O Mágico de Oz

(Há alguns spoilers, mesmo assim, o texto não acabará com a graça daqueles que não assistiram ao filme ou não leram o livro.)

* * *

Livro: O Mágico de Oz (The Wonderful Wizard of Oz), L. Frank Baum, Editora Zahar.
Filme: O Mágico de Oz (The Wizard of Oz), direção de Victor Fleming, 1939.

O Mágico de Oz lançado em 1939 é uma adaptação do livro homônimo publicado em 1900, o primeiro de uma série de 13 livros.

Este foi o primeiro filme que assisti na vida. Eu era uma menina e, por incrível que pareça, ainda me lembro daquele momento. Li o livro quase 30 anos depois, para escrever este texto. Reassisti ao filme em seguida e me senti novamente uma criança. Eu havia viajado à Oz duas vezes, de maneiras bem diferentes.

Falarei brevemente sobre um exemplo de como é possível duas obras − literária e cinematográfica − estarem em pé de igualdade; não só, que adaptações de livros podem ser bem-realizadas mesmo com mudanças significativas na história.

O básico todos nós conhecemos: Dorothy é uma menina moradora do Kansas e, graças a um ciclone, ela e seu amado cachorrinho Totó viajam à Terra de Oz. O que ela quer é voltar para casa mas, para isso, deverá encontrar o Grande Mágico, o único que poderá resolver o seu problema. No caminho, ela encontra um espantalho, que deseja um cérebro; um homem de lata, que almeja um coração; e um leão covarde, que quer ter coragem. Eles seguem juntos para a Cidade das Esmeraldas a fim de realizarem os seus desejos.

No livro, a Cidade das Esmeraldas é um lugar bem distante. Eles passam por muitos percalços e encontram vários personagens pelo caminho. Há quatro bruxas e todas elas aparecem na história; apenas nos capítulos finais uma delas se torna a grande antagonista, a Bruxa Má do Oeste. Conhecemos os três companheiros de Dorothy mais a fundo. Descobrimos outros países e histórias de outros personagens. A Terra de Oz fica sendo nossa grande conhecida. Além disso, nada nos dá a entender que Dorothy está sonhando. É como se ela realmente estivesse em Oz.

No filme, a cidade é logo ali e não há tantos problemas. Desde o princípio, a Bruxa Má do Oeste é a antagonista e a responsável pelos obstáculos do caminho. O início é ampliado, conhecemos um pouco da vida de Dorothy e das pessoas com quem convive. Adiante, serão elas as principais personagens daquela terra distante. Por fim, é evidente que Dorothy bateu a cabeça e tudo não passa de um sonho.

Tanto o livro quanto o filme são muito bem amarrados. Há informações que aparecem no começo, são retomadas no meio e mencionadas no final. Além disso, há coerência entre os acontecimentos. Mesmo cortando alguns capítulos e vários acontecimentos do livro, o filme conseguiu transformar vários elementos em outros, sem perder a essência da história e sempre a favor do roteiro. É uma aula de adaptação.

sapatos-magico-de-ozNo filme, os sapatos mágicos são de rubi. No livro, eles são de prata. A mudança não foi aleatória, mas só descobrirá quem ler o livro.

Uma das características mais significativas da linguagem do cinema utilizada a favor da história é a fotografia. No livro, o autor fala diversas vezes como ao redor de Dorothy tudo é sem cor: a pradaria, a casa, a tia Em, o tio Henry, todos são cinzentos. No filme, em momento algum a palavra cinza é mencionada, nós vemos que ela existe. Quando Dorothy chega à Oz, as cores explodem nos nossos olhos. O mesmo encantamento que ela sente, nós também sentimos. Nenhum livro no mundo nos daria essa sensação.

Em compensação, um filme não daria conta de tantos meandros sem tornar-se cansativo. No filme, nós conhecemos Oz. No livro, nós vamos à Oz.

Tanto um quanto o outro são obras para serem reencontradas ao longo da vida, para afagar a criança que, de alguma maneira, sempre carregaremos conosco.

*

O que apenas o cinema nos proporciona: Dorothy cantando “Somewhere Over the Rainbow” e Totó quietinho, dando um show de interpretação.

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Filme 22 | A Viagem

Ficha técnica
A Viagem (Cloud Atlas)
Ano: 2012
Direção: Lana Wachowski, Andy Wachowski e Tom Tykwer.
Roteiro: Lana Wachowski, Andy Wachowski e Tom Tykwer.
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Doona Bae, Ben Wishaw, Keith David, James D’Arcy, David Gyasi, Susan Sarandon, Hugh Grant.

Escolhido por: Daniel
Discussão iniciada em: 16/12/2013

Daniel:
Fiquei com uma preguicinha de rever o filme quando ele foi o escolhido, talvez por antecipar que uma análise dele seria difícil, ainda mais uma discussão. Mas enquanto reassistia, fiquei feliz de tê-lo escolhido, já que, para variar, acabei gostando até mais do que quando o vi pela primeira vez, no cinema. Foi de longe o filme que mais gerou anotações no meu bloco (não que eu vá falar sobre todas), até porque eu já tinha visto e já estava preparado para tentar buscar todas as conexões dessa salada cinematográfica.
E vocês, o que acharam? =]

Mau:
Ao contrário, foi o que eu menos consegui tomar notas.
Eu odeio vocês por me fazerem assistir a esse filme. Brincadeira. 🙂
Será que vocês conseguem me fazer mudar de opinião?

Cássia:
Acabei de assistir ao filme e apenas uma frase surgiu para mim: Que filme lindo!
Como eu sabia que o filme é longo, desencanei das anotações. Quis assistir de coração aberto, sem me ater a nada. Para mim, Cloud Atlas é para ser assistido sem qualquer ideia preconcebida, para encontrarmos coerência apenas naquilo que nos é contado. Se entrarmos no mérito religioso e espiritual, deixa de ser cinema e vira outra coisa.

Carlos:
Primeiro, faço parte do time que gostou do filme. […]
Creio que Cloud Atlas depende de várias visitas para ser considerado realmente “assistido”. São muitas histórias acontecendo ao mesmo tempo e milhões de detalhes para serem descobertos.

Banzai:
Primeiro, desculpas ao Mauricio por minha falta de sensibilidade em fazê-lo ver UM ÓTIMO FILME!!! hiuhiuahuiaihuahiua 😀
Já havia visto esse filme no cinema e saí obviamente com um grande “?” na cabeça. Estava doido para chegar em casa e pesquisar na internet a ligação entre os personagens, filosofar sobre, só que obviamente outras tarefas me fizeram esquecer disso. O clube foi uma chance de tentar assistir com mais foco ainda e entender o grande motor do filme. Confesso que falhei miseravelmente […].

ROTEIRO

Daniel:
Não é um filme fácil de acompanhar e os realizadores sabem disso, pois logo no início colocam na boca de Timothy Cavendish as palavras que eles gostariam de falar para o espectador: por mais que não goste de flashforwards ou flashbacks, tenha um pouco de paciência e verá que há uma lógica por trás dessa história maluca. As diferentes linhas do tempo são rapidamente apresentadas e parece que será impossível acompanhar tudo, mas logo o ritmo diminui e conhecemos cada uma delas um pouco mais a fundo, com a ajuda necessária dos letreiros que indicam o tempo e o espaço.
Gosto do fato de não haver uma grande trama principal que mova o filme inteiro, como sempre vemos por aí. Não há aquele um obstáculo que um protagonista precisa superar para melhorar sua situação e viver feliz para sempre com seu interesse amoroso, tendo de obedecer às regras de um roteiro, com seus três atos, pontos de virada e tudo o mais. Está mais para a vida como ela é. Várias histórias pequenas que se entrecruzam, que repercutem umas nas outras e que não necessariamente acabam bem. Há, claro, a recorrência de certos temas que não são exclusivos de determinada época ou espaço: vida, morte, amor, empatia, princípios e luta por um ideal. Além também da recorrência dos mesmos erros cometidos pelo homem, apenas adaptados ao período em que vive: escravidão, violência, opressão e ganância.

Mau:
Acompanhamos a história de um personagem de pele clara e cabelos escuros, frágil e dominado pelo sistema, até que outro personagem aparece, este também de pele clara e cabelos escuros, mas diferindo do primeiro por ser de outro sexo e por possuir total controle da situação. Este personagem sabe tudo o que acontece no mundo. Este personagem possui como missão mostrar a realidade do mundo para o personagem mais frágil, que é escravizado pelo sistema e só está lá para servir de fonte de energia para este mesmo sistema. Uma vez acordado para a realidade, ambos são comandados por um terceiro personagem de pele escura que os lidera na luta armada contra o sistema. Dirigido pelos irmãos Wachowski, este é o grande sucesso…, não, não é o Matrix, agora esta é a trama do A Viagem. E já que é assim, vamos adicionar umas histórias de reencarnação, vidas que se entrelaçam através dos tempos, naves espaciais, cavalos, armas, arco e flecha, …
Acho que isso resume bem o que eu achei da história, um apanhado mequetrefe de histórias paralelas, simplórias, mas que influenciam umas às outras, ficção científica, religião, etc. Apesar de juntas formarem um corpo coeso e a ideia por trás da história ser interessante, na minha opinião ela foi mal realizada, pois é um filme que tenta ser tudo e, no final das contas, só consegue ser um filme mediano.

Cássia:
O filme começa com um contador de histórias. O filme é isso: histórias. As nossas histórias, as histórias dos outros, as nossas com as dos outros. E como elas são construídas através do tempo e dos tempos. Mesmo que não houvesse a reencarnação como mote da passagem entre as épocas, bastaria mudar para “ascendência” e “descendência”. Hoje nós vivemos o que construíram antes de nós e o que estamos construindo ficará para quem está chegando. Quem constrói a História não são os grandes nomes. Foram os nossos bisavós e serão os nossos netos. Os nossos amigos, os nossos vizinhos, os nossos amores. Todos nós ligados por uma tênue linha. Há uma frase linda da Simone de Beauvoir que ilustra bem isso: “Não há uma pegada do meu caminho que não passe pelo caminho do outro”.

Daniel:
A citação da Simone de Beauvoir é bem apropriada. Me identifico bastante com isso por ser fissurado em viagens no tempo. Invocando um pouco meu lado nerd na discussão, comecei a assistir a Doctor Who nos últimos meses, e alternar episódios da série com esse filme mexeram ainda mais com a minha percepção das coisas. Parece besta, mas causa uma sensação realmente intensa de perceber algo novo numa coisa que sempre esteve na nossa cara, quase uma epifania.

