Lista do filme 26

No texto de apresentação do blog, contamos como o nosso clube funciona: discutimos um filme escolhido de acordo com uma lista elaborada por um dos participantes. Todos têm a sua vez.

Com o tempo, passamos das listas aleatórias às listas temáticas, uma mais legal do que a outra. Filme escolhido, havia uma certa tristeza em deixar os outros para trás. Por isso, resolvemos compartilhar nossas listas com vocês.

Começaremos pela minha: Filmes com mulheres protagonistas cuja história não seja sobre relacionamentos amorosos.

Chegar ao tema foi um pouco complicado. Num primeiro momento, pensei em escolher filmes de acordo com o Teste de Bechdel, mas todos os escolhidos por mim ao longo da minha participação no clube passaram no teste. A propósito, se vocês não o conhecem, a explicação:

Anita Sarkeesian em “The Bechdel Test for Women in Movies”.

Se as legendas em português não aparecerem, clique no quarto ícone, da direita para a esquerda.

Depois eu pensei em filmes que, além de passarem no teste, deveriam ter uma protagonista mulher. Desses mesmos que escolhi, apenas um não tem. Enfim, cheguei a “Filmes com mulheres protagonistas cuja história não seja sobre relacionamentos amorosos” e selecionei cinco:

4 meses, 3 semanas e 2 dias (4 luni, 3 saptamâni si 2 zile), Cristian Mungiu, 2007
Romênia comunista de 1987, duas amigas, uma delas fará um aborto e será ajudada pela outra. Apenas isso e tudo isso. O diretor conseguiu olhar de fora sobre um assunto que ele, sendo homem, jamais compreenderá em sua totalidade. E as críticas que li, todas escritas por homens, não entenderam algo crucial do filme. É uma porrada com sutileza, difícil de explicar.

Sonata de Outono (Höstsonaten), Ingmar Bergman, 1978
Depois de vários anos, uma filha recebe a visita de sua mãe, uma famosa pianista. Dirigido por Ingmar Bergman e protagonizado por Ingrid Bergman e Liv Ullmann, não é preciso dizer muita coisa. O que move a ação são os diálogos, algo que o cinema tem abandonado e as séries têm resgatado. Além disso, esse embate entre mãe e filha vem de longe.

Thelma e Louise (Thelma & Louise), Ridley Scott, 1991
Duas amigas resolvem viajar juntas sem dar satisfação para ninguém. Parece algo muito simples, mas nem sempre foi assim. Elas realizam o que muitas mulheres ainda não conseguem: não dizer para onde vão, beber juntas no bar, transar com quem quiser. Claro que não é tudo lindo, muita coisa acontece, mas é um filme libertador.

Tomates verdes fritos (Fried Green Tomatoes), Jon Avnet, 1991
Acompanhamos duas mulheres do presente e duas mulheres do passado se tornando amigas, e essa amizade sendo a base da vida de todas elas. Além disso, os relacionamentos aparecem de uma outra maneira, eles podem ser responsáveis por muita tristeza e sofrimento na vida das mulheres. É lindo e de uma imensa delicadeza.

Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre), Pedro Almodóvar, 1999
Depois de muita insistência, no aniversário de 17 anos do filho, uma mulher decide contar quem é o pai dele. Uma tragédia acontece e toda uma rede de amparo, amizade e afeto entre várias mulheres se forma. Não conheço outro filme que fale sobre as mulheres de maneira tão significativa, mas estamos falando de Almodóvar, o único diretor 100% aprovado no Teste de Bechdel (como vocês podem ver aqui). Só podia ter vindo dele um filme tão importante sobre nós.

Escolhido: 4 meses, 3 semanas e 2 dias (4 luni, 3 saptamâni si 2 zile), Cristian Mungiu, 2007.

* * *

A partir da nossa próxima lista, nós abriremos a votação para os leitores. Sim, vocês escolherão qual filme vamos discutir!

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Filme 20 | Dr. Fantástico

Ficha técnica
Dr. Fantástico (Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb)
Ano: 1964
Direção: Stanley Kubrick
Roteiro: Stanley Kubrick, Terry Southern, Peter George
Elenco: Peter Sellers, George C. Scott, Sterling Hayden, Keenan Wynn, Slim Pickens, Peter Bull, James Earl Jones, Tracy Reed

Escolhido por: Mauricio
Discussão iniciada em: 02/09/2013

ROTEIRO

Mau:
O filme é uma crítica ao belicismo e ao imperialismo dos EUA, e os americanos são constantemente retratados como paranoicos, fundamentalistas religiosos, loucos. E por ser uma comédia, é calcada em artefatos caricatos, como:
– o Dr. Strangelove e sua mão com vida própria;
– as falas ao longo do filme: “Não podem brigar aqui, essa é a sala de guerra!”;
– alguns detalhes como a frase “A Paz é a nossa profissão” espalhada por toda a base do general Ripper;
– os nomes dos personagens: general Ripper (ceifador, como também é conhecida a Morte em inglês), coronel Bat Guano (ou coronel Cocô de Morcego), presidente Merkin (bom, melhor ver por você mesmo: merkin).

Banzai:
Achei que também tira sarro do $$$ que os EUA gastam enquanto a Rússia opta pelo mais simples. A Máquina do Apocalipse era a alternativa mais barata enquanto os EUA tinham 34 aviões sobrevoando 24×7 os domínios do país. Me fez lembrar da história que a NASA desenvolveu uma caneta milionária para os astronautas escreverem enquanto os russos levaram lápis para o espaço…
Você falou em ceifeiro, mas me veio à mente Jack the Ripper, no sentido de estripador. rs

Mau:
Ops, me corrigindo. Tens razão, Ripper é de estripador, o caso do Jack. O correto para Morte seria Reaper. Me confundi. 🙂

Carlos:
Como começar a falar do roteiro?
Vocês já indicaram a crítica ao belicismo americano, com razão, e seu fanatismo religioso. Vale lembrar que o filme foi lançado apenas três anos após a famosa crise dos misseis em Cuba. Era o auge da Guerra Fria e zombar de qualquer força militar naquela época não devia ser coisa fácil. Ainda mais quando se retratam os militares de uma forma tão ridícula e se expõe suas idiossincrasias de maneira tão clara.
Mas, para mim, a crítica elaborada no roteiro também é dirigida ao excesso de tecnicismo e ao império das máquinas sobre os seres humanos, especialmente os militares. A crise do filme é gerada pelo excesso de burocracia, estabelecido, ironicamente, para que nada nunca desse errado. Já a Máquina do Apocalipse é o próprio símbolo de nossa submissão à ordem mecânica. Totalmente automatizada, controlada por computadores e programada para destruir a humanidade caso ela entenda que a situação assim exige. A primeira representa o ser humano agindo como máquina, enquanto a segunda, a máquina agindo como ser humano. Nos dois casos, o resultado é a falha e a tragédia.
O paralelo entre militares e máquinas também aconteceu, para mim, com a questão dos fluidos vitais. Uma das paranoias de Ripper era não trocar fluidos com outras pessoas. E o filme abre exatamente com um avião abastecendo o outro, trocando fluidos, em uma referência ao ato sexual. Mais à frente, o avião fica sem combustível. Ou seja, acaba seu fluido vital.
A intensa crítica ao mecanicismo do mundo militar é retratada ainda pela quantidade de falhas que sofrem as máquinas. A bomba não cai sozinha e precisa da intervenção humana, o rádio não funciona depois da explosão e a própria Máquina do Apocalipse destrói o mundo, mas não cumpre o objetivo para o qual foi programada, manter a paz. Bom, nem os militares-máquina também conseguem.
E claro que todas essas falhas acabam oferecendo situações comicamente geniais, como os militares americanos atacando suas próprias instalações e os russos derrubando aviões americanos a pedido do presidente dos Estados Unidos. Não bastasse, a única máquina que está quieta em seu canto é a máquina de Coca-Cola, gentilmente assassinada pelo militar, que, antes de destruí-la, adverte sobre a violação da propriedade privada.
Em contrapartida, os civis são retratados como a ilha de consciência e sabedoria em meio ao caos militar. Basta uma ligação do presidente americano ao premier russo para a crise terminar. Aliás, o presidente americano é o único personagem equilibrado que surge durante o filme inteiro.
Há um óbvio recado no filme. Se, como disse o general Ripper, a guerra é um assunto importante demais para ser deixado na mão de civis, a paz é um assunto importante demais para ficar na mão de militares.
Ainda sobre detalhes no roteiro, mas saindo da interpretação global, observa-se que tudo é muito bem amarrado para não gerar uma quebra de expectativa no espectador. O sistema que mostra o código da missão é retratado no início algumas vezes para, no fim, ser destruído e deixar clara a impossibilidade de abortar a missão. O avião é obrigado a voar baixo para evitar radares, o que impossibilita uma segunda interceptação, provável e desejada. O filme começa com o abastecimento do avião e há uma cena em que eles calculam o combustível da missão. Tudo para, depois, mudar os planos exatamente em razão da falta de gasolina.

Daniel:
Não vou ficar citando piadas específicas, só falo que a citada pelo Mauricio (não pode brigar na sala de guerra) foi bem marcante, hahahaha.
Boas observações sobre os nomes feitas pelo Mauricio e pelo Banzai e que me passaram despercebidas.
Banzai, excelente comentário sobre os gastos dos EUA. Vez por outra eu também lembro dessa história do lápis dos astronautas russos e penso em como os americanos sempre exageram com essas coisas.
Gostei de toda a análise do Carlos sobre o roteiro, e sabia que alguma coisa estava me escapando com os aviões trocando fluidos. Até anotei enquanto assistia, mas não fiz a conexão com o Jack.
Aliás, acho muito interessante que todo o caos do filme tenha sido gerado por Jack ao tentar atribuir a culpa de seus problemas/frustrações/conflitos internos aos russos. O cara precisando urgentemente de tratamento e em vez de ir atrás de um, prefere se achar perfeito e criar uma situação que pode acabar com a vida na Terra. Não consigo tirar da cabeça a imagem de um bando de homens idiotas (o gênero, não a espécie). Sim, porque são sempre os homens e sua estupidez que dão início às guerras. A única personagem feminina é a peguete do Turgidson, e achei curioso, na cena em que ela atende o telefone, que tudo “passe por ela” antes de chegar ao Turgidson.
É uma interpretação meio forçada, mas pra mim o fato de ela ter sido envolvida na história serviu para mostrar que, além da sede de poder, o que mais importa para a maioria daqueles homens é a possibilidade de se arranjar mulheres. Tanto que Turgidson faz juras de amor a ela mas é um dos primeiros a ficar animado na iminência de um apocalipse só porque, mais tarde, a razão será de dez mulheres para cada homem.

Cássia:
Não há como negar que a história foi bem construída. No começo, a tripulação agindo de maneira tão trivial mostra como, para eles, tudo aquilo era supernormal mesmo. (Pausa: Há um curta-metragem dirigido por Fernando Bonassi, O trabalho dos homens, em que vemos dois atiradores de elite conversando sobre trivialidades enquanto estão em posição, apontando para quem possivelmente será morto. Praticamente essa tripulação.) A coisa só complicou quando o ataque estava prestes a acontecer e a tensão entre “os aviões recuarão” e “tem um avião solto por aí que jogará a bomba” segurou o suspense até o fim. Confesso, achei que a bomba não seria jogada.

Carlos:
Link! Link! Link! 😀
Uma coisa curiosa que vi nos extras é que o filme terminava em uma luta de tortas na Sala de Guerra. Mas Kubrick cortou a cena.

Cássia:
Rodei a internet para achar O trabalho dos homens e nada! Nem no Porta Curtas ele existe mais. O jeito é ficar com apenas dois minutos do curta, aqui.
Dr. Fantástico terminaria com uma luta de tortas? Três vivas para o Kubrick que não transformou o filme em Zorra Total!

Mau:
Sensacional a análise que vocês fizeram sobre o roteiro. Nem me atrevo a complementar. 🙂

INTERPRETAÇÕES

Mau:
O filme conta com grandes interpretações de seus atores, até de um James Earl Jones em início de carreira, apesar do pouco tempo de tela. E apesar de ser fã do Peter Sellers, e ele desempenhar brilhantemente os três papéis (um americano, um inglês e um alemão), o George C. Scott no papel do general Turgidson rouba o filme. Alternando constantemente as emoções do personagem, ora ansioso, ora despretensioso, ora paranoico e por aí vai. Toda vez que ele estava em cena era um show de interpretação. Fiquei imaginando sem querer, ao longo do filme, se fizessem uma refilmagem hoje, quem interpretaria o general Turgidson. E o nome do Woody Harrelson me vinha constantemente à cabeça. Não sei se pelo porte físico parecido, mas fiquei com isso até agora na cabeça.
Ainda sobre esse tema, uma coisa que não dá pra passar despercebida são as atuações em volta da mesa da Sala de Guerra. As cenas eram constantemente dominadas pelo presidente, pelo embaixador russo e pelo general Turgidson, enquanto todos os figurantes ao redor da mesa ficavam com expressões estáticas. Parecia uma daquelas cenas em que todo mundo fica congelado, mas sempre tem alguém que pisca, etc. Ou essa aqui por exemplo: Police squad. Hehehe.

Banzai:
kkkkkkkk ótima referência!!!
O tonto aqui não percebeu que eram três papéis com o mesmo ator. Na verdade, quando algo no filme chama minha atenção, eu acabo me desprendendo de outros detalhes. No caso do Peter Sellers, eu percebi o Mandrake com um fortíssimo british accent e fixei apenas nisso, ignorando o Presidente e até mesmo o Dr. Strangelove. Agora ao ler suas considerações o humor inglês passou a fazer algum sentido (no meio daquele monte de americanos). Turgidson teve uma atuação muito marcante, mas o Bat Guano “Gene Hackman” (achei que parecia ele) me fez rir muito, até pelo nome bizarro… rs
Woody Harrelson seria um ótimo Turgdison, mas o vejo mais no papel de Ripper.

Carlos:
Assim como o Banzai, também não percebi que Mandrake, o presidente americano e Dr. Strangelove eram interpretados pelo mesmo ator. Sou o pior fisionomista do mundo. Sei lá, deveriam fazer um estudo no meu cérebro. Deve ser alguma coisa patológica. Tenho dificuldades de identificar alguns personagens que tenham aparecido poucas vezes no filme e, salvo atores ultra conhecidos, não consigo identificar ninguém no filme. Para piorar, não conhecia o Peter Sellers muito bem.
Então, imaginem. Eu só descobri que o Peter Sellers interpretava os três personagens depois de assistir ao filme INTEIRO, quando fui ao IMDb ver quem, afinal, era Peter Sellers.
Bati meu record anterior. O último tinha sido em Vertigo, do Hitchcock, mas não posso contar nada.
Há atores que são indistinguíveis de suas figuras. Já pensaram se Jack Nicholson ou Johnny Depp tentassem essa façanha? Peter Sellers é absolutamente outra pessoa quando interpreta cada um dos personagens. Nos extras do disco há um especial sobre ele, no qual vários entrevistados falam exatamente isso. Você vê vários personagens, mas nunca o ator Peter Sellers.
Segundo o IMDb, um dos grandes trunfos do Kubrick foi dizer que contratar Sellers era uma pechincha. Ele conseguiu três pelo preço de um!
Uma curiosidade sobre a interpretação é o caso do piloto/capitão do B-52. Kubrick só forneceu para ele as partes do roteiro em que ele estava envolvido. Portanto, ele não sabia que se tratava de uma comédia e sua interpretação, por mais caricata que possa parecer, é um retrato de um comandante de uma aeronave de guerra que lança uma bomba atômica. E, lembrem-se, ele é o cara que faz rodeio na bomba!

