A monstruosa busca pela identidade própria

Mike Wazowski é um monstro. Fofo, miudinho, de bom coração, mas um monstro. Criado em computador para um filme infantil, mas, insisto, um monstro.

Talvez isso tenha sido o suficiente para convencer o leitor quanto à natureza do personagem, mas certamente não é o suficiente para convencer seus companheiros de espécie, que por alguma razão não levam a monstruosidade de Mike muito a sério.

Bú!

De todas as profissões possíveis que um monstro poderia escolher – e, acredite, o universo do filme é crível o bastante para sugerir mais do que um punhado de possibilidades –, Mike foi logo se apaixonar pela profissão de assustador. Para quem não lembra ou não viu Monstros S.A., os monstros fabricam portas que acessam o mundo dos humanos para assustar crianças, cujos gritos são a fonte de energia do mundo dos monstros. Quanto mais assustado for, mais energia o pimpolho molha-cama fornece.

Universidade Monstros marca a primeira vez que a Pixar realiza uma prequel (palavra curta que substitui o termo técnico filme-produzido-depois-que-conta-a-história-que-veio-antes), e assim acompanhamos o desenrolar da relação de Mike e Sullivan quando eles se conhecem na universidade. Longe do amor à primeira vista, os dois se encontram em lados opostos do espectro da popularidade universitária. Sullivan é filho de um famoso assustador e sua aparência o favorece a seguir a profissão do pai, ainda que a sombra de seu sobrenome gere certa prepotência e acabe servindo de esconderijo para uma insegurança inconsciente. Já Mike, que chega a ser chamado de bola de vôlei, não conta com aquele empurrãozinho da genética e tem que estudar e treinar muito para chegar onde chegou (porque, aparentemente, até mesmo a posição dos lábios na hora de um rugido pode influenciar na intensidade do susto de uma criança).

Uma universidade é supostamente um lugar acolhedor, um lugar para experimentar, para falhar e tentar de novo, se descobrir. Um lugar que deveria oferecer um leque enorme de possibilidades e ser aberto para novas ideias e diferentes personalidades. Os universitários, porém, não parecem tão confortáveis com a diversidade e não agem de acordo, e entra em cena o bullying, que é um problema maior nos Estados Unidos (e, consequentemente, num mundo de monstros criado por norte-americanos) do que aqui, ou assim Hollywood faz parecer. Adeque-se ao sistema ou seja esmagado por ele. Dê um só passo para fora da linha e torne-se um alvo visível por todos que nela permanecem.

“Não tão rápido, mocinho. Aonde pensa que vai?”

E é o que acontece com Mike quando entra para uma competição de assustadores para provar seu valor. Tornando-se um alvo ainda maior do que quando era um simples nerd, o destemido monstrinho verde parece possuir uma confiança inabalável. Juntamente com Sullivan e com os também inadequados membros da fraternidade Oozma Kappa, cuja sigla brinca com o status de aceitação do grupo (“eles são OK”), Mike tem que passar por uma série de provas de habilidades físicas e estratégicas, em sequências criativas e divertidas.

Durante a competição, o grande desafio de Sullivan é aprender a respeitar a inaptidão alheia e trabalhar em equipe, enquanto Mike precisa reconhecer suas fraquezas, trabalhar seus pontos fortes e, como líder do grupo, instigar cada um a fazer o mesmo. A sequência que trás a dupla trabalhando junta para superar um obstáculo em particular merece destaque por surgir como uma excelente forma de consolidar uma relação muito bem construída, e ainda estou surpreso com a proeza com que o filme consegue fazer um quarto cheio de crianças se transformar em algo assustador.

O aterrorizante mundo dos homens.

Em tempos que um papel emoldurado na parede com seu nome assinado diz muito mais sobre você do que seu caráter, suas ações e até mesmo sua boca jamais serão capazes de dizer, Universidade Monstros surge como uma fonte inesperada de inspiração. Todos temos algum talento, um ponto forte. Basta encontrá-lo e abraçá-lo; celebrar a particularidade de cada indivíduo. Um brasileiro pode ser um exímio jogador de peteca ou de bocha, mas como descobrir isso se continua se forçando a jogar apenas futebol? Uma mulher pode ser uma cineasta excepcional que não teve coragem de enfrentar o machismo predominante na área. Um homem pode ser um dançarino espetacular que nunca exerceu sua paixão por medo da homofobia.

Quebrar convenções e ultrapassar limites é essencial para o desenvolvimento, o que não significa que a tarefa não exija uma boa dose de coragem e visão. Mesmo que de um olho só.

Anúncios