Westerns rsrsrs.

Daniel:
O Carlos falou também do “fria como a neve”, e nem acredito que deixei mais essa passar. Na hora achei meio estranha toda aquela neve, mas logo deixei pra lá e não voltei a pensar.

Carlos:
(Só que os três devem ser o trio de “cowboys” mais incompetentes do velho-oeste. Um refuga o tiro na hora “h”, outro não sob no cavalo e o último não enxerga.).

Mau:
Vejo isso como uma tentativa de humanizar as personagens. Ok, eles são matadores super fodões, ele mata mais de cinco sozinho num bar, mas toma um coro dos porcos, enquanto o outro reclama da mulher e etc.

Banzai:
Hhuahuaha, perfeito, isso mesmo. Fico pensando como seria se ele bebesse whiskey pra cuidar dos porcos! rsrsrsrs

Carlos:
(Will) O homem redimido. Ou melhor, domado. Não creio que ele tenha sido o “homem bonzinho”. O homem bonzinho não teria ido embora e abandonado os filhos sem olhar para trás. Veja a frieza com que ele deixa as crianças. E fala para elas se cuidarem. Acho que nem se fosse o cachorro do vizinho eu resolvia aquilo tão tranquilamente.

Mau:
O Will é sim uma personagem complexa como o Carlos citou, mas isso é uma nuance da simplicidade da história, que da a liberdade para se concentrar na personagem do Eastwood.
Nem redimido e nem domado, para mim ele estava ainda tentando se convencer de que ele não era mais aquela pessoa. Até a metade do filme ele fica repetindo essa fala, como se fosse um mantra que nem ele tivesse aceitado, ou ainda não acreditasse nisso. E a cena em que eles estão conversando em volta da fogueira me deixou isso muito claro. Ali o rosto do Will está no ponto de fuga da tela, toda escura e só a parte da frente do seu rosto iluminado e é como se fosse um momento de introspecção, como se ele falasse novamente para não se deixar esquecer: “Eu não sou mais aquele homem”.

Daniel:
(…) a interpretação que o Mauricio teve da cena da fogueira foi idêntica à minha, e ele colocou de forma sensacional! Fica muito claro que ele repete que não é mais aquela pessoa pra tentar SE convencer daquilo, mas no fundo ele sabe que sua natureza continua igual, apenas adormecida. Pelo menos até a morte do Ned.
No começo, quando Will conta pro Kid que a mulher faleceu, gostei muito do olhar que o Clint dá para a árvore onde ela está enterrada. Um gesto bem simples, mas elegante.
As personagens femininas são fortes, e isso é raro e muito bom. Mesmo com todo o machismo da época (o dono do bar se refere a elas como mercadorias), em momento algum elas abaixam a cabeça, e seguem firmes no que acreditam. A força delas fica ainda mais evidente por sempre estarem de branco, mesmo que sejam prostitutas. Decisão corajosa.
Sobre o personagem Little Bill, é interessante que ele esteja sempre querendo “construir” uma cidade melhor (assim como tenta construir a própria casa), mas não perceba que está fazendo do jeito errado (daí as falhas na casa dele, goteiras, etc.). Ele é um sujeito de bons princípios que quer o bem de todos, mas sua raiva dos criminosos acaba levando ao abuso de poder. Ele tenta fazer o bem do jeito errado e acaba pagando com a própria vida, numa cena que me lembrou muito o final do Tropa de Elite (só faltou o “Na cara, não!”). Quando ele fala, antes de morrer, que estava construindo uma casa, acho que ele se referia à cidade. Vocês torceram para que o Will o matasse?

Cássia:
Discordo totalmente que Little Bill é “um cara de bem”. Ele é o xerife, se comporta como o dono da cidade e não perde a chance de mostrar quem manda. Ele insistia em falar “pato” em vez de “duque”, como se dissesse: “Se eu falei que é PATO, será PATO e fim.” Sem falar que os pobres rapazinhos são “rapazes de bem que fizeram besteira”. “Eu faço é prostitutas correrem”. Ah, sim, ele dá surra nos homens de fora que chegam à cidade. Mas quando é um homem negro, ele amarra na cela e usa a chibata. Sem falar que o espancou até a morte e o colocou num caixão aberto, para todo mundo ver. Se eu torci pela morte de Little Bill? Eu disse para o Will “ATIRA LOGO!” e ele me ouviu prontamente.
Vocês também não comentaram sobre um ponto crucial do filme: a esposa do Will. É a sua lápide que abre e fecha o filme. Se o Will não mudou sua natureza, porque ninguém muda a sua essência, ele a abafou por conta daquela mulher. Ele deixou de matar por ela. Ele deixou de beber por ela. Ele não dormia com prostitutas, mesmo sendo um homem viúvo, em respeito a ela. Há homens que sequer respeitam as esposas vivas, que dirá se já morreram… Por conta dela, ele criou um senso de moral que passou a guiá-lo ao longo da vida. Sim, ele era frio, inclusive com os filhos, mas não significa que ele não se importasse. Aliás, o “gatilho” para ele voltar a matar foi o dinheiro. Mas acho sim que ele ficou mexido com o que aconteceu com a moça. Tanto ele quanto o Ned. E foi a morte do Ned que o fez matar geral, mas isso não significa que não houve um grande prazer em fazer aquilo. Lembram de um diálogo em Kill Bill 2 (que não contarei qual é para não spoilear) que deixa isso claro?. Existe aí um senso de moral, da “morte justificada”. Não que eu ache que isso exista na vida, tudo bem? Mas cabe perfeitamente na história.

