Crítica | Interestelar

Interestelar (Interstellar) | 2014
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Jonathan Nolan, Christopher Nolan
Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Mackenzie Foy, Jessica Chastain, Michael Caine, David Gyasi, Matt Damon, John Lithgow, Ellen Burstyn, Timothée Chalamet, Casey Affleck, Topher Grace

Interestelar é um filme instigante que levanta questionamentos complexos acerca do futuro da humanidade e do que cada indivíduo estaria disposto a fazer para assegurar a continuidade da espécie, ainda que escorregue (talvez de forma irrecuperável para muita gente) numa conclusão frágil e carregada de autoimportância.

Num futuro distópico não muito distante, a humanidade se vê obrigada a deixar a ciência de lado para dar prioridade a necessidades mais básicas de sobrevivência, o que incomoda Cooper (Matthew McConaughey), um ex-piloto da NASA incapaz de aceitar sua atual posição como fazendeiro, ainda que sua profissão seja mais essencial do que nunca. Porém, Cooper descobre que há uma esperança de salvar a espécie através da colonização de algum planeta numa galáxia muito, muito distante, e embarca, assim, numa missão perigosa e cheia de incertezas.

Inteligente ao estabelecer o campo como pano de fundo na Terra – economizando no design de produção ao não precisar retratar uma grande cidade futurista e ao mesmo tempo tornando mais difícil apontar para uma data específica no futuro –, Nolan nos apresenta à família de Cooper. Atingindo um equilíbrio excelente entre a vivacidade e a apatia, McConaughey cria um sujeito entusiasmado o suficiente para literalmente sair de seu caminho sem pensar duas vezes para perseguir um drone moribundo e ver o que se pode aproveitar dele, e frio o bastante para sequer hesitar ao aceitar fazer parte da missão, deixando para trás os filhos Tom (Timothée Chalamet) e Murph (Mackenzie Foy).

Afinal, Cooper vê na missão a oportunidade de salvar sua família, mas também, contraditoriamente, de fugir desta, já que ele aparenta julgar a existência pacata que leva com os filhos e o sogro como algo desestimulante e indigno de seu potencial. Além disso, há uma sensação de que talvez a união familiar tenha se quebrado e perdido o sentido para Cooper em algum momento de seu passado, representado pelo anel que insiste em carregar na mão esquerda. E é bonito ver que a pequena e brilhante Murph (a mais próxima do pai justamente por compartilhar da mesma vocação deste), apesar de conviver com a frustração do abandono, jamais chega ao ponto de não acreditar no sucesso de Cooper.

Um ponto do filme que me agrada bastante é deixar o espectador matutando o tempo todo a respeito da moralidade de determinadas decisões tomadas pelos personagens. A todo momento, me vi dividido, julgando as escolhas feitas por eles. Mas eu faria diferente caso a sobrevivência da espécie dependesse de mim? Eu abriria mão daquilo que é mais importante para mim pelo bem da maioria? Até que ponto eu seria capaz de impedir que meu instinto de sobrevivência interferisse em meu bom senso?

Interestelar também acerta na escolha de uma fotografia dessaturada e amarelada para as sequências que se passam na Terra, salientando a crescente esterilidade do planeta e a atmosfera sufocante de desesperança que se abate sobre a população, que se vê obrigada a conviver com constantes e gigantescas tempestades de areia (tempestades estas que formam verdadeiras ondas de areia no céu e criam uma rima com um primo distante assustadoramente mais perigoso em outra galáxia).