Mau:
Carlos, li que o Peter Sellers também foi convidado pelo Kubrick para fazer o comandante do avião, mas ele achava que seria muito trabalho. Quase convencido, ele estava trabalhando para acertar o sotaque texano quando se machucou no set, tornando difícil para ele interpretar as cenas no espaço apertado do avião. Será que teríamos a cena do rodeio? 😉

Carlos:
Maurício, pelo que vi nos extras do filme, a cena do rodeio entrou de última hora. Daquelas coisas que o Kubrick pediu para ontem. Eles não sabiam como iam fazer a cena, porque o cenário não previa a abertura das portas do compartimento de bombas. Então eles usaram uma pequena trucagem e fizeram o efeito da câmera se afastando da bomba, ao mesmo passo em que o fundo se aproximava.

Daniel:
O Mauricio falou do James Earl Jones, que reconheci mais pela voz. Não sou familiarizado com o trabalho dele além de Star Wars, então foi uma surpresa agradável. Concordo inteiramente que George C. Scott rouba a cena, e acho que isso se deve ao fato de ele representar a maior caricatura do filme. O cara mais cheio de preconceitos, que menos se importa com as vidas de civis, que parece achar que tudo não passa de um jogo de tabuleiro (o quadro grande). Sobre o Woody Harrelson, em alguns momentos ele me aparecia na cabeça também, mas por algum motivo, talvez justamente a caricatura e os exageros, quem me apareceu mais na cabeça foi o David Koechner.
Quanto ao Peter Sellers, devo ser o oposto do Carlos, hahaha. Sou conhecido entre amigos e familiares por [re]conhecer atores e atrizes, e frequentemente me usam como um IMDb ambulante (curiosamente, só funciona com atores e atrizes, e não no dia a dia). A única imagem relacionada ao filme que eu conhecia era a figura do Dr. Strangelove, mas identifiquei os três papéis de Sellers no ato (me gabando =P).
O Mauricio comentou sobre os personagens em volta da mesa na Sala de Guerra, e achei bacana que o Kubrick tenha colocado alguns planos em que o Strangelove aparece ao fundo muito antes da cena em que ele fala alguma coisa pela primeira vez.

Cássia:
Eu não conhecia o Peter Sellers, achei que ele fosse o Turgidson. Também não percebi que três personagens foram feitos pelo mesmo ator, mas não perceberia mesmo se conhecesse o Peter Sellers. Não por ser uma fisionomista ruim, eu reconheço bem as pessoas, mas porque ele é bom mesmo. Essa qualidade de deixar o personagem à frente do ator é para poucos.

Carlos:
Uma coisa que só pensei agora é como a montagem do filme é genial. Nós somos cinco e quatro não perceberam que havia o mesmo ator fazendo três personagens. Além da interpretação inquestionável de Peter Sellers, isso também foi um ótimo trabalho de montagem. Como o Daniel disse, o detalhe de incluir Dr. Strangelove no cenário antes de sua primeira fala ajuda muito.

Cássia:
Carlos, lendo o seu comentário sobre a excelente montagem do filme, lembrei de uma entrevista com o roteirista Bráulio Mantovani, em que ele conta sobre a montagem de Tropa de Elite. Talvez vocês já saibam, mas eu não sabia, o filme foi praticamente refeito apenas na montagem! O capitão Nascimento era um nadinha na história, o protagonista era o Matias e mudaram isso na sala de montagem graças a uma observação da roteirista Carolina Kotscho, mulher do Bráulio. Não deixarei vocês curiosos, a entrevista é esta.

Carlos:
Não sabia sobre a história do Tropa de Elite. Vou ler a matéria com calma. Tudo que sabia era que o voice-over do Capitão Nascimento não estava previsto no roteiro.

FOTOGRAFIA

Mau:
Uma coisa que eu fiquei pensando foi na dificuldade de se filmar um filme em preto e branco, tendo a disponibilidade do colorido. Como passar emoções, por exemplo. E isso foi muito bem resolvido com a opção da utilização de luzes e sombras, como podemos ver na forma escolhida para mostrar o causador do fim do mundo, o general Ripper, que sempre é mostrado na penumbra.

Banzai:
Já eu acho mais simples quando é P&B justamente por ressaltar as formas, ou seja, se tem atores expressivos, vai ficar mais fácil ainda de passar a imagem deles. Acho difícil pensar nos contrastes e outras coisas mais que são necessárias para fazer os tons de cinza se encaixarem.

Carlos:
Uma das coisas que me chamou atenção foi a capacidade do Kubrick de usar o enquadramento (ou a composição) para gerar piadas. Há uma cena que Mandrake está conversando com Ripper ao telefone. Enquanto o primeiro aparece, ao fundo há uma série de gravadores com fita. O único deles que está girando aparece exatamente sobre a cabeça de Mandrake, como se ele estivesse processando e gravando tudo que é dito ao telefone.

Dr. Strangelove 1

Em outra passagem, Mandrake conversa com Ripper sobre a paranoia dos fluidos. Mesmo o papo sendo amistoso, você percebe que Mandrake não está em uma situação confortável. No fundo, um quadro cheio de pistolas está apontado para a cabeça de Mandrake.

Dr. Strangelove 2

E há muitas piadas ali na sala de guerra com aquelas linhas representando os aviões no “quadro grande” saindo dos personagens.
Uma das coisas sobre as quais ainda não cheguei a uma conclusão é por que Kubrick optou por usar o preto e branco. Por enquanto, não percebi nenhum ganho estético que seria inalcançável na película colorida. Bem verdade que as imagens do Dr. Strangelove surgindo das sombras na Sala de Guerra perderiam algum impacto.

Daniel:
Já não costumo ser um grande observador desse aspecto, menos ainda quando está em preto e branco, e também não conheço as dificuldades técnicas de se fotografar assim. Pra terem uma ideia, eu nem me toquei que foi uma opção do Kubrick, e não uma necessidade da época (quando vieram os primeiros coloridos mesmo?).
Carlos, a única explicação que me ocorre para o uso do preto e branco é justamente representar a mentalidade atrasada da maioria dos personagens, indicando que o belicismo é coisa de gente primitiva, muito “preto no branco”. É uma interpretação superficial, eu sei, mas acho que funciona. Bacanas os prints que você tirou, não tinha reparado nessas composições.

Cássia:
Dessa vez, eu prestei atenção nisso. Sobre o preto e branco, talvez tenha sido um contraponto à comédia, para dar ao filme a seriedade que o tema necessita. Para não debandar para o escracho, a fotografia dava uma segurada nisso. E também, como um de vocês falou, para dar ênfase às formas, às cenas; para mim, a cenografia me disse muito mais do que se tudo estivesse colorido.
Por exemplo, um momento marcante foi quando, na sala de guerra, o Turgidson é filmado de baixo e, atrás dele, vemos uma parte do mapa-múndi. Justamente, a correspondente aos EUA. Enquanto isso, ele defende o ataque e a sensação que me passou foi dessa pressão americana em ter de bombardear a Rússia de qualquer maneira (agora troque por Síria e o filme continua tendo o mesmo sentido).
Outro momento foi um comentado pelo Mauricio, sobre o cartaz “A paz é nossa profissão”. Enquanto vemos essa frase “gritando” na tela, o tiroteio corre solto… Bela contradição.

Carlos:
Concordo com a Cássia. Creio que a fotografia em P&B deixou o filme mais sério e evitou o escracho.

TRILHA SONORA

Carlos:
O minimalismo e a precisão da trilha sonora também foram muito especiais.
O filme só tem três músicas, que eu lembre. A primeira é uma música romântica que embala o sexo das aeronaves, nos créditos inicias.
A segunda é When Johnny Go Marching Home. É uma música tradicional americana, da época da Guerra de Secessão. Era cantada por militares e tem todo um aspecto marcial. Gostei de seu uso, porque ela surgiu, a primeira vez, no momento em que os tripulantes do avião se dão conta de que a missão é para valer. A partir de então, ela serve para ironizar os militares da aeronave, que lutavam uma guerra que só existia dentro avião.
A última música foi ao final, com as explosões. Também romântica, em desarmonia com as cenas, ela canta, ironicamente, que nós veremos novamente o sol.

DETALHES

Mau:
Vou colocar essa como detalhes porque vou falar de mais de um aspecto. A cena na qual o capitão Mandrake confronta o general Ripper para que este cancele o ataque é de uma beleza sem igual. Um show de enquadramento, iluminação, posicionamento e movimentação dos atores, alternância de poder entre os dois ao longo da cena, os objetos de cena, etc. Essa daria um ótimo exemplo para o Cenas em Detalhe do Pablo. Fiquei muito bem impressionado e é algo que eu nunca teria percebido antes de começar a analisar os filmes com vocês.

Banzai:
Justamente essa cena me chamou a atenção, o Ripper sendo filmado por baixo, dando a noção do poder que ele tinha enquanto o subordinado estava com cara de pastel. rs

Daniel:
– A cena em que o piloto do avião cai junto com a bomba com certeza vai ser uma daquelas que levarei para sempre. A situação surreal, tudo o que ela representa e a empolgação dele culminaram num sentimento sensacional para mim.
– Gostei de uma inversão de expectativa. Logo no início, a impressão é de que o Jack é um cara sério e importante, enquanto Mandrake é um trapalhão (só o fato de ser interpretado por Peter Sellers já reforça isso). Assim, fiquei surpreso ao ver sua força e humanidade ao confrontar Jack, ainda que de forma agitada e engraçada.
– Sei que foi para economizar tempo de tela, mas senti falta de acompanhar a conversa de Mandrake com o presidente, afinal ele foi um herói subestimado (pelo menos até a bomba explodir…) e creio ser natural que o espectador queira ver um personagem triunfando quando merece. Aquela sensação de “Viu só?! Ele tava certo e salvou geral!” faz falta.
– Senti que a cena final (antes da sequência de explosões, quando o Dr. Strangelove levanta e diz “Mein Führer… I can walk!”) tenta passar alguma coisa grande, uma última punchline ou algo assim… mas não consegui captar. Alguém?

Cássia:
A mão nervosa: eu só pensava em uma coisa o tempo todo, no Hitler. Uma das primeiras ações foi a saudação nazista. Depois, o Dr. Fantástico fala do bunker lá com pessoas selecionadas, uma clara alusão à seleção das pessoas mais “aptas” para repovoarem o mundo (e nós mulheres, claro, só servimos se formos sexualmente atraentes porque teremos apenas duas funções, sexo e reprodução. Além disso, teremos de dividir o cara com outras nove. Obrigada, roteiristas.) No final, ele solta um “mein Führer”, uma das saudações ao nazista-mor. Só não entendi a relação disso com o voltar a andar.

Carlos:
Estou pensando nisso desde que assisti ao filme. Segundo os extras, o personagem do Dr. Strangelove foi inspirado nos filmes de Fritz Lang, alemãs, com um cientista maluco, super-poderoso, mas, de alguma forma, fragilizado. O Dr. Strangelove com sua cadeira de rodas e a mão maluca é frágil e poderoso ao mesmo tempo.
Creio que Strangelove era um cara dividido, com um lado psicótico nazista, mas que atuava nos EUA controlando esse lado, contribuindo para os ideais americanos. Mas, quando finalmente consegue a aceitação de seu plano apocalíptico, os dois lados entram em harmonia. Os EUA abraçam a filosofia dos nazistas, destruindo o mundo e deixando a seleção sobre quem deve sobreviver e quem deve morrer a um computador. Este é o momento em que Strangelove consegue se levantar da cadeira. “Mein Führer, I can walk!”

Cássia:
Sensacional essa sua análise sobre o doutor voltar a andar. Se entendi bem, no momento em que os EUA abraçam a filosofia nazista, a fragilidade vai embora e o poder toma conta. Daí, para conseguir se erguer e saudar o Führer foi um pulo.
Outro detalhe, os aviões americanos: quando o presidente americano liga para o presidente russo e diz que, se os aviões não voltarem, os EUA abateriam os seus próprios aviões deixa tão claro como ninguém tá nem aí com soldados e civis. Não interessa se são do meu país, do seu, dos outros: se tiverem de morrer para ficarmos de bem ou de mal uns com os outros, que morram! Aí sim parece piada, os presidentes do mundo acham que estão jogando War. As mortes são meros efeitos colaterais. O dia em que for obrigatório presidentes e afins irem para a luta armada e colocarem a própria cabeça a prêmio, as guerras acabam.

Carlos:
Uma curiosidade, que corrobora o que você disse, é que Kubrick quis a mesa da Sala de Guerra com o tampo verde, como se os personagens estivessem jogando pôquer, mesmo que o filme fosse em preto e branco. A inspiração da Sala de Guerra é como se existisse um ambiente em que os governantes jogassem com a vida dos outros, como se fossem meros números.

Cássia:
E não é que eu “li” a intenção do Kubrick? Acho bacana quando o diretor coloca elementos no filme para que os atores entrem na história, mesmo que nós espectadores não vejamos isso de maneira clara. Praticamente uma mensagem subliminar.

CONCLUSÃO

Mau:
Como eu havia falado, eu já havia assistido a todos os filmes que eu listei para votação, com exceção de O rato que ruge, então eu já sabia o que esperar deste filme. Apesar disso, fiz uma busca rápida no IMDb e vi que ele concorreu a quatro Oscars em 1965: melhor filme, diretor, roteiro adaptado e ator principal, justamente o foco da minha lista, o Peter Sellers.
Dr. Fantástico ou Como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba. Se o nome por si só não desperta a curiosidade de assistir ao filme, os nomes de peso envolvidos na produção certamente preenchem essa lacuna: Peter Sellers, George C. Scott, Stanley Kubrick, para citar só os principais.

Banzai:
Não havia assistido, mas com esse nome e dirigido pelo Kubrick desperta uma grande curiosidade e era essa a oportunidade para saná-la.
Gostei muito! Humor com sarcasmo numa ótima medida, descontrole emocional, tudo que gosto de ver em filmes desse gênero. A simplicidade com que trata o assunto que era um tabu, as pequenas tiradas (como a do Turgidson demonstrando sua empolgação sobre como seria possível passar as defesas russas) beiram o ridículo, ou seja, rendem boas risadas!