Daniel:
Ok, só para me retratar porque me expressei muito mal. Rs Eu falei que o Little Bill é um sujeito de bons princípios, e retiro isso. Eu não concordo com nada do que ele fez o filme inteiro. O que eu quis dizer é que ele tem um objetivo “nobre” (acabar com a criminalidade), mas tenta alcançá-lo da pior forma possível. Aproveitando que eu mesmo falei sobre o “Tropa”, ele representa exatamente o que o BOPE é no filme.
Já sobre a morte do Ned, eu que vou discordar. A Cássia parece ter visto racismo por parte do xerife por causa da diferença de tratamento. Não acho que seja assim. Quando o xerife espanca a galera na cidade, é uma forma de reprimir, prevenir que algo aconteça. Mas no caso do Ned, o xerife já sabia que ele havia participado de uma morte e estava tentando arrancar informações. Pra mim ele não fez distinção por ele ser negro, tanto que não seria nenhuma surpresa se o Bob tivesse “acidentalmente” morrido com aquela surra também. Na cabeça do Bill, tudo para proteger a cidade é justificável.

Banzai:
Pois é, pra quem assistiu Django, não houve nenhum preconceito com o Ned, acho até que encobriram historicamente, pois nessa época (15 anos após a libertação dos escravos no US) deveriam usar só termos que nos horrorizariam hoje.

Cássia:
Daniel, sim, entendi que você comparou o Little Bill ao capitão Nascimento, mas foi disso que discordei. Não acho que o seja, nem de longe! Para mim, ele se assemelha ao governador, de “The Walking Dead”. Ele não quer acabar com a criminalidade, ele quer manter aquele lugar, e aquelas pessoas, sob o seu jugo.
Sob a outra questão, não apenas acho que Little Bill é racista (além de misógino), como o filme mostrou o racismo. Só o negro foi para a chibata. Claro que há o contexto do filme, ele foi acusado de assassinato, existe a questão da época, como bem colocou o Banzai, mas a cena me incomodou demais. Demais demais demais.

Banzai:
Também achei ele mais errado que o próprio Nascimento rsrsrs, o nascimento por exemplo torturou a mulher do Baiano, não acho que ele a mataria ahuauhhua. Mas se o Nascimento nascesse naquela época, será que isso não seria normal dele?!

TRILHA SONORA

Mau:
Outra coisa que me desagradou (e bem nesse sentido) foi a trilha sonora. Pontual, ela só aparece em alguns momentos, quando os cowboys estão cavalgando. Parece que ele pensou, bom western tem que ter cenas de cowboy cavalgando ao longe por pastagens desoladas, com uma música de fundo e etc. Dispensável. Além de serem bem ruizinhas 🙂

DETALHES

Banzai:
Encerrando: Por que Munny voltou a ser o que era por alguns instantes? Ele sempre disse que era o whiskey que fazia aquilo com ele, nada mais natural que essa situação ocorresse em Big Whiskey, Wiyoming…

Carlos:
Depois a mudança avança quando ele precisa matar uma pessoa pela primeira vez depois de mais de dez anos e, por filme, inverte-se de vez quando ele toma a bebida ao saber da morte de Ned.

Mau:
A morte do Ned, seu parceiro e única lembrança de sua antiga vida, mexe com ele. Na hora em que ele descobre, ele toma a garrafa de whiskey do Kid e passa a beber já deixando de lado todo o blá-blá-blá e pensando no homem que ele nunca deixou de ser. Outra dica disso é que ao longo do filme a voz dele é meio vacilante e insegura, mas ao entrar no bar como o antigo homem, sua voz tem mais impostação, é mais forte e decidida.

Cássia:
Outro ponto que achei importante foi a não banalização da morte. Parece contraditório, mas pensemos: Ned quis ir embora depois da primeira morte. O Kid se abriu em lágrimas por ter matado alguém. Will matou geral, mas antes teve a “justificativa” da morte de Ned. Aliás, depois disso, ele se mudou com os filhos e seguiu a vida, nunca mais matou ninguém. Inclusive, ele quem diz ao Kid sobre o peso que é matar alguém: você acaba com o que uma pessoa é e com o que ela faria na vida. Isso é bem pesado e é verdade. Não importa o que a pessoa tenha feito até aquele ponto, ela foi morta. Num mundo em que um tiro na cabeça virou coisa corriqueira, ter essa visão nos dá um estalo sobre o real significado da vida de alguém.
Por fim, Will indo embora como paladino da justiça deve ter sido o clímax western, não foi? Hehehehe.

Daniel:
(…) gostei da análise da Cássia, especialmente sobre a não banalização da morte, que me passou despercebida e faz um contraponto interessante com o que vimos em “Os bons companheiros”.

Banzai:
Cássia sempre se expressando muito bem :), e a fala dele no filme, que tirar a vida é tirar MUITA coisa de alguém, é tirar tudo o que a pessoa tem e poderia ter é bem profunda, infelizmente poucos parecem saber disso…

Cássia:
É, Banzai, a vida está a preço de banana. Meu irmão e eu estávamos agora mesmo falando sobre o filme e soltamos juntos um “poutz, aquela frase do Will!”, porque ela é forte demais. É uma daquelas cenas que guardarei comigo.

Mau:
São esses pequenos detalhes que fazem a diferença entre um filme mediano e um bom/ótimo filme…

Banzai:
Reassistir um filme assim é prazeroso também pelas pequenas referências, detalhes. Espero que também tenham curtido!

Carlos:
Caramba, depois da análise de vocês percebi que assisti a um filme diferente. Vocês não ficam com a sensação de que não pegam um décimo do filme? Bom, pelo menos, cada filme que nós discutimos, tenho a certeza que nossa absorção cresce.

