Cinema on the Rocks | O Segredo dos Animais

Ficha técnica:

O segredo dos animais (Barnyard)
Ano: 2006
Direção: Steve Oedekerk
Roteiro: Steve Oedekerk
Elenco: Kevin James, Courteney Cox, Danny Glover, Sam Elliott e outros.

E eis que aconteceu e o Seu Tartarugo (apelido do meu filho, para quem não me acompanha no Twitter) finalmente chegou a fase de assistir a desenhos, um atrás do outro, e de novo, de novo, de novo, de …. Desde então, minha vida cinematográfica é composta basicamente de produções para a família da Disney, Pixar, Dreamworks, etc. E foi em uma dessas ocasiões que fui surpreendido com um bom exemplo da utilização do nosso rock ‘n’ roll.

Em “O Segredo dos Animais” somos apresentados a dois bois: Ben (Sam Elliott) e seu filho adotivo Otis (Kevin James). Ben é o líder da fazenda e o responsável por manter a ordem entre os animais sempre que o fazendeiro sai, e por fazer todos se comportarem novamente como animais quando o fazendeiro retorna. Já Otis, ao contrário, é o típico filhinho de papai, que vive uma vida fácil, sempre pensando em se divertir com os amigos e fugindo de toda e qualquer responsabilidade, até que …

SPOILERS deste ponto em diante.

… após ser atacado por um grupo de coiotes, tentando defender as galinhas da fazenda, Ben não suporta os ferimentos e morre. Sem ninguém para botar ordem nos animais na fazenda, o caos se instala e o que era antes uma pacata vida no campo se transforma em uma revolução dos bichos. E não demora muito para que os próprios animais, sem a liderança firme de Ben, acabem deixando escapar o seu “segredo” para o fazendeiro, obrigando-os a uma saída nada elegante para fazer com que o fazendeiro “esqueça” o que viu. Com a volta dos coiotes, os animais precisam de alguém que os defenda novamente, e cabe ao Otis decidir se irá se tornar o “homem” que seu pai sempre sonhou que ele se tornasse.

Produzido pela Nickelodeon Movies em parceria com a Paramount, “O Segredo dos Animais” deixa um pouco a desejar quando comparado a outros filmes do gênero, mas assim mesmo consegue surpreender em determinados momentos, como a passagem derradeira de Ben, que você pode assistir abaixo.

Para evitar um ataque dos coiotes à fazenda, Ben está sentado com seu violão em uma pedra e acompanhamos sua vigília noturna enquanto ele canta e toca os dois primeiros versos da belíssima “I won’t back down” do Tom Petty (na voz do próprio Sam Elliott).

“Well, I won’t back down
No I won’t back down
You can stand me up at the gates of hell
But I won’t back down

No I’ll stand my ground
Won’t be turned around
And I’ll keep this world from draggin’ me down
Gonna stand my ground …”

Após o travelling que nos leva em direção aos coiotes e à incursão destes ao galinheiro da fazenda, vemos o terror a que eles estão submetendo as galinhas. Sempre envoltos em sombras para aumentar a ameaça que eles trazem, o que é magnificado pela noite escura e chuvosa, estes podem representar os últimos momentos das galinhas.

E é quando volta à cena o Ben. Após uma breve discussão, os coiotes atacam o líder da fazenda. Nesse momento tornamos a ouvir o mesmo trecho da música de momentos atrás, mas desta vez somente a parte instrumental, pois tudo que precisava ser dito já foi, e isso já ficou gravado em nossa mente. Já ouvimos que o Ben não vai desistir (I won’t back down), que ele pode ser enfrentado na porta do galinheiro (You can stand me up at the gates of hell), que ele vai defender seu lugar (I’ll stand my ground) e que ele não será derrubado pelos coiotes (I’ll keep this world from draggin’ me down). Já ouvimos tudo, agora é só o momento de ver isso em ação. Mas infelizmente, apesar de conseguir afugentar os coiotes, os ferimentos são muito profundos para que Ben sobreviva.

Esse filme é um ótimo exemplo de que de onde menos se espera é possível ser bem surpreendido. E que não é só por ser um filme para a família, ou dito “infantil”, que não se pode ter um ótimo acompanhamento musical.