Cássia:
Em relação ao roteiro, Daniel, essa regra dos três atos é a clássica, por assim dizer. Mas a estrutura aristotélica tem dado lugar à estrutura criada por Robert McKee, que, falando de maneira simplificada, trocou os atos por hook, hold e payoff. Conte uma história em quantos atos você quiser, desde que siga esse método.
[PAUSA: Há uma explicação sobre essas diferenças na aula 5 da primeira unidade do curso The Future of Storytelling. Bacana é fazer o curso todo, eu terminei hoje e é excelente. Mas, voltemos.]
É o que acontece em Cloud Atlas. Não há o grande problema a ser resolvido, mas existem as mudanças: são os encontros. No barco, o encontro entre o branco aristocrata e o negro escravo. Na Escócia, entre o músico novato e o músico famoso. Em San Francisco, entre a jornalista e Tom Hanks de peruca loira. Na Inglaterra, os velhinhos no asilo. Em Seul, a moça inexpressiva e o seu salvador. E no local sem nome, o Tom Hanks e a Halle Berry. Nenhum encontro foi em vão: todos trouxeram pequenas mudanças, mas que deram um outro rumo a vida dessas pessoas. O aristocrata que virou abolicionista, a realização de uma grande obra musical, a revelação da história do petróleo, os velhinhos seguindo a própria vida, as coreanas quase sendo salvas e o final, Tom e Halle construindo finalmente uma “casa” e uma grande família. Mas como estamos acostumados aos grandes feitos, parece quase nada. Mas são esses quase nada que mudam a vida da gente.

Daniel:
Cássia, se essa estrutura de roteiro [do Robert McKee] é o futuro do Cinema, mal posso esperar.
[PRECISO separar um tempo para fazer esses cursos bacanas que você sempre indica pra gente. rs]
Cloud Atlas consegue ser drama, comédia, romance, ficção e policial, tudo ao mesmo tempo e de forma bem-sucedida, adaptando a fotografia e o tom da narrativa de acordo com cada gênero. Comparem, por exemplo, o tom e a atmosfera mais cômica de 2012 (o editor Cavendish e sua fuga do asilo), e o tom de urgência de 1973 ou 2144 (Luisa Rey descobrindo uma conspiração para explodir uma usina e Sonmi fugindo com Hae-Joo, respectivamente).

Mau:
Isso é verdade, não havia reparado. Como digo mais adiante, tirando a maquiagem, a parte técnica consegue quase uma nota perfeita.

Daniel:
E é por isso que, gostando ou não, é preciso reconhecer que o filme é ambicioso e corajoso. Ainda mais por colocar o queridinho de Hollywood (e um dos meus atores favoritos), Tom Hanks, em nada menos do que quatro personagens de moral duvidosa, além de matar um quinto personagem dele precocemente. Novamente, é de se admirar.

Carlos:
Destrinchando um pouco mais a narrativa, percebi que apesar de serem seis histórias, todas estão vinculadas à libertação. Há o escravo, obviamente preso. Em seguida o compositor novo, preso na casa do compositor velho. Depois Halle Barry, como jornalista, presa dentro do seu fusquinha afundando no oceano. Nos tempos atuais, o editor fica preso naquele asilo-prisão. No futuro, Sonmi, presa na usina de fazer carne humana. E, por fim, Tom Hanks, preso na ilha estranha.
O segundo tema universal, que permeia todas as tramas, é o amor. E como disse a Cássia, foi belíssima a maneira que eles resolveram abordar o amor, porque escapa das amarras de amor monogâmico heterossexual. Creio que uma das lições do filme é que o amor pode surgir de várias maneiras. E ele é a força libertadora do filme. O amor entre o escravo e o advogado abolicionista, o amor gay entre Frosbisher (o compositor novo) e Sixsmith, e o amor quase paternal deste, anos depois, para com a jornalista. E por aí vai.
Em oposição ao amor, há sempre o censor, encarnado, literalmente, no Hugo Weaving. É interessante como essa questão da obediência à norma é, na maior parte das situações, um elemento de prisão. O capeta que atentava o Tom Hanks-das-selvas não passava nenhum conselho ruim. Ele apenas era uma espécie de superego atuando como uma voz conservadora. E, por isso, destrutiva.
Esses são os grandes temas do filme para mim. Prisão e amor. Mas ainda há mais uma coisa, para a qual a Cássia chamou a atenção. Esse é um filme que mostra como os pequenos acontecimentos têm repercussões incalculáveis. Não é uma história de grandes homens e grandes conquistas. É uma história de pessoas comuns, em atos comuns que ganham ares de épicos. O maior símbolo disso é Sonmi, que passa de garçonete robótica a deusa.
É curioso, aliás, que esse tema seja abordado pelo Tom Tykwer, o mesmo roteirista e diretor de Corra, Lola, Corra. Lá ele acompanhava, quase que em tempo real, como pequenos detalhes influenciavam decisivamente uma situação específica. Aqui, pequenas atitudes modificam a estrutura da sociedade inteira.

Mau:
Provavelmente todos vão falar sobre a marca do cometa, que deve representar a mesma alma que reencarna indefinidamente, mas algo que o filme realiza de maneira muito interessante é a forma com que essas almas passam por provações para atingir a “iluminação”. Não sei se isso está no livro que deu origem ao filme, ou se foi acerto dos roteiristas, mas alguns personagens portadores da marca do cometa sempre atravessam uma ponte, na qual eles precisam passar por uma provação. A ponte é um simbolismo para um rito de passagem, seja esta da terra ao céu, de um estado de ser para outro, etc., etc., etc.
– No caso da jornalista temos a primeira ponte, quando ela sofre o atentado que a faz se conectar mais com o falecido pai de forma a não se entregar e expor a conspiração que ela acabara de descobrir;
– No caso da versão feminina do Mr. Anderson, temos as diversas pontes que eles usam para fugir dos perseguidores;
– E por fim, no caso do pastor futurista, temos a ponte na qual ele e a visitante têm de se esconder para fugir da outra tribo.
Mas posso ter viajado um pouco mais e “enxergado” algumas pontes metafóricas também:
– No caso do advogado, sua ponte é o navio que liga o lugar em que se explora os escravos até sua terra natal. Nesse caminho ele vai sofrer nas mãos do médico da tripulação e caminhar para se tornar uma pessoa melhor lutando pelos direitos dos escravos;
– No caso do compositor, sua ponte são as cartas que o unem ao seu amante, enquanto sofre nas mãos do compositor mais famoso;
– No caso do editor de livros temos o trem que o separou de sua namorada e que o levou até o asilo no qual ele precisaria lutar para escapar e reencontrar o amor da sua vida;
– E outra com o pastor futurista, quando eles estão separados pela corda durante a escalada e o pastor tem que lutar contra seus demônios internos para salvar a vida da visitante.

Banzai:
[Sobre as pontes] Juro que foi tudo novidade para mim! Ótima observação! 😀 mas será que em vez de ponte, não seria “porta”? Assim como a Sonmi fala de portas, poderíamos converter tudo em porta! huauha

Cássia:
Mauricio, eu prestei atenção no cometa, mas não havia associado com a mesma alma. Mas por uma razão: antes de assistir ao filme, eu peguei um esquema com todos os personagens e os períodos em que eles se situam. Sendo assim, eu sabia que a Halle Berry em San Francisco não era a mesma Sonmi em Seul, são almas diferentes. Pelo menos foi o que entendi. Por isso eu fiquei perdida com essa ideia do cometa, mas gostei muito dessa metáfora, da associação da ponte e o rito de passagem. Eu teria de assistir de novo para perceber isso.

Carlos:
O cometa e as almas. Não creio que o cometa simbolize reencarnação, mas sim que aquele personagem é o que altera a cadeia de eventos do movimento seguinte. O advogado escreve o diário e salva o escravo. O compositor compõe e inspira o físico. A jornalista salva a pátria, o editor faz o filme. A Sonmi vira deusa e o Hanks-do-mato salva a pátria.
Já as pontes citadas pelo Mauricio foi uma imagem que eu não tinha reparado. Coisa linda. Só tenho algumas colocações. Na história do Hanks-do-mato, eles cruzam uma ponte e se salvam do Hugh-Grant-Canibal quando se escondem debaixo dela.
Na história do escravo não creio que exista uma ponte metafórica, mas um trocadilho. O barco tem uma “ponte de comando”, não? Nos barcos antigos era onde ficava o leme, no convés. É lá que o escravo resolve fazer o show-off na vela.
A história do compositor começa com um romance entre universitários de (tchanam!) Cambridge.

Mau:
Essa foi interessante, e nessa história eu realmente não havia identificado muito bem a ponte e esse detalhe me fez ver que eu, talvez, não esteja viajando tanto assim. 🙂

Carlos:
E no caso da história do editor eu não achei a ponte. Talvez aquele trem passe por uma ponte. Talvez ele vá para Cambrige. Ou talvez o pessoal do asilo-prisão tivesse jogando bridge em algum momento que eu mosquei.

Mau:
Pois então, nestes dois casos eu associei a “ponte” ao barco e ao trem, pois assim como uma ponte, os dois meios de transporte ligam duas localidades distintas.

Daniel:
Muito boa a análise dos cometas que vocês fizeram. Era uma das dúvidas que eu tinha pra colocar. Desde as pontes do Mauricio até o Carlos falando que o portador da marca é quem muda a história do seu tempo. Só discordo que as marcas representem reencarnações, pois estas ficam bem estabelecidas com a reutilização de atores.

PERSONAGENS

Banzai:
O filme tem N histórias que se interligam, N personagens que se encontram e reencontram. Há três tipos de personagem: bonzinhos, Hugo Weaving e Tom Hanks. Os bonzinhos se encarregam de demonstrar coisas boas, amizade, amor, já a galera da maldade está ali só pra demonstrar as dificuldades e o Tom Hanks para demonstrar que apesar de tudo estar ligado e blá-blá-blá, ainda podemos nos desprender de nossa ganância para fazer algo bom. E acho que por isso ele é o narrador, deveríamos nos identificar com ele, já que somos gente comum sem a bendita marca de cometa em alguma parte do corpo (tô ligado que vocês estão com espelhinhos procurando em tudo quanto é parte). Ao assistir pela segunda vez, pude notar muitas coisas novas, pude notar inclusive que já caminhei por um dos locais filmados, o monumento (The Scott Monument) onde o Frobisher se esconde do Sixsmith em Edimburgo. 😀
A história de amor dos dois é bem cativante, por sinal, justamente por ser à distância e tão poética, creio que foi opção do roteiro colocar a maior história de amor sendo entre duas pessoas do mesmo sexo, talvez por estarem cansados do “de sempre” ou para chamar mais atenção ainda.

Daniel:
O Tom Hanks parece ser o que mais se diverte com seus personagens, e Zachry é um de meus favoritos justamente por escapar da óbvia polarização bonzinho-malvado. Logo no início, quando ele abandona o cunhado e o sobrinho para a morte, tendemos a vê-lo com desprezo, como um covarde, mas com o tempo fica claro que ele é apenas um ser humano, com qualidades e defeitos, que errou ao seguir aquela voz no fundo da nossa cabeça (Georgie), aquela voz instintiva, de auto-preservação, que combate novas ideias e novas visões de mundo com todas as forças em nome do conservadorismo.
A ideia de utilizar os mesmos atores para formar casais ao longo da história, mesmo que infantil, me emociona e agrada bastante. E fiquei surpreso ao descobrir, só com a ajuda dos créditos, que Doona Bae e Jim Sturgess (ator subestimado de quem gosto muito) formam um casal até mesmo como os pais de Megan, sobrinha de Sixsmith (Sturgess é o irmão de Sixsmith). Doona Bae que, para mim, é o elo mais fraco do filme. Inexpressiva demais para o papel importante de uma deusa. Não sei se foi proposital pela natureza de Sonmi, mas ela não cativa. E, apesar de gostar da ideia de reutilizar os atores, a qualidade da execução da ideia é muito inconstante por causa da maquiagem.