Cássia:
Carlos eu tenho a mesma sensação, de ter visto um filme diferente. Na verdade, sinto isso sempre e, assim, ler as análises de vocês sempre me acrescenta muita coisa. Dá vontade de ver o filme novamente.

Cinema on the Rocks | As Vantagens de Ser Invisível

Ficha Técnica:

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower)
Ano: 2012
Direção: Stephen Chbosky
Roteiro: Stephen Chbosky
Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller e outros.

Assisti a este filme de forma totalmente descompromissada. Não havia me informado a respeito dele e, de repente, seja pela história, ou pela ótima atuação do seu trio de atores principais, o filme me cativou de certa maneira que não conseguia parar de assistir. E ficou ainda melhor da segunda vez!

“As Vantagens de Ser Invisível” é um filme escrito e dirigido por Stephen Chbosky (e baseado em seu próprio livro), que nos apresenta a história de Charlie (Logan Lerman) um aluno recém-chegado ao ensino médio, com todos os problemas típicos da adolescência, tentando sobreviver em sua jornada rumo ao ensino superior. Nesse caminho ele encontra os meio-irmãos Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson) que o ajudam a tornar isso possível.

SPOILERS deste ponto em diante.

Reunindo todos os elementos das comédias de adolescentes americanos, o quarterback do time de futebol, os calouros, os veteranos, os trotes e até um diário contendo revelações íntimas sobre alguns personagens, o filme só aos poucos vai fugindo dos estereótipos e se mostrando como um drama, com todas as aflições e problemas que tornam as vidas dos adolescentes tão difíceis. Sabemos que para os adolescentes, mesmo os pequenos problemas são gigantes. Já abordamos isso brevemente em nossa discussão sobre o “Clube dos Cinco“, mas em “As Vantagens de Ser Invisível” essa discussão é levada a outro patamar, ao nos apresentar a situações complexas como abuso infantil e tentativas de suicídio.

Charlie é um garoto inseguro e problemático. Seu melhor amigo se suicidou um ano antes e sua tia, por quem ele nutria uma afeição “especial”, morreu em um acidente de carro quando ele era pequeno e ele se culpa por isso até hoje. Caçula de uma família que gerou um jogador de futebol universitário bem sucedido, tudo o que ele quer é ser “invisível” ao longo dos 1.385 dias restantes até a sua ida para a universidade. E o filme pontua isso de maneira muito interessante, fazendo com que só conheçamos o seu nome após os 10 minutos iniciais do filme, que passamos acompanhando seu primeiro dia de aula.

Já Sam e seu meio-irmão Patrick são bem resolvidos e fazem o contraponto ao Charlie. Sam teve um passado parecido com o do Charlie e, de certa forma, após se conhecerem, ambos tentam recomeçar a sua vida. E é nesse contexto que o rock é utilizado ao longo do filme como se fosse mais um personagem completando o trio principal. Em determinado momento, em um baile na escola, começa a tocar “Come on Eileen!” do Dexys Midnight Runners, e a Sam e o Patrick ficam excitados porque “começou a tocar uma boa música” e correm para para o centro do salão para dançarem. É quando isolado num canto, ao ver a empolgação dos dois e sentindo a vibração da música, o Charlie dá o primeiro sinal de que sua invisibilidade não é desejada, e sim uma proteção, e se dirige para junto deles para dançar também.

Mas tudo culmina na cena que você pode assistir abaixo, quando voltando do baile começa a tocar no rádio uma música que eles não conhecem, mas que é perfeita para a Sam fazer um “passeio” fora do carro ao atravessarem um túnel. A música que eles desconhecem é, simplesmente, a “Heroes” do David Bowie.

Quando está fora do carro e curtindo seu momento, a Sam adquire uma aura quase mágica para o Charlie. Nesta hora a câmera assume o ponto de vista dele olhando para a Sam, focalizando-a de baixo para cima para enfatizar a importância que ela está tomando na vida dele. E o trecho da música que acompanha a cena complementa este sentimento.

“…
I, I will be king
And you, you will be queen
Though nothing will drive them away
We can be Heroes, just for one day
…”

Logo após ele perceber que ela poderia ser sua “rainha”, esse sentimento o preenche de tal forma que ele se “sente infinito”. Ela tinha um passado, mas isso não importa para ele, ela passa a ser sua heroína. E a música vai além dizendo que apesar de nada poder afastar os seus problemas, eles também podem ser heróis por um dia. Um sentimento compartilhado na cumplicidade da troca de olhares entre o Charlie e o Patrick. Uma belíssima utilização de um pequeno trecho de uma música e com tanto significado para os personagens e para a história.

Mais ainda, a busca por descobrir que música era essa, vira algo que serve para uní-los ainda mais. E quando finalmente eles conseguem, após tudo o que eles passaram, a música passa a representar uma página virada em suas vidas e então os papéis se invertem. Se antes ela era a heroína, agora ele também é, e a passagem pelo túnel também representa isso, a superação dos problemas, a liberdade, se sentir infinito… (sentimento reforçado por um detalhe que é difícil de perceber, mas no final do túnel há uma placa indicando uma saída para a Avenida Liberdade).

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau
http://www.twitter.com/tuitedoMau

Filme 6 | Clube dos Cinco

Ficha Técnica:
Clube dos Cinco (The Breakfast Club)
Ano: 1985
Direção: John Hughes
Roteiro: John Hughes
Elenco: Emilio Estevez, Anthony Michael Hall, Judd Nelson, Molly Ringwald, Ally Sheedy e outros.

clube-dos-cinco

Escolhido por: Mau.
Discussão com início em 12 de dezembro de 2011

Daniel:
Bom, acabo de rever Clube dos Cinco e começarei a discussão. Pra começar, já tinha gostado quando assisti pela primeira vez, mas ao rever gostei muito mais! Isso sim é um excelente filme adolescente no melhor estilo Curtindo a Vida Adoidado (por que será, né? rs).