Ah, e obrigado ao Steve Oedekerk e à Paramount / Nickelodeon Movies por ajudar a desenvolver o gosto musical dos nossos pequenos! : )

A música original do Tom Petty você pode conferir aqui:

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau
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Cinema on the Rocks | Conta Comigo

Ficha Técnica:

Conta Comigo (Stand by Me)
Ano: 1986
Direção: Rob Reiner
Roteiro: Stephen King, Raynold Gideon e Bruce A. Evans.
Elenco: Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Kiefer Sutherland, Richard Dreyfuss e outros.

Esse é um daqueles filmes da Sessão da Tarde (pra quem é da mesma geração que eu, claro), que passou incontáveis vezes depois da reprise da novela. E seja pela qualidade da história, ou por fazer parte do processo de crescimento de muitas pessoas que acompanharam a aventura do grupo de amigos, este filme se tornou um clássico cinematográfico. E como não poderia deixar de ser, ocupa um lugar de destaque na memória deste que vos escreve.

Baseado em um conto do Stephen King, acompanhamos Gordie (Richard Dreyfuss / Wil Wheaton) que após saber da morte de Chris (River Phoenix), seu amigo de infância, começa a se lembrar de um episódio marcante na vida deles e de seus outros amigos Teddy (Corey Feldman) e Vernon (Jerry O’Connel).

SPOILERS deste ponto em diante.

Após descobrirem que um colega de escola, que estava desaparecido há alguns dias, pode estar morto próximo à linha do trem em uma cidade vizinha, o grupo de amigos resolve se aventurar pelos trilhos que levam até o local, para verificar a veracidade da história. Se fossem bem sucedidos, iriam então avisar a todo mundo de que eles haviam encontrado o menino e, assim, ganhar o status de heróis na cidade.

Se em o “Clube dos Cinco” comentamos que cada personagem representava um estereótipo específico (o atleta, a princesa, o gênio, etc.) o mesmo se vê nesse filme, mas sem o tom de comédia. Gordie é o “cabeça” do grupo, o mais inteligente dos amigos, Teddy é o “militar”, influenciado por causa do pai “lunático”, Vernon é o “gordo”, o alívio cômico dos amigos e, finalmente, Chris é o “rebelde”, o personagem mais complexo do grupo.

Gordie é um menino franzino, irmão de um jogador de futebol famoso da escola, e por isso sempre foi “invisível” aos olhos de todos, inclusive de seus pais. Após a morte do irmão, passou a ser detestado pelos pais que desejavam que ele é quem tivesse morrido ao invés do irmão. Por isso, apesar de sempre andar de cabeça baixa, num constante sentimento de derrota, aproveita todo instante para incentivar o Chris, que é seu melhor amigo, a continuar estudando e a alcançar grandes feitos, apesar das chances estarem sempre contra o amigo.

Chris, por sua vez, é o garoto mal visto pelos professores, e que os pais sempre querem longe de seus filhos. Apesar de incompreendido por todos, desperta em Gordie o sentimento de fraternidade que só o irmão lhe fornecia, e por isso ele se dedica tanto a ajudá-lo. O filme tem duas passagens bem interessantes envolvendo o Chris. A primeira é a rima que é feita quando ele é ameaçado com uma faça no pescoço pelo “marginal” interpretado pelo Kiefer Sutherland, quando jovem, e que acaba se mostrando como a forma com que ele morre quando adulto. A segunda é justamente quando o Gordie está contando sobre o futuro do Chris, e vemos ele jovem no centro de um plano geral, se afastando do Gordie até desaparecer lentamente no exato instante em que ele fala da sua morte. Um momento tocante e muito bem executado para representar a perda que o amigo representa para o Gordie e terna lembrança deste.

Apesar da busca pelo menino desaparecido, o foco principal do filme reside claramente na relação de amizade entre Gordie e Chris. Isso fica evidente quando notamos a opção de alterar o título do conto do Stephen King no qual o filme foi baseado, “The Body” (O Corpo, aludindo ao menino morto), para o “Stand by Me” (Conta Comigo na versão em português).

Já nas últimas cenas (que você pode ver abaixo) ouvimos um trecho da música de mesmo nome do filme, escrita e gravada por Ben E. King.

