Jogo de cena

Texto escrito antes da categoria mudar para “O livro é melhor que o filme?”.

* * *

(Texto sem spoilers.)

Jogo de cena, direção de Eduardo Coutinho, 2007.

“O mundo é feito de histórias, não de átomos”, escreveu Muriel Rukeyser. Não foi o teatro que saltou aos meus olhos em Jogo de cena. Foram as histórias.

Um anúncio de jornal convidava mulheres para participar de um documentário. O principal requisito? Ter histórias para contar. Depois dos testes, alguns relatos selecionados foram entregues a atrizes, tanto famosas quanto desconhecidas. Diante da câmera, elas contaram essas histórias. Uma ideia aparentemente simples deu origem a um documentário incrível.

Quem é quem? Ora atriz contando a história da mulher comum, ora mulher comum contando a sua história, ora atriz falando de si mesma. O diretor responde sutilmente a essa dúvida, mas nem sempre percebemos como ele faz isso. Não importa, entramos no jogo. Queremos apenas ouvir o que aquelas mulheres querem nos contar.

Além das histórias, as atrizes. Elas também revelam alguns meandros do ofício. A dificuldade em parecer verossímil, a emoção verdadeira ou estimulada, o chorar em cena. Não só, a necessidade de entender essas personagens e falar por elas. Nesse momento, percebemos: elas não estão distantes das mulheres comuns. Os depoimentos acontecem no palco, de costas para a plateia. O tempo todo, vemos as cadeiras vazias. Somos todas atrizes. Somos todas mulheres contando as suas histórias.

Foi assim que me senti ao longo do filme: eu poderia estar diante do Eduardo Coutinho contando a minha vida.

No livro A louca da casa, Rosa Montero escreveu que “inventamos para nós as nossas lembranças”. Não contamos as nossas histórias como elas aconteceram, mas como as lembramos. A imaginação preenche as lacunas da nossa memória. Onde a realidade termina para que a ficção possa começar? Jamais teremos essa resposta. E, sinceramente, isso não faz a menor diferença..

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Filme 6 | Clube dos Cinco

Ficha Técnica:
Clube dos Cinco (The Breakfast Club)
Ano: 1985
Direção: John Hughes
Roteiro: John Hughes
Elenco: Emilio Estevez, Anthony Michael Hall, Judd Nelson, Molly Ringwald, Ally Sheedy e outros.

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Escolhido por: Mau.
Discussão com início em 12 de dezembro de 2011

Daniel:
Bom, acabo de rever Clube dos Cinco e começarei a discussão. Pra começar, já tinha gostado quando assisti pela primeira vez, mas ao rever gostei muito mais! Isso sim é um excelente filme adolescente no melhor estilo Curtindo a Vida Adoidado (por que será, né? rs).

Banzai:
O filme reflete bem as paranóias e complexos adolescentes, coisas pequenas que se tornam gigantescas. Incompreensão dos pais (quando na maioria das vezes, a incompreensão é dos filhos mesmo…), assuntos que correm pelos corredores e aterrorizam quando vem a tona, como quando Bender cita sobre o encontro de Claire com um suposto affair dentro de um carro a noite. Não há como não se lembrar dos fatos de nossa própria adolescência.

Daniel:
Concordo, isso é muito coisa de adolescente mesmo. A reputação, a aparência física, as fofocas, quem é o galinha, quem é o virgem, quem é a puritana e quem é a vadia. São os primórdios do bullying.
Quanto aos pais vs. filhos, colocando bem rápido minha opinião aqui sem desenvolver nada: no caso do filme, acho que os pais estão muuuito errados, e os cinco não têm culpa de nada hahaha

Cássia:
Para mim, uma das coisas mais bacanas dos filmes do John Hughes é mostrar que os “problemas adolescentes” não são tão pequeninos quanto a gente imagina… Ou esquece, porque fomos adolescentes também. Eles são sim grandes, atrapalham, angustiam e têm um peso incrível quando a gente cresce. No filme, todos eles realmente eram incompreendidos pelos pais, como vocês bem comentaram nas cenas do começo do filme. Ou são pressionados, ou são menosprezados, ou são deixados de lado. Eles tentam, muito!, perceber o lado dos pais, mas como se estes não estão nem aí? O que sempre dizem dos adolescentes, que eles não estão nem aí para os pais, na verdade, é um desejo imenso de ser amado, aceito e compreendido. Os cinco querem só isso: serem compreendidos pelos pais. Quando o Brian chora, sério, eu me abri de chorar! No começo, quando a Allison sai do carro, vai dar tchau para o pai ou a mãe e o carro vai embora, aquilo me deu até um aperto. Quando o Bender mostra o braço queimado, deu até angústia. E o Andrew desejando que o joelho dele estourasse para ninguém mais cobrá-lo em ser “o melhor!”. Nada disso é pequeno na vida de alguém.

FILME

Daniel:
A única cena no filme inteiro que eu não gostei foi quando, após fumar a maconha, Andrew saiu doidaço e quebrou o vidro com um grito (?!). Totalmente exagerada e desnecessária.

Banzai:
É, tem que ter um momento “vergonha alheia” do diretor/roteirista, fico imaginando como estava no roteiro: Andrew entra dançando e com um grito quebra o vidro…

Daniel:
O ponto alto pra mim é quando todos estão sentados no chão conversando, com destaque para Andrew, que explica o porquê de estar lá enquanto a câmera gira lentamente, como se estivesse nos mostrando um outro lado de sua personalidade.
É nessa sequência que a complexidade de Brian fica mais evidente, e também é quando Bender faz a melhor coisa no filme inteiro: critica o “talento” de Claire. Quando vi pela primeira vez, não pude acreditar que a estavam aplaudindo por algo tão fútil, e fiquei muito feliz ao descobrir que Bender foi cruel com ela pra ajudá-la a evoluir.

Carlos:
Creio que esse momento seja o segundo ponto de virada do roteiro. Ou plot point para homenagear o Pablo. É o trecho que abre o terceiro ato. No início do filme, os personagens além de não serem íntimos, fazem questão absoluta de não mostrarem qualquer simpatia ou empatia entre si. Durante o segundo ato inteiro há  momentos de conflito e aproximação entre os “detentos”. Até o momento em que eles se reúnem e começam a compartilhar suas próprias experiências, enxergando nos outros um pouco de si mesmos.
A jornada de cada um ali está em aceitar outro e, assim, aceitar a si mesmo.
E a câmera mostra essa inversão na postura de maneira literal. Ela gira de um lado a outro da “rodinha” montada pelos personagens. Pode ser viagem minha, mas essa metáfora visual vem bem ao caso, não?