Banzai:
O filme reflete bem as paranóias e complexos adolescentes, coisas pequenas que se tornam gigantescas. Incompreensão dos pais (quando na maioria das vezes, a incompreensão é dos filhos mesmo…), assuntos que correm pelos corredores e aterrorizam quando vem a tona, como quando Bender cita sobre o encontro de Claire com um suposto affair dentro de um carro a noite. Não há como não se lembrar dos fatos de nossa própria adolescência.

Daniel:
Concordo, isso é muito coisa de adolescente mesmo. A reputação, a aparência física, as fofocas, quem é o galinha, quem é o virgem, quem é a puritana e quem é a vadia. São os primórdios do bullying.
Quanto aos pais vs. filhos, colocando bem rápido minha opinião aqui sem desenvolver nada: no caso do filme, acho que os pais estão muuuito errados, e os cinco não têm culpa de nada hahaha

Cássia:
Para mim, uma das coisas mais bacanas dos filmes do John Hughes é mostrar que os “problemas adolescentes” não são tão pequeninos quanto a gente imagina… Ou esquece, porque fomos adolescentes também. Eles são sim grandes, atrapalham, angustiam e têm um peso incrível quando a gente cresce. No filme, todos eles realmente eram incompreendidos pelos pais, como vocês bem comentaram nas cenas do começo do filme. Ou são pressionados, ou são menosprezados, ou são deixados de lado. Eles tentam, muito!, perceber o lado dos pais, mas como se estes não estão nem aí? O que sempre dizem dos adolescentes, que eles não estão nem aí para os pais, na verdade, é um desejo imenso de ser amado, aceito e compreendido. Os cinco querem só isso: serem compreendidos pelos pais. Quando o Brian chora, sério, eu me abri de chorar! No começo, quando a Allison sai do carro, vai dar tchau para o pai ou a mãe e o carro vai embora, aquilo me deu até um aperto. Quando o Bender mostra o braço queimado, deu até angústia. E o Andrew desejando que o joelho dele estourasse para ninguém mais cobrá-lo em ser “o melhor!”. Nada disso é pequeno na vida de alguém.

FILME

Daniel:
A única cena no filme inteiro que eu não gostei foi quando, após fumar a maconha, Andrew saiu doidaço e quebrou o vidro com um grito (?!). Totalmente exagerada e desnecessária.

Banzai:
É, tem que ter um momento “vergonha alheia” do diretor/roteirista, fico imaginando como estava no roteiro: Andrew entra dançando e com um grito quebra o vidro…

Daniel:
O ponto alto pra mim é quando todos estão sentados no chão conversando, com destaque para Andrew, que explica o porquê de estar lá enquanto a câmera gira lentamente, como se estivesse nos mostrando um outro lado de sua personalidade.
É nessa sequência que a complexidade de Brian fica mais evidente, e também é quando Bender faz a melhor coisa no filme inteiro: critica o “talento” de Claire. Quando vi pela primeira vez, não pude acreditar que a estavam aplaudindo por algo tão fútil, e fiquei muito feliz ao descobrir que Bender foi cruel com ela pra ajudá-la a evoluir.

Carlos:
Creio que esse momento seja o segundo ponto de virada do roteiro. Ou plot point para homenagear o Pablo. É o trecho que abre o terceiro ato. No início do filme, os personagens além de não serem íntimos, fazem questão absoluta de não mostrarem qualquer simpatia ou empatia entre si. Durante o segundo ato inteiro há  momentos de conflito e aproximação entre os “detentos”. Até o momento em que eles se reúnem e começam a compartilhar suas próprias experiências, enxergando nos outros um pouco de si mesmos.
A jornada de cada um ali está em aceitar outro e, assim, aceitar a si mesmo.
E a câmera mostra essa inversão na postura de maneira literal. Ela gira de um lado a outro da “rodinha” montada pelos personagens. Pode ser viagem minha, mas essa metáfora visual vem bem ao caso, não?

Daniel:
Só fico chateado de não ter ficado tão evidente se todos eles continuarão a ser amigos ou não depois de todo o debate. Apesar de eu torcer pelo final feliz e muita coisa indicar que sim, não pude deixar de concordar em parte com o discurso pessimista de Claire, que parece ter poluído um pouco a amizade que vinha sendo construída.

Banzai:
Acha mesmo que continuaram amigos? Fiquei com a sensação de que a Claire foi mais realista do que pessimista…

Daniel:
Realmente, foi realista. Mas por ser realista, a considero pessimista hahaha. Sinceramente, a sensação de que eles continuariam amigos foi perdida depois da cena em questão, mas ao final temos a formação de 2 casais entre 5 pessoas. E o único que terminou “sozinho” foi um dos que disse que nunca faria o que a Claire faria, o que foi dito também pela Allison. Se Brian seria amigo de Allison e esta estivesse ficando com Andrew, já teríamos 3. Bender também não parece ser do tipo que ignoraria os novos amigos, e estando com a Claire, o grupo estaria completo =] (é muito otimismo meu?)

Banzai:
Faz mais sentido com sua explicação, mas o Bender parece ter um grupo de gente que nem ele que não aceitaria mto bem as novas amizades… Mas vc conseguiu me deixar na dúvida! droga… kkk

Cássia:
Também achei a Claire realista, mas também quis que todos ficassem amigos. Mas com tantos ali se preocupando com os outros “amigos” e a pressão do grupo, só tendo a parte 2 do filme para a gente saber a resposta. Mas como sou da turma otimista, já imaginei todos juntos na segunda-feira.