Já a relatividade de Einstein – que dita que o tempo passa mais devagar quanto mais intenso for o campo gravitacional de determinado local – é muito bem utilizada pelo roteiro e gera grande impacto, mesmo que o espectador já tenha sido devidamente informado das consequências sofridas por quem ousa colocá-la à prova. Ainda em aspectos técnicos, vale também mencionar os dois robôs que fazem parte da missão, TARS e CASE. Seu design pode ser facilmente subestimado a princípio, já que não aparenta ser nem um pouco eficiente, mas é curioso testemunhar, ao longo do filme, toda a desenvoltura que ele confere aos robôs. Além, claro, de contarem com uma personalidade e um bom humor cativantes, ainda que isso acabe reforçando uma estranha sensação de que a qualquer momento eles darão uma de HAL (de 2001) para cima dos humanos.

Assim, com tantas qualidades ao longo dos dois primeiros atos, que criam situações e reflexões fascinantes, é uma pena que Interestelar chegue a uma conclusão muito cômoda e anticlimática. E digo isso mesmo reconhecendo que há certa lógica interna na coisa toda, já que a frustração tem origem não na falta de verossimilhança, mas na súbita mudança de tom da narrativa ao abandonar, sem grandes cerimônias, a racionalidade que vinha sustentando o filme desde seu início. Uma frustração que ainda é ressaltada pela montagem do ato final, tipicamente nolaniana, que constrói uma tensão crescente com a ajuda da trilha ritmada e infelizmente acaba não recompensando o espectador quando chega ao fim, falhando ao tentar empurrar uma mistura meio capenga de ciência com amor em meio a diálogos excessivamente expositivos.

Ainda assim, independentemente da canelada final, Interestelar é um filme interessantíssimo, especialmente para aqueles que gostam de se entregar ao exercício de imaginar o que será de nossa espécie a longo prazo e quais mistérios do Universo seremos capazes de não apenas entender, mas também manipular. (4 estrelas em 5)

Interstellar 4

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Crítica | Gravidade

Gravidade (Gravity) | 2013

Direção: Alfonso Cuarón

Roteiro: Alfonso Cuarón, Jonás Cuarón

Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris

Entre todos os grandes feitos da humanidade, é seguro dizer que colocar pessoas e estruturas na órbita da Terra seja um deles. Isso porque o espaço, apesar de fascinante, é extremamente hostil, mesmo a apenas algumas centenas de quilômetros acima da superfície terrestre, e o letreiro com informações básicas que abre o filme deixa claro até para o mais leigo dos espectadores: se aventurar no espaço é perigoso.

Ryan Stone (Sandra Bullock) faz parte da tripulação de uma missão que tem como objetivo aprimorar o telescópio espacial Hubble, procedimento que exige que os astronautas façam caminhadas espaciais, ou seja, fiquem do lado de fora da nave, flutuando no espaço sem nada abaixo deles exceto a própria Terra. Durante a missão, eles são informados de que os restos de um satélite que havia sido abatido pelos russos se chocaram com outros satélites e criaram uma reação em cadeia que coloca milhares de destroços em alta velocidade em rota de colisão com o Hubble, destruindo o telescópio e a nave e deixando os astronautas à deriva.

A sequência inicial de Gravidade é espetacular, e sua eficácia do ponto de vista cinematográfico é resultado do que deve ter sido um desafio técnico gigantesco. Num único plano que dura mais de dez minutos sem sofrer cortes, Cuarón nos coloca na órbita da Terra enquanto observamos o ônibus espacial Explorer se aproximar com o Hubble acoplado, e quando o espectador se dá conta, já está sendo levado pela câmera, passeando pelo espaço e entre os astronautas como se fosse mais um tripulante da missão.

Aliás, o filme todo parece determinado a jogar o espectador para dentro da tela. Além do ótimo uso de planos longos (que provavelmente fariam Michael Bay bocejar), Cuarón também faz bom uso de câmeras subjetivas que captam o ponto de vista dos personagens, em sequências que parecem saídas de um jogo de tiro em primeira pessoa. A decisão de acompanharmos apenas os astronautas e o que acontece na órbita terrestre também é acertada (em vez de alternar entre a missão e o controle na Terra, como é tão comum em filmes que se passam no espaço), pois só sabemos o que os astronautas sabem e nos aproximamos deles. Até mesmo os movimentos de câmera, suaves e fluidos, contribuem para a sensação de gravidade zero e para a imersão do espectador. Além, claro, do 3D, que adiciona profundidade e escolhe os momentos certos para atirar coisas no espectador, sem exageros.