Cássia:
Eu gosto especialmente como o amor é tratado e dos casais formados, e não vejo nada de infantil nisso. Foi coerente com a proposta do filme. Aliás, acho inteligente utilizar os mesmo atores, porque imaginemos esse filme com atores diferentes para cada personagem, mas com essa ideia de reencarnação, ou até de mesmos personagens. David Lynch faz essas coisas e, bem… Quem o entende?

Daniel:
Sobre a reencarnação dos mesmos casais ser infantil, me expressei mal. Quis dizer que acho que muita gente deve achar infantil, mas eu mesmo gostei muito e acho que funciona, como coloquei em seguida.
Falei antes que a escravidão permeia o filme, e que coisa linda é a química entre o escravo Autua e Adam Ewing, uma das minhas relações favoritas. Ewing sabe que “deve” ser um escravista (it’s only logical), mas inconscientemente ele sabe que é um abolicionista, e Autua dizer que vê a amizade nos olhos dele me pegou. Autua não é o pobre escravo incapaz que é salvo pelo branco bonzinho. Ele tem personalidade, caráter e é um personagem forte. Já viu muito do mundo para ser escravo, como ele próprio diz, o que faz um contraponto interessante à submissão da escrava Sonmi.

Carlos:
Mas eu entendo [que o filme tenha sido injustiçado pelo público]. Não creio que seja pelas várias idas e vindas do roteiro, uns milhões de flashbacks e flashfowards. Isso é o que pretenderia o público. A maior dificuldade, creio eu, seja em encontrar, entre tantas tramas, personagens de identificação. O filme é costurado por várias histórias e a narrativa não chama atenção para nenhuma em especial. Por isso, ficou difícil o espectador encontrar aquele personagem-para-chamar-de-seu.

Mau:
Concordo, e esse pode ser um dos problemas.

Carlos:
Isso me leva a um último questionamento. Sei que são seis histórias e cada uma delas tem sua importância. Mesmo a menor delas, que se passa no asilo. Mas há uma história principal? Um protagonista da narrativa? Eu creio que sim e acho que é o Tom-Hanks-das-selvas. Ele é o personagem que mais muda no filme. Ele se livra do capeta, literalmente.
Mas deixo a resposta para vocês.

Banzai:
Acredito que a história principal seja dele também, por narrar. Mas como ele sabe de todas as outras?! Fiquei pensando nisso agora…

Daniel:
Discordo do Banzai e do Carlos. Não creio que o Zachry seja o principal. Vários personagens narram suas histórias em algum momento, ele não é o único narrador. Acho que essa impressão acontece porque é ele quem abre e fecha o filme, por ser a linha do tempo que vem depois de todas as outras. Não acho que ele estava narrando a história de todos para as crianças. Ele narrou apenas a dele e, justamente para reforçar que certos acontecimentos, comportamentos e sentimentos estão presentes em qualquer época, apenas o espectador acompanha as histórias intercaladas.

MONTAGEM

Mau:
Mas meus problemas foram só quanto a história. Eu consegui encontrar virtudes ao longo do filme também. A interpretação dos atores ao longo das vidas foi muito bem estruturada e realizada, mas uma coisa que chama a atenção no filme é a montagem. O filme imprime um ritmo alucinante desde os primeiros minutos e, alternando constantemente entre as histórias, em nenhum momento deixa o espectador perdido sobre o que (e quando) está acontecendo determinada ação.

Cássia:
Gosto da maneira como a montagem, a fotografia e a direção de arte nos situam no tempo. Eu não fiquei perdida em momento algum. Conseguia me achar, acompanhar as histórias, entender as conexões que os personagens tinham no passado e no futuro.

Banzai:
Realmente, não havia notado isso, mas não há dificuldade nenhuma de se situar quando havia uma transição de história, e tudo isso graças ao que você citou: montagem, fotografia e direção de arte, impecáveis!!!

Daniel:
A montagem do filme deve ter sido um pesadelo, e acho que o resultado final ficou digno, com diversos clímax acontecendo lindamente em paralelo. Além de já ser algo complicado de se fazer, costuraram várias transições com raccords inspiradíssimos, tanto sonoros quanto visuais e até temáticos, por assim dizer. Não deve ter filme melhor para se utilizar raccords do que aquele cujo slogan diz “Tudo está conectado”.
E tudo realmente está conectado: Adam Ewing escreveu um diário em 1849, que foi lido por Robert Frobisher em 1936 enquanto ele compunha uma sinfonia e escrevia para Rufus Sixsmith. Luisa Rey conhece Sixsmith velho em 1973 e tem acesso às cartas quando ele morre de forma semelhante ao seu amante, e através das cartas ela conhece a sinfonia Cloud Atlas, tudo isso enquanto tenta resolver o caso da usina. O amigo dela, Javier Gomez, escreve um livro lançado em 2012 baseado na história de Rey. O livro é lido por Timothy Cavendish, que escreve o próprio depois de escapar do asilo e se reunir com Ursula. Seu livro ganha um filme (o sexto e último personagem de Tom Hanks interpreta Cavendish) que é visto por Sonmi em 2144. Pra terminar, Sonmi vira uma deusa para o povo de Zachry depois d’A Queda.

Banzai:
Ótimo resumo!!! Me ajudou com a cronologia dos pensamentos rsrsrs. Desses eu não havia captado o livro do Javier.

Cássia:
Concordo sobre os raccords. Lindo de ver, nossa! Aliás, que aula de montagem! Ainda não assimilei a qualidade da montagem, sério mesmo.
Não vou me aprofundar nos detalhes, e nas ligações entre as histórias, porque vocês já fizeram isso muito bem. Esse filme daria uma bela dissertação de mestrado: tem material para analisar por muito tempo!

Carlos:
Os motivos de eu ter gostado são os já colocados por vocês. A montagem do filme é algo tão impressionante que chega a ser irritante. Como colocaram o Daniel e Cássia, são tantas rimas, tantos raccords que para analisar eu precisaria assistir ao filme mais umas quinze vezes.

TRILHA SONORA

Lucas Lago:
Não consegui evitar de comentar…
A parte que mais me impressionou foi como a trilha acompanha essa ideia central do filme, sempre retrabalhando os mesmos temas. Da mesma forma que o filme sempre retoma a mesma temática em sua narrativa, a trilha faz o mesmo em todas (ou praticamente todas) as músicas.
Sempre com alguma nota diferente – mais divertida, mais densa, mais romântica –, mas sempre ao redor de dois temas centrais.
Desculpa não participar sempre, e quando participar colaborar com tão pouco… mas como ninguém tinha falado isso, resolvi destacar.

Carlos:
Bem observado. Acho que você deveria participar sempre.

MAQUIAGEM

Mau:
Agora uma coisa digna de nota no filme (negativa, diga-se de passagem) é a maquiagem.

Daniel:
Algumas ficam extremamente boas, como o Sixsmith velho, o Dr. Henry Goose e Old Georgie, mas não dá pra engolir a versão asiática do Hugo Weaving ou o resultado final da Tilda, por exemplo.

Mau:
No geral as maquiagens são extremamente caricatas, e em alguns casos ela consegue ser ainda ridícula, como quando somos apresentados a um Hugo Weaving coreano : / (como o Daniel também comentou).

Cássia:
Também concordo sobre a (má) qualidade da maquiagem. Não só, a caracterização também, algumas perucas ali eram de doer.

Banzai:
Confesso que também achei feias, mas achei elas propositais. Para que pudéssemos conectar as “almas” dos personagens viajando pelo tempo, teríamos que reconhecê-los e uma forma fácil foi essa maquiagem tosca. Hugo Weaving coreano me lembra um outro filme, o novo Anjos da Lei, que tinha uma imagem de Jesus Coreano rsrsrs.

CONCLUSÃO

Carlos:
É, enfim, um filme de dimensões épicas, que para mim foi extremamente injustiçado pelo público (e pelo Mauricio 😉 ).

Mau:
Gentes, eu falei antes e repito, a parte técnica do filme (raccords, rimas, montagem) é impecável. Até a ideia por trás do filme é excelente, como vocês mesmo colocaram bem. Meu problema é com o jeito como ele foi executado e com as histórias escolhidas para isso.
Para mim, esse filme e Nosso Lar disputam cabeça a cabeça. E vou mais além com relação às histórias dizendo que os irmãos Wachowski foram tão preguiçosos que não se deram nem o trabalho de inventar uma história original na parte futurista, puxa, eles reciclaram a trama do Matrix!!!

Daniel:
Mauricio, eles reciclaram uma história do Matrix mas criaram outras cinco no mesmo filme. 😉
E, de qualquer maneira, não vejo essa reciclagem como falta de originalidade. As propostas dos filmes são diferentes, então eu não me incomodo com isso (até porque não tinha notado as semelhanças). Sem querer ser chato, mas talvez o fato de você já ter ido esperando algo-ruim-dos-criadores-de-Matrix tenha atrapalhado a experiência. Não que seja inadmissível não gostar do filme, pelo contrário, eu entendo quem não goste, é só uma hipótese. Mas o lado bom depois da tortura é poder falar mal do que não gostou hehe.
As histórias são mequetrefes mesmo, mas acho que essa é a questão que todos comentamos: são histórias pequenas porque as nossas histórias também são, e no fundo são elas que importam e convergem em histórias maiores que mudam o rumo das coisas.

Carlos:
Creio que esse será um daqueles filmes reconhecidos tardiamente. Daqui a uns vinte anos vão fazer uma lista e dizer que esse foi o GRANDE filme do início do século, que ninguém prestou atenção.

Daniel:
Carlos, também acho que o filme será reconhecido mais pra frente, porque hoje dá até dó. O que tinha de gente reclamando no cinema não é brincadeira. Quando o filme acabou, uma turma de meia dúzia de jovens chegou a virar para um outro e comentar: “Nunca mais deixamos você escolher o filme!” haha. Curiosamente, o Pablo comentou sobre o reconhecimento tardio de outro filme dos Wachowski, Speed Racer, e concordo com ele nesse caso também.

Mau:
Se a Cássia achou uma tortura o Dr. Fantástico, veja pelo lado bom, pelo menos ele era curto, Cássia. Eu passei batido por esse filme no cinema depois de ver o trailer, e vejo que não sairia feliz do cinema se tivesse ido na época. Esse sim teria sido uma tortura, e longa. 🙂

Cássia:
Mauricio, eu havia imaginado que assistir às três horas desse filme seria uma tortura para você. Especialmente porque você não queria assisti-lo. Pense no lado bom: já passou! Hehehehe.

DETALHES

Carlos:
Espero que no futuro eles lancem alguma edição recheada de extras sobre o filme, porque o Blu-ray atual não trouxe muita coisa. Creio que em razão do insucesso do filme.