Carlos:
Estou no time dos otimistas quanto a isso. Para mim eles passaram a ser amigos, até porque passaram a ter empatia entre si. Pode ser um tipo diferente de amizade, mas não é menos amizade.

PERSONAGENS

Daniel:
Personagens complexos que discutem de forma profunda a respeito de amizade, família e adolescência, assuntos pertinentes a qualquer ser humano, e tudo apresentado de maneira tão despretensiosa.
A cena inicial, que mostra os cinco chegando à escola, já diz muito sobre cada um: a “patricinha” Claire, que acha que não merecia estar ali; Brian, já sendo pressionado pela mãe para aproveitar o tempo na escola e estudar (pressão? Imagina, o Brian não entende o que é pressão =P); Andrew, com seu pai já dando sermão sobre a carreira de atleta; Bender, chegando na escola a pé, sozinho, quase sendo atropelado e não dando a mínima, é claro; e Allison, totalmente ignorada pelos pais, como ela mesma fala mais pro final do filme.
E Allison passa por trás da escultura (ou sei lá o que é aquilo) ao chegar na biblioteca e se senta lá no fundo, passando grande parte do começo do filme excluída lá.
Bender é o mais fascinante de todos, o líder do grupo que ajuda os outros a evoluir. Ele é o troll dos anos 80, quando ainda não tinha internet. Sempre tem resposta pra tudo, e mesmo quando alguém parece acertar o motivo de tanta rebeldia, ele se esforça ao máximo pra não deixar transparecer. Sua vontade de contrariar é tão grande que, mesmo odiando ter “ganho” vários sábados na escola (o que ele demonstra soltando um “fuck” meio baixo), não deu o braço a torcer pro Vernon (o clone mais velho e acabado de Hugh Jackman).

Banzai:
Gosto do personagem, especialmente no momento em que ele é “finalizado” pelo Andrew e levanta rapidamente se fazendo de forte. Momento de maior trollagem… Crédito a fotografia desse momento. Que mostra ele se reerguendo gloriosamente frente ao golpe que recebeu…
Outro momento que Bender demonstra um pouco de humor é quando solta o parafuso da porta, todos estavam com medo, mas o desgraçado conseguiu fazer com que o medo virasse risada (inclusive nossas risadas, pois não há como não rir da cadeira voltando com tudo…)

Cássia:
Não o achei fascinante… talvez porque ele me incomodou demais. Achei que ele toma mais tempo do filme do que realmente deveria. Tampouco achei que ele ajuda os outros a evoluir: ele é um troll dos grandes, pura e simplesmente. Faz todo mundo se sentir mal, magoado, arrasado, porque é um cara quebrado por dentro com quem ninguém se importa. Para mim, a grande evolução do grupo acontece pela interação entre eles, por perceberem que não estão sozinhos. Não só, que os “renegados” só são renegados porque tem uma galera “que se acha” não é lá muita porcaria. Como o Brian bem disse na redação: todo mundo tem um pouquinho de cada, por mais que a gente queira dividir e achar que cada um segue um estereótipo.

Banzai:
O Bender pode não ser fascinante, mas que ele chama atenção ahhh ele chama… Kkkk

Cássia:
Ah, mas o Bender não é fascinante para mim. 😉 Talvez porque sempre odiei esses caras na escola, que querem ser “os caras” humilhando todo mundo. Aliás, até hoje, tenho pavor de gente assim, hehehe. Mas claro, ele chama a atenção mesmo e o ator segurou o papel muito bem!

Daniel:
Pra mim o Bender é o cara no filme. Na vida real, também sempre odiei e odeio até hoje os que se acham os fodões das escolas, mas pra esse filme com esses personagens especificamente, acho que funcionou perfeitamente. É só parar pra imaginar o que seria o sábado daqueles quatro caso Bender não estivesse lá. Ao invés de ser um dia que provavelmente mudou a vida deles, seria uma chatice pra todos. Ele desencadeou tudo.
O fato de ele criticar TUDO em todos faz com que os quatro parem pra pensar sobre ALGUNS dos casos em que o desgraçado realmente está certo em criticar!
E não consigo tirar da cabeça que ele na verdade é o que mais se apegou aos outros lá, só não consegui entender ainda o porquê desse meu pensamento hahahaha.
Sem contar que o filme não o coloca simplesmente como um troll que faz tudo sem motivos. A gente fica sabendo pelo menos um pouco da vida dura dele, diferente de muita gente na vida real que é bacaca por simplesmente ser mesmo.

Mau:
… concordo com o que vocês disseram a respeito do Bender. Também achei que ele é o protagonista principal do filme. Mas acho que fui por um caminho diferente. Filho de pais abusivos, ele cria esta persona rebelde como uma forma de encarar a sua realidade. Mas ao mesmo tempo, ele busca com isso chamar a atenção, pois no fundo, isso é fruto de uma carência afetiva que faz com que toda hora ele procure um relacionamento com os outros, por mais diferentes que pareçam no início, e mesmo que seja através do confronto direto.
É ele quem verbaliza constantemente os sentimentos dele e dos outros quando estes não tem a coragem para tal. Mesmo quando, num acesso de fúria, ele se isola dos outros, vemos que este isolamento não dura muito, pois logo ele já conseguiu reunir todos novamente para escaparem da biblioteca.
O fato dele criticar tudo em todos acaba sendo a maior força dele. Através do confronto ele acaba se transformando no catalisador da amizade que se forma entre os cinco. E conseguimos ver claramente isto ocorrendo ao longo do filme.
No início, todos se sentam isolados um do outro. Apenas o Andy se senta próximo da Claire, pois seus nichos sociais são mais próximos, mas mesmo assim não se cumprimentam. Todo o relacionamento vai sendo construído ao longo do filme, mas é só com o bom e velho rock’n roll que caem as últimas barreiras sociais entre eles, e a partir daí eles passam a se sentar mais próximos até que, já no final do filme, os vemos sentados lado a lado, com os ombros colados.