Daniel:
Só fico chateado de não ter ficado tão evidente se todos eles continuarão a ser amigos ou não depois de todo o debate. Apesar de eu torcer pelo final feliz e muita coisa indicar que sim, não pude deixar de concordar em parte com o discurso pessimista de Claire, que parece ter poluído um pouco a amizade que vinha sendo construída.

Banzai:
Acha mesmo que continuaram amigos? Fiquei com a sensação de que a Claire foi mais realista do que pessimista…

Daniel:
Realmente, foi realista. Mas por ser realista, a considero pessimista hahaha. Sinceramente, a sensação de que eles continuariam amigos foi perdida depois da cena em questão, mas ao final temos a formação de 2 casais entre 5 pessoas. E o único que terminou “sozinho” foi um dos que disse que nunca faria o que a Claire faria, o que foi dito também pela Allison. Se Brian seria amigo de Allison e esta estivesse ficando com Andrew, já teríamos 3. Bender também não parece ser do tipo que ignoraria os novos amigos, e estando com a Claire, o grupo estaria completo =] (é muito otimismo meu?)

Banzai:
Faz mais sentido com sua explicação, mas o Bender parece ter um grupo de gente que nem ele que não aceitaria mto bem as novas amizades… Mas vc conseguiu me deixar na dúvida! droga… kkk

Cássia:
Também achei a Claire realista, mas também quis que todos ficassem amigos. Mas com tantos ali se preocupando com os outros “amigos” e a pressão do grupo, só tendo a parte 2 do filme para a gente saber a resposta. Mas como sou da turma otimista, já imaginei todos juntos na segunda-feira.

Carlos:
Estou no time dos otimistas quanto a isso. Para mim eles passaram a ser amigos, até porque passaram a ter empatia entre si. Pode ser um tipo diferente de amizade, mas não é menos amizade.

PERSONAGENS

Daniel:
Personagens complexos que discutem de forma profunda a respeito de amizade, família e adolescência, assuntos pertinentes a qualquer ser humano, e tudo apresentado de maneira tão despretensiosa.
A cena inicial, que mostra os cinco chegando à escola, já diz muito sobre cada um: a “patricinha” Claire, que acha que não merecia estar ali; Brian, já sendo pressionado pela mãe para aproveitar o tempo na escola e estudar (pressão? Imagina, o Brian não entende o que é pressão =P); Andrew, com seu pai já dando sermão sobre a carreira de atleta; Bender, chegando na escola a pé, sozinho, quase sendo atropelado e não dando a mínima, é claro; e Allison, totalmente ignorada pelos pais, como ela mesma fala mais pro final do filme.
E Allison passa por trás da escultura (ou sei lá o que é aquilo) ao chegar na biblioteca e se senta lá no fundo, passando grande parte do começo do filme excluída lá.
Bender é o mais fascinante de todos, o líder do grupo que ajuda os outros a evoluir. Ele é o troll dos anos 80, quando ainda não tinha internet. Sempre tem resposta pra tudo, e mesmo quando alguém parece acertar o motivo de tanta rebeldia, ele se esforça ao máximo pra não deixar transparecer. Sua vontade de contrariar é tão grande que, mesmo odiando ter “ganho” vários sábados na escola (o que ele demonstra soltando um “fuck” meio baixo), não deu o braço a torcer pro Vernon (o clone mais velho e acabado de Hugh Jackman).

Banzai:
Gosto do personagem, especialmente no momento em que ele é “finalizado” pelo Andrew e levanta rapidamente se fazendo de forte. Momento de maior trollagem… Crédito a fotografia desse momento. Que mostra ele se reerguendo gloriosamente frente ao golpe que recebeu…
Outro momento que Bender demonstra um pouco de humor é quando solta o parafuso da porta, todos estavam com medo, mas o desgraçado conseguiu fazer com que o medo virasse risada (inclusive nossas risadas, pois não há como não rir da cadeira voltando com tudo…)

Cássia:
Não o achei fascinante… talvez porque ele me incomodou demais. Achei que ele toma mais tempo do filme do que realmente deveria. Tampouco achei que ele ajuda os outros a evoluir: ele é um troll dos grandes, pura e simplesmente. Faz todo mundo se sentir mal, magoado, arrasado, porque é um cara quebrado por dentro com quem ninguém se importa. Para mim, a grande evolução do grupo acontece pela interação entre eles, por perceberem que não estão sozinhos. Não só, que os “renegados” só são renegados porque tem uma galera “que se acha” não é lá muita porcaria. Como o Brian bem disse na redação: todo mundo tem um pouquinho de cada, por mais que a gente queira dividir e achar que cada um segue um estereótipo.

Banzai:
O Bender pode não ser fascinante, mas que ele chama atenção ahhh ele chama… Kkkk

Cássia:
Ah, mas o Bender não é fascinante para mim. 😉 Talvez porque sempre odiei esses caras na escola, que querem ser “os caras” humilhando todo mundo. Aliás, até hoje, tenho pavor de gente assim, hehehe. Mas claro, ele chama a atenção mesmo e o ator segurou o papel muito bem!

Daniel:
Pra mim o Bender é o cara no filme. Na vida real, também sempre odiei e odeio até hoje os que se acham os fodões das escolas, mas pra esse filme com esses personagens especificamente, acho que funcionou perfeitamente. É só parar pra imaginar o que seria o sábado daqueles quatro caso Bender não estivesse lá. Ao invés de ser um dia que provavelmente mudou a vida deles, seria uma chatice pra todos. Ele desencadeou tudo.
O fato de ele criticar TUDO em todos faz com que os quatro parem pra pensar sobre ALGUNS dos casos em que o desgraçado realmente está certo em criticar!
E não consigo tirar da cabeça que ele na verdade é o que mais se apegou aos outros lá, só não consegui entender ainda o porquê desse meu pensamento hahahaha.
Sem contar que o filme não o coloca simplesmente como um troll que faz tudo sem motivos. A gente fica sabendo pelo menos um pouco da vida dura dele, diferente de muita gente na vida real que é bacaca por simplesmente ser mesmo.

Mau:
… concordo com o que vocês disseram a respeito do Bender. Também achei que ele é o protagonista principal do filme. Mas acho que fui por um caminho diferente. Filho de pais abusivos, ele cria esta persona rebelde como uma forma de encarar a sua realidade. Mas ao mesmo tempo, ele busca com isso chamar a atenção, pois no fundo, isso é fruto de uma carência afetiva que faz com que toda hora ele procure um relacionamento com os outros, por mais diferentes que pareçam no início, e mesmo que seja através do confronto direto.
É ele quem verbaliza constantemente os sentimentos dele e dos outros quando estes não tem a coragem para tal. Mesmo quando, num acesso de fúria, ele se isola dos outros, vemos que este isolamento não dura muito, pois logo ele já conseguiu reunir todos novamente para escaparem da biblioteca.
O fato dele criticar tudo em todos acaba sendo a maior força dele. Através do confronto ele acaba se transformando no catalisador da amizade que se forma entre os cinco. E conseguimos ver claramente isto ocorrendo ao longo do filme.
No início, todos se sentam isolados um do outro. Apenas o Andy se senta próximo da Claire, pois seus nichos sociais são mais próximos, mas mesmo assim não se cumprimentam. Todo o relacionamento vai sendo construído ao longo do filme, mas é só com o bom e velho rock’n roll que caem as últimas barreiras sociais entre eles, e a partir daí eles passam a se sentar mais próximos até que, já no final do filme, os vemos sentados lado a lado, com os ombros colados.