Carlos:
Imediatamente o que me chamou a atenção foram as palavras “Kubrick” e “comédia” na mesma frase. Estamos falando do cara que dirigiu Laranja Mecânica, uma das obras mais violentas que já assisti, e O Iluminado, filme que redefiniu o termo “assustador”. Mas independentemente disso tudo, Kubrick levava seus filmes muito a sério. Assim, a curiosidade era grande.
Com certeza, não fiquei decepcionado. Como vocês, achei Dr. Fantástico engraçado e com ótimas piadas. A tripulação do B-52, por exemplo, em uma missão seríssima, estava distraída jogando cartas e vendo revista pornográfica, em total contraste com a gravidade do cenário de guerra. E o capitão da aeronave, que ao saber da gravidade da situação, abre um cofre para pegar um chapéu de cowboy e guardar o capacete? Mesmo assim, o máximo que consegui ao longo do filme foi um riso nervoso. Não por falta de graça, mas pela tensão contínua que a situação toda provocava. Portanto, creio que as piadas de Dr. Fantástico não servem como alívio cômico para um filme sério. Ao contrário, o humor é utilizado o tempo todo para ridicularizar a situação e aprofundar a narrativa. Mesmo quando os personagens são abordados de maneira caricata, como o próprio Dr. Strangelove com seus maneirismos e os militares patéticos, a piada não está neles, mas nas figuras que representam fora da tela.
Pareceu, para mim, que Kubrick é sério demais até quando é muito engraçado.

Daniel:
Gostei MUITO! Não sabia que era uma comédia (evito até sinopses de filmes), mesmo sendo com Peter Sellers, e o humor satírico me agradou bastante. Fiquei feliz por ter “perdido” na votação, já que pulei a cerca uns dias atrás e assisti a Um convidado bem trapalhão (que era outro filme da lista) por conta própria, que me decepcionou bastante na revisita. Este é muito mais interessante.
Entendo o lado do Carlos por ter ficado muito tenso para dar risada, mas pra mim o equilíbrio do filme é perfeito e me diverti bastante mesmo estando tenso.

Cássia:
Contrariando todos vocês, eu não sou uma pessoa que gosta de comédias. Só rio copiosamente em The Big Bang Theory e assisti a quase três temporadas de Community por causa das referências. Eu sinto sono com Monty Phyton. Também não gosto de filmes de guerra e só um me conquistou até hoje, Guerra ao terror. Sendo assim, não é difícil imaginar que, para mim, foi uma hora e meia de filme com a sensação de três horas e quinze.
Mas estamos no clube para isso.

Carlos:
Cássia, eu não sei se escrevi alguma coisa diferente ou não. Mas também não sou super fã de comédias. De verdade, eu não ri durante o filme. Mas adorei.

Cássia:
Carlos, desculpa!, eu entendi errado. Para mim, você só não riu nesse filme porque ficou tenso e não por não ser fã de comédias. =)

Carlos:
Cássia, acho que gerei uma certa confusão. Eu não sou grande fã de comédias. Mesmo assim gostei do filme.
Mas eu realmente não ri no filme porque fiquei tenso com a situação envolvendo a bomba e não porque não gosto de comédias. Você entendeu corretamente e eu expressei-me mal. 🙂

Mau:
Já eu adoro comédias, adoro os momentos em que dou tantas risadas que fico até com soluço depois. Maaaas, acho que dei uma risada no filme todo (não lembro em que parte específica), mas parando para ler o que a gente já escreveu, eu ri do nome do Coronel, da Sala de Guerra, do Dr., mas na hora não. Não sei por que, talvez seja a tensão mesmo.
P.S.: eu também adoro The Big Bang Theory, Cássia, mesmo com tanta gente criticando por aí. 🙂

Filme 23 | Conta Comigo

Espaço reservado para a discussão do filme “Conta Comigo”.

 

Ficha técnica
Conta Comigo (Stand by Me)
Ano: 1986
Direção: Rob Reiner.
Roteiro: Stephen King, Raynold Gideon e Bruce A. Evans.
Elenco: Wil Wheaton, River Phoenix, Corey Feldman, Kiefer Sutherland, Richard Dreyfuss e outros.

 

 

Filme 22 | A Viagem

Ficha técnica
A Viagem (Cloud Atlas)
Ano: 2012
Direção: Lana Wachowski, Andy Wachowski e Tom Tykwer.
Roteiro: Lana Wachowski, Andy Wachowski e Tom Tykwer.
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Wishaw, Keith David, James D’Arcy, David Gyasi, Susan Sarandon, Hugh Grant.

Escolhido por: Daniel
Discussão iniciada em: 16/12/2013

Daniel:
Fiquei com uma preguicinha de rever o filme quando ele foi o escolhido, talvez por antecipar que uma análise dele seria difícil, ainda mais uma discussão. Mas enquanto reassistia, fiquei feliz de tê-lo escolhido, já que, para variar, acabei gostando até mais do que quando o vi pela primeira vez, no cinema. Foi de longe o filme que mais gerou anotações no meu bloco (não que eu vá falar sobre todas), até porque eu já tinha visto e já estava preparado para tentar buscar todas as conexões dessa salada cinematográfica.
E vocês, o que acharam? =]

Mau:
Ao contrário, foi o que eu menos consegui tomar notas.
Eu odeio vocês por me fazerem assistir a esse filme. Brincadeira. 🙂
Será que vocês conseguem me fazer mudar de opinião?

Cássia:
Acabei de assistir ao filme e apenas uma frase surgiu para mim: Que filme lindo!
Como eu sabia que o filme é longo, desencanei das anotações. Quis assistir de coração aberto, sem me ater a nada. Para mim, Cloud Atlas é para ser assistido sem qualquer ideia preconcebida, para encontrarmos coerência apenas naquilo que nos é contado. Se entrarmos no mérito religioso e espiritual, deixa de ser cinema e vira outra coisa.

Carlos:
Primeiro, faço parte do time que gostou do filme. […]
Creio que Cloud Atlas depende de várias visitas para ser considerado realmente “assistido”. São muitas histórias acontecendo ao mesmo tempo e milhões de detalhes para serem descobertos.

Banzai:
Primeiro, desculpas ao Mauricio por minha falta de sensibilidade em fazê-lo ver UM ÓTIMO FILME!!! hiuhiuahuiaihuahiua 😀
Já havia visto esse filme no cinema e saí obviamente com um grande “?” na cabeça. Estava doido para chegar em casa e pesquisar na internet a ligação entre os personagens, filosofar sobre, só que obviamente outras tarefas me fizeram esquecer disso. O clube foi uma chance de tentar assistir com mais foco ainda e entender o grande motor do filme. Confesso que falhei miseravelmente […].

ROTEIRO

Daniel:
Não é um filme fácil de acompanhar e os realizadores sabem disso, pois logo no início colocam na boca de Timothy Cavendish as palavras que eles gostariam de falar para o espectador: por mais que não goste de flashforwards ou flashbacks, tenha um pouco de paciência e verá que há uma lógica por trás dessa história maluca. As diferentes linhas do tempo são rapidamente apresentadas e parece que será impossível acompanhar tudo, mas logo o ritmo diminui e conhecemos cada uma delas um pouco mais a fundo, com a ajuda necessária dos letreiros que indicam o tempo e o espaço.
Gosto do fato de não haver uma grande trama principal que mova o filme inteiro, como sempre vemos por aí. Não há aquele um obstáculo que um protagonista precisa superar para melhorar sua situação e viver feliz para sempre com seu interesse amoroso, tendo de obedecer às regras de um roteiro, com seus três atos, pontos de virada e tudo o mais. Está mais para a vida como ela é. Várias histórias pequenas que se entrecruzam, que repercutem umas nas outras e que não necessariamente acabam bem. Há, claro, a recorrência de certos temas que não são exclusivos de determinada época ou espaço: vida, morte, amor, empatia, princípios e luta por um ideal. Além também da recorrência dos mesmos erros cometidos pelo homem, apenas adaptados ao período em que vive: escravidão, violência, opressão e ganância.

Mau:
Acompanhamos a história de um personagem de pele clara e cabelos escuros, frágil e dominado pelo sistema, até que outro personagem aparece, este também de pele clara e cabelos escuros, mas diferindo do primeiro por ser de outro sexo e por possuir total controle da situação. Este personagem sabe tudo o que acontece no mundo. Este personagem possui como missão mostrar a realidade do mundo para o personagem mais frágil, que é escravizado pelo sistema e só está lá para servir de fonte de energia para este mesmo sistema. Uma vez acordado para a realidade, ambos são comandados por um terceiro personagem de pele escura que os lidera na luta armada contra o sistema. Dirigido pelos irmãos Wachowski, este é o grande sucesso…, não, não é o Matrix, agora esta é a trama do A Viagem. E já que é assim, vamos adicionar umas histórias de reencarnação, vidas que se entrelaçam através dos tempos, naves espaciais, cavalos, armas, arco e flecha, …
Acho que isso resume bem o que eu achei da história, um apanhado mequetrefe de histórias paralelas, simplórias, mas que influenciam umas às outras, ficção científica, religião, etc. Apesar de juntas formarem um corpo coeso e a ideia por trás da história ser interessante, na minha opinião ela foi mal realizada, pois é um filme que tenta ser tudo e, no final das contas, só consegue ser um filme mediano.

Cássia:
O filme começa com um contador de histórias. O filme é isso: histórias. As nossas histórias, as histórias dos outros, as nossas com as dos outros. E como elas são construídas através do tempo e dos tempos. Mesmo que não houvesse a reencarnação como mote da passagem entre as épocas, bastaria mudar para “ascendência” e “descendência”. Hoje nós vivemos o que construíram antes de nós e o que estamos construindo ficará para quem está chegando. Quem constrói a História não são os grandes nomes. Foram os nossos bisavós e serão os nossos netos. Os nossos amigos, os nossos vizinhos, os nossos amores. Todos nós ligados por uma tênue linha. Há uma frase linda da Simone de Beauvoir que ilustra bem isso: “Não há uma pegada do meu caminho que não passe pelo caminho do outro”.

Daniel:
A citação da Simone de Beauvoir é bem apropriada. Me identifico bastante com isso por ser fissurado em viagens no tempo. Invocando um pouco meu lado nerd na discussão, comecei a assistir a Doctor Who nos últimos meses, e alternar episódios da série com esse filme mexeram ainda mais com a minha percepção das coisas. Parece besta, mas causa uma sensação realmente intensa de perceber algo novo numa coisa que sempre esteve na nossa cara, quase uma epifania.

Cássia:
Em relação ao roteiro, Daniel, essa regra dos três atos é a clássica, por assim dizer. Mas a estrutura aristotélica tem dado lugar à estrutura criada por Robert McKee, que, falando de maneira simplificada, trocou os atos por hook, hold e payoff. Conte uma história em quantos atos você quiser, desde que siga esse método.
[PAUSA: Há uma explicação sobre essas diferenças na aula 5 da primeira unidade do curso The Future of Storytelling. Bacana é fazer o curso todo, eu terminei hoje e é excelente. Mas, voltemos.]
É o que acontece em Cloud Atlas. Não há o grande problema a ser resolvido, mas existem as mudanças: são os encontros. No barco, o encontro entre o branco aristocrata e o negro escravo. Na Escócia, entre o músico novato e o músico famoso. Em San Francisco, entre a jornalista e Tom Hanks de peruca loira. Na Inglaterra, os velhinhos no asilo. Em Seul, a moça inexpressiva e o seu salvador. E no local sem nome, o Tom Hanks e a Halle Berry. Nenhum encontro foi em vão: todos trouxeram pequenas mudanças, mas que deram um outro rumo a vida dessas pessoas. O aristocrata que virou abolicionista, a realização de uma grande obra musical, a revelação da história do petróleo, os velhinhos seguindo a própria vida, as coreanas quase sendo salvas e o final, Tom e Halle construindo finalmente uma “casa” e uma grande família. Mas como estamos acostumados aos grandes feitos, parece quase nada. Mas são esses quase nada que mudam a vida da gente.

Daniel:
Cássia, se essa estrutura de roteiro [do Robert McKee] é o futuro do Cinema, mal posso esperar.
[PRECISO separar um tempo para fazer esses cursos bacanas que você sempre indica pra gente. rs]
Cloud Atlas consegue ser drama, comédia, romance, ficção e policial, tudo ao mesmo tempo e de forma bem-sucedida, adaptando a fotografia e o tom da narrativa de acordo com cada gênero. Comparem, por exemplo, o tom e a atmosfera mais cômica de 2012 (o editor Cavendish e sua fuga do asilo), e o tom de urgência de 1973 ou 2144 (Luisa Rey descobrindo uma conspiração para explodir uma usina e Sonmi fugindo com Hae-Joo, respectivamente).

Mau:
Isso é verdade, não havia reparado. Como digo mais adiante, tirando a maquiagem, a parte técnica consegue quase uma nota perfeita.

Daniel:
E é por isso que, gostando ou não, é preciso reconhecer que o filme é ambicioso e corajoso. Ainda mais por colocar o queridinho de Hollywood (e um dos meus atores favoritos), Tom Hanks, em nada menos do que quatro personagens de moral duvidosa, além de matar um quinto personagem dele precocemente. Novamente, é de se admirar.

Carlos:
Destrinchando um pouco mais a narrativa, percebi que apesar de serem seis histórias, todas estão vinculadas à libertação. Há o escravo, obviamente preso. Em seguida o compositor novo, preso na casa do compositor velho. Depois Halle Barry, como jornalista, presa dentro do seu fusquinha afundando no oceano. Nos tempos atuais, o editor fica preso naquele asilo-prisão. No futuro, Sonmi, presa na usina de fazer carne humana. E, por fim, Tom Hanks, preso na ilha estranha.
O segundo tema universal, que permeia todas as tramas, é o amor. E como disse a Cássia, foi belíssima a maneira que eles resolveram abordar o amor, porque escapa das amarras de amor monogâmico heterossexual. Creio que uma das lições do filme é que o amor pode surgir de várias maneiras. E ele é a força libertadora do filme. O amor entre o escravo e o advogado abolicionista, o amor gay entre Frosbisher (o compositor novo) e Sixsmith, e o amor quase paternal deste, anos depois, para com a jornalista. E por aí vai.
Em oposição ao amor, há sempre o censor, encarnado, literalmente, no Hugo Weaving. É interessante como essa questão da obediência à norma é, na maior parte das situações, um elemento de prisão. O capeta que atentava o Tom Hanks-das-selvas não passava nenhum conselho ruim. Ele apenas era uma espécie de superego atuando como uma voz conservadora. E, por isso, destrutiva.
Esses são os grandes temas do filme para mim. Prisão e amor. Mas ainda há mais uma coisa, para a qual a Cássia chamou a atenção. Esse é um filme que mostra como os pequenos acontecimentos têm repercussões incalculáveis. Não é uma história de grandes homens e grandes conquistas. É uma história de pessoas comuns, em atos comuns que ganham ares de épicos. O maior símbolo disso é Sonmi, que passa de garçonete robótica a deusa.
É curioso, aliás, que esse tema seja abordado pelo Tom Tykwer, o mesmo roteirista e diretor de Corra, Lola, Corra. Lá ele acompanhava, quase que em tempo real, como pequenos detalhes influenciavam decisivamente uma situação específica. Aqui, pequenas atitudes modificam a estrutura da sociedade inteira.