Daniel:
Puxa, peguei o Blu-ray de A Viagem umas semanas atrás justamente pra ver os extras e descubro agora que tem pouca coisa. Uma pena. =/
Dois detalhes sobre os quais fiquei em dúvida e não encontrei resposta:
– Não entendi se o fato de a parte que faltava do diário de Ewing estar calçando uma mesa é importante ou não.
– O que teria sido A Queda? Talvez eu tenha deixado escapar alguma explicação oculta, mas fiquei curioso pra saber como a humanidade chegou no estado em que vemos o povo de Zachry, com dialetos diferentes, monumentos antigos cobertos de vegetação e tudo mais. Até cogitei que tivesse algo a ver com a inundação de Seul comentada por Hae-Joo, mas não acho que tudo sumiria assim tão fácil.
Por último, um detalhe que gostei muito: a cena do sonho em que Sixsmith e Frobisher quebram a fronteira entre barulho e som e fazem música estraçalhando porcelana. Muito lindo de ver.

Nós, o Oscar e o Twitter

Como todo bom cinéfilo sabe, ontem aconteceu a entrega do Oscar 2014. Durante a cerimônia, nós nos encontramos no Twitter para comentar sobre os prêmios e utilizamos a hashtag #CC5noOscar.

Aqui estão os nossos comentários.

@daniel_maduar @tuitedoMau @cassiapires @cadugoette A postos, pessoal? #CC5noOscar

@cassiapires @daniel_maduar @tuitedoMau @cadugoette Sim! o/

@cadugoette Já estamos na sala de imprensa. @cassiapires, @daniel_maduar e @tuitedoMau Me acompanham.

@cassiapires Eu acho transmissão de tapete vermelho uma coisa enfadonha…

@cassiapires Começou!

@cadugoette Tá todo mundo laranja na platéia ou é impressão minha?

@daniel_maduar Que comecem as injustiças! \o/

@cassiapires Minha torcida era pro Michael Fassbender, mas o Jared Leto tá bem também…

@cassiapires Jared Leto, você me ganhou com todo o final do seu discurso.

@cadugoette Jared Leto leva o prêmio de ator e vocalista. Fosse aqui, Evandro Mesquita seria o favorito.

@daniel_maduar Feliz com a vitória do Jared Leto, mas 25 minutos pra um prêmio é de matar.

@tuitedoMau To no meio do mato e justo hoje resolveu acabar a energia : ) mas já to no ar!

@tuitedoMau Indiana Jones no palco.

@cassiapires “Trapaça”, o grande embuste entre os indicados.

@cassiapires “Dallas Buyers Club” é bom e “O lobo de Wall Street” merecia um reconhecimento muito maior.

@daniel_maduar Prefiro “Ernest & Celestine”, mas Frozen não foi nenhuma surpresa.

@cassiapires Gostei dessa homenagem aos “heróis de verdade”, às pessoas que realmente fazem alguma diferença na vida dos outros.

@tuitedoMau Gravidade, sem surpresa.

@cassiapires Se “Gravidade” não ganhasse de efeitos visuais, néam?

@tuitedoMau Gravidade vai levar todos os técnicos, mas minha torcida está no prêmio de direção.

@daniel_maduar Gravidade para efeitos. Merecido, claro.

@cassiapires Minha música preferida entre os concorrentes: “The Moon Song”… ❤

@cadugoette Devo confessar que eu namoraria a Samantha fácil.

@tuitedoMau Karen O cantando de vermelho. Entendedores entenderão. [Quem quiser entender também, aqui.]

@daniel_maduar Putz, Martin Freeman num dos curtas! Vou ter que ir atrás depois.

@cassiapires Minha torcida era para “The Square”.

@daniel_maduar Não consegui ver todos, mas gostei muito de A Caça.

@cassiapires “Nebraska” é extremamente sensível, “Her” é espetacular e “Gravidade” é o meu filme do coração entre os nove indicados.

@tuitedoMau Lembrando a época em que o U2 era uma banda boa e não essa chatice sem tamanho.

@cassiapires O melhor selfie, hehehe. [Este aqui.]

@tuitedoMau Gravidade. Mais um.

@tuitedoMau Não perde a conta.

@cassiapires Os dois prêmios de som para Gravidade. Não entendo lá muito do assunto, mas é um trabalho sensacional.

@cadugoette Eu não achei a Lupita isso tudo.

@cassiapires Uuuufa! Lupita Nyong’o, como eu torci por você!

@daniel_maduar Bonito discurso da Lupita.

@cadugoette Sério. Eles cortam discurso, homenagem e tudo o mais. Mas deixam essa pizza rolando?

@tuitedoMau Só no Brasil as coisas acabam em pizza e com classe.

@cassiapires Não entendo por que as atrizes usam vestidos que impedem que elas andem normalmente…

@tuitedoMau Homenagem não programada ao Harold Ramis.

@cassiapires Eu estava torcendo por “Gravidade” em melhor fotografia… Que trabalho bem-feito!

@daniel_maduar Gravity fazendo a rapa.

@cassiapires Um bom montador é o trabalhador anônimo que torna um filme um… filme.

@cassiapires Sério que acertei o prêmio de melhor montagem? “Gravidade”, você tá com tudo hoje!

@cassiapires Não acredito que “O mágico de Oz” apareceu no Oscar. ❤

@cassiapires Aliás, é sobre ele (em filme e livro) que falarei no meu próximo texto no Cineclube dos Cinco.

@tuitedoMau Pink cantando “Somewhere over the rainbow”. Para o mundo que eu quero descer.

@tuitedoMau Oba. RT “@cassiapires: Aliás, é sobre ele (em filme e livro) que falarei no meu próximo texto no Cineclube dos Cinco.”

@cadugoette Enfim, eu gostaria de Scarlett Johansson levando por melhor coadjuvante. Entre as indicadas, não sei dizer. Mas a Lupita não.

@cadugoette E eu acho que o DiCaprio deveria levar o Oscar de melhor ator. Por Gatsby.

@cassiapires Como eu admiro o trabalho do pessoal de design de produção.

@cadugoette É impressão minha ou até o Gatsby ganhou mais Oscar que Trapaça?

@cassiapires Aí está uma grande injustiçada no Oscar, a Glenn Close.

@cassiapires Homenagearam o Eduardo Coutinho! Chorei agora…

@cadugoette Coutinho.

@cassiapires Como eu gosto de assistir e ouvir a Bette Midler se apresentar.

@cassiapires Não assisti a “Philomena”, tampouco a “Capitão Phillips”. E “12 anos de escravidão” é o filme que todo mundo deveria assistir.

@cadugoette Acabei de assistir a “Philomena”. É bom, mas longe de ser merecedor de Oscar.

@cadugoette Música gritada. Odeio.

@cadugoette Trilha sonora de Gravidade é perfeita.

@cassiapires Frozen bateu o U2? Por essa eu não esperava…

@daniel_maduar Tô indo bem: acertei 7 e errei 1.

@cassiapires As minhas categorias preferidas desde sempre: as duas de roteiro.

@cassiapires Era a minha escolha de roteiro adaptado, “12 anos de escravidão”.

@cassiapires Academia, roteiristas não usam mais máquinas de escrever, tudo bem?

@cassiapires O roteiro original de “Her” é uma pérola!

@cadugoette Trapaça é oficialmente o maior perdedor de todos os tempos.

@cassiapires Spike Jonze, me abraça! Quando crescer quero ser você.

@daniel_maduar Êta, surpresa boa! Fico feliz de ter errado.

@cassiapires É agora, Cuarón!

@cassiapires David O. Russell não deveria estar aí, sinto muito.

@cadugoette Agora o David O. Russell ganha e quebras as pernas.

@cassiapires Aeeeeeeeeeeee! Grande Cuarón!

@daniel_maduar YES! Go, Cuarón!

@cassiapires Como eu gosto da Sandra Bullock, nossa!

@cadugoette Nenhuma zebra até agora, não é?

@cadugoette Aí a Sandra Bullock ganha e vira a zebra da noite.

@cassiapires A fofice de Amy Adams a atrapalha demais nessa vida…

@cassiapires Cate Blanchett é atriz de primeira grandeza, não há o que discutir.

@cassiapires Mas há um pedacinho do meu coração que daria o prêmio pra Sandra Bullock.

@cadugoette Um pedaço enorme no meu. RT @cassiapires: Mas há um pedacinho do meu coração que daria o prêmio pra Sandra Bullock.

@cassiapires É isso, Cate! Tá na hora das telas mostrarem as mulheres, como deve ser.

@cassiapires Na verdade, Matthew ganhou por “Dallas”, “O lobo de Wall Street” e “True Detective”. Virou ator de verdade.

@cassiapires Fique tranquilo, Leonardo DiCaprio, sua hora vai chegar.

@daniel_maduar Aproveitem o embalo e assistam à série True Detective, com o Matthew. Sério.

@cassiapires Melhor filme, tchanãnãnã…

@daniel_maduar Como eu quero errar minha previsão…

@cassiapires Ganhou o filme que eu achava que deveria ganhar, “12 anos de escravidão”. Mas como eu queria que “Gravidade” ganhasse…

@cassiapires Brad Pitt, você é tão lindo que dói!

@cadugoette “Gravidade” é o melhor filme do ano. “12 anos” é o mais relevante. Escolheram o mais relevante.

@cassiapires Para terminar, “Trapaça” não levou NA-DA! Estou orgulhosa de nós, @cadugoette, @daniel_maduar e @tuitedoMau.

@cassiapires Por fim, @cadugoette, @daniel_maduar, @tuitedoMau e @deagoliveira, obrigada pela companhia. =)

@daniel_maduar Meu placar final: 11 acertos e 3 erros.

***

Perdeu a premiação? A lista de todos os vencedores está aqui.

Cinema on the Rocks | Ela

Ficha técnica:

Ela (Her)
Ano: 2013
Direção: Spike Jonze
Roteiro: Spike Jonze
Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johansson e outros.

Spike Jonze tem se mostrado um dos melhores diretores desta geração. Com filmes como “Quero ser John Malkovitch” e “Adaptação” em seu currículo, ele nos traz agora o “Ela”, que também concorre ao Oscar de Melhor Filme em 2014. Uma tocante história de amor entre um homem e o sistema operacional de seu novo computador, um sistema de inteligência artificial desenhado para aprender e evoluir com suas interações.

SPOILERS deste ponto em diante.

Joaquin Phoenix interpreta Theodore, um escritor com um trabalho diferente, escrever cartas para os outros, numa versão futurista da personagem de Fernanda Montenegro em “Central do Brasil”. Tendo acabado recentemente um relacionamento, suas maiores interações sociais se dão com os vizinhos em eventuais encontros no elevador. Por isso, toda vez que escreve uma carta por alguém ele esboça uma expressão de felicidade em seu rosto como, se de certa forma, ele é quem tivesse vivido determinada experiência.

Até que Samantha entra em cena. Interpretada pela “voz” da Scarlett Johansson (e se você assistir à versão dublada vai perder todas as nuances que a voz rouca da atriz consegue transmitir à personagem) ela vai se relacionando cada vez mais profundamente com Theodore, e com ela mesma, conforme ela vai adquirindo cada vez mais consciência a respeito dela, a respeito dele e do mundo em que vivem.