“…
When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we’ll see
No I won’t be afraid, no I won’t be afraid
Just as long as you stand, stand by me
…”

A música toca justamente quando a versão adulta de Gordie, está lembrando dos momentos vividos ao lado do amigo. Neste momento, temos mais um exemplo de como uma música pode ser utilizada para fortalecer a história que está sendo contada. Se em outros filmes vimos a música servir como um complemento às cenas, aqui a música serve como um ponto de apoio para a reflexão do personagem e, por que não, como um resumo da amizade entre os amigos que acabamos de testemunhar ao longo do filme.

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau
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P.S. Uma curiosidade, o filme é dirigido pelo Rob Reiner, que apareceu pela primeira vez no cinema em uma ponta de um filme do Jerry Lewis: O fofoqueiro (1967).

P.S.2  Nosso Clube do Filme está analisando o “Conta Comigo”. Assim que a discussão estiver finalizada, você pode visualizá-la aqui.

Cinema on the Rocks | Ela

Ficha técnica:

Ela (Her)
Ano: 2013
Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze
Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johansson e outros.

Spike Jonze tem se mostrado um dos melhores diretores desta geração. Com filmes como “Quero ser John Malkovitch” e “Adaptação” em seu currículo, ele nos traz agora o “Ela”, que também concorre ao Oscar de Melhor Filme em 2014. Uma tocante história de amor entre um homem e o sistema operacional de seu novo computador, um sistema de inteligência artificial desenhado para aprender e evoluir com suas interações.

SPOILERS deste ponto em diante.

Joaquin Phoenix interpreta Theodore, um escritor com um trabalho diferente, escrever cartas para os outros, numa versão futurista da personagem de Fernanda Montenegro em “Central do Brasil”. Tendo acabado recentemente um relacionamento, suas maiores interações sociais se dão com os vizinhos em eventuais encontros no elevador. Por isso, toda vez que escreve uma carta por alguém ele esboça uma expressão de felicidade em seu rosto como, se de certa forma, ele é quem tivesse vivido determinada experiência.

Até que Samantha entra em cena. Interpretada pela “voz” da Scarlett Johansson (e se você assistir à versão dublada vai perder todas as nuances que a voz rouca da atriz consegue transmitir à personagem) ela vai se relacionando cada vez mais profundamente com Theodore, e com ela mesma, conforme ela vai adquirindo cada vez mais consciência a respeito dela, a respeito dele e do mundo em que vivem.

Spike Jonze consegue construir um universo totalmente crível, de tal forma, que acompanhamos nada menos que uma história de amor. Em nenhum momento nos questionamos sobre o alvo do relacionamento, ao contrário, nós o aceitamos de forma normal (será isso um reflexo do nosso relacionamento cada vez maior com nossos smartphones?). Somente quando um elemento desse universo questiona o relacionamento é que nos damos conta do que estamos presenciando. E assim como Theodore, já estamos tão envolvidos nesta relação que isso não é suficiente para nos trazer de volta à “realidade”.

Mas, assim como nem todos os relacionamentos possuem um final feliz, o de Theodore e Samantha infelizmente também passa pelo ciclo: se conheceram, se apaixonaram, se amaram, se separaram…

E é em uma cena logo no início do filme que o Spike Jonze nos mostra todos estes elementos ao som de “Off you”, uma música do The Breeders. Não ouvimos um trecho específico da música, e sim uma edição para reforçar, e destacar, quatro elementos que o diretor vai nos transmitir ao longo do filme.

“…
I’ve laid this island sun a 1000 times

Fortune me
Fortune me

I am the autumn in the scarlet
I am the make-up on your eyes

I land to sail
Island sail
Yeah, we’re movin
…“

O primeiro é o de que Theodore é uma ilha. Após o término de seu relacionamento, ele se torna uma pessoa introspectiva e solitária. Sua única amiga mais próxima, ainda da época de seu relacionamento, pede para ter o antigo Theodore, o alegre, de volta. Por vezes tão deprimido, ele até pede para seu celular tocar uma música melancólica (justamente a “Off you”) enquanto volta para casa. Quando não está trabalhando, ele está isolado em seu apartamento com seu videogame. Até que, por sorte, ele esbarra na propaganda do novo sistema operacional que desencadeia toda a história do filme.