Daniel:
Acho que você conseguiu explicar o que eu senti mas não havia conseguido colocar em palavras. Foi mais ou menos por isso que eu fiquei com a impressão de que ele foi o que mais se “conectou” com os outros.

Cássia:
Eis a grande graça de participar de um clube: a gente muda de ideia, coisa que não aconteceria se assistisse ao filme e ficasse quietinho.
Tenho de aceitar, o Bender realmente manda no filme. Sem ele, nada aconteceria. Imaginei os outros quatro quietos, esperando o tempo passar, fazendo a tal redação e indo embora sem sequer olhar uns para os outros.
Ele é o cara que fala. Mesmo quando provoca, aquilo tem um motivo. Tem razão, ele é mesmo um carente, pedindo atenção. E acho que aquele pulo dele de alegria no final deixa isso mais claro, tipo “Tenho amigooooooooos”. Hehehe. Sem falar na Claire, claro.

Carlos:
Uma das coisas que mais me chamou atenção no filme foi exatamente esse posicionamento dos atores em cena, citado pelo o Maurício.
Pela limitação de cenário, o filme não é exatamente rico cinematograficamente. Parece mais uma peça de teatro filmada. Mas funciona assim mesmo, exatamente em razão desses “detalhes” que permitem a leitura do filme. Aliás, o tempo todo eu lembrava sobre “12 homens e uma sentença” cuja ação é confinada ao espaço da sala do júri. O Pablo o usou de exemplo no curso exatamente para destacar como o mise-en-scène dos atores era importante para a interpretação do filme.
Outro aspecto “teatral” que faz com que o filme funcione é a tipificação forte dos personagens. Quando eles entram em cena o espectador já tem uma imagem clara de quem é cada uma daquelas pessoas. Mesmo que seja um preconceito.

Mau:
… achei interessante que o nome do protagonista e do antagonista possuam duplo sentido. O “Criminoso” John Bender, onde “bender” pode ser alguém que dobra, e no caso constantemente, as regras. E o diretor Richard Vernon, cujo nome tem o diminutivo de Dick, que também é gíria para uma pessoa desprezível. Essa é, inclusive, a forma com que Bender se refere a ele com mais frequência ao longo do filme.
Tudo no filme (os carros, as roupas, a comida) é construído para refletir a personalidade (ou falta dela) e as diferenças dos cinco, já que muito do que eles são é devido à influência dos pais e dos grupos sociais em que estão inseridos. Desde pequenos detalhes como a placa do carro dos pais do “Cérebro” que tem a placa EMC2, até as roupas de ginástica do “Atleta” ou ao sushi do almoço da “Princesa” (Claire), passando pela leve expressão de incredulidade desta quando Bender diz não saber o nome dela, como se isso fosse de conhecimento geral da escola.

Daniel:
MOTHER OF GOD. Demais essa, nem tinha visto! Muito bacana terem incluído esse detalhe [da placa] no filme. Ah, e gostei muito da sua análise sobre os nomes também.

Cássia:
Maurício, muito bacana suas análises sobre os nomes. Isso jamais passaria pela minha cabeça! Também não notei a placa do carro, genial isso! Só tinha notado os figurinos e, no começo, as imagens mostrando um pouco da personalidade de cada um.

Carlos:
O mais interessante é que, apesar de serem completamente estereotipados, os personagens não chegam a ser caricaturas. Todos eles parecem sujeitos que você encontraria em qualquer escola (americana, vai). Até Bender é aquele típico valentão, com quem você não quer conversar muito.
Para não ficar perfeito, achei os adultos meio caricatos. Mesmo assim, há um pouco de humanidade no Diretor, como descobrimos quando ele conversa com o zelador.

Daniel:
Vernon, aliás, foge do vilão estereotipado. Apesar de claramente não saber lidar com os alunos, ele demonstra se importar de verdade com o futuro dos “rebeldes”. Nenhum personagem é superficial no filme. Até mesmo o faxineiro, que começa como alvo de humilhação deixa Bender sem resposta.
Acho muito interessante que, apesar de todas as diferenças que eles têm, todos pareçam se importar uns com os outros, o que fica claro quando ninguém entrega Bender pelo que ele fez com a porta ou quando um personagem demonstra interesse no drama de outro (destaque para quando Andrew insiste em saber da relação que Allison tem com os pais).

TRILHA SONORA

Daniel:
Gostei também da trilha sonora, principalmente nas cenas mais carregadas emocionalmente (geralmente protagonizadas por Bender), quando sons mais “fortes” são usados.

CONCLUSÃO

Carlos:
Não sei a vocês, mas o final do filme me incomodou muito. Passei o tempo todo pensando como a Allison era um exemplo  a ser seguido. Meio insegura, é verdade, mas com uma identidade absolutamente bem definida. Ao contrário dos outros personagens, ela não se definia por ser parte de um grupo particular, mas por ser alguém que tinha um personalidade peculiar e diferente do “bando”
Assim, no fim do filme, quando ela acabou se tornando uma patricinha, uma cópia da princesinha do baile, fiquei imensamente decepcionado. E quando, após a transformação, ela começou a namorar o atleta, eu me desanimei ainda mais.
Para fechar com chave de ouro, a princesinha ficou com o bandido. E o nerd ficou sozinho.
Assim, a mensagem do filme foi muito conformista. Se você for mulher, mantenha o sistema, siga a massa e tudo ficará certo. Se você for homem, seja valentão e fisicamente forte. Inteligência e individualidade devem ser ignoradas.
Pode parecer paranoia minha, mas essa espécie de mensagem é muito padrão e enfraqueceu o filme. Implodiu todo o trabalho anterior, onde se pregava a aceitação própria e o respeito às diferenças. Sei que não podemos julgar as obras pelas ideias que elas propagam, mas, no caso, a conclusão do filme foi contraditória com todo seu desenvolvimento.
Custava a maluquinha ter continuado maluquinha e namorado o nerd? Além do que, ela já era bonita daquele jeito mesmo.