Daniel:
Acho que você conseguiu explicar o que eu senti mas não havia conseguido colocar em palavras. Foi mais ou menos por isso que eu fiquei com a impressão de que ele foi o que mais se “conectou” com os outros.

Cássia:
Eis a grande graça de participar de um clube: a gente muda de ideia, coisa que não aconteceria se assistisse ao filme e ficasse quietinho.
Tenho de aceitar, o Bender realmente manda no filme. Sem ele, nada aconteceria. Imaginei os outros quatro quietos, esperando o tempo passar, fazendo a tal redação e indo embora sem sequer olhar uns para os outros.
Ele é o cara que fala. Mesmo quando provoca, aquilo tem um motivo. Tem razão, ele é mesmo um carente, pedindo atenção. E acho que aquele pulo dele de alegria no final deixa isso mais claro, tipo “Tenho amigooooooooos”. Hehehe. Sem falar na Claire, claro.

Carlos:
Uma das coisas que mais me chamou atenção no filme foi exatamente esse posicionamento dos atores em cena, citado pelo o Maurício.
Pela limitação de cenário, o filme não é exatamente rico cinematograficamente. Parece mais uma peça de teatro filmada. Mas funciona assim mesmo, exatamente em razão desses “detalhes” que permitem a leitura do filme. Aliás, o tempo todo eu lembrava sobre “12 homens e uma sentença” cuja ação é confinada ao espaço da sala do júri. O Pablo o usou de exemplo no curso exatamente para destacar como o mise-en-scène dos atores era importante para a interpretação do filme.
Outro aspecto “teatral” que faz com que o filme funcione é a tipificação forte dos personagens. Quando eles entram em cena o espectador já tem uma imagem clara de quem é cada uma daquelas pessoas. Mesmo que seja um preconceito.

Mau:
… achei interessante que o nome do protagonista e do antagonista possuam duplo sentido. O “Criminoso” John Bender, onde “bender” pode ser alguém que dobra, e no caso constantemente, as regras. E o diretor Richard Vernon, cujo nome tem o diminutivo de Dick, que também é gíria para uma pessoa desprezível. Essa é, inclusive, a forma com que Bender se refere a ele com mais frequência ao longo do filme.
Tudo no filme (os carros, as roupas, a comida) é construído para refletir a personalidade (ou falta dela) e as diferenças dos cinco, já que muito do que eles são é devido à influência dos pais e dos grupos sociais em que estão inseridos. Desde pequenos detalhes como a placa do carro dos pais do “Cérebro” que tem a placa EMC2, até as roupas de ginástica do “Atleta” ou ao sushi do almoço da “Princesa” (Claire), passando pela leve expressão de incredulidade desta quando Bender diz não saber o nome dela, como se isso fosse de conhecimento geral da escola.

Daniel:
MOTHER OF GOD. Demais essa, nem tinha visto! Muito bacana terem incluído esse detalhe [da placa] no filme. Ah, e gostei muito da sua análise sobre os nomes também.

Cássia:
Maurício, muito bacana suas análises sobre os nomes. Isso jamais passaria pela minha cabeça! Também não notei a placa do carro, genial isso! Só tinha notado os figurinos e, no começo, as imagens mostrando um pouco da personalidade de cada um.

Carlos:
O mais interessante é que, apesar de serem completamente estereotipados, os personagens não chegam a ser caricaturas. Todos eles parecem sujeitos que você encontraria em qualquer escola (americana, vai). Até Bender é aquele típico valentão, com quem você não quer conversar muito.
Para não ficar perfeito, achei os adultos meio caricatos. Mesmo assim, há um pouco de humanidade no Diretor, como descobrimos quando ele conversa com o zelador.

Daniel:
Vernon, aliás, foge do vilão estereotipado. Apesar de claramente não saber lidar com os alunos, ele demonstra se importar de verdade com o futuro dos “rebeldes”. Nenhum personagem é superficial no filme. Até mesmo o faxineiro, que começa como alvo de humilhação deixa Bender sem resposta.
Acho muito interessante que, apesar de todas as diferenças que eles têm, todos pareçam se importar uns com os outros, o que fica claro quando ninguém entrega Bender pelo que ele fez com a porta ou quando um personagem demonstra interesse no drama de outro (destaque para quando Andrew insiste em saber da relação que Allison tem com os pais).

TRILHA SONORA

Daniel:
Gostei também da trilha sonora, principalmente nas cenas mais carregadas emocionalmente (geralmente protagonizadas por Bender), quando sons mais “fortes” são usados.

CONCLUSÃO

Carlos:
Não sei a vocês, mas o final do filme me incomodou muito. Passei o tempo todo pensando como a Allison era um exemplo  a ser seguido. Meio insegura, é verdade, mas com uma identidade absolutamente bem definida. Ao contrário dos outros personagens, ela não se definia por ser parte de um grupo particular, mas por ser alguém que tinha um personalidade peculiar e diferente do “bando”
Assim, no fim do filme, quando ela acabou se tornando uma patricinha, uma cópia da princesinha do baile, fiquei imensamente decepcionado. E quando, após a transformação, ela começou a namorar o atleta, eu me desanimei ainda mais.
Para fechar com chave de ouro, a princesinha ficou com o bandido. E o nerd ficou sozinho.
Assim, a mensagem do filme foi muito conformista. Se você for mulher, mantenha o sistema, siga a massa e tudo ficará certo. Se você for homem, seja valentão e fisicamente forte. Inteligência e individualidade devem ser ignoradas.
Pode parecer paranoia minha, mas essa espécie de mensagem é muito padrão e enfraqueceu o filme. Implodiu todo o trabalho anterior, onde se pregava a aceitação própria e o respeito às diferenças. Sei que não podemos julgar as obras pelas ideias que elas propagam, mas, no caso, a conclusão do filme foi contraditória com todo seu desenvolvimento.
Custava a maluquinha ter continuado maluquinha e namorado o nerd? Além do que, ela já era bonita daquele jeito mesmo.