Mas de nada adiantaria ter tantos méritos técnicos sem um roteiro e atuações que os sustentassem. A história da missão que dá errado e se transforma em tentativa de sobrevivência já foi vista antes (alô, Apollo 13!), mas além de todas as particularidades já citadas, temos dois personagens centrais fascinantes. George Clooney cria um Matt Kowalski claramente apaixonado pelo que faz e deslumbrado pelas belezas do universo. Sujeito otimista, calmo e bom de conversa, não parece se deixar abalar facilmente, e até mesmo a sugestão de um improvável acontecimento envolvendo o personagem no final do filme surge verossímil graças à sua personalidade. Mas o destaque fica mesmo para Sandra Bullock, que cria uma personagem triste e sem rumo, tentando superar um acontecimento insuperável de seu passado, numa atuação contida e sensível. Presa no espaço e correndo contra o tempo, até mesmo sua maneira de respirar ajuda a aumentar a sensação de claustrofobia. Assim, um dos melhores momentos do filme fica por conta da cena simbólica e tocante na qual Ryan, ao se permitir um raro momento de liberdade e extravasamento, apenas flutua, girando lentamente e se curvando até atingir a posição fetal. Outro mérito de Bullock é conseguir que o espectador torça pela personagem, o que é fundamental para que o filme funcione. Já Ed Harris praticamente reprisa seu papel em Apollo 13 como o controle da missão na Terra, e suas conversas descontraídas com Matt prestam um bom serviço à imagem dos pobres profissionais da área ao mostrar que nem tudo é tão sério e sem-graça como as pessoas costumam imaginar.

“Sandra, acho que tá me dando vontade de ir ao banheiro.”

O roteiro acerta também na forma como retrata a Física, aspecto em que muitas ficções falham miseravelmente. De maneira geral, tudo o que acontece é perfeitamente plausível, e particularmente não é todo dia que vejo um filme corajoso e seguro de si o suficiente para não adicionar efeitos sonoros em colisões e destruições no espaço, preferindo o realismo ao exagero. O próprio som diegético (o som originado dentro do universo do filme) só é audível – e de forma abafada – quando originado de um objeto em contato com o corpo dos astronautas, resultado da propagação das vibrações através do corpo e do ar dentro da roupa, o que dá ao espectador a sensação de estar escutando tudo através de seu próprio corpo e de seu próprio traje de astronauta. Já os sons que se originam em objetos afastados dos personagens não são audíveis, uma escolha que acaba tornando as colisões e destruições ainda mais assustadoras, auxiliadas por uma trilha instrumental que foge do óbvio e cria momentos de muita tensão.

Gravidade ainda acha espaço para celebrar a diversidade. Seja através dos planos-detalhe de uma imagem de Jesus na Estação Espacial Internacional e de uma imagem de Buda na estação chinesa, seja através das diferentes nacionalidades dos astronautas e das várias bandeiras penduradas na EEI (que é uma estação real, diga-se), inclusive a do Brasil. Oras, a própria estação, como seu nome já diz, é resultado de um esforço conjunto de vários países e um símbolo da união entre povos que a ciência proporciona em busca de conhecimento.

Alfonso Cuarón, que tem em sua filmografia Filhos da esperança, Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban e E sua mãe também, se tornou um de meus diretores favoritos depois deste Gravidade, fazendo-me sentir o mais próximo possível de um astronauta, sonho que tenho desde que me entendo por gente, ao mesmo tempo em que estimula a reflexão sobre a vida, a morte, o universo e que papel tem nisso tudo o nosso pálido ponto azul.

(5 estrelas em 5)