Mau:
Não acho que o nerd ter ficado sozinho tenha sido uma mensagem de que a inteligência deve ser ignorada. No meu ponto de vista, ele era o mais novo dali, e sabemos que as garotas nessa fase da vida querem distância dos “pirralhos” : ) Por isso, vejo que foi uma escolha “normal” das meninas terem preterido o nerd em função dos outros.
Assim como também acho normal a Allison querer experimentar algo novo, afinal na adolescência ainda estamos nos descobrindo e definindo o que seremos no futuro, e essa é a época da experimentação. Talvez ela nunca houvesse tido contato com o mundo das “princesas”, ou talvez sempre quisesse ser desse jeito e fosse sempre excluída, e quando teve a oportunidade resolveu ver qual era.

DETALHES

Banzai:
A atriz que protagoniza a Claire deveria entrar no Guiness como “A menina que mais perdeu a virgindade em filmes” huahua pode ser um exagero meu, mas olhar pra ela me faz pensar nos dois filmes que isso acontece…

Daniel:
Não me joguem pedras, não conheço mesmo. A qual filme você se refere?

Banzai:
Sixteen Candles (Gatinhas e Gatões), recomendo…

Daniel:
Recomendação devidamente anotada 😉

Cássia:
Sobre a Molly Ringwald, a Claire, não sei se foi a recordista em “perda de virgindade” nos filmes, mas sem dúvida, foi a princesa dos filmes do Hughes. Até hoje, acho que penso em ficar ruiva por causa dela, hehehe.

Banzai:
Sempre gostei da Molly (Claire), esses dias, fui pesquisar sobre ela e li que se recusou a fazer papéis importantes, para título de curiosidade:

    Uma linda mulher
    Um amor inevitável

Conseguem imaginar ela no lugar da Julia Roberts?

Cássia:
Renato, além desses dois, parece que há mais filmes ótimos que ela se recusou a fazer. Agora, não adianta, será eternamente musa do John Hughes! E não dá mesmo para imaginá-la fazendo Uma linda mulher.

Cássia:
Não faz muito tempo, assisti à metade de um documentário sobre o John Hughes, “Don’t you forget about me“. Muuuuuito bom! Tentaram de tudo para falar com ele e não conseguiram. O filme foi finalizado pouco antes de sua morte. Sabe a cena em que o Bender cai do forro? Acharam que estava muito sem graça e o John Hughes pediu para ele contar uma piada idiota, porque ninguém ia saber o final mesmo… hehehe.

Banzai:
John Hughes conseguiu encapsular o mundo adolescente e colocar nos filmes que dirigiu…

Daniel:
Um último comentário que não pode faltar: assistam Community!!! hahaha
Como disse a Cássia, o filme é homenageado logo no piloto da série, e no 16º episódio da 1ª temporada, a ótima cena de dança em cima da mesa do Clube dos Cinco é recriada também, com a mesma música e tudo. Aliás, com certeza Clube dos Cinco não foi só homenageado na série, como muito provavelmente deve ter sido uma das inspirações da mesma. Claro, esses não são os únicos motivos, a série inteira é genial.

Cássia:
… como bem disse o Daniel, Community faz referência ao filme no piloto e no episódio 16, com a dança legal, mas é mesmo bem evidente que a inspiração-mor da série foi o filme. E isso só me fez amar ainda mais os dois!
Vocês falaram sobre a influência do Bender para as situações se desenrolarem e pensei no Jeff, em Community. O cara que tudo burla, que no começo não está nem aí, mas que depois se transforma naquele que une a turma.
Uma piada em comum que lembrei. Quando a Claire come o sushi e o Bender diz: “Você tem nojo de beijar na boca e come isso?”, lembra uma aula de antropologia, no começo da segunda temporada, quando dois personagens se beijam de língua (não falarei quem são para não tirar a graça do Renato) e a professora diz: “Que nojo!” e daí ela toma o próprio xixi, hehehe. Eu ri alto!

Mau:
Tá legal, definitivamente a Cássia é a expert em Community do Clube! 🙂
Adorei a associação com o Jeff! Realmente tem muito de Bender nele. Mas as motivações dele são bem diferentes, hehe.

Cássia:
Maurício, não sou a expert não. 😉 O Daniel sabe mil vezes mais, mas percebi essas analogias porque fiquei pensando no que vocês disseram sobre o Bender. Tinha de descobrir por que ele era o ponto-chave do filme, hehehe.

Cinema on the Rocks | Cães de Aluguel

Ficha Técnica:

Cães de Aluguel (Reservoir Dogs)
Ano: 1992
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino e Roger Avary
Elenco: Harvey Keitel, Michael Madsen, Tim Roth, Steve Buscemi, Chris Penn, Quentin Tarantino e outros.