Mau:
Não acho que o nerd ter ficado sozinho tenha sido uma mensagem de que a inteligência deve ser ignorada. No meu ponto de vista, ele era o mais novo dali, e sabemos que as garotas nessa fase da vida querem distância dos “pirralhos” : ) Por isso, vejo que foi uma escolha “normal” das meninas terem preterido o nerd em função dos outros.
Assim como também acho normal a Allison querer experimentar algo novo, afinal na adolescência ainda estamos nos descobrindo e definindo o que seremos no futuro, e essa é a época da experimentação. Talvez ela nunca houvesse tido contato com o mundo das “princesas”, ou talvez sempre quisesse ser desse jeito e fosse sempre excluída, e quando teve a oportunidade resolveu ver qual era.

DETALHES

Banzai:
A atriz que protagoniza a Claire deveria entrar no Guiness como “A menina que mais perdeu a virgindade em filmes” huahua pode ser um exagero meu, mas olhar pra ela me faz pensar nos dois filmes que isso acontece…

Daniel:
Não me joguem pedras, não conheço mesmo. A qual filme você se refere?

Banzai:
Sixteen Candles (Gatinhas e Gatões), recomendo…

Daniel:
Recomendação devidamente anotada 😉

Cássia:
Sobre a Molly Ringwald, a Claire, não sei se foi a recordista em “perda de virgindade” nos filmes, mas sem dúvida, foi a princesa dos filmes do Hughes. Até hoje, acho que penso em ficar ruiva por causa dela, hehehe.

Banzai:
Sempre gostei da Molly (Claire), esses dias, fui pesquisar sobre ela e li que se recusou a fazer papéis importantes, para título de curiosidade:

    Uma linda mulher
    Um amor inevitável

Conseguem imaginar ela no lugar da Julia Roberts?

Cássia:
Renato, além desses dois, parece que há mais filmes ótimos que ela se recusou a fazer. Agora, não adianta, será eternamente musa do John Hughes! E não dá mesmo para imaginá-la fazendo Uma linda mulher.

Cássia:
Não faz muito tempo, assisti à metade de um documentário sobre o John Hughes, “Don’t you forget about me“. Muuuuuito bom! Tentaram de tudo para falar com ele e não conseguiram. O filme foi finalizado pouco antes de sua morte. Sabe a cena em que o Bender cai do forro? Acharam que estava muito sem graça e o John Hughes pediu para ele contar uma piada idiota, porque ninguém ia saber o final mesmo… hehehe.

Banzai:
John Hughes conseguiu encapsular o mundo adolescente e colocar nos filmes que dirigiu…

Daniel:
Um último comentário que não pode faltar: assistam Community!!! hahaha
Como disse a Cássia, o filme é homenageado logo no piloto da série, e no 16º episódio da 1ª temporada, a ótima cena de dança em cima da mesa do Clube dos Cinco é recriada também, com a mesma música e tudo. Aliás, com certeza Clube dos Cinco não foi só homenageado na série, como muito provavelmente deve ter sido uma das inspirações da mesma. Claro, esses não são os únicos motivos, a série inteira é genial.

Cássia:
… como bem disse o Daniel, Community faz referência ao filme no piloto e no episódio 16, com a dança legal, mas é mesmo bem evidente que a inspiração-mor da série foi o filme. E isso só me fez amar ainda mais os dois!
Vocês falaram sobre a influência do Bender para as situações se desenrolarem e pensei no Jeff, em Community. O cara que tudo burla, que no começo não está nem aí, mas que depois se transforma naquele que une a turma.
Uma piada em comum que lembrei. Quando a Claire come o sushi e o Bender diz: “Você tem nojo de beijar na boca e come isso?”, lembra uma aula de antropologia, no começo da segunda temporada, quando dois personagens se beijam de língua (não falarei quem são para não tirar a graça do Renato) e a professora diz: “Que nojo!” e daí ela toma o próprio xixi, hehehe. Eu ri alto!

Mau:
Tá legal, definitivamente a Cássia é a expert em Community do Clube! 🙂
Adorei a associação com o Jeff! Realmente tem muito de Bender nele. Mas as motivações dele são bem diferentes, hehe.

Cássia:
Maurício, não sou a expert não. 😉 O Daniel sabe mil vezes mais, mas percebi essas analogias porque fiquei pensando no que vocês disseram sobre o Bender. Tinha de descobrir por que ele era o ponto-chave do filme, hehehe.

O tempo de Frances Ha

(Não contém spoilers)

Frances não sabe o que vai ser quando crescer.

Só tem um problema. Ela já cresceu.

Frances gosta de andar pela rua dançando, fazer piruetas na frente dos carros e correr pelas calçadas. Gosta de brincar de luta falsa e bater papo na cama de sua melhor amiga, até a madrugada, enquanto planejam juntas o futuro brilhante que lhes espera. Nada de fazer coisas de “gente grande”, coisas chatas.

Frances Ha. Um hobby? Dançar pela rua como se não houvesse amanhã

Frances Ha. Um hobby? Dançar pela rua como se não houvesse amanhã.

Mas o tempo, ah, sempre ele, não espera por Frances. Nem o tempo, nem o aluguel do apartamento e nem mesmo a melhor amiga, que vai se casar e mudar para um lugar mais bacana e uma vida mais careta.

A chegada da maturidade é um assunto comum no cinema. Aquele momento quando o jovem é obrigado a abandonar seus divertimentos pueris, largar o Hakuna Matata para receber uma carga enorme de responsabilidades, na qual se concentram várias espécies de angústias.  Filmes como Clube dos cinco, que dá nome a esse blog, e Conta comigo abordam essa questão de alguma maneira. Mas a lista pode incluir desde Os incompreendidos  (Les quatre cents coups), de Truffaut, até O rei leão.

Frances Ha é um desses filmes sobre amadurecimento ou, como gostam os americanos, the comming of age. Mas, se o tema é antigo, sua abordagem pelo filme é diferente.

Conforme o tempo passou, as angústias do amadurecimento também mudaram. Em Clube dos cinco, e tantos outros de sua safra, as questões sexuais estavam extremamente relacionadas à maturidade. O relacionamento amoroso, com as suas consequências sexuais, eram o grande muro contra o qual todos os jovens, mais cedo ou mais tarde, se chocariam. Definir-se nesse novo ramo era uma das etapas mais críticas do crescimento. Os filmes refletiam essa difícil situação constantemente. Até o Simba se casa no final do filme, não é verdade?

E esse leãozinho? Vocês acham que foi aquele macaco maluco que trouxe?

E esse leãozinho? Vocês acham que foi aquele macaco maluco que trouxe?

Mas os tempos mudaram e a postura da juventude com relação ao sexo também é, creio eu, muito diferente hoje. Não há mais muro. Há um meio-fio ou, quem sabe, uma mureta. Kids está aí para não me desmentir e Frances, por exemplo, não tem nenhum problema com esse assunto.