O segundo é relativo ao escarlate, ou vermelho, que é a cor que compõe as roupas do Theodore (isso é bem acentuado no cartaz de cinema do filme). O vermelho é associado ao amor, à paixão. Vemos que Theodore era muito apaixonado pela sua ex-esposa e o rompimento com ela deixa um espaço nele que precisa ser preenchido, mesmo que ele se mantenha isolado do mundo na maioria do tempo. Além disso, o vermelho representa também a motivação para o recomeço.

Que nos leva ao terceiro elemento, o outono. A estação do ano é o que nos lembra que, às vezes, precisamos cair para nos levantar. O ciclo de um relacionamento pode culminar em uma separação, mas o que importa é que isso nos fortaleça e nos deixe prontos para encontrar a próxima pessoa, mesmo que, no caso do Theodore, essa pessoa seja um sistema operacional.

E por último, ainda que o ciclo infinito das estações do ano represente o ciclo do relacionamento, o último verso da música está lá para lembrar ao Theodore, e a nós também, que não devemos nos acomodar, devemos continuar nos movendo, pois uma hora encontramos a pessoa certa e encerramos esse ciclo.

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

P.S. Na indisponibilidade da cena em questão, deixo vocês com uma apresentação ao vivo da música que a acompanha.

Mau
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Cinema on the Rocks | As Vantagens de Ser Invisível

Ficha Técnica:

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower)
Ano: 2012
Direção: Stephen Chbosky
Roteiro: Stephen Chbosky
Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller e outros.

Assisti a este filme de forma totalmente descompromissada. Não havia me informado a respeito dele e, de repente, seja pela história, ou pela ótima atuação do seu trio de atores principais, o filme me cativou de certa maneira que não conseguia parar de assistir. E ficou ainda melhor da segunda vez!

“As Vantagens de Ser Invisível” é um filme escrito e dirigido por Stephen Chbosky (e baseado em seu próprio livro), que nos apresenta a história de Charlie (Logan Lerman) um aluno recém-chegado ao ensino médio, com todos os problemas típicos da adolescência, tentando sobreviver em sua jornada rumo ao ensino superior. Nesse caminho ele encontra os meio-irmãos Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson) que o ajudam a tornar isso possível.

SPOILERS deste ponto em diante.

Reunindo todos os elementos das comédias de adolescentes americanos, o quarterback do time de futebol, os calouros, os veteranos, os trotes e até um diário contendo revelações íntimas sobre alguns personagens, o filme só aos poucos vai fugindo dos estereótipos e se mostrando como um drama, com todas as aflições e problemas que tornam as vidas dos adolescentes tão difíceis. Sabemos que para os adolescentes, mesmo os pequenos problemas são gigantes. Já abordamos isso brevemente em nossa discussão sobre o “Clube dos Cinco“, mas em “As Vantagens de Ser Invisível” essa discussão é levada a outro patamar, ao nos apresentar a situações complexas como abuso infantil e tentativas de suicídio.

Charlie é um garoto inseguro e problemático. Seu melhor amigo se suicidou um ano antes e sua tia, por quem ele nutria uma afeição “especial”, morreu em um acidente de carro quando ele era pequeno e ele se culpa por isso até hoje. Caçula de uma família que gerou um jogador de futebol universitário bem sucedido, tudo o que ele quer é ser “invisível” ao longo dos 1.385 dias restantes até a sua ida para a universidade. E o filme pontua isso de maneira muito interessante, fazendo com que só conheçamos o seu nome após os 10 minutos iniciais do filme, que passamos acompanhando seu primeiro dia de aula.

Já Sam e seu meio-irmão Patrick são bem resolvidos e fazem o contraponto ao Charlie. Sam teve um passado parecido com o do Charlie e, de certa forma, após se conhecerem, ambos tentam recomeçar a sua vida. E é nesse contexto que o rock é utilizado ao longo do filme como se fosse mais um personagem completando o trio principal. Em determinado momento, em um baile na escola, começa a tocar “Come on Eileen!” do Dexys Midnight Runners, e a Sam e o Patrick ficam excitados porque “começou a tocar uma boa música” e correm para para o centro do salão para dançarem. É quando isolado num canto, ao ver a empolgação dos dois e sentindo a vibração da música, o Charlie dá o primeiro sinal de que sua invisibilidade não é desejada, e sim uma proteção, e se dirige para junto deles para dançar também.