“Cães de Aluguel” é o filme de estreia do Quentin Tarantino e conta a história de um grupo de assaltantes contratados por dois criminosos de Los Angeles, Joe Cabot (Lawrence Tierney) e seu filho Eddie Cabot (Chris Penn), para um assalto a uma joalheria. Todos os integrantes não se conhecem e ganham nomes pitorescos (como Mr. Blue, Mr. Orange e etc.) para não poderem se identificar caso sejam apanhados pela polícia. Após terem seu assalto totalmente frustrado, Mr. Blonde, Mr. White e os demais criminosos começam a desconfiar que um deles é um informante da polícia.

Atenção, SPOILERS deste ponto em diante.

Dentre todos os personagens, três são os principais da trama: Mr. Orange (Tim Roth), Mr. Blonde (Michael Madsen) e Mr. White (Harvey Keitel). Isso se deve a dois artifícios utilizados pelo Tarantino para destacar a importância deles. Primeiro, estes são os únicos personagens de quem o Tarantino fornece informações a respeito de seu passado ao longo do filme. Através do uso de flashbacks, somos informados que tanto o Mr. Blonde quanto o Mr. Pink são amigos de longa data de Joe Cabot e seu filho Eddie, e que o Mr. Orange é um policial infiltrado para prendê-los. O segundo artifício utilizado pelo Tarantino é mais subjetivo, e está relacionado ao uso da trilha sonora.

O Tarantino ficou conhecido, entre outras coisas, por criar filmes com trilhas sonoras cheias de músicas “antigas”, clássicas e outras menos conhecidas. Dessa forma, chega a surpreender que “Cães de Aluguel” seja marcado pela quase total ausência de trilha sonora, fazendo uso basicamente do som ambiente em suas cenas. Estimo que apenas 20% do filme possua trechos acompanhados por músicas, e (excluindo o início do filme no qual são exibidos os créditos iniciais) as únicas passagens do filme com trilha sonora estão relacionadas ao Mr. Orange e ao Mr. Blonde. No filme, o Mr. Orange é, de certa maneira, o responsável direto ou indireto das mortes de quase todos no grupo, além de ser quem acaba matando o Mr. Blonde. Já este é o responsável pelo tiroteio no assalto à joalheria, que resultaria no próprio Mr. Orange sendo baleado. E é justamente este artifício que acaba culminando na cena mais emblemática do filme.

Nesta cena (que vocês podem acompanhar abaixo), que é conduzida de forma magistral pelo Tarantino, o Mr. Blonde resolve torturar um policial, que ele havia acabado de capturar, para se vingar da emboscada realizada pela polícia. Apesar de aparecer por pouco tempo no filme, o personagem do policial tem grande importância e é diretamente relacionado aos dois personagens.

Nesta cena o Tarantino tem a preocupação de colocar o Mr. Blonde, em quase todos os planos, à direita do nosso campo de visão e quase sempre no ponto de fuga da tela, que é o ponto mais forte da composição. Dessa forma, ele chama constantemente a nossa atenção para a importância de seu personagem. Além disso, o Tarantino revela uma atenção especial a pequenos detalhes e com uma ótima pitada de humor negro. Reparem na hora em que o Mr. Blonde vai cortar a orelha do policial, a câmera, que representa nosso ponto de vista, afasta os “olhos” do acontecimento para simular a aversão que apresentaríamos se estivéssemos naquele lugar. Neste momento, ela focaliza uma passagem na qual aparece escrito na parte superior: “Atenção, Cuidado com a cabeça”. Ótimo não?

Mas o que nos interessa é a trilha sonora, certo? E aí o Tarantino nos dá mais uma amostra de como toda a cena foi bem estruturada e construída. Aqui a trilha sonora faz parte do universo diegético, ou seja, é parte do universo em que os personagens vivem. A cena se inicia quando o Mr. Blonde liga o rádio para ouvir seu programa favorito, o “K-Billy Super Sound of the 70’s”, no qual está tocando a ótima “Stuck in the middle with you” do Stealers Wheel. Reparem como a letra da música complementa a cena e reflete o momento dramático vivido pelo policial.

“…

Yes I’m stuck in the middle with you,
And I’m wondering what it is I should do,
It’s so hard to keep this smile from my face,
Losing control, yeah, I’m all over the place,
Clowns to the left of me, Jokers to the right,
Here I am, stuck in the middle with you.

Trying to make some sense of it all,
But I can see that it makes no sense at all,
Is it cool to go to sleep on the floor,
‘Cause I don’t think that I can take anymore
Clowns to the left of me, Jokers to the right,
Here I am, stuck in the middle with you

…”

Perdido entre estes personagens, sem controle da situação e sem condições de aguentar mais a tortura, seria bom escapar de tudo “indo dormir no chão”, o que, infelizmente, acabou ocorrendo para ele. Assim, o Tarantino consegue construir o filme de forma que a inserção de poucas músicas ao longo do filme serve para ressaltar, ainda mais, a importância desta cena cujas consequências irão resultar no clímax do filme.

P.S. a importância desta cena está refletida no final deste vídeo através de uma “homenagem”! : )

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau

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Cinema on the Rocks

Olá a todos! Irei inaugurar uma coluna aqui no Cineclube dos Cinco na qual pretendo misturar duas paixões: filmes e rock ‘n‘ roll!

Aqui irei discutir filmes nos quais o diretor utilizou (seja bem ou mal) o rock em sua trilha incidental. Pode ser que seja uma coluna com prazo de validade curto, uma vez que talvez não existam tantos filmes que possam ser utilizados como exemplos, mas vamos embarcar juntos nessa e ver aonde chegamos.

E para começar, estrearei com o filme “Cães de Aluguel” do Quentin Tarantino. Lançado em 1992, esse foi o filme de estreia deste diretor, que lançou vários sucessos depois deste, como “Pulp Fiction”, “Kill Bill”, “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”.

O que acham? Deixem nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau

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