Por outro lado, outras angústias surgiram. Dizem que o mundo ficou mais complicado e se encontrar no meio dessa confusão é mais difícil. Mas dizem isso sempre. Deve ser porque o passado é fácil de entender, enquanto o presente é efêmero demais para ser explicado. E Frances, como qualquer personagem de filmes de amadurecimento, precisa descobrir como vai viver o resto de sua vida. Mas, por ora, ela precisa continuar sobrevivendo, o que já tem sido uma tarefa suficientemente complicada.

Por outro lado, outras angústias surgiram. Hoje, crescer demora muito mais. Quem nunca escutou do pai/tio/avô a frase “na sua idade eu já (preencha a lacuna com atividade de gente-grande)”? Provavelmente, o pai/tio/avô também ouviu isso do pai/tio/avô deles. E enquanto não crescem, as crianças adultas precisam sobreviver. Cada uma a sua maneira. Frances precisa encontrar a sua. Não tá fácil pra ninguém.

Há bem pouco tempo, o trabalho era sinônimo de sobrevivência e estabilidade. A pessoa se profissionalizava, entrava em uma instituição e já sabia o dia de sua aposentadoria. De preferência, no meio do caminho encontraria o amor romântico de toda sua vida e poderia viver feliz para sempre.

Sucesso era uma medida de quanto dinheiro você ganhava e quanto estável era sua vida.

Mas o tempo no tempo das crianças adultas, isso já não é suficiente. Sustento já existe na casa dos pais. Os Titãs já profetizavam “que a gente não quer só dinheiro, a gente quer dinheiro e felicidade”. Assim, trabalhar deixou de ser sinônimo de mero sustento, mas tornou-se significado também de realização. Não basta ir ao escritório para colocar comida na mesa. Aquelas horas enclausurado no mundo de ar-condicionado e conversas de cafezinho precisam de um sentido que ultrapasse o mero ganha-pão e preencha a própria existência.

Chaplin descobrindo o verdadeiro sentido do trabalho.

Chaplin descobrindo o verdadeiro sentido do trabalho.

No entanto, achar seu espaço nesse novo mundo, saturado de gente talentosa, não é fácil. E Frances descobre isso aos poucos. Crescemos (uso o plural por ser contemporâneo da protagonista) acreditando que somos especiais e que há um universo pronto para reconhecer nossos talentos. Mas não é bem assim. Nem todo mundo vai virar bailarina de dança contemporânea ou cronista d’O Globo. Além disso, o mundo continua precisando de gente para cuidar de sua burocracia. Até a escola de dança onde Frances estuda precisa de alguém para arrumar aquela-papelada-toda.

No caso de Frances, a situação é ainda mais difícil, pois sua felicidade está associada a gozar de liberdade. Ela gosta de dançar na rua e fazer piruetas, sem ligar para ninguém, lembram-se? Mas, não ligar para ninguém depende de não depender de ninguém. Liberdade assim só se alcança com independência financeira. Ela não é pobre e poderia optar por retornar ao suporte familiar quando as oportunidades não se abrissem. Mas, se muitos hoje se apoiam indefinidamente nos pais para alcançar seu lugar ao sol, criando uma nova geração-canguru, Frances não se permite submeter aos vínculos que decorrem dessa situação. Assim, o mundo encantado dos amigos de Frances, sustentados pelos pais ricos, não é receptivo a quem busca por conta própria fazer seu caminho.

A conciliação entre a busca pela realização pessoal e a liberdade é um processo complicado.  É um mundo “demais”. Rápido demais, novo demais, instável demais e, especialmente, com expectativas demais. Todos acreditam que nasceram para brilhar, mas no céu não tem espaço para tanta estrela. Virar matéria escura é difícil, Sandra Bullock que o diga. E a solução do dilema só pode ser encontrada de maneira individual.

Mas bem que Frances poderia dar umas dicas.

Entre Véronika e Véronique

Texto escrito antes da categoria mudar para “O livro é melhor que o filme?”.

* * *

(Este texto é uma breve análise do filme A dupla vida de Véronique. Por essa razão, há alguns spoilers, porque era importante que eles estivessem presentes.)

A dupla vida de Véronique (La double vie de Véronique), direção de Krzysztof Kieslowski, 1991.

Uma infinidade de detalhes, uma série de pontas a serem unidas, duas histórias e nenhuma conclusão. Quem disse que um filme precisa nos dar respostas prontas? Percorrer um caminho sem saber onde chegaremos é a melhor definição para A dupla vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski.

Duas meninas: uma na Polônia, outra na França. Véronika e Véronique. Ambas ouvindo detalhes que aguçam a curiosidade e o encantamento de uma criança. Elas não se conhecem, mas são iguais. Afinal, quem são elas?

Salto no tempo, letreiros de abertura, as vemos como jovens adultas. Kieslowski antecipa a história e vemos o começo da cena do único encontro que acontecerá entre as duas. Elas conversam uma com a outra? Elas se entreolham? Elas se reconhecem? Eis um ponto crucial da história, que será revisto mais para frente e só então ele fará sentido.

Nos primeiros trinta minutos, entendemos a personalidade de Véronika: aquela que continua cantando quando a chuva começa a cair enquanto todos saem correndo, aquela que transa com um rapaz por simples desejo do momento, aquela que canta espontaneamente em um canto da sala enquanto um coral ensaia. Para Véronika, a vida é larga, extensa, ampla. Ela se encanta pelas coisas, ela encanta por ser quem é, ela brilha entre as outras pessoas mesmo sem querer.

Depois, a personalidade de Véronique. Ela também canta, mas para quando Véronika morre. Parece que a partir desse momento, a sua vida toca em um outro compasso. Ela é professora de música, mas dá aulas sem paixão. Transa com um rapaz, mas parece não estar envolvida com ele ou com a situação. Temos a impressão de que a luz que existe em Véronika não existe em Véronique.

A despeito dessas diferenças, há várias semelhanças entre elas. Uma ergue a cabeça para sentir a chuva, a outra ergue a cabeça para sentir o sol. Ambas têm relacionamentos bem próximos com os pais, de afeto, de cumplicidade, de compartilhar sentimentos e acontecimentos da própria vida. Elas passam um anel de ouro no olho quando estão com um terçol. As duas têm uma bolinha de plástico repleta de estrelas.

Nesse momento, pensei nas duas como uma pessoa só. Não uma pessoa com duas facetas de personalidade, mas uma única pessoa e dois caminhos distintos, dois rumos diferentes. Como se pensássemos: “E se eu tivesse nascido em outro lugar?” “E se tivesse estudado outra coisa?” “E se eu trabalhasse em outra atividade?” “E se eu tivesse me apaixonado por outra pessoa?” São possibilidades. É como eu as vejo, duas possibilidades. Véronika é o caminho daquilo que realmente somos. Véronique é o caminho daquilo que nos tornamos, porque deixamos o mundo matar aquilo que somos. E essa mudança é representada justamente pela morte de Véronika.