Spike Jonze consegue construir um universo totalmente crível, de tal forma, que acompanhamos nada menos que uma história de amor. Em nenhum momento nos questionamos sobre o alvo do relacionamento, ao contrário, nós o aceitamos de forma normal (será isso um reflexo do nosso relacionamento cada vez maior com nossos smartphones?). Somente quando um elemento desse universo questiona o relacionamento é que nos damos conta do que estamos presenciando. E assim como Theodore, já estamos tão envolvidos nesta relação que isso não é suficiente para nos trazer de volta à “realidade”.

Mas, assim como nem todos os relacionamentos possuem um final feliz, o de Theodore e Samantha infelizmente também passa pelo ciclo: se conheceram, se apaixonaram, se amaram, se separaram…

E é em uma cena logo no início do filme que o Spike Jonze nos mostra todos estes elementos ao som de “Off you”, uma música do The Breeders. Não ouvimos um trecho específico da música, e sim uma edição para reforçar, e destacar, quatro elementos que o diretor vai nos transmitir ao longo do filme.

“…
I’ve laid this island sun a 1000 times

Fortune me
Fortune me

I am the autumn in the scarlet
I am the make-up on your eyes

I land to sail
Island sail
Yeah, we’re movin
…“

O primeiro é o de que Theodore é uma ilha. Após o término de seu relacionamento, ele se torna uma pessoa introspectiva e solitária. Sua única amiga mais próxima, ainda da época de seu relacionamento, pede para ter o antigo Theodore, o alegre, de volta. Por vezes tão deprimido, ele até pede para seu celular tocar uma música melancólica (justamente a “Off you”) enquanto volta para casa. Quando não está trabalhando, ele está isolado em seu apartamento com seu videogame. Até que, por sorte, ele esbarra na propaganda do novo sistema operacional que desencadeia toda a história do filme.

O segundo é relativo ao escarlate, ou vermelho, que é a cor que compõe as roupas do Theodore (isso é bem acentuado no cartaz de cinema do filme). O vermelho é associado ao amor, à paixão. Vemos que Theodore era muito apaixonado pela sua ex-esposa e o rompimento com ela deixa um espaço nele que precisa ser preenchido, mesmo que ele se mantenha isolado do mundo na maioria do tempo. Além disso, o vermelho representa também a motivação para o recomeço.

Que nos leva ao terceiro elemento, o outono. A estação do ano é o que nos lembra que, às vezes, precisamos cair para nos levantar. O ciclo de um relacionamento pode culminar em uma separação, mas o que importa é que isso nos fortaleça e nos deixe prontos para encontrar a próxima pessoa, mesmo que, no caso do Theodore, essa pessoa seja um sistema operacional.

E por último, ainda que o ciclo infinito das estações do ano represente o ciclo do relacionamento, o último verso da música está lá para lembrar ao Theodore, e a nós também, que não devemos nos acomodar, devemos continuar nos movendo, pois uma hora encontramos a pessoa certa e encerramos esse ciclo.

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

P.S. Na indisponibilidade da cena em questão, deixo vocês com uma apresentação ao vivo da música que a acompanha.

Mau
http://www.twitter.com/tuitedoMau

Filme 19 | Os Imperdoáveis

Ficha Técnica:
Os Imperdoáveis (Unforgiven)
Ano: 1992
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: David Webb Peoples
Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman e outros.

Escolhido por: Banzai.
Discussão com início em: 11/07/13

Banzai:
Eu já havia assistido Unforgiven antes, assim como todos os filmes que eu havia indicado. O motivo de querer discuti-lo é o fato de eu não ser o maior fã do mundo do gênero Western e mesmo assim esse filme ter me fascinado. Eu estava preocupado, pois muitos filmes que me fascinaram, ao rever após o curso do Pablo, deixaram de ser tão fascinantes (Coração Valente foi um deles), mas com Unforgiven felizmente isso não aconteceu e tentarei explicar o porquê.

FILME

Banzai:
O filme claramente trás todos os aspectos de western que conheço, mas com um equilíbrio bem aceito em nossa época, ou seja, com bom senso 😉 o mistério sobre os personagens consegue prender a atenção com eficiência, pouco sabemos sobre eles. O conhecimento é apresentado linearmente, sem enrolar ou ir rápido demais, tive a vontade de desenhar um gráfico sobre rs…

Carlos:
Primeiro, vou confessar que tive um pouco de dificuldade para pegar a sacada do filme.
Creio que a principal dificuldade venha do fato de não estar familiarizado com o gênero. Vou confessar que eu NUNCA vi um Western. Esse foi o primeiro e, convenhamos, creio que ele seja um pouco diferente.
Mas, pelo que entendi, “Os Imperdoáveis” é um epílogo do gênero Western. Lá pelo meio do filme entendi isso, quando vi que todos os “cowboys” eram velhos. O Xerife, o pistoleiro inglês (mentiroso pacas), o Ned e o Will. O único mais novinho é o Schofield Kid. E, vejam só, ele é quase cego. Uma ótima dica sobre o que o Clint pensa das novas gerações, não?
Assim, passei a entender o filme como um revival de banda antiga.

Daniel:
Gostei muito do filme, de verdade. Assisti a poucos filmes do gênero, mas diria que este foi o que mais gostei. Tanto no roteiro quanto na direção.
O Banzai falou sobre a linearidade e velocidade de desenvolvimento da história, e isso também me chamou bastante atenção, em dois sentidos. Durante boa parte do filme, acompanhamos dois “núcleos” de personagens (Will e sua turminha que “apronta de montão” [segundo o Banzai hahahaha] e o pessoal da cidade Big Whisky, e ambos nos são apresentados separadamente e com calma, mas conectados pelo mesmo acontecimento. Pelo menos em mim, saber que inevitavelmente os caminhos de todos se cruzariam gerou uma ótima expectativa com um pouco de tensão, que culminou na ótima cena que Will toma aquela surra enquanto somos obrigados a encarar todos no bar a partir de um ângulo baixo, nos aproximando de Will e tornando os agressores mais ameaçadores. Ainda sobre o ritmo do filme, imagino que não tenha me aborrecido por este ser um western relativamente recente, pois os outros que vi eram antigos e um pouco arrastados (sempre me lembro do curso, quando o Pablo falou sobre a evolução dos filmes e exibiu várias cenas de um mesmo filme que só mostravam o personagem se deslocando, o que alongava desnecessariamente a coisa).
Carlos, gostei da sua leitura de “epílogo”, e o fato de o filme ser mais recente do que os antigos e consagrados filmes corrobora isso. Só não acho que o Kid ser “cego” realmente tenha algum subtexto de crítica às novas gerações, como vc colocou.

Cássia:
Li as análises de vocês e resolvi ir por um outro viés. Enxerguei o filme sob outros aspectos e, para variar, lá vou eu fugir das questões técnicas ou das características que definem o gênero de um filme. Aliás, não lembro dos westerns que assisti, provavelmente eu vi com meu pai, quando criança.
O filme me pegou logo no começo. Ver uma mulher sendo retalhada e depois ouvir que “tragam uns potros e tudo certo” fez o meu sangue ferver. Mulheres foram comparadas com potros. Uma moça foi retalhada e não houve um pingo de revolta da parte de ninguém. Afinal, ela é prostituta, “uma mercadoria” como disse o dono do bar. Eu não sou vingativa, mas não por ter um grande senso de compaixão. O cinema e a literatura me salvam. Ou seja, o que eu mais quis foi que os dois fazendeiros tomassem uma bala no meio da testa.

FOTOGRAFIA

Banzai:
A fotografia é super coerente, tem aquelas regras que todos sabemos sem inovar, mas não falha em momento algum, as composições com N cowboys apontando armas situam com facilidade o quão “fudido” está o cara, as cenas mais escuras com close nas expressões ou falta de expressões do Clint Eastwood, tudo muito bem executado. Toda a fotografia do filme é bem harmonizada com o roteiro, ex: quando ainda não sabemos quem é o Ned, só temos a certeza quando seu rifle Spencer aparece sobre a sua cabeça, e lá temos o recado a lá Sessão da Tarde sobre “esse cara apronta de montão e causa muita confusão no velho-oeste”.

Carlos:
Também percebi a fotografia do filme. Prestei muita atenção para entender as mensagens da luz usada em cada cena. Mas não peguei nenhuma (:DD). Seja lá o que a fotografia queria me dizer, não entendi. Claro, peguei a mensagem do rifle na cabeça do Ned, citada pelo Banzai, mas não evolui muito além disso.

Daniel:
A cena que o Banzai citou com a arma aparecendo acima da cabeça do Ned é realmente eficiente, e além disso, a sequência na casa dele serviu para nos mostrar as diferenças entre os personagens. Ned já não parece estar na melhor das situações, e ainda assim vejam como as cenas na casa dele são muito mais iluminadas e claras que as cenas na casa de Will. Essa comparação já mostra a situação péssima de Will, tanto financeiramente quanto emocionalmente, e nos ajuda a entender o porquê de ele estar querendo fazer o que vai fazer.

MONTAGEM

Carlos:
Tenho pouco a acrescentar sobre o que o Banzai já falou, sob o aspecto cinematográfico. A única coisa que achei especialmente estranha foram alguns takes super rápidos, sem qualquer explicação. Lembro de dois em especial. Um quando Will está conversando com Delilah e outro quando o pistoleiro inglês preso e olha para o xerife, naquela conversa sobre o escritor segurar a arma. No último caso, a cena tem um take extramente rápido para mostrar a câmera na perspectiva do prisioneiro. Mas isso é incompatível com a movimentação do próprio sujeito, que está se arrumando devagar na cama. Será que foi para mostrar que, apesar de se mover devagar ele estava pensando rápido? Seja como for, não funcionou para mim. Provavelmente fruto da minha incompetência, pois o filme ganhou o Oscar de melhor montagem.

Daniel:
Não reparei nos takes rápidos mencionados, mas aproveito o gancho sobre a cena na prisão para falar da combinação da mise-en-scène e da fotografia. Achei absurdamente sensacional o domínio que o Little Bill tem sobre a situação mesmo entregando uma arma carregada para o Beauchamp. Fica claro que em momento algum ele corre perigo, pois está de pé dominando o lado direito do quadro e vemos apenas a cabeça de Beauchamp lá embaixo no cantinho esquerdo. Além disso, quando surge a ideia de dar a arma para Bob, eu pensei “agora ferrou, por essa ele não esperava”, mas Bill nem mesmo hesita e parece querer apenas uma desculpa para matar Bob.
A rima visual entre a cena que abre o filme e a cena final.

Mau:
Bonita, não? Em ambas a árvore ocupa o lado direito da tela dando aquela impressão de solidão deixada pela mulher do Will.

Daniel:
Mauricio, verdade. Notei a rima visual mas não que a árvore está no lado “mais forte” do quadro.
Duas coisas que não gostei e achei que mereciam mais cuidado:
– Depois de matar o cara na privada, na hora em que Will e Kid estão fugindo dos amigos do morto, tem um plano no qual cada um está atirando pra um lado. Pode parecer besteira, mas é muito óbvio e constrangedor.
– A outra cena é justamente o clímax, no tiroteio final. Acho a montagem ali muito ruim. É difícil perceber o que está acontecendo, e do jeito que ficou, é absurdo pensar que ninguém teve tempo de acertar um tiro no Will. Em vez de passar a impressão de que o Will que é fodão e rápido, o que seria o certo, fica parecendo que os outros é que são péssimos e ficaram esperando levar tiro. Podia ter ficado MUITO melhor.