Mas tudo culmina na cena que você pode assistir abaixo, quando voltando do baile começa a tocar no rádio uma música que eles não conhecem, mas que é perfeita para a Sam fazer um “passeio” fora do carro ao atravessarem um túnel. A música que eles desconhecem é, simplesmente, a “Heroes” do David Bowie.

Quando está fora do carro e curtindo seu momento, a Sam adquire uma aura quase mágica para o Charlie. Nesta hora a câmera assume o ponto de vista dele olhando para a Sam, focalizando-a de baixo para cima para enfatizar a importância que ela está tomando na vida dele. E o trecho da música que acompanha a cena complementa este sentimento.

“…
I, I will be king
And you, you will be queen
Though nothing will drive them away
We can be Heroes, just for one day
…”

Logo após ele perceber que ela poderia ser sua “rainha”, esse sentimento o preenche de tal forma que ele se “sente infinito”. Ela tinha um passado, mas isso não importa para ele, ela passa a ser sua heroína. E a música vai além dizendo que apesar de nada poder afastar os seus problemas, eles também podem ser heróis por um dia. Um sentimento compartilhado na cumplicidade da troca de olhares entre o Charlie e o Patrick. Uma belíssima utilização de um pequeno trecho de uma música e com tanto significado para os personagens e para a história.

Mais ainda, a busca por descobrir que música era essa, vira algo que serve para uní-los ainda mais. E quando finalmente eles conseguem, após tudo o que eles passaram, a música passa a representar uma página virada em suas vidas e então os papéis se invertem. Se antes ela era a heroína, agora ele também é, e a passagem pelo túnel também representa isso, a superação dos problemas, a liberdade, se sentir infinito… (sentimento reforçado por um detalhe que é difícil de perceber, mas no final do túnel há uma placa indicando uma saída para a Avenida Liberdade).

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau
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Cinema on the Rocks | Cães de Aluguel

Ficha Técnica:

Cães de Aluguel (Reservoir Dogs)
Ano: 1992
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino e Roger Avary
Elenco: Harvey Keitel, Michael Madsen, Tim Roth, Steve Buscemi, Chris Penn, Quentin Tarantino e outros.

“Cães de Aluguel” é o filme de estreia do Quentin Tarantino e conta a história de um grupo de assaltantes contratados por dois criminosos de Los Angeles, Joe Cabot (Lawrence Tierney) e seu filho Eddie Cabot (Chris Penn), para um assalto a uma joalheria. Todos os integrantes não se conhecem e ganham nomes pitorescos (como Mr. Blue, Mr. Orange e etc.) para não poderem se identificar caso sejam apanhados pela polícia. Após terem seu assalto totalmente frustrado, Mr. Blonde, Mr. White e os demais criminosos começam a desconfiar que um deles é um informante da polícia.

Atenção, SPOILERS deste ponto em diante.

Dentre todos os personagens, três são os principais da trama: Mr. Orange (Tim Roth), Mr. Blonde (Michael Madsen) e Mr. White (Harvey Keitel). Isso se deve a dois artifícios utilizados pelo Tarantino para destacar a importância deles. Primeiro, estes são os únicos personagens de quem o Tarantino fornece informações a respeito de seu passado ao longo do filme. Através do uso de flashbacks, somos informados que tanto o Mr. Blonde quanto o Mr. Pink são amigos de longa data de Joe Cabot e seu filho Eddie, e que o Mr. Orange é um policial infiltrado para prendê-los. O segundo artifício utilizado pelo Tarantino é mais subjetivo, e está relacionado ao uso da trilha sonora.