Isso fica evidente em dois momentos. Véronika diz não se sentir sozinha no mundo. Depois de sua morte, Véronique diz que se sente sozinha. A partir de então, ela teria um único caminho na vida. Quando isso acontece, e não é bem o que queremos, existe solidão maior? Talvez Véronique estivesse reconhecendo a sua própria sentença, de não viver como gostaria.

Quem já assistiu à trilogia das cores − A liberdade é azul, A igualdade é branca, A fraternidade é vermelha − reconheceu a velhinha que aparece duas vezes neste filme. A primeira, para Véronika; a segunda, para Véronique. Ela “liga” as histórias, tanto lá quanto aqui. É o ponto comum, a intersecção para nos mostrar que essas histórias coexistem.

Por fim, o moço das marionetes. Eu o vejo como a metáfora da vida. Queremos tanto ter o domínio dos acontecimentos, mas não o temos. Muitas vezes, a vida caminha à nossa revelia. Controlamos certas coisas, mas outras simplesmente acontecem. Quando ele mostra as marionetes à Véronique e conta a história das duas, isso fica evidente. Além disso, ele mostra como a nossa vida se transforma. A bailarina de pernas quebradas virou uma borboleta. Em algum momento, tudo irá mudar. Ou, quem sabe, vamos nos libertar.

Kieslowski não nos responde quem são Véronika e Véronique. E, quando terminamos de assistir ao filme, tampouco conseguimos responder qual delas somos nós.

Cena de A dupla vida de Véronique. Fonte: Cinemasquid.

Cinema on the Rocks | Cães de Aluguel

Ficha Técnica:

Cães de Aluguel (Reservoir Dogs)
Ano: 1992
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro: Quentin Tarantino e Roger Avary
Elenco: Harvey Keitel, Michael Madsen, Tim Roth, Steve Buscemi, Chris Penn, Quentin Tarantino e outros.

“Cães de Aluguel” é o filme de estreia do Quentin Tarantino e conta a história de um grupo de assaltantes contratados por dois criminosos de Los Angeles, Joe Cabot (Lawrence Tierney) e seu filho Eddie Cabot (Chris Penn), para um assalto a uma joalheria. Todos os integrantes não se conhecem e ganham nomes pitorescos (como Mr. Blue, Mr. Orange e etc.) para não poderem se identificar caso sejam apanhados pela polícia. Após terem seu assalto totalmente frustrado, Mr. Blonde, Mr. White e os demais criminosos começam a desconfiar que um deles é um informante da polícia.

Atenção, SPOILERS deste ponto em diante.

Dentre todos os personagens, três são os principais da trama: Mr. Orange (Tim Roth), Mr. Blonde (Michael Madsen) e Mr. White (Harvey Keitel). Isso se deve a dois artifícios utilizados pelo Tarantino para destacar a importância deles. Primeiro, estes são os únicos personagens de quem o Tarantino fornece informações a respeito de seu passado ao longo do filme. Através do uso de flashbacks, somos informados que tanto o Mr. Blonde quanto o Mr. Pink são amigos de longa data de Joe Cabot e seu filho Eddie, e que o Mr. Orange é um policial infiltrado para prendê-los. O segundo artifício utilizado pelo Tarantino é mais subjetivo, e está relacionado ao uso da trilha sonora.

O Tarantino ficou conhecido, entre outras coisas, por criar filmes com trilhas sonoras cheias de músicas “antigas”, clássicas e outras menos conhecidas. Dessa forma, chega a surpreender que “Cães de Aluguel” seja marcado pela quase total ausência de trilha sonora, fazendo uso basicamente do som ambiente em suas cenas. Estimo que apenas 20% do filme possua trechos acompanhados por músicas, e (excluindo o início do filme no qual são exibidos os créditos iniciais) as únicas passagens do filme com trilha sonora estão relacionadas ao Mr. Orange e ao Mr. Blonde. No filme, o Mr. Orange é, de certa maneira, o responsável direto ou indireto das mortes de quase todos no grupo, além de ser quem acaba matando o Mr. Blonde. Já este é o responsável pelo tiroteio no assalto à joalheria, que resultaria no próprio Mr. Orange sendo baleado. E é justamente este artifício que acaba culminando na cena mais emblemática do filme.

Nesta cena (que vocês podem acompanhar abaixo), que é conduzida de forma magistral pelo Tarantino, o Mr. Blonde resolve torturar um policial, que ele havia acabado de capturar, para se vingar da emboscada realizada pela polícia. Apesar de aparecer por pouco tempo no filme, o personagem do policial tem grande importância e é diretamente relacionado aos dois personagens.

Nesta cena o Tarantino tem a preocupação de colocar o Mr. Blonde, em quase todos os planos, à direita do nosso campo de visão e quase sempre no ponto de fuga da tela, que é o ponto mais forte da composição. Dessa forma, ele chama constantemente a nossa atenção para a importância de seu personagem. Além disso, o Tarantino revela uma atenção especial a pequenos detalhes e com uma ótima pitada de humor negro. Reparem na hora em que o Mr. Blonde vai cortar a orelha do policial, a câmera, que representa nosso ponto de vista, afasta os “olhos” do acontecimento para simular a aversão que apresentaríamos se estivéssemos naquele lugar. Neste momento, ela focaliza uma passagem na qual aparece escrito na parte superior: “Atenção, Cuidado com a cabeça”. Ótimo não?

Mas o que nos interessa é a trilha sonora, certo? E aí o Tarantino nos dá mais uma amostra de como toda a cena foi bem estruturada e construída. Aqui a trilha sonora faz parte do universo diegético, ou seja, é parte do universo em que os personagens vivem. A cena se inicia quando o Mr. Blonde liga o rádio para ouvir seu programa favorito, o “K-Billy Super Sound of the 70’s”, no qual está tocando a ótima “Stuck in the middle with you” do Stealers Wheel. Reparem como a letra da música complementa a cena e reflete o momento dramático vivido pelo policial.

“…

Yes I’m stuck in the middle with you,
And I’m wondering what it is I should do,
It’s so hard to keep this smile from my face,
Losing control, yeah, I’m all over the place,
Clowns to the left of me, Jokers to the right,
Here I am, stuck in the middle with you.

Trying to make some sense of it all,
But I can see that it makes no sense at all,
Is it cool to go to sleep on the floor,
‘Cause I don’t think that I can take anymore
Clowns to the left of me, Jokers to the right,
Here I am, stuck in the middle with you

…”

Perdido entre estes personagens, sem controle da situação e sem condições de aguentar mais a tortura, seria bom escapar de tudo “indo dormir no chão”, o que, infelizmente, acabou ocorrendo para ele. Assim, o Tarantino consegue construir o filme de forma que a inserção de poucas músicas ao longo do filme serve para ressaltar, ainda mais, a importância desta cena cujas consequências irão resultar no clímax do filme.