ROTEIRO

Banzai:
Já o roteiro, é superficialmente bobo, simples. Um homem bonzinho e pobre, junta o útil ao agradável para ajudar as prostitutas que defendem a honra de uma colega. Mas há várias nuances que fazem com que isso não fique tão óbvio, no começo sabemos que Will Munny era um criminoso, o tempo todo é dito que ele é algo que ele não demonstra ser. Ao mesmo tempo, a inclusão de um personagem que é iniciante faz com que você passe a aprender o que um cowboy deve fazer, quais requisitos, quais tarefas mais comuns, etc etc. O filme parece uma aula de como ser cowboy e por incrível que pareça é didático até poucos minutos antes do final…
Mas por que os últimos minutos não têm mais didática?
A atuação do Mr. Eastwood é como se fosse tudo explicado até aquele momento se concentrasse numa pessoa. Quando ele entra para vingar a morte do Ned (Stark??! lol) parece o robô dos Power Rangers, O Captão Planeta dos cowboys! rsrsrsrs Para mim a cena é tão bem feita que eu me senti uma das pessoas tomando a cerveja ou salsa parrilla junto de todos que estavam se borrando. A fala: “Quem não quiser morrer, saia pelos fundos…” serve só pra fechar a boca depois dele matar 5 pessoas sem ao menos se arranhar…rsrsrs…continuo impressionado com o clima, a tensão reproduzida ali…enfim, nota 10 para essa cena final.

Carlos:
… sobre o roteiro, não concordo com o Banzai sobre a simplicidade. O Will é uma personagem muito complicada.

Mau:
Já eu não concordo com o bobo. Acho sim que o roteiro é simples, e por isso a história pode ser bem contada. Sem firulas ou complicações, simplesmente isso.

Banzai:
Me expressei mal, não foi pensando em bobo de bobagens e etc., apenas que é uma história simples (superficialmente) mas com um objetivo claro, acho que isso me fez achar bobo. Normalmente ninguém sabe exatamente o que quer, mas no caso desse filme é simples: querem os 1000 dólares.

Daniel:
Já sobre o roteiro, vou concordar com o Carlos e o Mauricio. Também acho que é complexo disfarçado de simples (…) um comentário rápido sobre a morte dele: gostei muito da forma como descobrimos que ele está morto. Foi um choque inesperado e o fato de não termos o acesso à informação na hora em que acontece diminui a “onipresença” do espectador e torna a coisa mais real.

PERSONAGENS

Carlos:
Portanto, para mim ele é o cara mau que está em uma fase boa, mas tem saudades dos bons tempos. Lembram-se do Henry de “Os Bons Companheiros” e como ele sentia saudade dos “good old times”. Creio que, no fundo, Will não era muito diferente e, assim, na primeira oportunidade, ele voltou para “ativa”.
O arco dramático de Will começa com a saída de casa e intensifica-se na hora que ele toma a surra e precisa se recuperar. Viram como a cena fica fria “como a neve”, quando ele está doente? A mesma expressão que Kid usa para defini-lo no inicio do filme. Depois a mudança avança quando ele precisa matar uma pessoa pela primeira vez depois de mais de dez anos e, por filme, inverte-se de vez quando ele toma a bebida ao saber da morte de Ned.
E quando a transformação está completa, o filme finalmente vira um velho oeste típico, inclusive com a cena impossível citada pelo Banzai, na qual Will mata 5 pessoas ao mesmo tempo, com um revólver. O mesmo cara que, alguns dias antes, não acertou uma latinha com os mesmos cinco tiros.

Mau:
Essa foi uma opção audaciosa que me agrada e desagrada ao mesmo tempo. Audaciosa e que me agrada, porque o gênero do western sempre é lembrado pelos desertos, ambientes quentes e calorentos e por isso essa opção por vermos os cowboys cheios de roupa de frio, e também refletindo a condição do Will me agradou bastante (o mesmo vale para as várias sequências que ocorrem à noite). Mas ao mesmo tempo me desagrada por parecer que foi forçado justamente para se mostrar, pois fica fora do contexto temporal do filme. Num dia está sol, no outro tudo coberto por neve e no seguinte tudo vira um deserto calorento de novo. ; p

Banzai:
Notei a neve e fiquei meio incomodado com o fato de ter nevado em 3 dias e tudo ter se resolvido, inclusive a neve derretido. Mas deixei passar, furo de continuidade ou brincadeira do roteirista?
Maurício, eu acho natural a neve (mesmo ela não aparecendo em outros filmes), Django tem neve, talvez seja características dos novos Westerns rsrsrs.

Daniel:
O Carlos falou também do “fria como a neve”, e nem acredito que deixei mais essa passar. Na hora achei meio estranha toda aquela neve, mas logo deixei pra lá e não voltei a pensar.

Carlos:
(Só que os três devem ser o trio de “cowboys” mais incompetentes do velho-oeste. Um refuga o tiro na hora “h”, outro não sob no cavalo e o último não enxerga.).

Mau:
Vejo isso como uma tentativa de humanizar as personagens. Ok, eles são matadores super fodões, ele mata mais de cinco sozinho num bar, mas toma um coro dos porcos, enquanto o outro reclama da mulher e etc.

Banzai:
Hhuahuaha, perfeito, isso mesmo. Fico pensando como seria se ele bebesse whiskey pra cuidar dos porcos! rsrsrsrs

Carlos:
(Will) O homem redimido. Ou melhor, domado. Não creio que ele tenha sido o “homem bonzinho”. O homem bonzinho não teria ido embora e abandonado os filhos sem olhar para trás. Veja a frieza com que ele deixa as crianças. E fala para elas se cuidarem. Acho que nem se fosse o cachorro do vizinho eu resolvia aquilo tão tranquilamente.

Mau:
O Will é sim uma personagem complexa como o Carlos citou, mas isso é uma nuance da simplicidade da história, que da a liberdade para se concentrar na personagem do Eastwood.
Nem redimido e nem domado, para mim ele estava ainda tentando se convencer de que ele não era mais aquela pessoa. Até a metade do filme ele fica repetindo essa fala, como se fosse um mantra que nem ele tivesse aceitado, ou ainda não acreditasse nisso. E a cena em que eles estão conversando em volta da fogueira me deixou isso muito claro. Ali o rosto do Will está no ponto de fuga da tela, toda escura e só a parte da frente do seu rosto iluminado e é como se fosse um momento de introspecção, como se ele falasse novamente para não se deixar esquecer: “Eu não sou mais aquele homem”.

Daniel:
(…) a interpretação que o Mauricio teve da cena da fogueira foi idêntica à minha, e ele colocou de forma sensacional! Fica muito claro que ele repete que não é mais aquela pessoa pra tentar SE convencer daquilo, mas no fundo ele sabe que sua natureza continua igual, apenas adormecida. Pelo menos até a morte do Ned.
No começo, quando Will conta pro Kid que a mulher faleceu, gostei muito do olhar que o Clint dá para a árvore onde ela está enterrada. Um gesto bem simples, mas elegante.
As personagens femininas são fortes, e isso é raro e muito bom. Mesmo com todo o machismo da época (o dono do bar se refere a elas como mercadorias), em momento algum elas abaixam a cabeça, e seguem firmes no que acreditam. A força delas fica ainda mais evidente por sempre estarem de branco, mesmo que sejam prostitutas. Decisão corajosa.
Sobre o personagem Little Bill, é interessante que ele esteja sempre querendo “construir” uma cidade melhor (assim como tenta construir a própria casa), mas não perceba que está fazendo do jeito errado (daí as falhas na casa dele, goteiras, etc.). Ele é um sujeito de bons princípios que quer o bem de todos, mas sua raiva dos criminosos acaba levando ao abuso de poder. Ele tenta fazer o bem do jeito errado e acaba pagando com a própria vida, numa cena que me lembrou muito o final do Tropa de Elite (só faltou o “Na cara, não!”). Quando ele fala, antes de morrer, que estava construindo uma casa, acho que ele se referia à cidade. Vocês torceram para que o Will o matasse?

Cássia:
Discordo totalmente que Little Bill é “um cara de bem”. Ele é o xerife, se comporta como o dono da cidade e não perde a chance de mostrar quem manda. Ele insistia em falar “pato” em vez de “duque”, como se dissesse: “Se eu falei que é PATO, será PATO e fim.” Sem falar que os pobres rapazinhos são “rapazes de bem que fizeram besteira”. “Eu faço é prostitutas correrem”. Ah, sim, ele dá surra nos homens de fora que chegam à cidade. Mas quando é um homem negro, ele amarra na cela e usa a chibata. Sem falar que o espancou até a morte e o colocou num caixão aberto, para todo mundo ver. Se eu torci pela morte de Little Bill? Eu disse para o Will “ATIRA LOGO!” e ele me ouviu prontamente.
Vocês também não comentaram sobre um ponto crucial do filme: a esposa do Will. É a sua lápide que abre e fecha o filme. Se o Will não mudou sua natureza, porque ninguém muda a sua essência, ele a abafou por conta daquela mulher. Ele deixou de matar por ela. Ele deixou de beber por ela. Ele não dormia com prostitutas, mesmo sendo um homem viúvo, em respeito a ela. Há homens que sequer respeitam as esposas vivas, que dirá se já morreram… Por conta dela, ele criou um senso de moral que passou a guiá-lo ao longo da vida. Sim, ele era frio, inclusive com os filhos, mas não significa que ele não se importasse. Aliás, o “gatilho” para ele voltar a matar foi o dinheiro. Mas acho sim que ele ficou mexido com o que aconteceu com a moça. Tanto ele quanto o Ned. E foi a morte do Ned que o fez matar geral, mas isso não significa que não houve um grande prazer em fazer aquilo. Lembram de um diálogo em Kill Bill 2 (que não contarei qual é para não spoilear) que deixa isso claro?. Existe aí um senso de moral, da “morte justificada”. Não que eu ache que isso exista na vida, tudo bem? Mas cabe perfeitamente na história.

Daniel:
Ok, só para me retratar porque me expressei muito mal. Rs Eu falei que o Little Bill é um sujeito de bons princípios, e retiro isso. Eu não concordo com nada do que ele fez o filme inteiro. O que eu quis dizer é que ele tem um objetivo “nobre” (acabar com a criminalidade), mas tenta alcançá-lo da pior forma possível. Aproveitando que eu mesmo falei sobre o “Tropa”, ele representa exatamente o que o BOPE é no filme.
Já sobre a morte do Ned, eu que vou discordar. A Cássia parece ter visto racismo por parte do xerife por causa da diferença de tratamento. Não acho que seja assim. Quando o xerife espanca a galera na cidade, é uma forma de reprimir, prevenir que algo aconteça. Mas no caso do Ned, o xerife já sabia que ele havia participado de uma morte e estava tentando arrancar informações. Pra mim ele não fez distinção por ele ser negro, tanto que não seria nenhuma surpresa se o Bob tivesse “acidentalmente” morrido com aquela surra também. Na cabeça do Bill, tudo para proteger a cidade é justificável.