Mau:
Provavelmente todos vão falar sobre a marca do cometa, que deve representar a mesma alma que reencarna indefinidamente, mas algo que o filme realiza de maneira muito interessante é a forma com que essas almas passam por provações para atingir a “iluminação”. Não sei se isso está no livro que deu origem ao filme, ou se foi acerto dos roteiristas, mas alguns personagens portadores da marca do cometa sempre atravessam uma ponte, na qual eles precisam passar por uma provação. A ponte é um simbolismo para um rito de passagem, seja esta da terra ao céu, de um estado de ser para outro, etc., etc., etc.
– No caso da jornalista temos a primeira ponte, quando ela sofre o atentado que a faz se conectar mais com o falecido pai de forma a não se entregar e expor a conspiração que ela acabara de descobrir;
– No caso da versão feminina do Mr. Anderson, temos as diversas pontes que eles usam para fugir dos perseguidores;
– E por fim, no caso do pastor futurista, temos a ponte na qual ele e a visitante têm de se esconder para fugir da outra tribo.
Mas posso ter viajado um pouco mais e “enxergado” algumas pontes metafóricas também:
– No caso do advogado, sua ponte é o navio que liga o lugar em que se explora os escravos até sua terra natal. Nesse caminho ele vai sofrer nas mãos do médico da tripulação e caminhar para se tornar uma pessoa melhor lutando pelos direitos dos escravos;
– No caso do compositor, sua ponte são as cartas que o unem ao seu amante, enquanto sofre nas mãos do compositor mais famoso;
– No caso do editor de livros temos o trem que o separou de sua namorada e que o levou até o asilo no qual ele precisaria lutar para escapar e reencontrar o amor da sua vida;
– E outra com o pastor futurista, quando eles estão separados pela corda durante a escalada e o pastor tem que lutar contra seus demônios internos para salvar a vida da visitante.

Banzai:
[Sobre as pontes] Juro que foi tudo novidade para mim! Ótima observação! 😀 mas será que em vez de ponte, não seria “porta”? Assim como a Sonmi fala de portas, poderíamos converter tudo em porta! huauha

Cássia:
Mauricio, eu prestei atenção no cometa, mas não havia associado com a mesma alma. Mas por uma razão: antes de assistir ao filme, eu peguei um esquema com todos os personagens e os períodos em que eles se situam. Sendo assim, eu sabia que a Halle Berry em San Francisco não era a mesma Sonmi em Seul, são almas diferentes. Pelo menos foi o que entendi. Por isso eu fiquei perdida com essa ideia do cometa, mas gostei muito dessa metáfora, da associação da ponte e o rito de passagem. Eu teria de assistir de novo para perceber isso.

Carlos:
O cometa e as almas. Não creio que o cometa simbolize reencarnação, mas sim que aquele personagem é o que altera a cadeia de eventos do movimento seguinte. O advogado escreve o diário e salva o escravo. O compositor compõe e inspira o físico. A jornalista salva a pátria, o editor faz o filme. A Sonmi vira deusa e o Hanks-do-mato salva a pátria.
Já as pontes citadas pelo Mauricio foi uma imagem que eu não tinha reparado. Coisa linda. Só tenho algumas colocações. Na história do Hanks-do-mato, eles cruzam uma ponte e se salvam do Hugh-Grant-Canibal quando se escondem debaixo dela.
Na história do escravo não creio que exista uma ponte metafórica, mas um trocadilho. O barco tem uma “ponte de comando”, não? Nos barcos antigos era onde ficava o leme, no convés. É lá que o escravo resolve fazer o show-off na vela.
A história do compositor começa com um romance entre universitários de (tchanam!) Cambridge.

Mau:
Essa foi interessante, e nessa história eu realmente não havia identificado muito bem a ponte e esse detalhe me fez ver que eu, talvez, não esteja viajando tanto assim. 🙂

Carlos:
E no caso da história do editor eu não achei a ponte. Talvez aquele trem passe por uma ponte. Talvez ele vá para Cambrige. Ou talvez o pessoal do asilo-prisão tivesse jogando bridge em algum momento que eu mosquei.

Mau:
Pois então, nestes dois casos eu associei a “ponte” ao barco e ao trem, pois assim como uma ponte, os dois meios de transporte ligam duas localidades distintas.

Daniel:
Muito boa a análise dos cometas que vocês fizeram. Era uma das dúvidas que eu tinha pra colocar. Desde as pontes do Mauricio até o Carlos falando que o portador da marca é quem muda a história do seu tempo. Só discordo que as marcas representem reencarnações, pois estas ficam bem estabelecidas com a reutilização de atores.

PERSONAGENS

Banzai:
O filme tem N histórias que se interligam, N personagens que se encontram e reencontram. Há três tipos de personagem: bonzinhos, Hugo Weaving e Tom Hanks. Os bonzinhos se encarregam de demonstrar coisas boas, amizade, amor, já a galera da maldade está ali só pra demonstrar as dificuldades e o Tom Hanks para demonstrar que apesar de tudo estar ligado e blá-blá-blá, ainda podemos nos desprender de nossa ganância para fazer algo bom. E acho que por isso ele é o narrador, deveríamos nos identificar com ele, já que somos gente comum sem a bendita marca de cometa em alguma parte do corpo (tô ligado que vocês estão com espelhinhos procurando em tudo quanto é parte). Ao assistir pela segunda vez, pude notar muitas coisas novas, pude notar inclusive que já caminhei por um dos locais filmados, o monumento (The Scott Monument) onde o Frobisher se esconde do Sixsmith em Edimburgo. 😀
A história de amor dos dois é bem cativante, por sinal, justamente por ser à distância e tão poética, creio que foi opção do roteiro colocar a maior história de amor sendo entre duas pessoas do mesmo sexo, talvez por estarem cansados do “de sempre” ou para chamar mais atenção ainda.

Daniel:
O Tom Hanks parece ser o que mais se diverte com seus personagens, e Zachry é um de meus favoritos justamente por escapar da óbvia polarização bonzinho-malvado. Logo no início, quando ele abandona o cunhado e o sobrinho para a morte, tendemos a vê-lo com desprezo, como um covarde, mas com o tempo fica claro que ele é apenas um ser humano, com qualidades e defeitos, que errou ao seguir aquela voz no fundo da nossa cabeça (Georgie), aquela voz instintiva, de auto-preservação, que combate novas ideias e novas visões de mundo com todas as forças em nome do conservadorismo.
A ideia de utilizar os mesmos atores para formar casais ao longo da história, mesmo que infantil, me emociona e agrada bastante. E fiquei surpreso ao descobrir, só com a ajuda dos créditos, que Doona Bae e Jim Sturgess (ator subestimado de quem gosto muito) formam um casal até mesmo como os pais de Megan, sobrinha de Sixsmith (Sturgess é o irmão de Sixsmith). Doona Bae que, para mim, é o elo mais fraco do filme. Inexpressiva demais para o papel importante de uma deusa. Não sei se foi proposital pela natureza de Sonmi, mas ela não cativa. E, apesar de gostar da ideia de reutilizar os atores, a qualidade da execução da ideia é muito inconstante por causa da maquiagem.

Cássia:
Eu gosto especialmente como o amor é tratado e dos casais formados, e não vejo nada de infantil nisso. Foi coerente com a proposta do filme. Aliás, acho inteligente utilizar os mesmo atores, porque imaginemos esse filme com atores diferentes para cada personagem, mas com essa ideia de reencarnação, ou até de mesmos personagens. David Lynch faz essas coisas e, bem… Quem o entende?

Daniel:
Sobre a reencarnação dos mesmos casais ser infantil, me expressei mal. Quis dizer que acho que muita gente deve achar infantil, mas eu mesmo gostei muito e acho que funciona, como coloquei em seguida.
Falei antes que a escravidão permeia o filme, e que coisa linda é a química entre o escravo Autua e Adam Ewing, uma das minhas relações favoritas. Ewing sabe que “deve” ser um escravista (it’s only logical), mas inconscientemente ele sabe que é um abolicionista, e Autua dizer que vê a amizade nos olhos dele me pegou. Autua não é o pobre escravo incapaz que é salvo pelo branco bonzinho. Ele tem personalidade, caráter e é um personagem forte. Já viu muito do mundo para ser escravo, como ele próprio diz, o que faz um contraponto interessante à submissão da escrava Sonmi.

Carlos:
Mas eu entendo [que o filme tenha sido injustiçado pelo público]. Não creio que seja pelas várias idas e vindas do roteiro, uns milhões de flashbacks e flashfowards. Isso é o que pretenderia o público. A maior dificuldade, creio eu, seja em encontrar, entre tantas tramas, personagens de identificação. O filme é costurado por várias histórias e a narrativa não chama atenção para nenhuma em especial. Por isso, ficou difícil o espectador encontrar aquele personagem-para-chamar-de-seu.

Mau:
Concordo, e esse pode ser um dos problemas.

Carlos:
Isso me leva a um último questionamento. Sei que são seis histórias e cada uma delas tem sua importância. Mesmo a menor delas, que se passa no asilo. Mas há uma história principal? Um protagonista da narrativa? Eu creio que sim e acho que é o Tom-Hanks-das-selvas. Ele é o personagem que mais muda no filme. Ele se livra do capeta, literalmente.
Mas deixo a resposta para vocês.

Banzai:
Acredito que a história principal seja dele também, por narrar. Mas como ele sabe de todas as outras?! Fiquei pensando nisso agora…

Daniel:
Discordo do Banzai e do Carlos. Não creio que o Zachry seja o principal. Vários personagens narram suas histórias em algum momento, ele não é o único narrador. Acho que essa impressão acontece porque é ele quem abre e fecha o filme, por ser a linha do tempo que vem depois de todas as outras. Não acho que ele estava narrando a história de todos para as crianças. Ele narrou apenas a dele e, justamente para reforçar que certos acontecimentos, comportamentos e sentimentos estão presentes em qualquer época, apenas o espectador acompanha as histórias intercaladas.

MONTAGEM

Mau:
Mas meus problemas foram só quanto a história. Eu consegui encontrar virtudes ao longo do filme também. A interpretação dos atores ao longo das vidas foi muito bem estruturada e realizada, mas uma coisa que chama a atenção no filme é a montagem. O filme imprime um ritmo alucinante desde os primeiros minutos e, alternando constantemente entre as histórias, em nenhum momento deixa o espectador perdido sobre o que (e quando) está acontecendo determinada ação.

Cássia:
Gosto da maneira como a montagem, a fotografia e a direção de arte nos situam no tempo. Eu não fiquei perdida em momento algum. Conseguia me achar, acompanhar as histórias, entender as conexões que os personagens tinham no passado e no futuro.

Banzai:
Realmente, não havia notado isso, mas não há dificuldade nenhuma de se situar quando havia uma transição de história, e tudo isso graças ao que você citou: montagem, fotografia e direção de arte, impecáveis!!!

Daniel:
A montagem do filme deve ter sido um pesadelo, e acho que o resultado final ficou digno, com diversos clímax acontecendo lindamente em paralelo. Além de já ser algo complicado de se fazer, costuraram várias transições com raccords inspiradíssimos, tanto sonoros quanto visuais e até temáticos, por assim dizer. Não deve ter filme melhor para se utilizar raccords do que aquele cujo slogan diz “Tudo está conectado”.
E tudo realmente está conectado: Adam Ewing escreveu um diário em 1849, que foi lido por Robert Frobisher em 1936 enquanto ele compunha uma sinfonia e escrevia para Rufus Sixsmith. Luisa Rey conhece Sixsmith velho em 1973 e tem acesso às cartas quando ele morre de forma semelhante ao seu amante, e através das cartas ela conhece a sinfonia Cloud Atlas, tudo isso enquanto tenta resolver o caso da usina. O amigo dela, Javier Gomez, escreve um livro lançado em 2012 baseado na história de Rey. O livro é lido por Timothy Cavendish, que escreve o próprio depois de escapar do asilo e se reunir com Ursula. Seu livro ganha um filme (o sexto e último personagem de Tom Hanks interpreta Cavendish) que é visto por Sonmi em 2144. Pra terminar, Sonmi vira uma deusa para o povo de Zachry depois d’A Queda.

Banzai:
Ótimo resumo!!! Me ajudou com a cronologia dos pensamentos rsrsrs. Desses eu não havia captado o livro do Javier.

Cássia:
Concordo sobre os raccords. Lindo de ver, nossa! Aliás, que aula de montagem! Ainda não assimilei a qualidade da montagem, sério mesmo.
Não vou me aprofundar nos detalhes, e nas ligações entre as histórias, porque vocês já fizeram isso muito bem. Esse filme daria uma bela dissertação de mestrado: tem material para analisar por muito tempo!

Carlos:
Os motivos de eu ter gostado são os já colocados por vocês. A montagem do filme é algo tão impressionante que chega a ser irritante. Como colocaram o Daniel e Cássia, são tantas rimas, tantos raccords que para analisar eu precisaria assistir ao filme mais umas quinze vezes.

TRILHA SONORA

Lucas Lago:
Não consegui evitar de comentar…
A parte que mais me impressionou foi como a trilha acompanha essa ideia central do filme, sempre retrabalhando os mesmos temas. Da mesma forma que o filme sempre retoma a mesma temática em sua narrativa, a trilha faz o mesmo em todas (ou praticamente todas) as músicas.
Sempre com alguma nota diferente – mais divertida, mais densa, mais romântica –, mas sempre ao redor de dois temas centrais.
Desculpa não participar sempre, e quando participar colaborar com tão pouco… mas como ninguém tinha falado isso, resolvi destacar.

Carlos:
Bem observado. Acho que você deveria participar sempre.

MAQUIAGEM

Mau:
Agora uma coisa digna de nota no filme (negativa, diga-se de passagem) é a maquiagem.

Daniel:
Algumas ficam extremamente boas, como o Sixsmith velho, o Dr. Henry Goose e Old Georgie, mas não dá pra engolir a versão asiática do Hugo Weaving ou o resultado final da Tilda, por exemplo.

Mau:
No geral as maquiagens são extremamente caricatas, e em alguns casos ela consegue ser ainda ridícula, como quando somos apresentados a um Hugo Weaving coreano : / (como o Daniel também comentou).