P.S. a importância desta cena está refletida no final deste vídeo através de uma “homenagem”! : )

Até a próxima, e lembrem-se de deixar nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau

http://www.twitter.com/tuitedoMau

Cinema on the Rocks

Olá a todos! Irei inaugurar uma coluna aqui no Cineclube dos Cinco na qual pretendo misturar duas paixões: filmes e rock ‘n‘ roll!

Aqui irei discutir filmes nos quais o diretor utilizou (seja bem ou mal) o rock em sua trilha incidental. Pode ser que seja uma coluna com prazo de validade curto, uma vez que talvez não existam tantos filmes que possam ser utilizados como exemplos, mas vamos embarcar juntos nessa e ver aonde chegamos.

E para começar, estrearei com o filme “Cães de Aluguel” do Quentin Tarantino. Lançado em 1992, esse foi o filme de estreia deste diretor, que lançou vários sucessos depois deste, como “Pulp Fiction”, “Kill Bill”, “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”.

O que acham? Deixem nos comentários sugestões de filmes que vocês consideram que o diretor fez uma boa utilização do rock como parte de seu filme (ou não!) para que possamos analisá-lo.

Mau

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Crítica | Gravidade

Gravidade (Gravity) | 2013

Direção: Alfonso Cuarón

Roteiro: Alfonso Cuarón, Jonás Cuarón

Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris

Entre todos os grandes feitos da humanidade, é seguro dizer que colocar pessoas e estruturas na órbita da Terra seja um deles. Isso porque o espaço, apesar de fascinante, é extremamente hostil, mesmo a apenas algumas centenas de quilômetros acima da superfície terrestre, e o letreiro com informações básicas que abre o filme deixa claro até para o mais leigo dos espectadores: se aventurar no espaço é perigoso.

Ryan Stone (Sandra Bullock) faz parte da tripulação de uma missão que tem como objetivo aprimorar o telescópio espacial Hubble, procedimento que exige que os astronautas façam caminhadas espaciais, ou seja, fiquem do lado de fora da nave, flutuando no espaço sem nada abaixo deles exceto a própria Terra. Durante a missão, eles são informados de que os restos de um satélite que havia sido abatido pelos russos se chocaram com outros satélites e criaram uma reação em cadeia que coloca milhares de destroços em alta velocidade em rota de colisão com o Hubble, destruindo o telescópio e a nave e deixando os astronautas à deriva.

A sequência inicial de Gravidade é espetacular, e sua eficácia do ponto de vista cinematográfico é resultado do que deve ter sido um desafio técnico gigantesco. Num único plano que dura mais de dez minutos sem sofrer cortes, Cuarón nos coloca na órbita da Terra enquanto observamos o ônibus espacial Explorer se aproximar com o Hubble acoplado, e quando o espectador se dá conta, já está sendo levado pela câmera, passeando pelo espaço e entre os astronautas como se fosse mais um tripulante da missão.

Aliás, o filme todo parece determinado a jogar o espectador para dentro da tela. Além do ótimo uso de planos longos (que provavelmente fariam Michael Bay bocejar), Cuarón também faz bom uso de câmeras subjetivas que captam o ponto de vista dos personagens, em sequências que parecem saídas de um jogo de tiro em primeira pessoa. A decisão de acompanharmos apenas os astronautas e o que acontece na órbita terrestre também é acertada (em vez de alternar entre a missão e o controle na Terra, como é tão comum em filmes que se passam no espaço), pois só sabemos o que os astronautas sabem e nos aproximamos deles. Até mesmo os movimentos de câmera, suaves e fluidos, contribuem para a sensação de gravidade zero e para a imersão do espectador. Além, claro, do 3D, que adiciona profundidade e escolhe os momentos certos para atirar coisas no espectador, sem exageros.

Mas de nada adiantaria ter tantos méritos técnicos sem um roteiro e atuações que os sustentassem. A história da missão que dá errado e se transforma em tentativa de sobrevivência já foi vista antes (alô, Apollo 13!), mas além de todas as particularidades já citadas, temos dois personagens centrais fascinantes. George Clooney cria um Matt Kowalski claramente apaixonado pelo que faz e deslumbrado pelas belezas do universo. Sujeito otimista, calmo e bom de conversa, não parece se deixar abalar facilmente, e até mesmo a sugestão de um improvável acontecimento envolvendo o personagem no final do filme surge verossímil graças à sua personalidade. Mas o destaque fica mesmo para Sandra Bullock, que cria uma personagem triste e sem rumo, tentando superar um acontecimento insuperável de seu passado, numa atuação contida e sensível. Presa no espaço e correndo contra o tempo, até mesmo sua maneira de respirar ajuda a aumentar a sensação de claustrofobia. Assim, um dos melhores momentos do filme fica por conta da cena simbólica e tocante na qual Ryan, ao se permitir um raro momento de liberdade e extravasamento, apenas flutua, girando lentamente e se curvando até atingir a posição fetal. Outro mérito de Bullock é conseguir que o espectador torça pela personagem, o que é fundamental para que o filme funcione. Já Ed Harris praticamente reprisa seu papel em Apollo 13 como o controle da missão na Terra, e suas conversas descontraídas com Matt prestam um bom serviço à imagem dos pobres profissionais da área ao mostrar que nem tudo é tão sério e sem-graça como as pessoas costumam imaginar.

“Sandra, acho que tá me dando vontade de ir ao banheiro.”

O roteiro acerta também na forma como retrata a Física, aspecto em que muitas ficções falham miseravelmente. De maneira geral, tudo o que acontece é perfeitamente plausível, e particularmente não é todo dia que vejo um filme corajoso e seguro de si o suficiente para não adicionar efeitos sonoros em colisões e destruições no espaço, preferindo o realismo ao exagero. O próprio som diegético (o som originado dentro do universo do filme) só é audível – e de forma abafada – quando originado de um objeto em contato com o corpo dos astronautas, resultado da propagação das vibrações através do corpo e do ar dentro da roupa, o que dá ao espectador a sensação de estar escutando tudo através de seu próprio corpo e de seu próprio traje de astronauta. Já os sons que se originam em objetos afastados dos personagens não são audíveis, uma escolha que acaba tornando as colisões e destruições ainda mais assustadoras, auxiliadas por uma trilha instrumental que foge do óbvio e cria momentos de muita tensão.

Gravidade ainda acha espaço para celebrar a diversidade. Seja através dos planos-detalhe de uma imagem de Jesus na Estação Espacial Internacional e de uma imagem de Buda na estação chinesa, seja através das diferentes nacionalidades dos astronautas e das várias bandeiras penduradas na EEI (que é uma estação real, diga-se), inclusive a do Brasil. Oras, a própria estação, como seu nome já diz, é resultado de um esforço conjunto de vários países e um símbolo da união entre povos que a ciência proporciona em busca de conhecimento.