Banzai:
Pois é, pra quem assistiu Django, não houve nenhum preconceito com o Ned, acho até que encobriram historicamente, pois nessa época (15 anos após a libertação dos escravos no US) deveriam usar só termos que nos horrorizariam hoje.

Cássia:
Daniel, sim, entendi que você comparou o Little Bill ao capitão Nascimento, mas foi disso que discordei. Não acho que o seja, nem de longe! Para mim, ele se assemelha ao governador, de “The Walking Dead”. Ele não quer acabar com a criminalidade, ele quer manter aquele lugar, e aquelas pessoas, sob o seu jugo.
Sob a outra questão, não apenas acho que Little Bill é racista (além de misógino), como o filme mostrou o racismo. Só o negro foi para a chibata. Claro que há o contexto do filme, ele foi acusado de assassinato, existe a questão da época, como bem colocou o Banzai, mas a cena me incomodou demais. Demais demais demais.

Banzai:
Também achei ele mais errado que o próprio Nascimento rsrsrs, o nascimento por exemplo torturou a mulher do Baiano, não acho que ele a mataria ahuauhhua. Mas se o Nascimento nascesse naquela época, será que isso não seria normal dele?!

TRILHA SONORA

Mau:
Outra coisa que me desagradou (e bem nesse sentido) foi a trilha sonora. Pontual, ela só aparece em alguns momentos, quando os cowboys estão cavalgando. Parece que ele pensou, bom western tem que ter cenas de cowboy cavalgando ao longe por pastagens desoladas, com uma música de fundo e etc. Dispensável. Além de serem bem ruizinhas 🙂

DETALHES

Banzai:
Encerrando: Por que Munny voltou a ser o que era por alguns instantes? Ele sempre disse que era o whiskey que fazia aquilo com ele, nada mais natural que essa situação ocorresse em Big Whiskey, Wiyoming…

Carlos:
Depois a mudança avança quando ele precisa matar uma pessoa pela primeira vez depois de mais de dez anos e, por filme, inverte-se de vez quando ele toma a bebida ao saber da morte de Ned.

Mau:
A morte do Ned, seu parceiro e única lembrança de sua antiga vida, mexe com ele. Na hora em que ele descobre, ele toma a garrafa de whiskey do Kid e passa a beber já deixando de lado todo o blá-blá-blá e pensando no homem que ele nunca deixou de ser. Outra dica disso é que ao longo do filme a voz dele é meio vacilante e insegura, mas ao entrar no bar como o antigo homem, sua voz tem mais impostação, é mais forte e decidida.

Cássia:
Outro ponto que achei importante foi a não banalização da morte. Parece contraditório, mas pensemos: Ned quis ir embora depois da primeira morte. O Kid se abriu em lágrimas por ter matado alguém. Will matou geral, mas antes teve a “justificativa” da morte de Ned. Aliás, depois disso, ele se mudou com os filhos e seguiu a vida, nunca mais matou ninguém. Inclusive, ele quem diz ao Kid sobre o peso que é matar alguém: você acaba com o que uma pessoa é e com o que ela faria na vida. Isso é bem pesado e é verdade. Não importa o que a pessoa tenha feito até aquele ponto, ela foi morta. Num mundo em que um tiro na cabeça virou coisa corriqueira, ter essa visão nos dá um estalo sobre o real significado da vida de alguém.
Por fim, Will indo embora como paladino da justiça deve ter sido o clímax western, não foi? Hehehehe.

Daniel:
(…) gostei da análise da Cássia, especialmente sobre a não banalização da morte, que me passou despercebida e faz um contraponto interessante com o que vimos em “Os bons companheiros”.

Banzai:
Cássia sempre se expressando muito bem :), e a fala dele no filme, que tirar a vida é tirar MUITA coisa de alguém, é tirar tudo o que a pessoa tem e poderia ter é bem profunda, infelizmente poucos parecem saber disso…

Cássia:
É, Banzai, a vida está a preço de banana. Meu irmão e eu estávamos agora mesmo falando sobre o filme e soltamos juntos um “poutz, aquela frase do Will!”, porque ela é forte demais. É uma daquelas cenas que guardarei comigo.

Mau:
São esses pequenos detalhes que fazem a diferença entre um filme mediano e um bom/ótimo filme…

Banzai:
Reassistir um filme assim é prazeroso também pelas pequenas referências, detalhes. Espero que também tenham curtido!

Carlos:
Caramba, depois da análise de vocês percebi que assisti a um filme diferente. Vocês não ficam com a sensação de que não pegam um décimo do filme? Bom, pelo menos, cada filme que nós discutimos, tenho a certeza que nossa absorção cresce.

Cássia:
Carlos eu tenho a mesma sensação, de ter visto um filme diferente. Na verdade, sinto isso sempre e, assim, ler as análises de vocês sempre me acrescenta muita coisa. Dá vontade de ver o filme novamente.

O livro é melhor que o filme?

“Sem dúvida”, afirmou quem estava com um livro nas mãos. “Há filmes bem melhores que os livros que os inspiraram”, rebateu quem acabara de sair da sala escura. “Nem uma coisa, nem outra”, respondo eu.

Cada arte possui a sua própria linguagem. Há caminhos que apenas os livros podem seguir e aspectos que somente os filmes podem mostrar. Como colocar lado a lado o cinema e a literatura?

“Você escreve sobre cinema, por isso não admite que o livro é sempre melhor!” O meu amor sempre foi da literatura e não lembro de um período da minha vida em que os livros não estivessem presentes. O cinema está comigo desde pequena e lembro com encantamento do primeiro filme que assisti. Eu não preciso escolher entre um e outro. Além do mais, eles caminham juntos há décadas, quem sou eu para separá-los?

O poderoso chefão, E o vento levou, Laranja mecânica, O silêncio dos inocentes são exemplos de filmes mais famosos que seus livros. O iluminado e Bonequinha de luxo estão no meio termo, talvez pelo reconhecimento dos escritores Stephen King e Truman Capote. A trilogia O Senhor dos Anéis seguiu o caminho inverso, transformou vários leitores em espectadores. O exorcista e Clube da luta também são histórias que surgiram nas páginas dos livros. Sem falar em As horas, cujo livro foi inspirado em um outro livro, Mrs. Dalloway.

“O livro é melhor que o filme?” é a nova coluna do blog. Eu analisarei em conjunto as duas obras − livro e filme −, com o objetivo de compreender esse encontro.

Eu prefiro ler o livro antes de assistir ao filme, por este motivo:

“Leia primeiro. Não deixe que o filme estrague o livro.”
Fonte: Ebook Friendly.

Os spoilers existirão não importa qual venha primeiro. Eu escolho o livro. E, mesmo sabendo que muitas vezes há mudanças significativas nas adaptações cinematográficas, eu prefiro não correr o risco.

No começo do texto, contei sobre o primeiro filme que assisti na vida. Qual foi ele? Justamente, a adaptação de um livro: O mágico de Oz.

***

Obras citadas:

As horas, livro e filme.
Bonequinha de luxo, livro e filme.
Clube de luta, livro e filme.
E o vento levou, livro e filme.
Laranja mecânica, livro e filme.
O exorcista, livro e filme.
O iluminado, livro e filme.
O mágico de Oz, livro e filme.
O poderoso chefão, livro e filme.
O Senhor dos Anéis, livros (1, 2, 3) e filmes (1, 2, 3).
O silêncio dos inocentes, livro e filme.

A monstruosa busca pela identidade própria

Mike Wazowski é um monstro. Fofo, miudinho, de bom coração, mas um monstro. Criado em computador para um filme infantil, mas, insisto, um monstro.

Talvez isso tenha sido o suficiente para convencer o leitor quanto à natureza do personagem, mas certamente não é o suficiente para convencer seus companheiros de espécie, que por alguma razão não levam a monstruosidade de Mike muito a sério.

Bú!

De todas as profissões possíveis que um monstro poderia escolher – e, acredite, o universo do filme é crível o bastante para sugerir mais do que um punhado de possibilidades –, Mike foi logo se apaixonar pela profissão de assustador. Para quem não lembra ou não viu Monstros S.A., os monstros fabricam portas que acessam o mundo dos humanos para assustar crianças, cujos gritos são a fonte de energia do mundo dos monstros. Quanto mais assustado for, mais energia o pimpolho molha-cama fornece.

Universidade Monstros marca a primeira vez que a Pixar realiza uma prequel (palavra curta que substitui o termo técnico filme-produzido-depois-que-conta-a-história-que-veio-antes), e assim acompanhamos o desenrolar da relação de Mike e Sullivan quando eles se conhecem na universidade. Longe do amor à primeira vista, os dois se encontram em lados opostos do espectro da popularidade universitária. Sullivan é filho de um famoso assustador e sua aparência o favorece a seguir a profissão do pai, ainda que a sombra de seu sobrenome gere certa prepotência e acabe servindo de esconderijo para uma insegurança inconsciente. Já Mike, que chega a ser chamado de bola de vôlei, não conta com aquele empurrãozinho da genética e tem que estudar e treinar muito para chegar onde chegou (porque, aparentemente, até mesmo a posição dos lábios na hora de um rugido pode influenciar na intensidade do susto de uma criança).

Uma universidade é supostamente um lugar acolhedor, um lugar para experimentar, para falhar e tentar de novo, se descobrir. Um lugar que deveria oferecer um leque enorme de possibilidades e ser aberto para novas ideias e diferentes personalidades. Os universitários, porém, não parecem tão confortáveis com a diversidade e não agem de acordo, e entra em cena o bullying, que é um problema maior nos Estados Unidos (e, consequentemente, num mundo de monstros criado por norte-americanos) do que aqui, ou assim Hollywood faz parecer. Adeque-se ao sistema ou seja esmagado por ele. Dê um só passo para fora da linha e torne-se um alvo visível por todos que nela permanecem.

“Não tão rápido, mocinho. Aonde pensa que vai?”

E é o que acontece com Mike quando entra para uma competição de assustadores para provar seu valor. Tornando-se um alvo ainda maior do que quando era um simples nerd, o destemido monstrinho verde parece possuir uma confiança inabalável. Juntamente com Sullivan e com os também inadequados membros da fraternidade Oozma Kappa, cuja sigla brinca com o status de aceitação do grupo (“eles são OK”), Mike tem que passar por uma série de provas de habilidades físicas e estratégicas, em sequências criativas e divertidas.

Durante a competição, o grande desafio de Sullivan é aprender a respeitar a inaptidão alheia e trabalhar em equipe, enquanto Mike precisa reconhecer suas fraquezas, trabalhar seus pontos fortes e, como líder do grupo, instigar cada um a fazer o mesmo. A sequência que trás a dupla trabalhando junta para superar um obstáculo em particular merece destaque por surgir como uma excelente forma de consolidar uma relação muito bem construída, e ainda estou surpreso com a proeza com que o filme consegue fazer um quarto cheio de crianças se transformar em algo assustador.