Cássia:
Também concordo sobre a (má) qualidade da maquiagem. Não só, a caracterização também, algumas perucas ali eram de doer.

Banzai:
Confesso que também achei feias, mas achei elas propositais. Para que pudéssemos conectar as “almas” dos personagens viajando pelo tempo, teríamos que reconhecê-los e uma forma fácil foi essa maquiagem tosca. Hugo Weaving coreano me lembra um outro filme, o novo Anjos da Lei, que tinha uma imagem de Jesus Coreano rsrsrs.

CONCLUSÃO

Carlos:
É, enfim, um filme de dimensões épicas, que para mim foi extremamente injustiçado pelo público (e pelo Mauricio 😉 ).

Mau:
Gentes, eu falei antes e repito, a parte técnica do filme (raccords, rimas, montagem) é impecável. Até a ideia por trás do filme é excelente, como vocês mesmo colocaram bem. Meu problema é com o jeito como ele foi executado e com as histórias escolhidas para isso.
Para mim, esse filme e Nosso Lar disputam cabeça a cabeça. E vou mais além com relação às histórias dizendo que os irmãos Wachowski foram tão preguiçosos que não se deram nem o trabalho de inventar uma história original na parte futurista, puxa, eles reciclaram a trama do Matrix!!!

Daniel:
Mauricio, eles reciclaram uma história do Matrix mas criaram outras cinco no mesmo filme. 😉
E, de qualquer maneira, não vejo essa reciclagem como falta de originalidade. As propostas dos filmes são diferentes, então eu não me incomodo com isso (até porque não tinha notado as semelhanças). Sem querer ser chato, mas talvez o fato de você já ter ido esperando algo-ruim-dos-criadores-de-Matrix tenha atrapalhado a experiência. Não que seja inadmissível não gostar do filme, pelo contrário, eu entendo quem não goste, é só uma hipótese. Mas o lado bom depois da tortura é poder falar mal do que não gostou hehe.
As histórias são mequetrefes mesmo, mas acho que essa é a questão que todos comentamos: são histórias pequenas porque as nossas histórias também são, e no fundo são elas que importam e convergem em histórias maiores que mudam o rumo das coisas.

Carlos:
Creio que esse será um daqueles filmes reconhecidos tardiamente. Daqui a uns vinte anos vão fazer uma lista e dizer que esse foi o GRANDE filme do início do século, que ninguém prestou atenção.

Daniel:
Carlos, também acho que o filme será reconhecido mais pra frente, porque hoje dá até dó. O que tinha de gente reclamando no cinema não é brincadeira. Quando o filme acabou, uma turma de meia dúzia de jovens chegou a virar para um outro e comentar: “Nunca mais deixamos você escolher o filme!” haha. Curiosamente, o Pablo comentou sobre o reconhecimento tardio de outro filme dos Wachowski, Speed Racer, e concordo com ele nesse caso também.

Mau:
Se a Cássia achou uma tortura o Dr. Fantástico, veja pelo lado bom, pelo menos ele era curto, Cássia. Eu passei batido por esse filme no cinema depois de ver o trailer, e vejo que não sairia feliz do cinema se tivesse ido na época. Esse sim teria sido uma tortura, e longa. 🙂

Cássia:
Mauricio, eu havia imaginado que assistir às três horas desse filme seria uma tortura para você. Especialmente porque você não queria assisti-lo. Pense no lado bom: já passou! Hehehehe.

DETALHES

Carlos:
Espero que no futuro eles lancem alguma edição recheada de extras sobre o filme, porque o Blu-ray atual não trouxe muita coisa. Creio que em razão do insucesso do filme.

Daniel:
Puxa, peguei o Blu-ray de A Viagem umas semanas atrás justamente pra ver os extras e descubro agora que tem pouca coisa. Uma pena. =/
Dois detalhes sobre os quais fiquei em dúvida e não encontrei resposta:
– Não entendi se o fato de a parte que faltava do diário de Ewing estar calçando uma mesa é importante ou não.
– O que teria sido A Queda? Talvez eu tenha deixado escapar alguma explicação oculta, mas fiquei curioso pra saber como a humanidade chegou no estado em que vemos o povo de Zachry, com dialetos diferentes, monumentos antigos cobertos de vegetação e tudo mais. Até cogitei que tivesse algo a ver com a inundação de Seul comentada por Hae-Joo, mas não acho que tudo sumiria assim tão fácil.
Por último, um detalhe que gostei muito: a cena do sonho em que Sixsmith e Frobisher quebram a fronteira entre barulho e som e fazem música estraçalhando porcelana. Muito lindo de ver.

Nós, o Oscar e o Twitter

Como todo bom cinéfilo sabe, ontem aconteceu a entrega do Oscar 2014. Durante a cerimônia, nós nos encontramos no Twitter para comentar sobre os prêmios e utilizamos a hashtag #CC5noOscar.

Aqui estão os nossos comentários.

@daniel_maduar @tuitedoMau @cassiapires @cadugoette A postos, pessoal? #CC5noOscar

@cassiapires @daniel_maduar @tuitedoMau @cadugoette Sim! o/

@cadugoette Já estamos na sala de imprensa. @cassiapires, @daniel_maduar e @tuitedoMau Me acompanham.

@cassiapires Eu acho transmissão de tapete vermelho uma coisa enfadonha…

@cassiapires Começou!

@cadugoette Tá todo mundo laranja na platéia ou é impressão minha?

@daniel_maduar Que comecem as injustiças! \o/

@cassiapires Minha torcida era pro Michael Fassbender, mas o Jared Leto tá bem também…

@cassiapires Jared Leto, você me ganhou com todo o final do seu discurso.

@cadugoette Jared Leto leva o prêmio de ator e vocalista. Fosse aqui, Evandro Mesquita seria o favorito.

@daniel_maduar Feliz com a vitória do Jared Leto, mas 25 minutos pra um prêmio é de matar.

@tuitedoMau To no meio do mato e justo hoje resolveu acabar a energia : ) mas já to no ar!

@tuitedoMau Indiana Jones no palco.

@cassiapires “Trapaça”, o grande embuste entre os indicados.

@cassiapires “Dallas Buyers Club” é bom e “O lobo de Wall Street” merecia um reconhecimento muito maior.

@daniel_maduar Prefiro “Ernest & Celestine”, mas Frozen não foi nenhuma surpresa.

@cassiapires Gostei dessa homenagem aos “heróis de verdade”, às pessoas que realmente fazem alguma diferença na vida dos outros.

@tuitedoMau Gravidade, sem surpresa.

@cassiapires Se “Gravidade” não ganhasse de efeitos visuais, néam?

@tuitedoMau Gravidade vai levar todos os técnicos, mas minha torcida está no prêmio de direção.

@daniel_maduar Gravidade para efeitos. Merecido, claro.

@cassiapires Minha música preferida entre os concorrentes: “The Moon Song”… ❤

@cadugoette Devo confessar que eu namoraria a Samantha fácil.

@tuitedoMau Karen O cantando de vermelho. Entendedores entenderão. [Quem quiser entender também, aqui.]

@daniel_maduar Putz, Martin Freeman num dos curtas! Vou ter que ir atrás depois.

@cassiapires Minha torcida era para “The Square”.

@daniel_maduar Não consegui ver todos, mas gostei muito de A Caça.

@cassiapires “Nebraska” é extremamente sensível, “Her” é espetacular e “Gravidade” é o meu filme do coração entre os nove indicados.

@tuitedoMau Lembrando a época em que o U2 era uma banda boa e não essa chatice sem tamanho.

@cassiapires O melhor selfie, hehehe. [Este aqui.]

@tuitedoMau Gravidade. Mais um.

@tuitedoMau Não perde a conta.

@cassiapires Os dois prêmios de som para Gravidade. Não entendo lá muito do assunto, mas é um trabalho sensacional.

@cadugoette Eu não achei a Lupita isso tudo.

@cassiapires Uuuufa! Lupita Nyong’o, como eu torci por você!

@daniel_maduar Bonito discurso da Lupita.

@cadugoette Sério. Eles cortam discurso, homenagem e tudo o mais. Mas deixam essa pizza rolando?

@tuitedoMau Só no Brasil as coisas acabam em pizza e com classe.

@cassiapires Não entendo por que as atrizes usam vestidos que impedem que elas andem normalmente…

@tuitedoMau Homenagem não programada ao Harold Ramis.

@cassiapires Eu estava torcendo por “Gravidade” em melhor fotografia… Que trabalho bem-feito!

@daniel_maduar Gravity fazendo a rapa.

@cassiapires Um bom montador é o trabalhador anônimo que torna um filme um… filme.

@cassiapires Sério que acertei o prêmio de melhor montagem? “Gravidade”, você tá com tudo hoje!

@cassiapires Não acredito que “O mágico de Oz” apareceu no Oscar. ❤

@cassiapires Aliás, é sobre ele (em filme e livro) que falarei no meu próximo texto no Cineclube dos Cinco.

@tuitedoMau Pink cantando “Somewhere over the rainbow”. Para o mundo que eu quero descer.

@tuitedoMau Oba. RT “@cassiapires: Aliás, é sobre ele (em filme e livro) que falarei no meu próximo texto no Cineclube dos Cinco.”

@cadugoette Enfim, eu gostaria de Scarlett Johansson levando por melhor coadjuvante. Entre as indicadas, não sei dizer. Mas a Lupita não.

@cadugoette E eu acho que o DiCaprio deveria levar o Oscar de melhor ator. Por Gatsby.

@cassiapires Como eu admiro o trabalho do pessoal de design de produção.

@cadugoette É impressão minha ou até o Gatsby ganhou mais Oscar que Trapaça?

@cassiapires Aí está uma grande injustiçada no Oscar, a Glenn Close.

@cassiapires Homenagearam o Eduardo Coutinho! Chorei agora…

@cadugoette Coutinho.

@cassiapires Como eu gosto de assistir e ouvir a Bette Midler se apresentar.

@cassiapires Não assisti a “Philomena”, tampouco a “Capitão Phillips”. E “12 anos de escravidão” é o filme que todo mundo deveria assistir.

@cadugoette Acabei de assistir a “Philomena”. É bom, mas longe de ser merecedor de Oscar.

@cadugoette Música gritada. Odeio.

@cadugoette Trilha sonora de Gravidade é perfeita.

@cassiapires Frozen bateu o U2? Por essa eu não esperava…

@daniel_maduar Tô indo bem: acertei 7 e errei 1.

@cassiapires As minhas categorias preferidas desde sempre: as duas de roteiro.

@cassiapires Era a minha escolha de roteiro adaptado, “12 anos de escravidão”.

@cassiapires Academia, roteiristas não usam mais máquinas de escrever, tudo bem?

@cassiapires O roteiro original de “Her” é uma pérola!

@cadugoette Trapaça é oficialmente o maior perdedor de todos os tempos.

@cassiapires Spike Jonze, me abraça! Quando crescer quero ser você.

@daniel_maduar Êta, surpresa boa! Fico feliz de ter errado.

@cassiapires É agora, Cuarón!

@cassiapires David O. Russell não deveria estar aí, sinto muito.

@cadugoette Agora o David O. Russell ganha e quebras as pernas.

@cassiapires Aeeeeeeeeeeee! Grande Cuarón!

@daniel_maduar YES! Go, Cuarón!

@cassiapires Como eu gosto da Sandra Bullock, nossa!

@cadugoette Nenhuma zebra até agora, não é?

@cadugoette Aí a Sandra Bullock ganha e vira a zebra da noite.

@cassiapires A fofice de Amy Adams a atrapalha demais nessa vida…

@cassiapires Cate Blanchett é atriz de primeira grandeza, não há o que discutir.

@cassiapires Mas há um pedacinho do meu coração que daria o prêmio pra Sandra Bullock.

@cadugoette Um pedaço enorme no meu. RT @cassiapires: Mas há um pedacinho do meu coração que daria o prêmio pra Sandra Bullock.

@cassiapires É isso, Cate! Tá na hora das telas mostrarem as mulheres, como deve ser.

@cassiapires Na verdade, Matthew ganhou por “Dallas”, “O lobo de Wall Street” e “True Detective”. Virou ator de verdade.

@cassiapires Fique tranquilo, Leonardo DiCaprio, sua hora vai chegar.

@daniel_maduar Aproveitem o embalo e assistam à série True Detective, com o Matthew. Sério.

@cassiapires Melhor filme, tchanãnãnã…

@daniel_maduar Como eu quero errar minha previsão…

@cassiapires Ganhou o filme que eu achava que deveria ganhar, “12 anos de escravidão”. Mas como eu queria que “Gravidade” ganhasse…

@cassiapires Brad Pitt, você é tão lindo que dói!

@cadugoette “Gravidade” é o melhor filme do ano. “12 anos” é o mais relevante. Escolheram o mais relevante.

@cassiapires Para terminar, “Trapaça” não levou NA-DA! Estou orgulhosa de nós, @cadugoette, @daniel_maduar e @tuitedoMau.

@cassiapires Por fim, @cadugoette, @daniel_maduar, @tuitedoMau e @deagoliveira, obrigada pela companhia. =)

@daniel_maduar Meu placar final: 11 acertos e 3 erros.

***

Perdeu a premiação? A lista de todos os vencedores está aqui.

Filme 19 | Os Imperdoáveis

Ficha Técnica:
Os Imperdoáveis (Unforgiven)
Ano: 1992
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: David Webb Peoples
Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman e outros.

Escolhido por: Banzai.
Discussão com início em: 11/07/13

Banzai:
Eu já havia assistido Unforgiven antes, assim como todos os filmes que eu havia indicado. O motivo de querer discuti-lo é o fato de eu não ser o maior fã do mundo do gênero Western e mesmo assim esse filme ter me fascinado. Eu estava preocupado, pois muitos filmes que me fascinaram, ao rever após o curso do Pablo, deixaram de ser tão fascinantes (Coração Valente foi um deles), mas com Unforgiven felizmente isso não aconteceu e tentarei explicar o porquê.

FILME

Banzai:
O filme claramente trás todos os aspectos de western que conheço, mas com um equilíbrio bem aceito em nossa época, ou seja, com bom senso 😉 o mistério sobre os personagens consegue prender a atenção com eficiência, pouco sabemos sobre eles. O conhecimento é apresentado linearmente, sem enrolar ou ir rápido demais, tive a vontade de desenhar um gráfico sobre rs…

Carlos:
Primeiro, vou confessar que tive um pouco de dificuldade para pegar a sacada do filme.
Creio que a principal dificuldade venha do fato de não estar familiarizado com o gênero. Vou confessar que eu NUNCA vi um Western. Esse foi o primeiro e, convenhamos, creio que ele seja um pouco diferente.
Mas, pelo que entendi, “Os Imperdoáveis” é um epílogo do gênero Western. Lá pelo meio do filme entendi isso, quando vi que todos os “cowboys” eram velhos. O Xerife, o pistoleiro inglês (mentiroso pacas), o Ned e o Will. O único mais novinho é o Schofield Kid. E, vejam só, ele é quase cego. Uma ótima dica sobre o que o Clint pensa das novas gerações, não?
Assim, passei a entender o filme como um revival de banda antiga.