Alfonso Cuarón, que tem em sua filmografia Filhos da esperança, Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban e E sua mãe também, se tornou um de meus diretores favoritos depois deste Gravidade, fazendo-me sentir o mais próximo possível de um astronauta, sonho que tenho desde que me entendo por gente, ao mesmo tempo em que estimula a reflexão sobre a vida, a morte, o universo e que papel tem nisso tudo o nosso pálido ponto azul.

(5 estrelas em 5)

Pipoca com ideologia

Toda obra de arte humana carrega em si uma manifestação ideológica. Mas, como esse é um blog sobre cinema, vou limitar minha afirmação a um campo mais restrito.

Todo filme traz uma ideologia.

Além de ser uma música bacana do Cazuza, ideologia é uma palavra normalmente associada a algo bem complicado e mentiroso. Vez ou outra dá até para ouvir como acusação. “Ora, fulano é só ideologia”. Na melhor das hipóteses, ideologia é coisa para quem pensa muito e queima a cabeça com teorias sobre o mundo, o tempo e cosmos.

Já o “cinema é a maior diversão”. Para a maioria, o oposto do que se pode pensar de uma aborrecida reflexão ideológica. Há quem diga que vai ao cinema para espairecer, desligar a cabeça, ver umas bobagens e não ter que pensar.  Entra na fila da próxima sessão, compra a pipoca e assiste ao filme com “o cérebro desligado”. Nada mais simples do que isso.

“Quem nunca?”, já diria o meme.

Acho que senti o cheiro de pipoca com manteiga

Acho que senti o cheiro de pipoca com manteiga

O problema é que, como disse acima, todo filme traz uma ideologia. Muitas vezes, nem é de propósito.  É inescapável que uma obra de arte criada por pessoas carregue em si valores intrinsecamente vinculados ao tempo e à sociedade na qual o trabalho se gestou. Até o maior blockbuster do momento é um panfleto ideológico tão claro quanto a propaganda de um partido político. Mesmo aquele para assistir com “o cérebro desligado”.

Pior, principalmente esse do cérebro desligado.

Sergei Eisenstein, este sabia tudo de montagem e ideologia.

Sergei Eisenstein, este sabia tudo de montagem e ideologia.

Porque, meu caro cineleitor, por mais que se insista, goste você ou não, seu cérebro nunca desliga. Você pode até comer a pipoca, mas enquanto isso, sua cabeça está mastigando um monte de ideias, salpicadas com explosões 3D.

Quer um exemplo? O último blockbuster do momento, Pacific Rim. Bem recebido pela crítica, algo surpreendente para um filme cujo argumento principal é a luta de robôs gigantes contra monstros alienígenas, o filme é um sucesso estético. Bonito e, por que não admitir, emocionante?

Mas não é só. Ele também tem uma mensagem clara. Se algum problema é complicado demais, deixe-o na mão dos militares.

Para quem não assistiu, resume-se facilmente a história. Lagartos alienígenas gigantes invadem a Terra por uma fenda no oceano e destroem tudo que veem pela frente. Unida, a raça humana conseguiu os melhores esforços para criar robôs gigantes, capazes de fazer frente aos monstros (Êêêêêê!). Tudo comandado por uma espécie de organização militar planetária. Até que os governos civis acham aquela presepada toda muito dispendiosa e decidem extinguir o programa de robôs gigantes (Aaaaah!). Em alternativa, constroem uma muralha para proteger a região costeira dos eventuais ataques. Óbvio que o plano-muralha não dá certo, porque lagarto que é lagarto sabe escalar parede, quem já viu lagartixa sabe disso (Ôôôôôô!).

Quem pode salvar a humanidade dos monstros psicopatas assassinos gigantes? Claro, o bom soldado, ex-combatente, esquecido pela sociedade como um operário nas fundações da muralha. Só tem um problema. Ele é um tanto traumatizado, por ter perdido seu irmão gêmeo em uma batalha anterior (Iiiiih…).

Não é preciso ir muito adiante para deduzir a história toda e as outras vogais que acompanhariam o texto. O recado, todavia, já está dado com menos de 15 minutos de filme. Os políticos civis não sabem lidar com os problemas sérios e fazem bobagem onde colocam a mão.

O que nos leva a outro filme, que poderia ser encarado, no seu tempo, como mais um filme pipoca. Dr. Strangelove, de Stanley Kubrick. Uma comédia (existe gênero mais “cérebro desligado”?), que fez piada, em plena guerra-fria, da destrutiva e paranoica corrida atômica. Nele, um general louco decide, por conta própria, iniciar a guerra nuclear. Seu mote. “A guerra é um assunto sério demais para ser deixado nas mãos dos civis”. Em Dr. Fantástico, ao contrário do que ocorre em Pacific Rim, onde os militares colocam a mão, as coisas dão errado. A situação chega ao absurdo de as forças armadas americanas serem obrigadas a atacarem a si mesmas, dentro do próprio território.

De baixo, até parece o Bush.

De baixo, até parece o Bush.

Por outro lado, basta um telefonema do presidente americano a sua contraparte russa, bêbada, para se contornar a crise. Os políticos civis se entendem e resolvem a questão, mesmo falando línguas distintas. Mesmo bêbados.

Assim, como em Pacific Rim, também há uma mensagem muito evidente em Dr. Strangelove.  Os militares sabem lutar e farão guerra, embora sua existência tenha por objetivo a própria manutenção da paz.

Ou seja, a paz é um assunto importante demais para ser deixado nas mãos dos militares.

Ideologicamente, Pacific Rim Dr. Strangelove são antíteses.

Por menos que possa parecer, os dois filmes transmitiram valores ideológicos, ainda que, para tanto, a plateia não tenha sido forçada a nenhuma brilhante conclusão. Feliz, saindo do cinema ainda com a casca de pipoca agarrada entre os dentes, com aquela sensação de ter assistido a um bom filme e a cabeça descansada, a mente do espectador está em rebuliço, cheia de ideias semeadas.

Tomar noção dessa colonização ideológica é importante para a apreciação de qualquer filme. O exercício que faço, a cada vez que saio da sala de cinema, é me perguntar “o que esse filme contou para mim?” Nem sempre a resposta vem fácil e muitas vezes ela é dúbia. É um exercício que exige atenção ao filme e disposição para encarar suas próprias convicções. Muitas vezes, a ideologia propagada em um filme está tão impregnada em nós mesmos que não somos capazes de ver a panfletagem correndo solta. Ideologia é igual a sotaque, você dificilmente percebe o próprio, mas sempre critica o alheio. Entretanto, ela está lá e, se você não viu, é porque a semente não só foi plantada, como já deu frutos.