O aterrorizante mundo dos homens.

Em tempos que um papel emoldurado na parede com seu nome assinado diz muito mais sobre você do que seu caráter, suas ações e até mesmo sua boca jamais serão capazes de dizer, Universidade Monstros surge como uma fonte inesperada de inspiração. Todos temos algum talento, um ponto forte. Basta encontrá-lo e abraçá-lo; celebrar a particularidade de cada indivíduo. Um brasileiro pode ser um exímio jogador de peteca ou de bocha, mas como descobrir isso se continua se forçando a jogar apenas futebol? Uma mulher pode ser uma cineasta excepcional que não teve coragem de enfrentar o machismo predominante na área. Um homem pode ser um dançarino espetacular que nunca exerceu sua paixão por medo da homofobia.

Quebrar convenções e ultrapassar limites é essencial para o desenvolvimento, o que não significa que a tarefa não exija uma boa dose de coragem e visão. Mesmo que de um olho só.

A árvore

Texto escrito antes da categoria mudar para “O livro é melhor que o filme?”.

* * *

(Há alguns spoilers, mas nada que não esteja presente no trailer do filme.)

A árvore (The Tree), direção de Julie Bertuccelli, 2010.

Morte é ausência. Seja de alguém, de uma situação, de uma condição. Algo deixou de existir e nada será como antes. Pois aí reside a delicadeza do filme A árvore: acontece justamente o oposto, a grande presença em cena é de quem já morreu.

Uma família comum: pai, mãe, quatro filhos, sendo um adolescente, dois meninos e uma menina. Ao lado da casa, há uma árvore tão grande que sua copa cobriu uma parte do telhado, suas raízes invadiram as profundezas da terra. O pai morre subitamente. E agora?

Presente no momento da morte, extremamente apegada ao pai, Simone, a menina, não aceita tamanha perda. Ela acredita que seu pai está presente naquela árvore. Não só, conversa com ele, pendura objetos em seus galhos, dorme ali. Ela não quer deixar o pai ir embora.

Mas a árvore continua crescendo e suas raízes ameaçam derrubar a casa. O que fazer? Deixar as raízes seguirem seu curso e destruírem a morada daquela família ou derrubar a árvore, para desespero da filha?

Ao longo do filme, vemos como cada um dos cinco lidam com a morte do marido, do pai, do esteio daquela família. Mas talvez nossa grande identificação seja com Simone e sua relação com aquela árvore. Todos nós temos árvores que devem ser derrubadas a fim de não destruírem o que construímos. Mas teimamos em não aceitar a perda. Derrubá-la significa reconhecer o fim de alguma coisa. E o que será de nós dali em diante?

Talvez Simone tenha a resposta, quando diz à sua melhor amiga: “A gente pode escolher ser feliz ou triste. E eu escolhi ser feliz. E eu estou feliz.” Quem sabe seja melhor escolher ser feliz, mesmo quando as raízes do passado invadem a nossa vida.

Cinema on the Rocks | As Vantagens de Ser Invisível

Ficha Técnica:

As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower)
Ano: 2012
Direção: Stephen Chbosky
Roteiro: Stephen Chbosky
Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller e outros.

Assisti a este filme de forma totalmente descompromissada. Não havia me informado a respeito dele e, de repente, seja pela história, ou pela ótima atuação do seu trio de atores principais, o filme me cativou de certa maneira que não conseguia parar de assistir. E ficou ainda melhor da segunda vez!

“As Vantagens de Ser Invisível” é um filme escrito e dirigido por Stephen Chbosky (e baseado em seu próprio livro), que nos apresenta a história de Charlie (Logan Lerman) um aluno recém-chegado ao ensino médio, com todos os problemas típicos da adolescência, tentando sobreviver em sua jornada rumo ao ensino superior. Nesse caminho ele encontra os meio-irmãos Patrick (Ezra Miller) e Sam (Emma Watson) que o ajudam a tornar isso possível.

SPOILERS deste ponto em diante.

Reunindo todos os elementos das comédias de adolescentes americanos, o quarterback do time de futebol, os calouros, os veteranos, os trotes e até um diário contendo revelações íntimas sobre alguns personagens, o filme só aos poucos vai fugindo dos estereótipos e se mostrando como um drama, com todas as aflições e problemas que tornam as vidas dos adolescentes tão difíceis. Sabemos que para os adolescentes, mesmo os pequenos problemas são gigantes. Já abordamos isso brevemente em nossa discussão sobre o “Clube dos Cinco“, mas em “As Vantagens de Ser Invisível” essa discussão é levada a outro patamar, ao nos apresentar a situações complexas como abuso infantil e tentativas de suicídio.

Charlie é um garoto inseguro e problemático. Seu melhor amigo se suicidou um ano antes e sua tia, por quem ele nutria uma afeição “especial”, morreu em um acidente de carro quando ele era pequeno e ele se culpa por isso até hoje. Caçula de uma família que gerou um jogador de futebol universitário bem sucedido, tudo o que ele quer é ser “invisível” ao longo dos 1.385 dias restantes até a sua ida para a universidade. E o filme pontua isso de maneira muito interessante, fazendo com que só conheçamos o seu nome após os 10 minutos iniciais do filme, que passamos acompanhando seu primeiro dia de aula.

Já Sam e seu meio-irmão Patrick são bem resolvidos e fazem o contraponto ao Charlie. Sam teve um passado parecido com o do Charlie e, de certa forma, após se conhecerem, ambos tentam recomeçar a sua vida. E é nesse contexto que o rock é utilizado ao longo do filme como se fosse mais um personagem completando o trio principal. Em determinado momento, em um baile na escola, começa a tocar “Come on Eileen!” do Dexys Midnight Runners, e a Sam e o Patrick ficam excitados porque “começou a tocar uma boa música” e correm para para o centro do salão para dançarem. É quando isolado num canto, ao ver a empolgação dos dois e sentindo a vibração da música, o Charlie dá o primeiro sinal de que sua invisibilidade não é desejada, e sim uma proteção, e se dirige para junto deles para dançar também.

Mas tudo culmina na cena que você pode assistir abaixo, quando voltando do baile começa a tocar no rádio uma música que eles não conhecem, mas que é perfeita para a Sam fazer um “passeio” fora do carro ao atravessarem um túnel. A música que eles desconhecem é, simplesmente, a “Heroes” do David Bowie.

Quando está fora do carro e curtindo seu momento, a Sam adquire uma aura quase mágica para o Charlie. Nesta hora a câmera assume o ponto de vista dele olhando para a Sam, focalizando-a de baixo para cima para enfatizar a importância que ela está tomando na vida dele. E o trecho da música que acompanha a cena complementa este sentimento.

“…
I, I will be king
And you, you will be queen
Though nothing will drive them away
We can be Heroes, just for one day
…”

Logo após ele perceber que ela poderia ser sua “rainha”, esse sentimento o preenche de tal forma que ele se “sente infinito”. Ela tinha um passado, mas isso não importa para ele, ela passa a ser sua heroína. E a música vai além dizendo que apesar de nada poder afastar os seus problemas, eles também podem ser heróis por um dia. Um sentimento compartilhado na cumplicidade da troca de olhares entre o Charlie e o Patrick. Uma belíssima utilização de um pequeno trecho de uma música e com tanto significado para os personagens e para a história.

Mais ainda, a busca por descobrir que música era essa, vira algo que serve para uní-los ainda mais. E quando finalmente eles conseguem, após tudo o que eles passaram, a música passa a representar uma página virada em suas vidas e então os papéis se invertem. Se antes ela era a heroína, agora ele também é, e a passagem pelo túnel também representa isso, a superação dos problemas, a liberdade, se sentir infinito… (sentimento reforçado por um detalhe que é difícil de perceber, mas no final do túnel há uma placa indicando uma saída para a Avenida Liberdade).

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau
http://www.twitter.com/tuitedoMau

‘A Felicidade Não Se Compra’ ou como ser legal

O cineleitor mais cínico e rancoroso vai ficar surpreso, mas houve um tempo em que um filme poderia ter como protagonista um personagem de bom coração.

Em algum lugar da história do cinema, provavelmente durante os anos 60, os personagens cuja principal virtude fosse a boa vontade desapareceram dos filmes. Não sei bem qual a razão para isso, mas possivelmente a preocupação constante dos roteiristas em criar personagens profundos, de caráter multifacetado, não colabora mais para o sucesso de qualquer história de simples boa-fé. No entanto, creio que o grande culpado seja o espectador, que não se encanta mais com narrativas baseadas em gente boa.

Enfim, um espécime de outros tempos, George Bailey, protagonista de “A Felicidade não se compra” é isso tudo que ninguém quer ser. Um cara legal, bonzinho, generoso e altruísta.

“A Felicidade não se compra” (“It’s a wonderful life”, título original bem mais pertinente) é um clássico de Natal. Talvez seja O clássico de Natal. Embora aqui no Brasil a moda não tenha se espalhado, certamente por culpa do especial do Roberto Carlos, nos Estados Unidos, segundo conta Roger Ebert, é comum os canais exibirem o filme na época de Natal, muito em razão de o título permanecido em domínio público por algum tempo.

George Baley

Nos anos 50, o Tom Hanks tinha essa cara.

A história gira em torno do abnegado George Bailey, vivido por James Stewart, ator que representava o bom moço dos anos 40 e 50. Sujeito de espírito aventureiro, George tem sempre suas pretensões de lançar-se no mundo frustradas pela vida e pela sua boa vontade infinita. Na ânsia de ajudar o próximo, acaba preso a sua pequena cidade natal, onde se torna a única personalidade capaz de enfrentar o poderoso Potter, um inescrupuloso magnata local. O personagem vê toda a frustração de sua vida desembocar em um momento crucial, quando, na véspera de Natal, seu tio perde o dinheiro da empresa da família, o que levaria todos à falência. Pressionado, George chega à conclusão que vale mais morto do que vivo e, caso encerrasse sua existência no planeta Terra imediatamente, poderia salvar não só a empresa, como também sua preciosa família.

Essa trama, extremamente maniqueísta, toma ares de um romance de Charles Dickens. O próprio vilão, aliás, poderia ser uma versão do famoso Uncle Scrooge, o tio avarento assombrado pelos fantasmas de Natal em “A Christmas Carol”. Não deixa de ser um exercício curioso imaginar que, logo após expulsar George de seu escritório, o velhaco sovina tenha sido assombrado por algum dos espíritos do natal.

Dessa maneira, a mensagem do filme é bem clara. Seja bom e valorize sua família e seus amigos. São eles que fazem a vida valer à pena e estarão lá por você nos momentos difíceis. Parece inocente demais para o público atual. Mas, descontado todo o cinismo que nos envolve, continua um bom recado, dado de maneira emocionante.

George Baley desesperado

Essa é a cara de George Baley quando descobriu que o Nicolas Cage fez um filme plagiando sua história.

Assim, fica o convite para que o cineleitor aproveite a época de natal e assista ao filme, especialmente se for pela primeira vez. E caso, lá no final, pintar alguma lágrima discreta, não se importe. É o tal do espírito de Natal que te atingiu.