Daniel:
Gostei muito do filme, de verdade. Assisti a poucos filmes do gênero, mas diria que este foi o que mais gostei. Tanto no roteiro quanto na direção.
O Banzai falou sobre a linearidade e velocidade de desenvolvimento da história, e isso também me chamou bastante atenção, em dois sentidos. Durante boa parte do filme, acompanhamos dois “núcleos” de personagens (Will e sua turminha que “apronta de montão” [segundo o Banzai hahahaha] e o pessoal da cidade Big Whisky, e ambos nos são apresentados separadamente e com calma, mas conectados pelo mesmo acontecimento. Pelo menos em mim, saber que inevitavelmente os caminhos de todos se cruzariam gerou uma ótima expectativa com um pouco de tensão, que culminou na ótima cena que Will toma aquela surra enquanto somos obrigados a encarar todos no bar a partir de um ângulo baixo, nos aproximando de Will e tornando os agressores mais ameaçadores. Ainda sobre o ritmo do filme, imagino que não tenha me aborrecido por este ser um western relativamente recente, pois os outros que vi eram antigos e um pouco arrastados (sempre me lembro do curso, quando o Pablo falou sobre a evolução dos filmes e exibiu várias cenas de um mesmo filme que só mostravam o personagem se deslocando, o que alongava desnecessariamente a coisa).
Carlos, gostei da sua leitura de “epílogo”, e o fato de o filme ser mais recente do que os antigos e consagrados filmes corrobora isso. Só não acho que o Kid ser “cego” realmente tenha algum subtexto de crítica às novas gerações, como vc colocou.

Cássia:
Li as análises de vocês e resolvi ir por um outro viés. Enxerguei o filme sob outros aspectos e, para variar, lá vou eu fugir das questões técnicas ou das características que definem o gênero de um filme. Aliás, não lembro dos westerns que assisti, provavelmente eu vi com meu pai, quando criança.
O filme me pegou logo no começo. Ver uma mulher sendo retalhada e depois ouvir que “tragam uns potros e tudo certo” fez o meu sangue ferver. Mulheres foram comparadas com potros. Uma moça foi retalhada e não houve um pingo de revolta da parte de ninguém. Afinal, ela é prostituta, “uma mercadoria” como disse o dono do bar. Eu não sou vingativa, mas não por ter um grande senso de compaixão. O cinema e a literatura me salvam. Ou seja, o que eu mais quis foi que os dois fazendeiros tomassem uma bala no meio da testa.

FOTOGRAFIA

Banzai:
A fotografia é super coerente, tem aquelas regras que todos sabemos sem inovar, mas não falha em momento algum, as composições com N cowboys apontando armas situam com facilidade o quão “fudido” está o cara, as cenas mais escuras com close nas expressões ou falta de expressões do Clint Eastwood, tudo muito bem executado. Toda a fotografia do filme é bem harmonizada com o roteiro, ex: quando ainda não sabemos quem é o Ned, só temos a certeza quando seu rifle Spencer aparece sobre a sua cabeça, e lá temos o recado a lá Sessão da Tarde sobre “esse cara apronta de montão e causa muita confusão no velho-oeste”.

Carlos:
Também percebi a fotografia do filme. Prestei muita atenção para entender as mensagens da luz usada em cada cena. Mas não peguei nenhuma (:DD). Seja lá o que a fotografia queria me dizer, não entendi. Claro, peguei a mensagem do rifle na cabeça do Ned, citada pelo Banzai, mas não evolui muito além disso.

Daniel:
A cena que o Banzai citou com a arma aparecendo acima da cabeça do Ned é realmente eficiente, e além disso, a sequência na casa dele serviu para nos mostrar as diferenças entre os personagens. Ned já não parece estar na melhor das situações, e ainda assim vejam como as cenas na casa dele são muito mais iluminadas e claras que as cenas na casa de Will. Essa comparação já mostra a situação péssima de Will, tanto financeiramente quanto emocionalmente, e nos ajuda a entender o porquê de ele estar querendo fazer o que vai fazer.

MONTAGEM

Carlos:
Tenho pouco a acrescentar sobre o que o Banzai já falou, sob o aspecto cinematográfico. A única coisa que achei especialmente estranha foram alguns takes super rápidos, sem qualquer explicação. Lembro de dois em especial. Um quando Will está conversando com Delilah e outro quando o pistoleiro inglês preso e olha para o xerife, naquela conversa sobre o escritor segurar a arma. No último caso, a cena tem um take extramente rápido para mostrar a câmera na perspectiva do prisioneiro. Mas isso é incompatível com a movimentação do próprio sujeito, que está se arrumando devagar na cama. Será que foi para mostrar que, apesar de se mover devagar ele estava pensando rápido? Seja como for, não funcionou para mim. Provavelmente fruto da minha incompetência, pois o filme ganhou o Oscar de melhor montagem.

Daniel:
Não reparei nos takes rápidos mencionados, mas aproveito o gancho sobre a cena na prisão para falar da combinação da mise-en-scène e da fotografia. Achei absurdamente sensacional o domínio que o Little Bill tem sobre a situação mesmo entregando uma arma carregada para o Beauchamp. Fica claro que em momento algum ele corre perigo, pois está de pé dominando o lado direito do quadro e vemos apenas a cabeça de Beauchamp lá embaixo no cantinho esquerdo. Além disso, quando surge a ideia de dar a arma para Bob, eu pensei “agora ferrou, por essa ele não esperava”, mas Bill nem mesmo hesita e parece querer apenas uma desculpa para matar Bob.
A rima visual entre a cena que abre o filme e a cena final.

Mau:
Bonita, não? Em ambas a árvore ocupa o lado direito da tela dando aquela impressão de solidão deixada pela mulher do Will.

Daniel:
Mauricio, verdade. Notei a rima visual mas não que a árvore está no lado “mais forte” do quadro.
Duas coisas que não gostei e achei que mereciam mais cuidado:
– Depois de matar o cara na privada, na hora em que Will e Kid estão fugindo dos amigos do morto, tem um plano no qual cada um está atirando pra um lado. Pode parecer besteira, mas é muito óbvio e constrangedor.
– A outra cena é justamente o clímax, no tiroteio final. Acho a montagem ali muito ruim. É difícil perceber o que está acontecendo, e do jeito que ficou, é absurdo pensar que ninguém teve tempo de acertar um tiro no Will. Em vez de passar a impressão de que o Will que é fodão e rápido, o que seria o certo, fica parecendo que os outros é que são péssimos e ficaram esperando levar tiro. Podia ter ficado MUITO melhor.

ROTEIRO

Banzai:
Já o roteiro, é superficialmente bobo, simples. Um homem bonzinho e pobre, junta o útil ao agradável para ajudar as prostitutas que defendem a honra de uma colega. Mas há várias nuances que fazem com que isso não fique tão óbvio, no começo sabemos que Will Munny era um criminoso, o tempo todo é dito que ele é algo que ele não demonstra ser. Ao mesmo tempo, a inclusão de um personagem que é iniciante faz com que você passe a aprender o que um cowboy deve fazer, quais requisitos, quais tarefas mais comuns, etc etc. O filme parece uma aula de como ser cowboy e por incrível que pareça é didático até poucos minutos antes do final…
Mas por que os últimos minutos não têm mais didática?
A atuação do Mr. Eastwood é como se fosse tudo explicado até aquele momento se concentrasse numa pessoa. Quando ele entra para vingar a morte do Ned (Stark??! lol) parece o robô dos Power Rangers, O Captão Planeta dos cowboys! rsrsrsrs Para mim a cena é tão bem feita que eu me senti uma das pessoas tomando a cerveja ou salsa parrilla junto de todos que estavam se borrando. A fala: “Quem não quiser morrer, saia pelos fundos…” serve só pra fechar a boca depois dele matar 5 pessoas sem ao menos se arranhar…rsrsrs…continuo impressionado com o clima, a tensão reproduzida ali…enfim, nota 10 para essa cena final.

Carlos:
… sobre o roteiro, não concordo com o Banzai sobre a simplicidade. O Will é uma personagem muito complicada.

Mau:
Já eu não concordo com o bobo. Acho sim que o roteiro é simples, e por isso a história pode ser bem contada. Sem firulas ou complicações, simplesmente isso.

Banzai:
Me expressei mal, não foi pensando em bobo de bobagens e etc., apenas que é uma história simples (superficialmente) mas com um objetivo claro, acho que isso me fez achar bobo. Normalmente ninguém sabe exatamente o que quer, mas no caso desse filme é simples: querem os 1000 dólares.

Daniel:
Já sobre o roteiro, vou concordar com o Carlos e o Mauricio. Também acho que é complexo disfarçado de simples (…) um comentário rápido sobre a morte dele: gostei muito da forma como descobrimos que ele está morto. Foi um choque inesperado e o fato de não termos o acesso à informação na hora em que acontece diminui a “onipresença” do espectador e torna a coisa mais real.

PERSONAGENS

Carlos:
Portanto, para mim ele é o cara mau que está em uma fase boa, mas tem saudades dos bons tempos. Lembram-se do Henry de “Os Bons Companheiros” e como ele sentia saudade dos “good old times”. Creio que, no fundo, Will não era muito diferente e, assim, na primeira oportunidade, ele voltou para “ativa”.
O arco dramático de Will começa com a saída de casa e intensifica-se na hora que ele toma a surra e precisa se recuperar. Viram como a cena fica fria “como a neve”, quando ele está doente? A mesma expressão que Kid usa para defini-lo no inicio do filme. Depois a mudança avança quando ele precisa matar uma pessoa pela primeira vez depois de mais de dez anos e, por filme, inverte-se de vez quando ele toma a bebida ao saber da morte de Ned.
E quando a transformação está completa, o filme finalmente vira um velho oeste típico, inclusive com a cena impossível citada pelo Banzai, na qual Will mata 5 pessoas ao mesmo tempo, com um revólver. O mesmo cara que, alguns dias antes, não acertou uma latinha com os mesmos cinco tiros.

Mau:
Essa foi uma opção audaciosa que me agrada e desagrada ao mesmo tempo. Audaciosa e que me agrada, porque o gênero do western sempre é lembrado pelos desertos, ambientes quentes e calorentos e por isso essa opção por vermos os cowboys cheios de roupa de frio, e também refletindo a condição do Will me agradou bastante (o mesmo vale para as várias sequências que ocorrem à noite). Mas ao mesmo tempo me desagrada por parecer que foi forçado justamente para se mostrar, pois fica fora do contexto temporal do filme. Num dia está sol, no outro tudo coberto por neve e no seguinte tudo vira um deserto calorento de novo. ; p

Banzai:
Notei a neve e fiquei meio incomodado com o fato de ter nevado em 3 dias e tudo ter se resolvido, inclusive a neve derretido. Mas deixei passar, furo de continuidade ou brincadeira do roteirista?
Maurício, eu acho natural a neve (mesmo ela não aparecendo em outros filmes), Django tem neve, talvez seja características dos novos Westerns rsrsrs.

Daniel:
O Carlos falou também do “fria como a neve”, e nem acredito que deixei mais essa passar. Na hora achei meio estranha toda aquela neve, mas logo deixei pra lá e não voltei a pensar.

Carlos:
(Só que os três devem ser o trio de “cowboys” mais incompetentes do velho-oeste. Um refuga o tiro na hora “h”, outro não sob no cavalo e o último não enxerga.).

Mau:
Vejo isso como uma tentativa de humanizar as personagens. Ok, eles são matadores super fodões, ele mata mais de cinco sozinho num bar, mas toma um coro dos porcos, enquanto o outro reclama da mulher e etc.

Banzai:
Hhuahuaha, perfeito, isso mesmo. Fico pensando como seria se ele bebesse whiskey pra cuidar dos porcos! rsrsrsrs

Carlos:
(Will) O homem redimido. Ou melhor, domado. Não creio que ele tenha sido o “homem bonzinho”. O homem bonzinho não teria ido embora e abandonado os filhos sem olhar para trás. Veja a frieza com que ele deixa as crianças. E fala para elas se cuidarem. Acho que nem se fosse o cachorro do vizinho eu resolvia aquilo tão tranquilamente.

Mau:
O Will é sim uma personagem complexa como o Carlos citou, mas isso é uma nuance da simplicidade da história, que da a liberdade para se concentrar na personagem do Eastwood.
Nem redimido e nem domado, para mim ele estava ainda tentando se convencer de que ele não era mais aquela pessoa. Até a metade do filme ele fica repetindo essa fala, como se fosse um mantra que nem ele tivesse aceitado, ou ainda não acreditasse nisso. E a cena em que eles estão conversando em volta da fogueira me deixou isso muito claro. Ali o rosto do Will está no ponto de fuga da tela, toda escura e só a parte da frente do seu rosto iluminado e é como se fosse um momento de introspecção, como se ele falasse novamente para não se deixar esquecer: “Eu não sou mais aquele homem”.

Daniel:
(…) a interpretação que o Mauricio teve da cena da fogueira foi idêntica à minha, e ele colocou de forma sensacional! Fica muito claro que ele repete que não é mais aquela pessoa pra tentar SE convencer daquilo, mas no fundo ele sabe que sua natureza continua igual, apenas adormecida. Pelo menos até a morte do Ned.
No começo, quando Will conta pro Kid que a mulher faleceu, gostei muito do olhar que o Clint dá para a árvore onde ela está enterrada. Um gesto bem simples, mas elegante.
As personagens femininas são fortes, e isso é raro e muito bom. Mesmo com todo o machismo da época (o dono do bar se refere a elas como mercadorias), em momento algum elas abaixam a cabeça, e seguem firmes no que acreditam. A força delas fica ainda mais evidente por sempre estarem de branco, mesmo que sejam prostitutas. Decisão corajosa.
Sobre o personagem Little Bill, é interessante que ele esteja sempre querendo “construir” uma cidade melhor (assim como tenta construir a própria casa), mas não perceba que está fazendo do jeito errado (daí as falhas na casa dele, goteiras, etc.). Ele é um sujeito de bons princípios que quer o bem de todos, mas sua raiva dos criminosos acaba levando ao abuso de poder. Ele tenta fazer o bem do jeito errado e acaba pagando com a própria vida, numa cena que me lembrou muito o final do Tropa de Elite (só faltou o “Na cara, não!”). Quando ele fala, antes de morrer, que estava construindo uma casa, acho que ele se referia à cidade. Vocês torceram para que o Will o matasse?