O Tarantino ficou conhecido, entre outras coisas, por criar filmes com trilhas sonoras cheias de músicas “antigas”, clássicas e outras menos conhecidas. Dessa forma, chega a surpreender que “Cães de Aluguel” seja marcado pela quase total ausência de trilha sonora, fazendo uso basicamente do som ambiente em suas cenas. Estimo que apenas 20% do filme possua trechos acompanhados por músicas, e (excluindo o início do filme no qual são exibidos os créditos iniciais) as únicas passagens do filme com trilha sonora estão relacionadas ao Mr. Orange e ao Mr. Blonde. No filme, o Mr. Orange é, de certa maneira, o responsável direto ou indireto das mortes de quase todos no grupo, além de ser quem acaba matando o Mr. Blonde. Já este é o responsável pelo tiroteio no assalto à joalheria, que resultaria no próprio Mr. Orange sendo baleado. E é justamente este artifício que acaba culminando na cena mais emblemática do filme.

Nesta cena (que vocês podem acompanhar abaixo), que é conduzida de forma magistral pelo Tarantino, o Mr. Blonde resolve torturar um policial, que ele havia acabado de capturar, para se vingar da emboscada realizada pela polícia. Apesar de aparecer por pouco tempo no filme, o personagem do policial tem grande importância e é diretamente relacionado aos dois personagens.

Nesta cena o Tarantino tem a preocupação de colocar o Mr. Blonde, em quase todos os planos, à direita do nosso campo de visão e quase sempre no ponto de fuga da tela, que é o ponto mais forte da composição. Dessa forma, ele chama constantemente a nossa atenção para a importância de seu personagem. Além disso, o Tarantino revela uma atenção especial a pequenos detalhes e com uma ótima pitada de humor negro. Reparem na hora em que o Mr. Blonde vai cortar a orelha do policial, a câmera, que representa nosso ponto de vista, afasta os “olhos” do acontecimento para simular a aversão que apresentaríamos se estivéssemos naquele lugar. Neste momento, ela focaliza uma passagem na qual aparece escrito na parte superior: “Atenção, Cuidado com a cabeça”. Ótimo não?

Mas o que nos interessa é a trilha sonora, certo? E aí o Tarantino nos dá mais uma amostra de como toda a cena foi bem estruturada e construída. Aqui a trilha sonora faz parte do universo diegético, ou seja, é parte do universo em que os personagens vivem. A cena se inicia quando o Mr. Blonde liga o rádio para ouvir seu programa favorito, o “K-Billy Super Sound of the 70’s”, no qual está tocando a ótima “Stuck in the middle with you” do Stealers Wheel. Reparem como a letra da música complementa a cena e reflete o momento dramático vivido pelo policial.

“…

Yes I’m stuck in the middle with you,
And I’m wondering what it is I should do,
It’s so hard to keep this smile from my face,
Losing control, yeah, I’m all over the place,
Clowns to the left of me, Jokers to the right,
Here I am, stuck in the middle with you.

Trying to make some sense of it all,
But I can see that it makes no sense at all,
Is it cool to go to sleep on the floor,
‘Cause I don’t think that I can take anymore
Clowns to the left of me, Jokers to the right,
Here I am, stuck in the middle with you

…”

Perdido entre estes personagens, sem controle da situação e sem condições de aguentar mais a tortura, seria bom escapar de tudo “indo dormir no chão”, o que, infelizmente, acabou ocorrendo para ele. Assim, o Tarantino consegue construir o filme de forma que a inserção de poucas músicas ao longo do filme serve para ressaltar, ainda mais, a importância desta cena cujas consequências irão resultar no clímax do filme.

P.S. a importância desta cena está refletida no final deste vídeo através de uma “homenagem”! : )

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau

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Cinema on the Rocks

Olá a todos! Irei inaugurar uma coluna aqui no Cineclube dos Cinco na qual pretendo misturar duas paixões: filmes e rock ‘n‘ roll!

Aqui irei discutir filmes nos quais o diretor utilizou (seja bem ou mal) o rock em sua trilha incidental. Pode ser que seja uma coluna com prazo de validade curto, uma vez que talvez não existam tantos filmes que possam ser utilizados como exemplos, mas vamos embarcar juntos nessa e ver aonde chegamos.

E para começar, estrearei com o filme “Cães de Aluguel” do Quentin Tarantino. Lançado em 1992, esse foi o filme de estreia deste diretor, que lançou vários sucessos depois deste, como “Pulp Fiction”, “Kill Bill”, “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”.

O que acham? Deixem nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau

http://www.twitter.com/TuitedoMau