Cássia:
Discordo totalmente que Little Bill é “um cara de bem”. Ele é o xerife, se comporta como o dono da cidade e não perde a chance de mostrar quem manda. Ele insistia em falar “pato” em vez de “duque”, como se dissesse: “Se eu falei que é PATO, será PATO e fim.” Sem falar que os pobres rapazinhos são “rapazes de bem que fizeram besteira”. “Eu faço é prostitutas correrem”. Ah, sim, ele dá surra nos homens de fora que chegam à cidade. Mas quando é um homem negro, ele amarra na cela e usa a chibata. Sem falar que o espancou até a morte e o colocou num caixão aberto, para todo mundo ver. Se eu torci pela morte de Little Bill? Eu disse para o Will “ATIRA LOGO!” e ele me ouviu prontamente.
Vocês também não comentaram sobre um ponto crucial do filme: a esposa do Will. É a sua lápide que abre e fecha o filme. Se o Will não mudou sua natureza, porque ninguém muda a sua essência, ele a abafou por conta daquela mulher. Ele deixou de matar por ela. Ele deixou de beber por ela. Ele não dormia com prostitutas, mesmo sendo um homem viúvo, em respeito a ela. Há homens que sequer respeitam as esposas vivas, que dirá se já morreram… Por conta dela, ele criou um senso de moral que passou a guiá-lo ao longo da vida. Sim, ele era frio, inclusive com os filhos, mas não significa que ele não se importasse. Aliás, o “gatilho” para ele voltar a matar foi o dinheiro. Mas acho sim que ele ficou mexido com o que aconteceu com a moça. Tanto ele quanto o Ned. E foi a morte do Ned que o fez matar geral, mas isso não significa que não houve um grande prazer em fazer aquilo. Lembram de um diálogo em Kill Bill 2 (que não contarei qual é para não spoilear) que deixa isso claro?. Existe aí um senso de moral, da “morte justificada”. Não que eu ache que isso exista na vida, tudo bem? Mas cabe perfeitamente na história.

Daniel:
Ok, só para me retratar porque me expressei muito mal. Rs Eu falei que o Little Bill é um sujeito de bons princípios, e retiro isso. Eu não concordo com nada do que ele fez o filme inteiro. O que eu quis dizer é que ele tem um objetivo “nobre” (acabar com a criminalidade), mas tenta alcançá-lo da pior forma possível. Aproveitando que eu mesmo falei sobre o “Tropa”, ele representa exatamente o que o BOPE é no filme.
Já sobre a morte do Ned, eu que vou discordar. A Cássia parece ter visto racismo por parte do xerife por causa da diferença de tratamento. Não acho que seja assim. Quando o xerife espanca a galera na cidade, é uma forma de reprimir, prevenir que algo aconteça. Mas no caso do Ned, o xerife já sabia que ele havia participado de uma morte e estava tentando arrancar informações. Pra mim ele não fez distinção por ele ser negro, tanto que não seria nenhuma surpresa se o Bob tivesse “acidentalmente” morrido com aquela surra também. Na cabeça do Bill, tudo para proteger a cidade é justificável.

Banzai:
Pois é, pra quem assistiu Django, não houve nenhum preconceito com o Ned, acho até que encobriram historicamente, pois nessa época (15 anos após a libertação dos escravos no US) deveriam usar só termos que nos horrorizariam hoje.

Cássia:
Daniel, sim, entendi que você comparou o Little Bill ao capitão Nascimento, mas foi disso que discordei. Não acho que o seja, nem de longe! Para mim, ele se assemelha ao governador, de “The Walking Dead”. Ele não quer acabar com a criminalidade, ele quer manter aquele lugar, e aquelas pessoas, sob o seu jugo.
Sob a outra questão, não apenas acho que Little Bill é racista (além de misógino), como o filme mostrou o racismo. Só o negro foi para a chibata. Claro que há o contexto do filme, ele foi acusado de assassinato, existe a questão da época, como bem colocou o Banzai, mas a cena me incomodou demais. Demais demais demais.

Banzai:
Também achei ele mais errado que o próprio Nascimento rsrsrs, o nascimento por exemplo torturou a mulher do Baiano, não acho que ele a mataria ahuauhhua. Mas se o Nascimento nascesse naquela época, será que isso não seria normal dele?!

TRILHA SONORA

Mau:
Outra coisa que me desagradou (e bem nesse sentido) foi a trilha sonora. Pontual, ela só aparece em alguns momentos, quando os cowboys estão cavalgando. Parece que ele pensou, bom western tem que ter cenas de cowboy cavalgando ao longe por pastagens desoladas, com uma música de fundo e etc. Dispensável. Além de serem bem ruizinhas 🙂

DETALHES

Banzai:
Encerrando: Por que Munny voltou a ser o que era por alguns instantes? Ele sempre disse que era o whiskey que fazia aquilo com ele, nada mais natural que essa situação ocorresse em Big Whiskey, Wiyoming…

Carlos:
Depois a mudança avança quando ele precisa matar uma pessoa pela primeira vez depois de mais de dez anos e, por filme, inverte-se de vez quando ele toma a bebida ao saber da morte de Ned.

Mau:
A morte do Ned, seu parceiro e única lembrança de sua antiga vida, mexe com ele. Na hora em que ele descobre, ele toma a garrafa de whiskey do Kid e passa a beber já deixando de lado todo o blá-blá-blá e pensando no homem que ele nunca deixou de ser. Outra dica disso é que ao longo do filme a voz dele é meio vacilante e insegura, mas ao entrar no bar como o antigo homem, sua voz tem mais impostação, é mais forte e decidida.

Cássia:
Outro ponto que achei importante foi a não banalização da morte. Parece contraditório, mas pensemos: Ned quis ir embora depois da primeira morte. O Kid se abriu em lágrimas por ter matado alguém. Will matou geral, mas antes teve a “justificativa” da morte de Ned. Aliás, depois disso, ele se mudou com os filhos e seguiu a vida, nunca mais matou ninguém. Inclusive, ele quem diz ao Kid sobre o peso que é matar alguém: você acaba com o que uma pessoa é e com o que ela faria na vida. Isso é bem pesado e é verdade. Não importa o que a pessoa tenha feito até aquele ponto, ela foi morta. Num mundo em que um tiro na cabeça virou coisa corriqueira, ter essa visão nos dá um estalo sobre o real significado da vida de alguém.
Por fim, Will indo embora como paladino da justiça deve ter sido o clímax western, não foi? Hehehehe.

Daniel:
(…) gostei da análise da Cássia, especialmente sobre a não banalização da morte, que me passou despercebida e faz um contraponto interessante com o que vimos em “Os bons companheiros”.

Banzai:
Cássia sempre se expressando muito bem :), e a fala dele no filme, que tirar a vida é tirar MUITA coisa de alguém, é tirar tudo o que a pessoa tem e poderia ter é bem profunda, infelizmente poucos parecem saber disso…

Cássia:
É, Banzai, a vida está a preço de banana. Meu irmão e eu estávamos agora mesmo falando sobre o filme e soltamos juntos um “poutz, aquela frase do Will!”, porque ela é forte demais. É uma daquelas cenas que guardarei comigo.

Mau:
São esses pequenos detalhes que fazem a diferença entre um filme mediano e um bom/ótimo filme…

Banzai:
Reassistir um filme assim é prazeroso também pelas pequenas referências, detalhes. Espero que também tenham curtido!

Carlos:
Caramba, depois da análise de vocês percebi que assisti a um filme diferente. Vocês não ficam com a sensação de que não pegam um décimo do filme? Bom, pelo menos, cada filme que nós discutimos, tenho a certeza que nossa absorção cresce.

Cássia:
Carlos eu tenho a mesma sensação, de ter visto um filme diferente. Na verdade, sinto isso sempre e, assim, ler as análises de vocês sempre me acrescenta muita coisa. Dá vontade de ver o filme novamente.

Filme 6 | Clube dos Cinco

Ficha Técnica:
Clube dos Cinco (The Breakfast Club)
Ano: 1985
Direção: John Hughes
Roteiro: John Hughes
Elenco: Emilio Estevez, Anthony Michael Hall, Judd Nelson, Molly Ringwald, Ally Sheedy e outros.

clube-dos-cinco

Escolhido por: Mau.
Discussão com início em 12 de dezembro de 2011

Daniel:
Bom, acabo de rever Clube dos Cinco e começarei a discussão. Pra começar, já tinha gostado quando assisti pela primeira vez, mas ao rever gostei muito mais! Isso sim é um excelente filme adolescente no melhor estilo Curtindo a Vida Adoidado (por que será, né? rs).

Banzai:
O filme reflete bem as paranóias e complexos adolescentes, coisas pequenas que se tornam gigantescas. Incompreensão dos pais (quando na maioria das vezes, a incompreensão é dos filhos mesmo…), assuntos que correm pelos corredores e aterrorizam quando vem a tona, como quando Bender cita sobre o encontro de Claire com um suposto affair dentro de um carro a noite. Não há como não se lembrar dos fatos de nossa própria adolescência.

Daniel:
Concordo, isso é muito coisa de adolescente mesmo. A reputação, a aparência física, as fofocas, quem é o galinha, quem é o virgem, quem é a puritana e quem é a vadia. São os primórdios do bullying.
Quanto aos pais vs. filhos, colocando bem rápido minha opinião aqui sem desenvolver nada: no caso do filme, acho que os pais estão muuuito errados, e os cinco não têm culpa de nada hahaha

Cássia:
Para mim, uma das coisas mais bacanas dos filmes do John Hughes é mostrar que os “problemas adolescentes” não são tão pequeninos quanto a gente imagina… Ou esquece, porque fomos adolescentes também. Eles são sim grandes, atrapalham, angustiam e têm um peso incrível quando a gente cresce. No filme, todos eles realmente eram incompreendidos pelos pais, como vocês bem comentaram nas cenas do começo do filme. Ou são pressionados, ou são menosprezados, ou são deixados de lado. Eles tentam, muito!, perceber o lado dos pais, mas como se estes não estão nem aí? O que sempre dizem dos adolescentes, que eles não estão nem aí para os pais, na verdade, é um desejo imenso de ser amado, aceito e compreendido. Os cinco querem só isso: serem compreendidos pelos pais. Quando o Brian chora, sério, eu me abri de chorar! No começo, quando a Allison sai do carro, vai dar tchau para o pai ou a mãe e o carro vai embora, aquilo me deu até um aperto. Quando o Bender mostra o braço queimado, deu até angústia. E o Andrew desejando que o joelho dele estourasse para ninguém mais cobrá-lo em ser “o melhor!”. Nada disso é pequeno na vida de alguém.

FILME

Daniel:
A única cena no filme inteiro que eu não gostei foi quando, após fumar a maconha, Andrew saiu doidaço e quebrou o vidro com um grito (?!). Totalmente exagerada e desnecessária.

Banzai:
É, tem que ter um momento “vergonha alheia” do diretor/roteirista, fico imaginando como estava no roteiro: Andrew entra dançando e com um grito quebra o vidro…

Daniel:
O ponto alto pra mim é quando todos estão sentados no chão conversando, com destaque para Andrew, que explica o porquê de estar lá enquanto a câmera gira lentamente, como se estivesse nos mostrando um outro lado de sua personalidade.
É nessa sequência que a complexidade de Brian fica mais evidente, e também é quando Bender faz a melhor coisa no filme inteiro: critica o “talento” de Claire. Quando vi pela primeira vez, não pude acreditar que a estavam aplaudindo por algo tão fútil, e fiquei muito feliz ao descobrir que Bender foi cruel com ela pra ajudá-la a evoluir.

Carlos:
Creio que esse momento seja o segundo ponto de virada do roteiro. Ou plot point para homenagear o Pablo. É o trecho que abre o terceiro ato. No início do filme, os personagens além de não serem íntimos, fazem questão absoluta de não mostrarem qualquer simpatia ou empatia entre si. Durante o segundo ato inteiro há  momentos de conflito e aproximação entre os “detentos”. Até o momento em que eles se reúnem e começam a compartilhar suas próprias experiências, enxergando nos outros um pouco de si mesmos.
A jornada de cada um ali está em aceitar outro e, assim, aceitar a si mesmo.
E a câmera mostra essa inversão na postura de maneira literal. Ela gira de um lado a outro da “rodinha” montada pelos personagens. Pode ser viagem minha, mas essa metáfora visual vem bem ao caso, não?

Daniel:
Só fico chateado de não ter ficado tão evidente se todos eles continuarão a ser amigos ou não depois de todo o debate. Apesar de eu torcer pelo final feliz e muita coisa indicar que sim, não pude deixar de concordar em parte com o discurso pessimista de Claire, que parece ter poluído um pouco a amizade que vinha sendo construída.

Banzai:
Acha mesmo que continuaram amigos? Fiquei com a sensação de que a Claire foi mais realista do que pessimista…

Daniel:
Realmente, foi realista. Mas por ser realista, a considero pessimista hahaha. Sinceramente, a sensação de que eles continuariam amigos foi perdida depois da cena em questão, mas ao final temos a formação de 2 casais entre 5 pessoas. E o único que terminou “sozinho” foi um dos que disse que nunca faria o que a Claire faria, o que foi dito também pela Allison. Se Brian seria amigo de Allison e esta estivesse ficando com Andrew, já teríamos 3. Bender também não parece ser do tipo que ignoraria os novos amigos, e estando com a Claire, o grupo estaria completo =] (é muito otimismo meu?)

Banzai:
Faz mais sentido com sua explicação, mas o Bender parece ter um grupo de gente que nem ele que não aceitaria mto bem as novas amizades… Mas vc conseguiu me deixar na dúvida! droga… kkk

Cássia:
Também achei a Claire realista, mas também quis que todos ficassem amigos. Mas com tantos ali se preocupando com os outros “amigos” e a pressão do grupo, só tendo a parte 2 do filme para a gente saber a resposta. Mas como sou da turma otimista, já imaginei todos juntos na segunda-feira.

Carlos:
Estou no time dos otimistas quanto a isso. Para mim eles passaram a ser amigos, até porque passaram a ter empatia entre si. Pode ser um tipo diferente de amizade, mas não é menos amizade.

PERSONAGENS

Daniel:
Personagens complexos que discutem de forma profunda a respeito de amizade, família e adolescência, assuntos pertinentes a qualquer ser humano, e tudo apresentado de maneira tão despretensiosa.
A cena inicial, que mostra os cinco chegando à escola, já diz muito sobre cada um: a “patricinha” Claire, que acha que não merecia estar ali; Brian, já sendo pressionado pela mãe para aproveitar o tempo na escola e estudar (pressão? Imagina, o Brian não entende o que é pressão =P); Andrew, com seu pai já dando sermão sobre a carreira de atleta; Bender, chegando na escola a pé, sozinho, quase sendo atropelado e não dando a mínima, é claro; e Allison, totalmente ignorada pelos pais, como ela mesma fala mais pro final do filme.
E Allison passa por trás da escultura (ou sei lá o que é aquilo) ao chegar na biblioteca e se senta lá no fundo, passando grande parte do começo do filme excluída lá.
Bender é o mais fascinante de todos, o líder do grupo que ajuda os outros a evoluir. Ele é o troll dos anos 80, quando ainda não tinha internet. Sempre tem resposta pra tudo, e mesmo quando alguém parece acertar o motivo de tanta rebeldia, ele se esforça ao máximo pra não deixar transparecer. Sua vontade de contrariar é tão grande que, mesmo odiando ter “ganho” vários sábados na escola (o que ele demonstra soltando um “fuck” meio baixo), não deu o braço a torcer pro Vernon (o clone mais velho e acabado de Hugh Jackman).

Banzai:
Gosto do personagem, especialmente no momento em que ele é “finalizado” pelo Andrew e levanta rapidamente se fazendo de forte. Momento de maior trollagem… Crédito a fotografia desse momento. Que mostra ele se reerguendo gloriosamente frente ao golpe que recebeu…
Outro momento que Bender demonstra um pouco de humor é quando solta o parafuso da porta, todos estavam com medo, mas o desgraçado conseguiu fazer com que o medo virasse risada (inclusive nossas risadas, pois não há como não rir da cadeira voltando com tudo…)

Cássia:
Não o achei fascinante… talvez porque ele me incomodou demais. Achei que ele toma mais tempo do filme do que realmente deveria. Tampouco achei que ele ajuda os outros a evoluir: ele é um troll dos grandes, pura e simplesmente. Faz todo mundo se sentir mal, magoado, arrasado, porque é um cara quebrado por dentro com quem ninguém se importa. Para mim, a grande evolução do grupo acontece pela interação entre eles, por perceberem que não estão sozinhos. Não só, que os “renegados” só são renegados porque tem uma galera “que se acha” não é lá muita porcaria. Como o Brian bem disse na redação: todo mundo tem um pouquinho de cada, por mais que a gente queira dividir e achar que cada um segue um estereótipo.

Banzai:
O Bender pode não ser fascinante, mas que ele chama atenção ahhh ele chama… Kkkk

Cássia:
Ah, mas o Bender não é fascinante para mim. 😉 Talvez porque sempre odiei esses caras na escola, que querem ser “os caras” humilhando todo mundo. Aliás, até hoje, tenho pavor de gente assim, hehehe. Mas claro, ele chama a atenção mesmo e o ator segurou o papel muito bem!

Daniel:
Pra mim o Bender é o cara no filme. Na vida real, também sempre odiei e odeio até hoje os que se acham os fodões das escolas, mas pra esse filme com esses personagens especificamente, acho que funcionou perfeitamente. É só parar pra imaginar o que seria o sábado daqueles quatro caso Bender não estivesse lá. Ao invés de ser um dia que provavelmente mudou a vida deles, seria uma chatice pra todos. Ele desencadeou tudo.
O fato de ele criticar TUDO em todos faz com que os quatro parem pra pensar sobre ALGUNS dos casos em que o desgraçado realmente está certo em criticar!
E não consigo tirar da cabeça que ele na verdade é o que mais se apegou aos outros lá, só não consegui entender ainda o porquê desse meu pensamento hahahaha.
Sem contar que o filme não o coloca simplesmente como um troll que faz tudo sem motivos. A gente fica sabendo pelo menos um pouco da vida dura dele, diferente de muita gente na vida real que é bacaca por simplesmente ser mesmo.

Mau:
… concordo com o que vocês disseram a respeito do Bender. Também achei que ele é o protagonista principal do filme. Mas acho que fui por um caminho diferente. Filho de pais abusivos, ele cria esta persona rebelde como uma forma de encarar a sua realidade. Mas ao mesmo tempo, ele busca com isso chamar a atenção, pois no fundo, isso é fruto de uma carência afetiva que faz com que toda hora ele procure um relacionamento com os outros, por mais diferentes que pareçam no início, e mesmo que seja através do confronto direto.
É ele quem verbaliza constantemente os sentimentos dele e dos outros quando estes não tem a coragem para tal. Mesmo quando, num acesso de fúria, ele se isola dos outros, vemos que este isolamento não dura muito, pois logo ele já conseguiu reunir todos novamente para escaparem da biblioteca.
O fato dele criticar tudo em todos acaba sendo a maior força dele. Através do confronto ele acaba se transformando no catalisador da amizade que se forma entre os cinco. E conseguimos ver claramente isto ocorrendo ao longo do filme.
No início, todos se sentam isolados um do outro. Apenas o Andy se senta próximo da Claire, pois seus nichos sociais são mais próximos, mas mesmo assim não se cumprimentam. Todo o relacionamento vai sendo construído ao longo do filme, mas é só com o bom e velho rock’n roll que caem as últimas barreiras sociais entre eles, e a partir daí eles passam a se sentar mais próximos até que, já no final do filme, os vemos sentados lado a lado, com os ombros colados.

Daniel:
Acho que você conseguiu explicar o que eu senti mas não havia conseguido colocar em palavras. Foi mais ou menos por isso que eu fiquei com a impressão de que ele foi o que mais se “conectou” com os outros.

Cássia:
Eis a grande graça de participar de um clube: a gente muda de ideia, coisa que não aconteceria se assistisse ao filme e ficasse quietinho.
Tenho de aceitar, o Bender realmente manda no filme. Sem ele, nada aconteceria. Imaginei os outros quatro quietos, esperando o tempo passar, fazendo a tal redação e indo embora sem sequer olhar uns para os outros.
Ele é o cara que fala. Mesmo quando provoca, aquilo tem um motivo. Tem razão, ele é mesmo um carente, pedindo atenção. E acho que aquele pulo dele de alegria no final deixa isso mais claro, tipo “Tenho amigooooooooos”. Hehehe. Sem falar na Claire, claro.

Carlos:
Uma das coisas que mais me chamou atenção no filme foi exatamente esse posicionamento dos atores em cena, citado pelo o Maurício.
Pela limitação de cenário, o filme não é exatamente rico cinematograficamente. Parece mais uma peça de teatro filmada. Mas funciona assim mesmo, exatamente em razão desses “detalhes” que permitem a leitura do filme. Aliás, o tempo todo eu lembrava sobre “12 homens e uma sentença” cuja ação é confinada ao espaço da sala do júri. O Pablo o usou de exemplo no curso exatamente para destacar como o mise-en-scène dos atores era importante para a interpretação do filme.
Outro aspecto “teatral” que faz com que o filme funcione é a tipificação forte dos personagens. Quando eles entram em cena o espectador já tem uma imagem clara de quem é cada uma daquelas pessoas. Mesmo que seja um preconceito.

Mau:
… achei interessante que o nome do protagonista e do antagonista possuam duplo sentido. O “Criminoso” John Bender, onde “bender” pode ser alguém que dobra, e no caso constantemente, as regras. E o diretor Richard Vernon, cujo nome tem o diminutivo de Dick, que também é gíria para uma pessoa desprezível. Essa é, inclusive, a forma com que Bender se refere a ele com mais frequência ao longo do filme.
Tudo no filme (os carros, as roupas, a comida) é construído para refletir a personalidade (ou falta dela) e as diferenças dos cinco, já que muito do que eles são é devido à influência dos pais e dos grupos sociais em que estão inseridos. Desde pequenos detalhes como a placa do carro dos pais do “Cérebro” que tem a placa EMC2, até as roupas de ginástica do “Atleta” ou ao sushi do almoço da “Princesa” (Claire), passando pela leve expressão de incredulidade desta quando Bender diz não saber o nome dela, como se isso fosse de conhecimento geral da escola.

Daniel:
MOTHER OF GOD. Demais essa, nem tinha visto! Muito bacana terem incluído esse detalhe [da placa] no filme. Ah, e gostei muito da sua análise sobre os nomes também.

Cássia:
Maurício, muito bacana suas análises sobre os nomes. Isso jamais passaria pela minha cabeça! Também não notei a placa do carro, genial isso! Só tinha notado os figurinos e, no começo, as imagens mostrando um pouco da personalidade de cada um.

Carlos:
O mais interessante é que, apesar de serem completamente estereotipados, os personagens não chegam a ser caricaturas. Todos eles parecem sujeitos que você encontraria em qualquer escola (americana, vai). Até Bender é aquele típico valentão, com quem você não quer conversar muito.
Para não ficar perfeito, achei os adultos meio caricatos. Mesmo assim, há um pouco de humanidade no Diretor, como descobrimos quando ele conversa com o zelador.

Daniel:
Vernon, aliás, foge do vilão estereotipado. Apesar de claramente não saber lidar com os alunos, ele demonstra se importar de verdade com o futuro dos “rebeldes”. Nenhum personagem é superficial no filme. Até mesmo o faxineiro, que começa como alvo de humilhação deixa Bender sem resposta.
Acho muito interessante que, apesar de todas as diferenças que eles têm, todos pareçam se importar uns com os outros, o que fica claro quando ninguém entrega Bender pelo que ele fez com a porta ou quando um personagem demonstra interesse no drama de outro (destaque para quando Andrew insiste em saber da relação que Allison tem com os pais).

TRILHA SONORA

Daniel:
Gostei também da trilha sonora, principalmente nas cenas mais carregadas emocionalmente (geralmente protagonizadas por Bender), quando sons mais “fortes” são usados.

CONCLUSÃO

Carlos:
Não sei a vocês, mas o final do filme me incomodou muito. Passei o tempo todo pensando como a Allison era um exemplo  a ser seguido. Meio insegura, é verdade, mas com uma identidade absolutamente bem definida. Ao contrário dos outros personagens, ela não se definia por ser parte de um grupo particular, mas por ser alguém que tinha um personalidade peculiar e diferente do “bando”
Assim, no fim do filme, quando ela acabou se tornando uma patricinha, uma cópia da princesinha do baile, fiquei imensamente decepcionado. E quando, após a transformação, ela começou a namorar o atleta, eu me desanimei ainda mais.
Para fechar com chave de ouro, a princesinha ficou com o bandido. E o nerd ficou sozinho.
Assim, a mensagem do filme foi muito conformista. Se você for mulher, mantenha o sistema, siga a massa e tudo ficará certo. Se você for homem, seja valentão e fisicamente forte. Inteligência e individualidade devem ser ignoradas.
Pode parecer paranoia minha, mas essa espécie de mensagem é muito padrão e enfraqueceu o filme. Implodiu todo o trabalho anterior, onde se pregava a aceitação própria e o respeito às diferenças. Sei que não podemos julgar as obras pelas ideias que elas propagam, mas, no caso, a conclusão do filme foi contraditória com todo seu desenvolvimento.
Custava a maluquinha ter continuado maluquinha e namorado o nerd? Além do que, ela já era bonita daquele jeito mesmo.

Mau:
Não acho que o nerd ter ficado sozinho tenha sido uma mensagem de que a inteligência deve ser ignorada. No meu ponto de vista, ele era o mais novo dali, e sabemos que as garotas nessa fase da vida querem distância dos “pirralhos” : ) Por isso, vejo que foi uma escolha “normal” das meninas terem preterido o nerd em função dos outros.
Assim como também acho normal a Allison querer experimentar algo novo, afinal na adolescência ainda estamos nos descobrindo e definindo o que seremos no futuro, e essa é a época da experimentação. Talvez ela nunca houvesse tido contato com o mundo das “princesas”, ou talvez sempre quisesse ser desse jeito e fosse sempre excluída, e quando teve a oportunidade resolveu ver qual era.

DETALHES

Banzai:
A atriz que protagoniza a Claire deveria entrar no Guiness como “A menina que mais perdeu a virgindade em filmes” huahua pode ser um exagero meu, mas olhar pra ela me faz pensar nos dois filmes que isso acontece…

Daniel:
Não me joguem pedras, não conheço mesmo. A qual filme você se refere?

Banzai:
Sixteen Candles (Gatinhas e Gatões), recomendo…

Daniel:
Recomendação devidamente anotada 😉

Cássia:
Sobre a Molly Ringwald, a Claire, não sei se foi a recordista em “perda de virgindade” nos filmes, mas sem dúvida, foi a princesa dos filmes do Hughes. Até hoje, acho que penso em ficar ruiva por causa dela, hehehe.

Banzai:
Sempre gostei da Molly (Claire), esses dias, fui pesquisar sobre ela e li que se recusou a fazer papéis importantes, para título de curiosidade:

    Uma linda mulher
    Um amor inevitável

Conseguem imaginar ela no lugar da Julia Roberts?

Cássia:
Renato, além desses dois, parece que há mais filmes ótimos que ela se recusou a fazer. Agora, não adianta, será eternamente musa do John Hughes! E não dá mesmo para imaginá-la fazendo Uma linda mulher.

Cássia:
Não faz muito tempo, assisti à metade de um documentário sobre o John Hughes, “Don’t you forget about me“. Muuuuuito bom! Tentaram de tudo para falar com ele e não conseguiram. O filme foi finalizado pouco antes de sua morte. Sabe a cena em que o Bender cai do forro? Acharam que estava muito sem graça e o John Hughes pediu para ele contar uma piada idiota, porque ninguém ia saber o final mesmo… hehehe.

Banzai:
John Hughes conseguiu encapsular o mundo adolescente e colocar nos filmes que dirigiu…

Daniel:
Um último comentário que não pode faltar: assistam Community!!! hahaha
Como disse a Cássia, o filme é homenageado logo no piloto da série, e no 16º episódio da 1ª temporada, a ótima cena de dança em cima da mesa do Clube dos Cinco é recriada também, com a mesma música e tudo. Aliás, com certeza Clube dos Cinco não foi só homenageado na série, como muito provavelmente deve ter sido uma das inspirações da mesma. Claro, esses não são os únicos motivos, a série inteira é genial.

Cássia:
… como bem disse o Daniel, Community faz referência ao filme no piloto e no episódio 16, com a dança legal, mas é mesmo bem evidente que a inspiração-mor da série foi o filme. E isso só me fez amar ainda mais os dois!
Vocês falaram sobre a influência do Bender para as situações se desenrolarem e pensei no Jeff, em Community. O cara que tudo burla, que no começo não está nem aí, mas que depois se transforma naquele que une a turma.
Uma piada em comum que lembrei. Quando a Claire come o sushi e o Bender diz: “Você tem nojo de beijar na boca e come isso?”, lembra uma aula de antropologia, no começo da segunda temporada, quando dois personagens se beijam de língua (não falarei quem são para não tirar a graça do Renato) e a professora diz: “Que nojo!” e daí ela toma o próprio xixi, hehehe. Eu ri alto!

Mau:
Tá legal, definitivamente a Cássia é a expert em Community do Clube! 🙂
Adorei a associação com o Jeff! Realmente tem muito de Bender nele. Mas as motivações dele são bem diferentes, hehe.

Cássia:
Maurício, não sou a expert não. 😉 O Daniel sabe mil vezes mais, mas percebi essas analogias porque fiquei pensando no que vocês disseram sobre o Bender. Tinha de descobrir por que ele era o ponto-chave do filme, hehehe.